terça-feira, 9 de março de 2010

A hora da saudade...

Quem um dia passou pelo Negage, certamente deixou lá um pouco de si mesmo... ou então não bebeu água da Capoupa!
Não é que a água da Capoupa seja mais apaladada que as demais, sejam elas do Bengo, do Puri ou de Úcua, já que as do Toto, Loge ou Quimaria sabiam tão bem como aquelas... apenas eram mais pesadas, se me estão a perceber.
No Negage não! As águas ali eram leves, puras, cristalinas como só aquelas terras podiam proporcionar.
Pela manhã, ainda cedo, os nossos ouvidos deliciavam-se a ouvir o roncar dos motores dos aviões que aterravam ou levantavam voo da pista do Aeródromo, ligando pelo ar as várias terras desta vasta Angola... mesmo que as estradas amplas e bem traçadas já fossem uma realidade desde há alguns tempos, umas abertas pela necessidade que houve de proporcionar aos militares mais capacidade de deslocar as suas forças para onde estas fossem solicitadas, dado o estado de guerra então vivido.
Mas o pequeno povoado do Negage, à data da eclosão do "terrorismo" da UPA, que se seguiu ao sinal dado pelo MPLA em Luanda, na madrugada de 4 para 5 de Fevereiro de 1961, veio a crescer de forma firme e resoluta, dando a certeza ao mundo de que havia uma vontade indómita de por lá continuar por muitos e bons anos... a não ser que os ventos da história viessem a ditar outros caminhos para uma cidade em evolução.
Muito daquilo que foi construído pela tenacidade dos colonos, que no Negage viam a sua "Terra da Promissão", veio a ser seviciado nas batalhas da guerra civil... mas a cidade continuou a "resistir" e será hoje uma terra de futuro, no dizer de alguns, enquanto outros afirmam que dessa terra maravilhosa já pouco resta... o que não será bem o caso, pelas notícias que vão chegando.
Já não vemos o João Ferreira, com a sua samarra pelos ombros e o chapéu na cabeça, sentado na esplanada do Hotel Avenida a fumar o seu cigarrito; não voltaremos a vêr o Fernando Santos à porta da sua casa, afagando os cabelos da filha mais nova, enquanto vai conversando e sorri para a neta, filha da sua cachopa mais velha; não vemos o Valadares nas suas lições de condução, o Horácio da Papelaria 13 em amena cavaqueira com o Baganha... o velho Ginja... o Manso... o Cruz fotógrafo... o Carvalhosa do Colégio... o Ramos da Administração... o Padre Pires do Movimento AFRIS... o Padre Fortunato da Costa... o Padre Agatângelo... enfim! Tudo o que contribuía para o quotidiano do Negage faz a nossa saudade, porque foi lá que ficou o nosso coração!
O Negage é e sempre será a cidade da nossa saudade! É o motivo da nossa saudade das coisas de Angola, porque a vimos nascer ... crescer...

1 comentário:

jose luis ferreira disse...

...e que grandes saudades.
Obrigado por estas memorias.
Sou neto do João Ferreira filho do Zé Luís vive no Negage de 65 a 75.