quinta-feira, 26 de agosto de 2010

ÚCUA - Terra de guerra...

A Úcua de hoje não deve ser nada parecida com a Úcua que conheci, nos tempos em que até era costume mandarem-se os Soldados mais indisciplinados fazer uns meses de "recuperação" para lá, invocando-se o facto de, porque havia sempre que prestar assistência às aeronaves que ali tinham de aterrar por motivos óbvios, haver necessidade de lá manter alguém que fizesse o abastecimento dos aviões e hélis... e resolvia-se o problema disciplinar sem que o "castigado" tivesse um averbamento de punição na respectiva caderneta.
Já agora... Úcua fica localizada a Norte de Caxito, sensivelmente a 69 quilómetros e pertence à circunscrição (província) do Bembe, sendo um importante nó de ligação entre Luanda, o Uíge, Bula Atumba e Pango Aluquém, no interior da circunscrição do Bengo.
No passado recente de Úcua está presente a guerra - quer "colonial" quer civil - que deixou um pouco por todo o lado um rasto de destruição, ainda hoje visível nos sinais deixados na avenida principal pelos obuses dos morteiros de grande calibre lançados sobre o que resta das paredes de um conjunto de lojas, da velha padaria ou do que foi o restaurante que haviam sido erguidos no já longínquo ano de 1955.
Foi em Úcua, hoje esquecida no tempo, que "se forjaram as primeiras acções militares contra as Tropas Coloniais Portuguesas" - no dizer de um ex-guerrilheiro do MPLA. Dali saíram muitas dezenas de guerrilheiros, que formaram a I Região Político-Militar do MPLA, disse o mesmo antigo combatente, que confessou ter entrado no Partido em Abril de 1961, com apenas 11 anos, sendo a sua primeira missão o controle do movimento das Tropas Portuguesas, uma vez que sabia ler e escrever, facilitando assim o envio de relatórios escritos para os mais velhos, quando fosse caso disso, onde constassem o número de viaturas e homens que compunham as colunas.
Por tudo aquilo que representou no contexto da chamada guerra de libertação contra o colonialismo Português, Úcua é sinónimo de "SANGUE - SUOR - LÁGRIMAS", porque ali foi vertido muito sangue inocente, houve suor na labuta que foi a luta que foi necessário travar para que parasse o sangue dos combates e lágrimas pelo que tombaram, de ambos os lados, mercê das convicções de cada uma das partes.

sábado, 7 de agosto de 2010

COMO "DESCOBRI" ANGOLA


Narração da chegada a Luanda no já distante ano de 1964, onde transcrevo as minhas primeiras impressões de um capítulo da minha vida que poderia bem chamar-se
" A CHEGADA - Memórias da Terra Angolana - ou "COMO DESCOBRI ANGOLA".
Após sete dias embarcado no celebrado paquete "VERA CRUZ", irmão daquele que o Galvão assaltou e que se chamava SANTA MARIA, mas que o Pirata assaltante rebatizou como SANTA LIBERDADE, eis que chegou à baía de Luanda, onde não cheguei nos passeios dos aviões dos TAM (Transportes Aéreos Militares) porque não arranjei disponibilidade de um lugarzinho, dado haver muita gente que gostava de dar estes passeios LISBOA-LUANDA,... e eu era apenas um cabito do Serviço Geral da Força Aérea... portanto uma tipo muito baixinho para estar com exigências no tratamento a ter na deslocação para Angola.
O que é verdade é ter chegado a Luanda e estar a ter o primeiro contacto com aquelas terras onde um dia chegou o Diogo Cão, que pretendeu mostrar serviço e zás: CHEGOU À FOZ DO RIO ZAIRE e foi logo fazer queixinhas ao seu Senhor e Rei: - "DESCOBRI ANGOLA!!! BEM FEITO!!!". Só não sei se ele disse que o ar era quente, como o comprovava a lufada de ar quente que me bateu nas ventas..., supondo que o termómetro existente no Porto de Luanda estava certo: 39% - humidade superior a 66% - ar sofucante... enfim ESTAVA EM ÁFRICA!
Uma emissão de rádio que se ouvia na barbearia da 2ª. Classe do Paquete, dizia: "EMISSORA OFICIAL DE ANGOLA A TRANSMITIR DOS SEUS ESTÚDIOS DE LUANDA - ÁFRICA OCIDENTAL PORTUGUESA! BOM DIA".
Ao contrário dos outros Militares passageiros daquela nau não catrineta, eu viajava só... mesmo que acompanhado por duzentos Pára-quedistas, 70 Especialistas e 150 Políci8as, Clarins, Condutores e outros homens do Serviço Geral da Força Aérea, pois o General CEMFA não gostava que o pessoal andasse sózinho lá pelas Áfricas. As "CUCAS" e as "NOCAIS" precisavam de quem as tratasse bem e dois sempre são melhor companhia que um.
Apesar de viajar só, não me dava o previlégio de ter alguém destacado para me esperar... até porque me destinava ao Negage, concretamente ao AB3, situado numa zona que me dizi9am ser de traulitada de criar bicho, mas eu tinha muitas reservas sobre esta informação, pois na Formação de Adidos, onde trabalhei, conheci muita gente que veio de lá e dizia maravilhas... mas também sei que em Luanda era mais o barulho feito pela "Tropa" que pelos "Turras", nunca se sabendo o dia de amanhã! Quando lá chegar eu digo!
Uma carrinha TP 21 da FAP estava destinada a transportar os Oficiais e Sargentos que vinham no barco até às Messes respectivas, que ficavam na cidade. As Praças tinham dois autocarros às ordens e havia ainda uma Wolksvagen Combi, que levava a maralha para a Base Aérea 9. Os "Páras" esperariam por viaturas que os levariam para o BCP 21, em Belas.
A Base Aérea nº. 9 era um enorme complexo militar construído nos terrenos do Aeroporto Craveiro Lopes, numa das "pontas do Bairro Salazar", mesmo na periferia da cidade de Luanda.
Mal cheguei à BA9, logo veio malta amiga e conhecida ao meu encontro, alguns que eu tinha embarcado para ali, outros que conheci em Tancos ou em Monsanto. Queriam saber notícias do "Puto"... ou saber se havia algum petisco trazido da terra, porque tudio servia para matar saudades... diziam eles.
Tratei foi de arranjar uma "visita guiada" à cidade, porque precisava de esticar as pernas, depois daqueles dias de "VERA CRUZ"! Até embarcar pera o Negage, o que iria acontecer daí a uma semana, tratei de conhecer a maravilhosa e admirável capital de Angola.
CONTINUA...

