domingo, 28 de novembro de 2010

UM DOCUMENTO...

Se há no mundo coisas que valem bem a pena fazer, o prazer da boa leitura é uma delas, porque nos vai cultivando o espírito e nos dá uma perspectiva das coisas mais consentânea com a realidade... especialmente se o autor fôr credível e nos fizer participantes da história que escreveu.
Tiago Rebelo apresenta um livro que é, antes do mais, um documento descritivo daquilo que foi a exemplar descolonização levada a cabo pelo Movimento das Forças Armadas em Angola, mais precisamente em Luanda.
O ÚLTIMO ANO EM LUANDA narra os derradeiros momentos em que fomos Império, fomos Pátria em pedaços repartida, fomos um império expraiando-se pelas sete partidas do globo, porque tivemos Navegadores que deram novos mundos ao mundo.
O capítulo 46 começa assim:
..." Naquele final do mês de Junho de 1975, realizou-se em Nakuru, no Quénia, uma cimeira de emergência patrocinada pelo presidente Jomo Kenyatta. O objectivo era debater a degradação total da situação em Angola e, ao contrário do que diziam específicamente as regras do Acordo de Alvor, a parte portuguesa não foi convocada. Em contrapartida, os três movimentos de libertação fizeram-se representar e, num rasgo de sinceridade que lhes era pouco habitual, concordaram que lhes pertencia a responsabilidade de o país estar a ser arrastado para a destruição . Com efeito, os três movimentos de libertação assumiram que andavam envolvidos numa guerra fratricida e a matar o seu próprio povo, apanhado sem piedade pelo fogo cruzado que trucidava civis a eito um pouco por todo o país. Os movimentos admitiram com uma desfaçatez desconcertante que tinham armado a população civil e apelado ao que havia de pior nas pessoas para as induzir à violência tribal, ao caos sem lei e às vinganças pessoais e mesquinhas que provocavam muitas mortes por motivos fúteis, por ódios racistas e por questões políticas."...
Dá para perceber alguma coisa do caos que aconteceu em Luanda após o "triunfo" do 25 de Abril em Lisboa. Os Movimentos chamados "de Libertação", que estavam na contingência de abandonar definitivamente a luta armada, receberam uma dose elevada de moral... FORNECIDA POR AQUELES QUE DEPUSERAM O GOVERNO E LEVARAM PORTUGAL PARA UMA PSEUDO DEMOCRACIA, pois apenas se importou em cumprir o desiderato da concessão das independências dos antigos territórios Ultramarinos, não importando tampouco se estavam ou não a ir contra os ventos da história, se os territórios tinham ou não estruturas capazes para seguirem o seu caminho separados da antiga Pátria Mãe.
Foi assim que aconteceram descompensações em Cabo Verde, em Timor, em São Tomé... para não falar em Moçambique e... ANGOLA!
Até Macau, que não havia sido ocupado por direitos de descobrimento ou de conquista, antes se tratando de um reconhecimento do Imperador da China, pelos serviços prestados por Portugal, se viu devolvido aos chineses... que nunca o haviam solicitado, ao contrário daquilo que fizeram com Hon-Kong.
Aconselho vivamente uma leitura deste livro, para ficarem a conhecer muito do que foi a acção dos "nobres descolonizadores portugueses"!

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

INDEPENDÊNCIA DE ANGOLA

Amanhã é dia de São Martinho... e cumulativamente é comemorado o Dia da Independência de Angola, ao mesmo tempo que algumas pessoas, recordando o que foi a alvorada desse dia 11 de Novembro e toda a história de anos passados para que o Povo Angolano almejasse sentir-se de corpo e alma um cidadão realmente livre, sem guerras, sem fome, com liberdade, igualdade e fraternidade, como ouviam contar ter acontecido na Revolução Francesa.
Dizia-se, nos tempos coloniais, que Portugal se impunha pelas
"Touradas e Procissões,
Fátima, Fados e Bola,,,
são estas as diversões,
de um Povo a pedir esmola!"
... e julgo que os Angolanos bem entenderam esta quadra, porque as suas Autoridades parecem ter recuperado a máxima do "PÃO E CIRCO", dos Imperadores de Roma, para comemorar esta data, e toca a chamar ao seu coliseu,,, não os cristãos para lançar aos leões, mas as Águias de Lisboa para alienar esse mesmo Povo, que corre atrás dos seus heróis da bola para esquecer como é difícil viver-se numa sociedade onde o significado da palavra "direitos do homem", "liberdade" e "igualdade" têm sido letra morta.
Homenageia-se o Pedro Mantorras, figura grande do futebol Angolano e do Benfica de alguns anos atrás, ao mesmo tempo que se paga um "cachet" avultado à equipa de Lisboa, talvez porque esta sabe como nenhuma outra tirar partido dos momentos fortes vividos em Angola com esta data comemorativa. A coroa de flores no monumento ao Dr. Agostinho Neto é um momento de grande marketing por parte do Benfica, pois contabilizou apoios imediatos para estar presente no próximo evento desportivo em que dispute a Taça Independência... desde que o MPLA continue a ser o Partido do Governo, o que bem poderá acontecer nos próximos 100 anos, a fazer fé na Constituição que Dos Santos conseguiu fosse votada no País.
Já agora... o Benfica até venceu o troféu Independência e ganhou mais uns milhões à pala do petróleo de Cabinda e dos diamantes da Lunda. Digam agora que o Luis Filipe Vieira não sabe como tirar as chupetas aos bébés angolanos! Aquele bigode sabe muito! Ele vendia pneus, mas não andava a encher pneus!

