domingo, 2 de maio de 2010

AINDA O "REI DO TÔTO" - CID ADÃO GONÇALVES

Li um comentário que é feito ao meu escrito sobre este tema, onde falei de um Homem que ajudou a construír Angola, de tal forma que ainda hoje a Fazenda do Cid Adão é referida nos roteiros turísticos , conforme pude constatar na Net.
Nesse comentário, um neto do velho pioneiro e importante industrial agrícola que se chamou Cid Adão Gonçalves, falecido em meados dos anos 60, afirma que o epíteto "Rei do Tôto" que consta do artigo, não seria referente ao Avô Cid Adão Gonçalves mas sim ao tio, que o sucedeu, Cid Adão Lasbarreres Gonçalves.
Efectivamente há que considerar a existência de dois cidadãos com o nome Cid Adão: Um deles consta ter iniciado a sua actividade em Angola ao serviço do Alto Comissário General Norton de Matos, de quem foi motorista. Quando o Alto Comissário cessou as suas funções e regressou à então chamada Metrópole, esse Cid Adão dedicou-se à mecânica auto, montando uma oficina que detinha com um seu irmão junto à Estação dos Caminhos de Ferro, mas acabou por abandonar esta oficina para se estabelecer no Tôto, onde deu vida à "Fazenda do Cid Adão Gonçalves", com exploração agro-pecuária, serviço de transportes auto, oficina e hotelaria.
Eram afamados os animais reprodutores que ali criava, até por haver sido ali construído o primeiro centro para desinfestação e desparasitação dos animais, com a construção inovadora de tanques-banheiro . Foi o introdutor da energia eléctrica no Norte de Angola e bem assim o homem a quem se deve a abertura da estrada Toto-Ambriz, aliado aos comerciantes desta terra.
O Governo atribuiu-lhe o grau de Grande Comendador da Ordem do Império.
Foi dos primeiros fazendeiros brevetados como piloto civil e teve, no distrito do Uíge, a primeira pista de aviação. Era um homem de muita cultura e viajado.
Quanto ao Cid Adão Lasbarreres Gonçalves, talvez a imponência da sua figura, motivasse algumas histórias, umas mais reais que outras... mas é sempre assim. Algumas seriam simples lendas... mas outras seriam histórias vividas.
Reza uma das lendas que, "certo dia, agarrado ao volante duma velha carripana, ia o Cid Adão a pensar na arca de Noé, quando esbarrou num obstáculo. Passado um momento de perplexidade, percebeu que tinha chocado contra um automóvel imponente, negro e luzidio. Encharcado até aos ossos, o motorista acercou-se, para lhe fazer ver que estava a obstruir a passagem ao novo governador.
- Quem? Eu?! Ele é que se atravessou no meu caminho! Esta estrada foi aberta pelo Cid Adão Gonçalves e pertence-lhe! - barafustou Cid Adão.
- Era o que faltava! contrapôs o Governador do Distrito, antes de espirrar. Onde é que já se viu um anónimo cidadão Gonçalves cortar o passo ao governador?
- Anónimo é o senhor! Na picada do Cid Adão Gonçalves, ninguém circula sem autorização prévia! Nem o governador!
- Recue imediatamente! - ordenou o governador.
- O aselha do seu motorista que se desvie ou faça marcha atrás!
- Isso é que era bom! Onde é que já se viu um governante percorrer itinerários de caranguejo, às arrecuas? Ainda por cima, o senhor pretende que eu dê a primazia a um cidadão anónimo. Nunca!
- Isto é uma violação do sagrado direito à propriedade privada. E sabe o que digo, nestes casos? - perguntou Cid Adão Gonçalves.
Aqui, é o autor obrigado a suspender a narrativa, pois a trovoada não lhe permitiu entender completamente o edificante diálogo que se seguiu, entre as individualidades em litígio. Notou, todavia, pelos semblantes carregados, e um ou outro gesto incontido, que o longo equívoco foi penoso, para as partes envolvidas.Importa é salientar que o desagradável mal-entendido acabou por sanar-se a contento.
O Governador fez questão em que Cid Adão tomasse lugar, a seu lado, na viatura oficial, ao que este aquiesceu prazenteiramente.Recolheram ambos ao Toto, em amena cavaqueira. O Governador perorou sobre o desenvolvimento das teorias psico-sociais e explanou o seu ponto de vista.
- Pauto a minha acção pelo respeito aos princípios de justiça social, consignados no Código Indígena. Através de uma correcta acção psico-social, criarei um verdadeiro homo “afroluso”. De pele negra mas alma branca. É dele que a nossa pátria pluricontinental e multirracial precisa, para derrotar a subversão comunista. Um primo da madrinha de minha mulher, que é chefe de gabinete do secretário do senhor Ministro do Ultramar, disse-me que Sua Excelência aprova inteiramente as minhas ideias.