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Repensando Angola...

Muitas vezes me interrogo sobre o que foi a presença Portuguesa em terras de Angola, que se prolongou por muitos anos - alguns dirão anos demasiados - e deram azo ao nascimento de uma nova Pátria... talvez não multicultural, multi racial ou tudo aquilo que queiram dizar quanto a uma presença de 500 anos feita pelos Portugueses, muito a contra gosto de alguns que acham ter sido uma perda de tempo para as populações, porque não pudemos ou não soubemos ser um Povo capaz de dar um pouco da civilização ocidental àqueles a quem "colonizámos", "explorámos", "roubámos" ou "massacrámos" em nome de um rei ou de um presidente que ousámos impôr pela força não sei bem de quê.
É que nunca percebi como fizemos tantas coisas más de que nos acusam, quando a verdade é que foram os Portugueses, vindos do "Puto" distante, uma insignificância territorial quando comparado com o colosso chamado Angola, quem construíu os alicerces daquilo que é hoje um dos maiores países da África Ocidental, quando olhamos para alguns dos chamados "impérios" africanos que são apenas uma miragem do progresso que se vê por todo o território outrora administrado pelo N'Gola, a Rainha Ginga e todo um cotejo de sumidades que fizeram a história de Angola... juntamente com os Portugueses.
Portugal "deixou" para trás a senda do progresso metropolitano para "construír" a Angola que é hoje um orgulho para toda a África. Quantos sacrifícios foram feitos para que ali se pudesse "fazer aquele bocadinho de terra" capaz de dar o pão para as famílias... porque a terra Angolana é uma terra fértil, generosa para com quem a trabalha, logo capaz de dar resposta aos anseios daqueles que deixaram tudo para fazer nas terras que escolheram para receber o seu trabalho, o seu suor, o seu amor total e desinteressado, que o foi de tal modo que até o seu sangue acabaram por lhe dar, em muitos casos.
A inveja de alguns levou ao aliciamento de muitos outros... a intolerância fez a sua parte... e o terrorismo surgiu! Muitos pagaram com a vida o desejo de uma vida melhor, a doação a uma terra generosa... mas muito injusta na forma como tratou aqueles que a quizeram progressiva. Talvez não fosse bem a terra a ser injusta, mas sim os ódios de uns tantos que pretenderam caminhos de ódio, de terror, de vinganças contra quem teve como única culpa o ter aprendido a amar aquela terra abençoada que dá pelo nome de Angola.
Ainda há muito para fazer, porque Angola ainda não é o País da Liberdade, da Justiça, da Paz, das Oportunidades... mas esse dia virá! O sangue vertido em holocausto assim o exige... e as dívidas de sangue pagam-se, mais tarde ou mais cedo.