sexta-feira, 30 de agosto de 2013

ANGOLA... hoje em dia

Com a devida vénia, publico um escrito que não desdenharia escrever, mas que a Solange, o Rafael Marques e todas as pessoas honestas de Angola não se esqueceram de o fazer, porque é dever patriótico continuar a lutar por uma coisa chamada VERDADE, sabendo embora que ficam sujeitos a perder outra coisa bastante distinta, que se chama LIBERDADE.
O Engenheiro Eduardo dos Santos, cujo estudo e trabalho na antiga União Soviética lhe devem ter  permitido juntar um bom pecúlio, tão grande que deu para tornar a filhinha querida na mulher mais rica de África e uma das mais ricas do mundo.
Lógico que se isso é com a parte que lhe competia nos bens do papá, este deve estar podre de rico, a fazer fé naquilo que se sabe dos gastos fabulosos que ele e aqueles que o rodeiam fazem um pouco por todo o mundo.
Mas... deixemos falar a Solange: 

"Somos o povo especial escolhido do Sr. Engenheiro.
  E como povo especial escolhido por ele, não temos água nem luz na cidade.
 Temos o asfalto cada dia mais esburacado.
 Os que, de entre nós, vivem na periferia, não têm nada. Nem sequer asfalto. Só a miséria, o lixo, os mosquitos, as águas paradas e inquinadas. Hospitais?!!! Nem pensar.
 O povo especial do Sr. Engenheiro não precisa. Não adoece. Morre apenas, mesmo sem saber porquê.
E quando se inaugura um hospital bonito e ficamos com a esperança de que as coisas vão mudar minimamente, descobre-se logo que as máquinas são chinesas, com manuais chineses sem tradução e que ninguém sabe operá-las... Estas são opções especiais para um povo especial.
Educação?!! O povo especial não precisa disso. Cospe-se na rua (e agora com os chineses, temos que ter cuidado para não caminharmos sobre escombros escarrados de fresco...), vandalizam-se costumes, ignoram-se tradições.
Escolas para quê e para ensinar o quê?!!
 
 Que o Sr. Engenheiro é um herói,  porque fugiu ali algures da marginal acompanhado de outros tantos magníficos?!!!
 Que a Deolinda Rodrigues morreu num dia fictício que ninguém sabe qual, mas nada os impediu de transformar um dia qualquer num feriado nacional?!!!!
 O embuste da história recente de Angola é tão completo e manipulado que até mesmo eles parecem acreditar nas muitas mentiras que inventaram...
Se incomodarmos o Sr. Engenheiro de qualquer forma, sai a guarda pretoriana dele... e nós ficamos quietos a vê-los barrar as ruas anarquicamente, sem nos deixar alternativas para chegarmos a casa ou aos empregos. O povo especial nem precisa ir trabalhar quando resolvem fechar as ruas.
Se sairmos para almoçar e eles bloqueiam as ruas sem qualquer explicação, só temos uma hipótese: como o povo especial não precisa de comer, dá-se meia volta de barriga vazia e volta-se para o emprego.
E isto quando não ficamos horas parados à espera que o Sr. Engenheiro e sua comitiva recolham aos seus lares e nos deixem, finalmente circular.
Entramos em casa às escuras e saímos às escuras. Tomamos banho de caneca. Sim, bem à moda do velho e antigo regime do MPLA-PT do século passado.
Luanda, que ainda resiste a tantos maus-tratos e insiste em conservar os vestígios da sua antiga beleza, agora é violentada pelos chineses. Sodomizada. Sistematicamente. Dia e noite.
 Está exaurida; de rastos, de cócaras diante dos novos "amigos" do Sr. Engenheiro. Eles dão-se, inclusive, ao luxo de erguerem dois a três restaurantes chineses numa mesma rua.
A ilha do Cabo tem mais restaurantes chineses que qualquer outra rua de qualquer outra cidade ocidental ou africana: CINCO!!!! A China Town está instalada em Luanda.
As inscrições que colocam nos tapumes das obras em construção, admirem-se, estão escritas na língua deles. Eles são os novos senhores. Os amigos do Sr. Engenheiro.
A par do Sr.Falcone... a este foi-lhe oferecido um cargo e passaporte diplomático. Aos outros, que andam aos bandos, é-lhes oferecida a carne fresca das nossas meninas. Impunemente. Alegremente. Com o olhar benevolente dos canalhas de fato e gravata.
Lá fora, no mundo civilizado sem povos especiais, caçam os pedófilos. Aqui, criam e estimulam pedófilos. Acham graça.
Qualidade de vida é coisa que o povo especial nem sabe o que é. Nem quantidade de vida, uma vez que morremos cedo, assim que fazemos 40 anos.
Se vivermos mais um pouco, ficamos a dever anos à cova, pois não nos é permitida essa rebeldia. E quem dura mais tempo, é castigado: ou tem parentes que cuidem ou vai para a rua pedir esmola!
Importam-se carros. E mais carros. De luxo. Esta é a imagem de marca deles: carros de luxo em estradas descartáveis, esburacadas. Ah... e telemóveis!!!!
Qualquer 'Prado' ou 'Hummer' tem que levar ao volante um elemento com telemóvel. Lá fora, no mundo civilizado sem povos especiais, é proibido o uso do telemóvel enquanto se conduz. Aqui é sinal de status, de vaidade balofa!!!!!!!!!!
  Pobre povo especial. Sem transportes, sem escolas, sem hospitais. À mercê dos candongueiros, dos "dirigentes" e dos remédios que não existem. Sem perspectivas de futuro. Os nossos "amanhãs" já amanhecem a gemer: de fome, de miséria, de subnutrição, de ignorância, de analfabetismo, de corrupção, de incompetência, de doenças antes erradicadas, de ira contida, de revolta recalcada.
  O grito está latente. Deixem-no sair: BASTA!!!!!!
- Solange"
                                                                    +++*+++
 "Fiz um acordo de coexistência pacífica com o tempo: nem ele me persegue, nem eu fujo dele, um dia a gente se encontra"