- Auguro a vossa excelência uma governação repleta de êxito - disse, inclinando cortesmente a cabeça, Cid Adão.
Chegados ao Toto, o Governador desejou conhecer a “sua prole de trabalhadores” e Cid Adão viu-se em trabalhos para o distrair, enquanto um diligente capataz se afadigava, no armazém, distribuindo calções e camisas de ganga a trezentos contratados maltrapilhos.Após visitar as plantações de arroz, “que nem na China há iguais”, e os pombais, onde ensaiou alguns gorjeios que espantaram as pombas, o governador falou aos contratados:
- Tendes a felicidade de viver numa terra portentosa, que o engenho lusíada tornou exuberante. Trabalhai-a disciplinadamente, para serdes merecedores do sacrifício do vosso patrão, o meu ilustre amigo Cid Adão Gonçalves. Quis Deus, com a sua omnisciência, dar-vos uma pele negra. Aceitai-a, sursum-corda, pois Deus, na sua infinita misericórdia, ainda vos fez criaturas humanas.Para merecerdes esta condição, tereis, porém, de vos portar como homens honestos e trabalhadores, que ganham a vida e cumprem o seu dever, pagando os impostos ao senhor administrador.Não vos importeis com o negrume da pele, porque, para vos lavar a alma e a tornar pura e branca, como a dos governantes que o providencial doutor Salazar vos enviou, cá estou eu. Serei, para vós, um pai severo, mas bondoso. Saberei escutar as vossas reclamações, desde que não abusem, é claro. Não me peçam o Céu, pois não vo-lo poderei dar. Dar-vos-ei, todavia, um conselho: sede mansos e diligentes para o merecerdes, para, após a morte, vos libertardes do fardo negro desta vida.
“Boi-cavalo”, um capataz assim alcunhado pela frequência com que mimoseava os contratados com cabeçadas e pontapés, traduziu a intervenção do Governador, dizendo:
- Este branco grande é nosso pai e amigo do patrão. Vocês são pretos, porque Deus é porreiro. Senão seriam macacos. Os macacos não trabalham nem pagam impostos, mas têm rabo. Vocês não têm rabo e, por isso, para agradecer a Deus, têm de trabalhar muito. O dinheiro que o patrão vos dá não é para gastar na farra. É para pagar imposto ao senhor administrador, caso contrário, dou-vos porrada. Quem paga imposto fica lavado. Fica com a alma da cor destes brancos. E vai para o céu, quando morrer. O branco grande disse que vocês podem falar.
Um murmúrio inintelegível cresceu no grupo de contratados, antes de um ancião, de carapinha toda branca, tomar a palavra, no seu português peculiar:
- A gente aprendeu que a alma não tem cor. O branco grande não precisa de ficar preocupado. O imposto, a gente paga sempre. Aqueles que fica doente e não pode trabalhar fica mais anos no contrato, para ganhar o dinheiro do imposto. O branco grande é amigo do patrão. Deve dizer nele que a gente está farto de borracho com arroz. A gente não gosta de borracho com arroz. A gente tem borracho com arroz todos os dias.
O Governador afirmou ter registado tudo com agrado e deu por encerrado o encontro.Ao jantar, sua excelência elogiou a magnanimidade do patrão que “diariamente serve borracho com arroz aos seus empregados. É manjar de reis. É apaparicá-los!”
- Têm o que merecem, excelência - contrapôs o anfitrião.
Passados tantos anos, permanece o narrador na dúvida. Será que o Governador não percebeu que o “borracho com arroz” era uma câmara de ar, de borracha, cheia de arroz e atada nos extremos, como chouriço?
Cid Adão mandava aplicá-la nos rins dos indolentes. Substituía vantajosamente o tradicional chicote de cavalo-marinho. Os golpes não deixavam marcas." História de Álvaro Fernandes in “Berços de renda, enxergas de trapos"

2 comentários:

Pedro Costa disse...

Olá,

Ando a pesquisar pedido meu pai colegas de armas que estiveram AB3 entre 68 e 71, ele era condutor pesados Costa de Famalicão. Sabe como me pode ajudar?
Fico a aguardar seu contacto para
pedrotiagocosta@gmail.com

lili laranjo disse...

Belo trabalho.
fico sempre contente por te ler.
Esta semana Sabado vamos ter em Mira o almoço ddos antigos militares do BC 12 englobando Carmona e Negage.

É sempre fascinante assistir a estes encontros e rever os amigos que nos marcaram na juventude.
um beijinho