quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

RECORDAÇÕES DE UM OUTRO NATAL...

Neste tempo de Advento, quando começamos a pensar naquilo que foram outros Natais vividos, especialmente aqueles que aconteceram quando em missão de soberania em defesa da Pátria, lá pelas terras de África, costumo recordar aquele que aconteceu no ano de 1961 no Toto, no Aeródromo de Manobra, um Natal que até mereceu ser notícia na "Revista do Ar" de Janeiro de 1963, em artigo escrito pelo ilustre Coronel Piloto Aviador Edgar Cardoso.
O Toto era então considerado uma zona insubmissa de Angola e raras eram as noites em que não se ouvia o "alegre" crepitar das armas, em resposta às arremetidas dos nossos ilustres visitantes da UPA. No Aeródromo estavam cerca de 80 homens a preparar-se para celebrar o nascimento de Jesus, naquele Natal de 1961. No entanto, porque estava anunciado que com o Salvador também viria mais um ataque terrorista, os homens estavam preparados para o combate, conscientes de que o momento era propício para um ataque de "surpresa". Tudo estava preparado para a confraternização natalícia quando um pequeno avião de transporte, vindo da Base Aérea nº. 9, de Luanda, aterra na pista do A.M. e dele sai o Brigadeiro João Anacoreta de Almeida Viana, da Força Aérea, o qual, dirigindo-se ao Tenente PA António Perestrello, que era quem comandava aquela "Malta do Capim", dispara:

- "Perguntei lá em Luanda qual era o sítio mais arriscado, ou melhor, mais causticado da Força Aérea. Eles falaram-me no Toto e por essa razão venho até cá passar o Natal convosco! Boas Festas, Comandante!

À noite, organizou-se uma grande mesa no pobre recinto, e "ali estava o Presépio, hábil e pacientemente arranjado pela rapaziada, a confirmar que Deus estava com todos eles". A mesa destinava-se ao Brigadeiro , aos Oficiais... e a todos os Soldados. Saberiam eles que era, assim mesmo, "A Mesa" do antigo Exército Português, comendo Oficiais e Soldados o mesmo pão e na mesma sala, sentados os Comandantes com os Comandados?!" Prendas, brindes, discursos, pois não havia nem "assistência Religiosa nem a Missa do Galo habitual. Mas ali estava Deus, mesmo entre eles. E estava também Portugal! Distribuiram-se prendas a toda a gente, a Oficiais e a Soldados sem distinção, e aos pretos, claro que tinha de ser. "Quando se aproximava do seu termo a festiva cerimónia, os Soldados, de moto próprio, resolveram em comissão presentear o Oficial General com armas gentílicas arrebatadas aos terroristas em combate.". Eram os seus queridos troféus! O Brigadeiro respondeu-lhes assim:

- "O Toto pode acabar, mas este Natal jamais pode ser esquecido! Obrigado pela vossa significativa oferta: como nada tenho para vos dar em troca, é meu dever ir para a torre fazer duas horas de sentinela em vez do soldado mais bem comportado a quem tal competir!".

(As torres eram umas estruturas improvisadas, feitas de troncos, madeiras e pregos capturados aos terroristas, e que serviam de atalaiss elevadas no campo).

Noite fora, os Soldados dormiram (se puderam dormir, após este encontro com Deus e com Portugal de Antanho!), porque, após o Brigadeiro seguir para a torre, também foram o Tenente Comandante do AM, os Sargentos e os Cabos, que se foram sucessivamente oferecendo e depois, por ordem hierárquica, de torre para torre gritavam: - "Sentinela alerta!" e nesse momento sentiu-se que ali Portugal podia responder, com verdade: - "ALERTA ESTÁ!"

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