terça-feira, 6 de agosto de 2013

A LUNDA NORTE


OS TRABALHADORES SÃO TRATADOS COMO CÃES
Por vezes, sem que se saiba porquê, nasce em cada um daqueles que viveram Angola, aprenderam a amá-la e a guardar dela aquilo que apenas a língua portuguesa consegue explicar aquele sentimento profundo a que se chama SAUDADE.
Alguns 'patrícios' não devem ter da sua terra uma imagem do que é a luta pela dignidade, pelo trabalho, pela amizade com aqueles que lhe estão próximos, pois encontraram um País com pés para andar, mesmo tendo sobrevivido a uma guerra de independência, pois foi a guerra civil que ditou a calamidade que atingiu Angola. E não se coíbem de falar daquilo que não sabem, acusando os colonizadores de tudo quanto de mau encontraram, porque o Partido assim o determinou e é bom ter alguém para dizer mal, pensarão esses iluminados.
Porque não resisto a chamar as coisas pelo seu nome, aproveito para aproveitar um escrito publicado no jornal PÚBLICO de hoje, referente àquela zona que tantas invejas criou um pouco por todo o mundo: A LUNDA NORTE.
 
 " Como uma ilha sem mar em redor, o Dundo, capital da Lunda Norte, é, de tão isolado, um lugar esquecido no mapa. O que liga a cidade ao resto da província e do país é frágil. E, nas aldeias, as únicas ligações ao mundo deste lugar, de onde chegam frequentes relatos de violência contra as populações, são os camiões que passam e a Rádio Nacional de Angola que é possível sintonizar.
Na maior parte da Lunda Norte, mais de cem mil quilómetros quadrados, não há electricidade e muito menos ligações telefónicas. As escolas e os centros de saúde ruíram com o tempo ou a guerra, que durou décadas e terminou em 2002. A vegetação e as árvores invadem, por entre buracos e janelas, fachadas suspensas sobre pedras e ruínas de casas sem água, luz e condições sanitárias mínimas.
Com a falta de meios, nem sempre é possível reconstruir, como aconteceu com muitas casas no Dundo. Os professores, uma das poucas profissões à margem da quase exclusiva actividade de extracção e comércio de diamantes, eram, pelo menos até há poucos anos, pagos pelo Estado, mas viviam em casas sem condições e só desejavam partir. Se precisam de tratamento médico, os habitantes da província deslocam-se, quando podem, a essa única cidade onde existe um hospital, também ele em parte destruído. Ou não procuram sequer assistência.
A Lunda Norte, no Nordeste de Angola, é um “fim de mundo”, onde se desafiam os limites do que é lei ou natureza. Parou no tempo. O que é regra lá fora é aqui excepção.
Só quem lá vive sabe. Só quem, com dificuldades, lá entra, pode imaginar o imenso fosso que separa a Lunda Norte do resto de Angola, e mesmo da Lunda Sul, onde também há extracção de diamantes, mas a vida se tornou diferente.
“O primeiro impacto foi de susto pelo que encontrei: ouvia falar de uma terra de muita riqueza e dinheiro, encontrei uma província muito pobre, esburacada, sem água, sem energia, com uma pobreza antropológica gritante, com problemas tribais graves, muitas seitas, cruzamento de interesses, invasão estrangeira por causa do garimpo dos diamantes”, descrevia, em Outubro de 2010, numa entrevista ao jornal espiritano Acção Missionária, o então bispo do Dundo, José Manuel Imbamba, com quem o PÚBLICO  agora não conseguiu falar.
Perto mas longe da Lunda Sul , o contraste entre as duas Lundas acentuou-se na última década pela maior atenção dada pelo poder
central ao Sul e pelo desempenho da Catoca, uma exploração a céu aberto apresentada como o quarto maior kimberlito — rocha que contém diamantes — do mundo.
Até 1978, a Lunda era uma única província. Nesse ano, Agostinho Neto, primeiro Presidente de Angola, separou as zonas diamantíferas, o Norte, do resto da província. Só depois, já nos anos 1990, a Catoca, que hoje se assume como modelo a seguir pelas políticas de responsabilidade social, ganhou importância.
Colada à Lunda Sul, a Lunda Norte é um mundo à parte. Quem a visita, precisa de um visto especial. O viajante é quase invariavelmente interrogado sobre os motivos da deslocação, antes de partir de Luanda. “Ninguém entra nas Lundas sem restrições, tem de ter um documento a dizer porquê”, conta Shawn Blore, investigador sobre conflitos relacionados com diamantes, que visitou várias vezes a região, ao serviço de organizações não-governamentais internacionais.
De Luanda pode viajar-se para as Lundas por estrada, via Malanje, onde já é fácil chegar, mas a partir de onde o caminho se torna difícil, sinuoso, sujeito a sucessivos controlos policiais. As badaladas obras em 2012, a tempo das eleições gerais, alteraram em pouco o movimento no aeroporto do Dundo, que ainda só tem condições para receber pequenos voos."
(continua na próxima oportunidade)