quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

MORREU UM AMIGO DO NEGAGE

AUGUSTO CÂNDIDO PINTO COELHO SOARES DE MOURA, ou simplesmente Comandante Soares de Moura, como a maioria dos amigos o tratava, Coronel Piloto Aviador na situação de Reforma, da "sua" Força Aérea, que serviu de forma brilhante, faleceu no passado dia 11 de Fevereiro. Natural de Lagoas, no concelho de Lousada, onde residia na sua Casa da Lama, era uma pessoa humilde, plural e moderno, um senhor elegante, na verdadeira acepção da palavra, que descendia da antiga aristocracia portuguesa.
Homem de muitos saberes, de palavra fácil, frontal e recto, foi escritor, poeta, investigador histórico, agricultor, mas foi como Piloto Aviador que se viu guindado a um estatuto a roçar a heroicidade, quando comandou o Aeródromo Base nº. 3, no Negage. Foi o primeiro a assumir tal cargo, numa Angola que aprendeu a amar logo que foi destacado para em Malange participar na chamada "Guerra do Algodão", que havia eclodido em finais de Janeiro, princípio de Fevereiro... um mês antes do início do terrorismo.
Era uma daquelas pessoas que admitia serem as hierarquias privilegiadas, pois não ganhavam a mesma coisa e tinham uma alimentação diferente: - Os Soldados andavam vestidos de uma maneira, os Sargentos e Oficiais de outra, uma vez que até o tecido das fardas era diferente, tal como acontecia com a alimentação, pois as praças comiam o chamado "rancho", os sargentos já comiam na chamada "Messe de Sargentos", assim como os oficiais comiam igualmente na sua Messe de Oficiais.

Soares de Moura foi para Angola como Major e regressou como Coronel. A guerra havia estourado a 5 Km de Carmona, pelo que logo se pegaram os aviões para "in loco" verificarem o que se estava a passar... vendo uma enorme fila de carros que pretendiam abastecer-se numa bomba de gasolina, dado as pessoas tentarem fugir dali, onde já havia muitos mortos e os inúmeros feridos começarem a afluir ao aeródromo ainda em construção. Segundo palavras de Soares de Moura, "...são imagens que nunca esqueceremos!". O episódio que mais o terá marcado teria lugar dois dias após o início do genocídio perpetrado pelos terrioristas. "As pessoas andavam todas a fugir, especialmente as mulheres, e havia uns aviões que vinham de Luanda lá à Base. Bom, mas os aviões aterravam e levavam aí umas 40 a 50 pessoas para Luanda, mas elas chegavam às centenas e então a única solução era a fila. As filas chegavam, às vezes, a estar formadas uma, duas três ou 4 horas, até que o avião chegasse a Luanda, descarregasse e voltasse, enquanto as pessoas ali ficavam horas às espera... ou então que houvesse outro meio de apoio.
Tivemos pena e começamos a fazer sopas ou um bocado de leite para os bébés que as mães traziam ao colo e que a Cruz Vermelha também procurava ajudar. Eu, por essa altura não estava a voar e andava por ali a distribuír pão e sopa, que as pessoas agarravam logo, mas houve uma senhora, vestida de preto, não sei porquê, mas notei que estava de preto e era relativamente idosa, que não aceitou o que lhe dava. "A senhora não quer nada? Olhe que é capaz de estar aqui muito tempo..." e ela chorava, chorava e não abria a boca, nunca abriu a boca para dizer nada.
Os pretos haviam-na agarrado... e ela esteve nas mãos dos pretos toda a noite, sendo libertada apenas pela manhã... pronto... coitada da senhora... disse que estava...pronto, foi isto! Nós somos homens e tal, mas os homens também têm coração. E estas coisas são muito bonitas de se contar e ouvir, mas estar lá... Ela tinha olheiras até cá abaixo, chorava, chorava, chorava, não queria comer, não queria nada!"
Recusou frequentar o curso de Oficial General, optando pela passagem à Reserva e posterioriormente à Reforma, não sem que antes tenha prestado serviço nos Serviços Sociais das Forças Armadas, o que fez durante 14 anos.
Era detentor da Cruz de Guerra de 1ª. Classe, duas Medalhas de Prata de Serviços Distintos, com palma, Mérito Militar de 3ª. Classe, Comemorativa das Forças Armadas no Norte de Angola e da Espedições das Forças Armadas de Moçambique. Era ainda detentor da Medalha de Prata de Mérito Municipal de Lousada.
O funeral realizou-se no passado Sábado, dia 12 de Fevereiro, para o Cemitério de Lodares - Lousada.

2 comentários:

CARLOS disse...

TENHO UMA LÁGRIMA NO CANTO DO OLHO

EU ESTIVE NO AB-3 (NEGAGE) COM O SENHOR CORONEL SOARES DE MOURA.
E QUANDO ELE A SUA ESPOSA SE SENTAVAM COM O VÁRIOS MILITARES NO CAFÉ DO NEGAGE?
SÓ TENHO MAIS UMA PALAVRA, QUE DEUS O RECOMPENSE
CARLOS BRANDÃO

AFRICA EM POESIA disse...

Meu Amigo


Obrigada por esta grande e bonita Homenagem a um Homem que a merece
Que Deus lhe dê o que merece.

um beijo patra ti