domingo, 16 de janeiro de 2011

50 ANOS DA OPERAÇÃO DULCINEIA


O Santa Maria recebido em Alcânta - Lisboa,
devidamente engalanado
No próximo dia 22 de Janeiro completam-se 50 anos sobre o assalto ao navio "Santa Maria", perpetrado por um grupo de opositores aos regimes de Franco e Salazar, chefiados pelo Capitão Henrique Galvão, que embarcara clandestinamente em Curaçau, juntamente com outros três elementos da DRIL - Direcção Revolucionária Ibérica de Libertação. Em La Guaira já haviam embarcado outros 20 elementos da DRIL.
Henrique Galvão vivia exilado na Venezuela desde 1959, planeando efectuar ataques à colónia espanhola de Fernando Pó e daí atacar Luanda, iniciando o derrube dos governos de Lisboa e Madrid precisamente a partir de Angola. Para o efeito resolveu tomar de assalto o paquete "Santa Maria" por ser um dos melhores da frota portuguesa e ter uma capacidade superior em relação aos navios espanhóis de então.
Era precisamente 1 hora e 45 minutos da madrugada de 22 de Janeiro de 1961 quando os 24 homens de Galvão tomaram conta da ponte de comando e cabine de comunicações TSF, dominando os oficiais do navio. O Terceiro Piloto, João José Nascimento Costa, ofereceu resistência aos assaltantes, sendo morto a tiro.
Pouco depois, o paquete alterou a rota para leste, procurando alcançar o Atlântico. Chegou à ilha de Santa Lucia e desembarcou, numa das lanchas a motor, 2 feridos graves e 5 tripulantes, pondo assim em causa a hipótese de atingir a costa africana sem ser detectado, como seria desejo de Galvão, mas o facto de haver cruzado com um cargueiro dinamarquês confirmou terem-se gorado as hipóteses de passar despercebido, pois ao traír a posição logo um avião americano o localizou no mar.
A 2 de Fevereiro acabou por fundear no porto brasileiro de Recife, onde desembarcou passageiros e tripulantes, pensando Galvão que deveria afundar o navio, o que não veio a acontecer, porque os assaltantes renderam-se às autoridades brasileiras, que lhes concederam asilo político.
Capitão Henrique Galvão
Talvez não por acaso, coincidiu com o desvio do "Santa Maria" a eclosão dos ataques do 04 de Fevereiro em Luanda, a que se seguiram os trágicos acontecimentos de 15 de Março, que puzeram o Norte de Angola a ferro e fogo e obrigaram o Governo de Lisboa a decidir-se por enfrentar a situação com o envio, a partir de Abril, "rápidamente e em força", de forças militares e armamento capazes de suster a bestialidade dos massacres terroristas então verificados. Esta guerra, que se iria estender a outras Províncias Ultramarinas, foi o prenúncio do fim do Império Português de África... e não só.
O curioso é que Henrique Galvão era um indefectível do Estado Novo, sendo considerado um dos "Oficiais novos pessoalmente devotados", no dizer da Administração Central, a pontos de constar amiúde nas listas da União Nacional para as Legislativas. Tanto era que acabou por ser nomeado Inspector Superior da Administração Colonial... mantendo este cargo até se tornar dissidente. O auge da sua carreira ao serviço do Estado atinge-o em 1940, quando se vê encarregado da organização da Secção Colonial da Exposição do Mundo Português, do Cortejo do Mundo Português e das Comemorações da Fundação da Nacionalidade.
Tinha estabelecido uma relação de alguma confiança com Salazar, tornando-se mesmo um dos seus militares favoritos, pelo que era incumbido de algumas missões importantes pelo império.
Em meados dos anos 40 começa a sua auréola a perder o brilho, mercê das posições e afirmações políticas que foi assumindo.
Era um homem de acção e defensor acérrimo das suas convicções, tal como o seu "associado" na oposição Humberto Delgado, que teve também um percurso de "amigo do Governo de Salazar"... até este lhe negar os favores que lhe tinha pedido.
50 anos depois, continua a ser pertinente o dizer camoneano "PORQUE TRAIDORES ENTRE OS PORTUGUESES SEMPRE OS HOUVERA!".