quinta-feira, 4 de novembro de 2010

UM HOMEM GRANDE...GRANDE HOMEM

Sei que estou em dívida para com aqueles que me lêem, dado haver prometido ir publicando as histórias de pessoas que foram grandes em qualquer dimensão, física oude carácter, isto no tocante a alguém que dispensará apresentações, pois estou a referir-me a João Ferreira, pessoa de quem um veremos reconhecido todo o papel que lhe coube no desenvolvimento de Angola, especialmente do Uíge e de uma forma ainda mais especial... o Negage que tanto amava.
Em tempos falei nas histórias que se contavam, umas verídicas outras nem tanto, porque João Ferreira grangeou uma fama tal que se tornou objecto dessas histórias em que foi feito principal personagem, algumas vezes como um homem de bem, mas outras nem tanto.
Um dia, conversando com um dos filhos, este enalteceu a figura do pai e descreveu-o como alguém que se ama ou se odeia, dando azo a muitas histórias capazes de o elevar mas também a outras em que é rebaixado. Isto é, de acordo com o grau de amizade de quem conta, João Ferreira seria Deus ou o Demónio.
A dada momento contou que, certo dia, o encarregado geral chamou a atenção do patrão para o facto de estar o parque de camiões a necessitar de renovação, pois muitos deles já não aguentariam as viagens regulares que tinham de fazer... e o maior motivo de apreensão residia no facto de estarem à porta os mercados do café e a frota estar bastante degradada.
O João Ferreira tomou então a decisão de ir a Luanda fazer uma consulta sobre os preços de veículos pesados à venda na capital. Se bem o pensou melhor o fez.
Em Luanda foi aos concessionários da Scânia e da Volvo, procurando encontrar aquilo que lhe interessaria em termos de viatura ideal para ter ao seu serviço. O vendedor, quando vê um fulano tão mal vestido, ficou em pulgas e desejou vê-lo pelas costas, mas lá foi respondendo às perguntas do João Ferreira, nomeadamente nos aspectos respeitantes a preço, assistência, fiabilidade, capacidade... enfim: aquelas tão sacramentais perguntas feitas por alguém que deseja apenas não ter de comer gato por lebre.
Porque eram as perguntas feitas por alguém que parecia conhecer bem aquele mercado, o vendedor deu um pouco mais de atenção ao possível cliente, que não conhecia de todo. Assim, quando lhe falou no preço, informou que haveria uma atenção no tocante ao mesmo e que o desconto se situaria nos 10% sobre o preço indicado.
João Ferreira disse-lhe que estava interessado em 6 camiões... levando o vendedor a abrir a boca de espanto, pois o homem até poderia ser um bom cliente, afinal, mas mantinha um pé atrás, com a desconfiança gerada pelo modo como o "cliente" estava vestido. Mesmo assim, lá informou que o desconto para 6 viaturas seria de 30%.
O vendedor não acreditava que o João Ferreira ia comprar fosse o que fosse e quando o "cliente" saíu, dizendo que ia buscar dinheiro, por certo lhe terá passado pela cabeça ter sido aquela conversa uma perda de tempo. Nunca mais iria vêr aquele tipo com ar de pedinte, apesar de ele pedir para preparar os camiões e a documentação.
O João Ferreira foi ao Banco e aí logo um funcionário zeloso tratou de correr com ele, pois o Banco não dava esmola a pedintes, blá...blá...blá.
Bem tentou o nosso homem chamar a atenção para o facto de se chamar João Ferreira e ser do Negage, mas o zeloso funcionário nem o ouvia. É então que um dos sub-gerentes, ouvindo o nome "João Ferreira", veio em socorro do bom nome do Banco, desfazendo-se em mil e uma desculpas pelo modo como havia sido recebido. João Ferreira estava magoado e disse-lhe que aquele procedimento seria motivo mais que suficiente para o funcionário ser demitido, pois não se trata ninguém pela aparência e o funcionário tinha por obrigação o atender convenientemente fosse quem fosse.
Sanado que foi o conflito, João Ferreira levantou o dinheiro e dirigiu-se ao stand para pagar os camiões, o que deixou o vendedor de boca aberta e bastante envergonhado, pois jamais acreditara que aquela figura, ostentando um ar de vagabundo, pudesse ser o melhor cliente que alguma vez tivera o previlégio de encontrar... e este, ainda por cima, pagava seis camiões ... a pronto!
Isto que o Carlos Ferreira me contou sobre o pai foi apenas um desabafo sobre o modo como o progenitor se apresentava perante os outros, pois sempre tinha sido um homem que não ligava às aparências, antes media os homens pela competência e capacidade de trabalho.
Era assim o João Ferreira: Grande de corpo e enorme de alma, mas não isento de reticências naquilo que à tolerância respeitava. Se alguém se excedia, via então um João Ferreira intolerante e muitas vezes "azedo"... mas sem ser violento.

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