terça-feira, 6 de agosto de 2013

A LUNDA NORTE


OS TRABALHADORES SÃO TRATADOS COMO CÃES
Por vezes, sem que se saiba porquê, nasce em cada um daqueles que viveram Angola, aprenderam a amá-la e a guardar dela aquilo que apenas a língua portuguesa consegue explicar aquele sentimento profundo a que se chama SAUDADE.
Alguns 'patrícios' não devem ter da sua terra uma imagem do que é a luta pela dignidade, pelo trabalho, pela amizade com aqueles que lhe estão próximos, pois encontraram um País com pés para andar, mesmo tendo sobrevivido a uma guerra de independência, pois foi a guerra civil que ditou a calamidade que atingiu Angola. E não se coíbem de falar daquilo que não sabem, acusando os colonizadores de tudo quanto de mau encontraram, porque o Partido assim o determinou e é bom ter alguém para dizer mal, pensarão esses iluminados.
Porque não resisto a chamar as coisas pelo seu nome, aproveito para aproveitar um escrito publicado no jornal PÚBLICO de hoje, referente àquela zona que tantas invejas criou um pouco por todo o mundo: A LUNDA NORTE.
 
 " Como uma ilha sem mar em redor, o Dundo, capital da Lunda Norte, é, de tão isolado, um lugar esquecido no mapa. O que liga a cidade ao resto da província e do país é frágil. E, nas aldeias, as únicas ligações ao mundo deste lugar, de onde chegam frequentes relatos de violência contra as populações, são os camiões que passam e a Rádio Nacional de Angola que é possível sintonizar.
Na maior parte da Lunda Norte, mais de cem mil quilómetros quadrados, não há electricidade e muito menos ligações telefónicas. As escolas e os centros de saúde ruíram com o tempo ou a guerra, que durou décadas e terminou em 2002. A vegetação e as árvores invadem, por entre buracos e janelas, fachadas suspensas sobre pedras e ruínas de casas sem água, luz e condições sanitárias mínimas.
Com a falta de meios, nem sempre é possível reconstruir, como aconteceu com muitas casas no Dundo. Os professores, uma das poucas profissões à margem da quase exclusiva actividade de extracção e comércio de diamantes, eram, pelo menos até há poucos anos, pagos pelo Estado, mas viviam em casas sem condições e só desejavam partir. Se precisam de tratamento médico, os habitantes da província deslocam-se, quando podem, a essa única cidade onde existe um hospital, também ele em parte destruído. Ou não procuram sequer assistência.
A Lunda Norte, no Nordeste de Angola, é um “fim de mundo”, onde se desafiam os limites do que é lei ou natureza. Parou no tempo. O que é regra lá fora é aqui excepção.
Só quem lá vive sabe. Só quem, com dificuldades, lá entra, pode imaginar o imenso fosso que separa a Lunda Norte do resto de Angola, e mesmo da Lunda Sul, onde também há extracção de diamantes, mas a vida se tornou diferente.
“O primeiro impacto foi de susto pelo que encontrei: ouvia falar de uma terra de muita riqueza e dinheiro, encontrei uma província muito pobre, esburacada, sem água, sem energia, com uma pobreza antropológica gritante, com problemas tribais graves, muitas seitas, cruzamento de interesses, invasão estrangeira por causa do garimpo dos diamantes”, descrevia, em Outubro de 2010, numa entrevista ao jornal espiritano Acção Missionária, o então bispo do Dundo, José Manuel Imbamba, com quem o PÚBLICO  agora não conseguiu falar.
Perto mas longe da Lunda Sul , o contraste entre as duas Lundas acentuou-se na última década pela maior atenção dada pelo poder
central ao Sul e pelo desempenho da Catoca, uma exploração a céu aberto apresentada como o quarto maior kimberlito — rocha que contém diamantes — do mundo.
Até 1978, a Lunda era uma única província. Nesse ano, Agostinho Neto, primeiro Presidente de Angola, separou as zonas diamantíferas, o Norte, do resto da província. Só depois, já nos anos 1990, a Catoca, que hoje se assume como modelo a seguir pelas políticas de responsabilidade social, ganhou importância.
Colada à Lunda Sul, a Lunda Norte é um mundo à parte. Quem a visita, precisa de um visto especial. O viajante é quase invariavelmente interrogado sobre os motivos da deslocação, antes de partir de Luanda. “Ninguém entra nas Lundas sem restrições, tem de ter um documento a dizer porquê”, conta Shawn Blore, investigador sobre conflitos relacionados com diamantes, que visitou várias vezes a região, ao serviço de organizações não-governamentais internacionais.
De Luanda pode viajar-se para as Lundas por estrada, via Malanje, onde já é fácil chegar, mas a partir de onde o caminho se torna difícil, sinuoso, sujeito a sucessivos controlos policiais. As badaladas obras em 2012, a tempo das eleições gerais, alteraram em pouco o movimento no aeroporto do Dundo, que ainda só tem condições para receber pequenos voos."
(continua na próxima oportunidade)

1 comentário:

papaleguas disse...

Boa tarde...

Caros amigos, entrou-me esta ideia na cabeça de escrever um livro, um romance, sobre a vida de um jovem casal em Angola no início dos anos 70. Com forte influência da vida real, dedicado à minha irmã e ao meu cunhado, então furriel piloto da FAP no Negage. É na experiência deles que me inspiro, mas apenas como base para o que pretendo escrever.

Gostava de saber se me podem ajudar a encontrar pessoal que tenha servido na FAP no Ultramar, especialmente em Angola. Se têm sugestões, locais onde possa encontrar contacto, se posso usar o vosso projecto para publicar este apelo... para camaradas que tenham disponibilidade, quer remotamente quer à mesa com uma bebida, para responder a umas perguntas, conversar um bocado, enfim, partilhar para este fim de memórias e experiências.

Obrigado pela atenção,

Ricardo Ribeiro