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

UM HOMEM GRANDE...GRANDE HOMEM

Sei que estou em dívida para com aqueles que me lêem, dado haver prometido ir publicando as histórias de pessoas que foram grandes em qualquer dimensão, física oude carácter, isto no tocante a alguém que dispensará apresentações, pois estou a referir-me a João Ferreira, pessoa de quem um veremos reconhecido todo o papel que lhe coube no desenvolvimento de Angola, especialmente do Uíge e de uma forma ainda mais especial... o Negage que tanto amava.
Em tempos falei nas histórias que se contavam, umas verídicas outras nem tanto, porque João Ferreira grangeou uma fama tal que se tornou objecto dessas histórias em que foi feito principal personagem, algumas vezes como um homem de bem, mas outras nem tanto.
Um dia, conversando com um dos filhos, este enalteceu a figura do pai e descreveu-o como alguém que se ama ou se odeia, dando azo a muitas histórias capazes de o elevar mas também a outras em que é rebaixado. Isto é, de acordo com o grau de amizade de quem conta, João Ferreira seria Deus ou o Demónio.
A dada momento contou que, certo dia, o encarregado geral chamou a atenção do patrão para o facto de estar o parque de camiões a necessitar de renovação, pois muitos deles já não aguentariam as viagens regulares que tinham de fazer... e o maior motivo de apreensão residia no facto de estarem à porta os mercados do café e a frota estar bastante degradada.
O João Ferreira tomou então a decisão de ir a Luanda fazer uma consulta sobre os preços de veículos pesados à venda na capital. Se bem o pensou melhor o fez.
Em Luanda foi aos concessionários da Scânia e da Volvo, procurando encontrar aquilo que lhe interessaria em termos de viatura ideal para ter ao seu serviço. O vendedor, quando vê um fulano tão mal vestido, ficou em pulgas e desejou vê-lo pelas costas, mas lá foi respondendo às perguntas do João Ferreira, nomeadamente nos aspectos respeitantes a preço, assistência, fiabilidade, capacidade... enfim: aquelas tão sacramentais perguntas feitas por alguém que deseja apenas não ter de comer gato por lebre.
Porque eram as perguntas feitas por alguém que parecia conhecer bem aquele mercado, o vendedor deu um pouco mais de atenção ao possível cliente, que não conhecia de todo. Assim, quando lhe falou no preço, informou que haveria uma atenção no tocante ao mesmo e que o desconto se situaria nos 10% sobre o preço indicado.
João Ferreira disse-lhe que estava interessado em 6 camiões... levando o vendedor a abrir a boca de espanto, pois o homem até poderia ser um bom cliente, afinal, mas mantinha um pé atrás, com a desconfiança gerada pelo modo como o "cliente" estava vestido. Mesmo assim, lá informou que o desconto para 6 viaturas seria de 30%.
O vendedor não acreditava que o João Ferreira ia comprar fosse o que fosse e quando o "cliente" saíu, dizendo que ia buscar dinheiro, por certo lhe terá passado pela cabeça ter sido aquela conversa uma perda de tempo. Nunca mais iria vêr aquele tipo com ar de pedinte, apesar de ele pedir para preparar os camiões e a documentação.
O João Ferreira foi ao Banco e aí logo um funcionário zeloso tratou de correr com ele, pois o Banco não dava esmola a pedintes, blá...blá...blá.
Bem tentou o nosso homem chamar a atenção para o facto de se chamar João Ferreira e ser do Negage, mas o zeloso funcionário nem o ouvia. É então que um dos sub-gerentes, ouvindo o nome "João Ferreira", veio em socorro do bom nome do Banco, desfazendo-se em mil e uma desculpas pelo modo como havia sido recebido. João Ferreira estava magoado e disse-lhe que aquele procedimento seria motivo mais que suficiente para o funcionário ser demitido, pois não se trata ninguém pela aparência e o funcionário tinha por obrigação o atender convenientemente fosse quem fosse.
Sanado que foi o conflito, João Ferreira levantou o dinheiro e dirigiu-se ao stand para pagar os camiões, o que deixou o vendedor de boca aberta e bastante envergonhado, pois jamais acreditara que aquela figura, ostentando um ar de vagabundo, pudesse ser o melhor cliente que alguma vez tivera o previlégio de encontrar... e este, ainda por cima, pagava seis camiões ... a pronto!
Isto que o Carlos Ferreira me contou sobre o pai foi apenas um desabafo sobre o modo como o progenitor se apresentava perante os outros, pois sempre tinha sido um homem que não ligava às aparências, antes media os homens pela competência e capacidade de trabalho.
Era assim o João Ferreira: Grande de corpo e enorme de alma, mas não isento de reticências naquilo que à tolerância respeitava. Se alguém se excedia, via então um João Ferreira intolerante e muitas vezes "azedo"... mas sem ser violento.