segunda-feira, 21 de maio de 2012

O DESCANSO DO GUERREIRO




No dia 4 de Abril de 2002, a assinatura do Memorando de Entendimento de Luena entre o governo angolano controlado pelo Movimento Popular para a Libertação de Angola (MPLA) e a União Nacional para a Indepêndencia Total de Angola (UNITA) pôs cobro a mais de 25 anos de guerra civil.
Facilitada pela morte “em combate”, a 22 de Fevreiro do mesmo ano, de Jonas Savimbi, o fundador e antigo líder da UNITA, a paz em Angola foi obtida através das armas, e não como resultado de negociações entre os beligerantes. Assim, a paz foi a expressão última duma lógica de afrontamento binário estabelecida desde a independência em 1975, e reforçada durante os anos 1990 após o fracasso dos processos de Bicesse (1991-1992 e Lusaka (1994). A chegada da paz a Angola também sancionou a vitória do MPLA, no poder desde 1975, e do Presidente José Eduardo dos Santos, no posto desde a morte, em 1979, do primeiro Presidente de Angola, o Dr. Agostinho Neto.
Assim, a história recente de Angola não se pode dissociar da experiência da guerra, pois a guerra civil seguiu-se a 14 anos de guerra de independência (1961-1974). As eleições legislativas, adiadas várias vezes, deveriam marcar a “normalização democrática” do país, pois este entrou na paz com uma pesada herança de violência e conflictos,
Pode-se considerar que a guerra foi uma experiência pessoal, de certo modo individual. Do alistamento de jovens nos diferentes movimentos de luta pela independência, nos anos 1960, e do seu 'LÓGICO' recrutamento forçado pelo exército português... até às campanhas de mobilização dos anos 1990,  a guerra formou percursos individuais e constituiu um itinerário de subjectivação para mais de uma geração de Angolanos.
E também do Povo de Portugal, então chamado Continental, pois os melhores dos seus filhos caíram por algo em que acreditaram.
Porque poucas pesquisas  têm sido feitas sobre este aspecto da história de Angola, tratar-se-ia agora, num primeiro passo, de prestar atenção às condições de recrutamento dos combatententes para um dos dois exércitos em guerra, de reflectir sobre a ecnomia moral (e de guerrra) do MPLA e da UNITA, e de interrogar a possível constituíção daquilo que Christian Geffrey chamou de “corpo social guerreiro” no seu trabalho sobre a RENAMO em Moçambique – olhando por exemplo a vida na Jamba, a “capital” da UNITA nos anos 1980, no canto sul-este do país.