quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

UM NOVO ANO DE SAUDADE...

Quem andou pelo Uíge
e no Negage viveu...
...aquilo que se exige
é que sinta como eu!
Vivo intensa saudade
dos amigos que lá fiz...
...porque esta é a verdade:
No Negage fui feliz!
E por isso o Fim da Ano
não é pleno de alegria...
...posso dizê-lo, ufano,
que recordo no dia-a-dia
os tempos que lá vivi...
...e fico triste, tão saudoso,
quando me lembro de ti,
e sou então venturoso
porque um dia te conheci!
*
A TODOS OS AMIGOS VERDADEIROS,
POIS NO NEGAGE OS HAVIA...
UM NOVO ANO TÃO "PORREIRO"
COM SAÚDE, AMOR, ALEGRIA...
E QUE O BOM DEUS NOS DÊ SEMPRE
O PÃO NOSSO DE CADA DIA!

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

É NATAL... tanta saudade!!!

Sim! O Natal no Negage foi marcante para mim, quer ao nível da minha Unidade, o Aeródromo Base 3, quer da urbe, onde se notava uma alegria entre as pessoas que era quase contagiante! Os jovens militares procuravam afanosamente qualquer coisa que pudessem enviar para as famílias na Metrópole... e havia tanta coisa bonita a fazer arregalar os olhos!
As montras do Gaspar e Fernandes, do Manuel Ribeiro Manso, da Papelaria 13 e um pouco por todo o lado onde se fizesse comércio, eram convidativas e as novidades japonesas ou chinesas, os brindes made in África do Sul... e muitas vezes da Metrópole, aguardavam o aparecimento de umas notitas daquelas com fauna Angolana, mesmo que preferencialmente fossem mais bem vindas as "Donas Marias" vindas do "Puto", da parte da madrinha ou da avó, não importava! Era preciso é que elas não viessem a faltar.
Na Base... bem... a Cantina era uma rainha nas vendas de Natal, pois comprava ao preço da uva mijona e vendia pelo mesmo preço... para quem quizer acreditar que assim fosse. Aí se comprava mil e uma maravilhas, a par do "VAT 69", do "Napoleon" do "Chivas" ou outra qualquer bebida generosa que... talvez viesse de Sacavém, quem sabe?
Bem... depois destes desabafos, apenas me resta desejar a todos os que me lêem, aos que do Negage têm recordações, aos que comigo sofreram nas terras do Norte as agruras da separação da família, dos amigos, da Pátria! E que a recordação daqueles que lá deram o seu sangue se justifique em cada Natal, pois eles eram os melhores de todos nós!

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

RECORDAÇÕES DE UM OUTRO NATAL...

Neste tempo de Advento, quando começamos a pensar naquilo que foram outros Natais vividos, especialmente aqueles que aconteceram quando em missão de soberania em defesa da Pátria, lá pelas terras de África, costumo recordar aquele que aconteceu no ano de 1961 no Toto, no Aeródromo de Manobra, um Natal que até mereceu ser notícia na "Revista do Ar" de Janeiro de 1963, em artigo escrito pelo ilustre Coronel Piloto Aviador Edgar Cardoso.
O Toto era então considerado uma zona insubmissa de Angola e raras eram as noites em que não se ouvia o "alegre" crepitar das armas, em resposta às arremetidas dos nossos ilustres visitantes da UPA. No Aeródromo estavam cerca de 80 homens a preparar-se para celebrar o nascimento de Jesus, naquele Natal de 1961. No entanto, porque estava anunciado que com o Salvador também viria mais um ataque terrorista, os homens estavam preparados para o combate, conscientes de que o momento era propício para um ataque de "surpresa". Tudo estava preparado para a confraternização natalícia quando um pequeno avião de transporte, vindo da Base Aérea nº. 9, de Luanda, aterra na pista do A.M. e dele sai o Brigadeiro João Anacoreta de Almeida Viana, da Força Aérea, o qual, dirigindo-se ao Tenente PA António Perestrello, que era quem comandava aquela "Malta do Capim", dispara:

- "Perguntei lá em Luanda qual era o sítio mais arriscado, ou melhor, mais causticado da Força Aérea. Eles falaram-me no Toto e por essa razão venho até cá passar o Natal convosco! Boas Festas, Comandante!

À noite, organizou-se uma grande mesa no pobre recinto, e "ali estava o Presépio, hábil e pacientemente arranjado pela rapaziada, a confirmar que Deus estava com todos eles". A mesa destinava-se ao Brigadeiro , aos Oficiais... e a todos os Soldados. Saberiam eles que era, assim mesmo, "A Mesa" do antigo Exército Português, comendo Oficiais e Soldados o mesmo pão e na mesma sala, sentados os Comandantes com os Comandados?!" Prendas, brindes, discursos, pois não havia nem "assistência Religiosa nem a Missa do Galo habitual. Mas ali estava Deus, mesmo entre eles. E estava também Portugal! Distribuiram-se prendas a toda a gente, a Oficiais e a Soldados sem distinção, e aos pretos, claro que tinha de ser. "Quando se aproximava do seu termo a festiva cerimónia, os Soldados, de moto próprio, resolveram em comissão presentear o Oficial General com armas gentílicas arrebatadas aos terroristas em combate.". Eram os seus queridos troféus! O Brigadeiro respondeu-lhes assim:

- "O Toto pode acabar, mas este Natal jamais pode ser esquecido! Obrigado pela vossa significativa oferta: como nada tenho para vos dar em troca, é meu dever ir para a torre fazer duas horas de sentinela em vez do soldado mais bem comportado a quem tal competir!".

(As torres eram umas estruturas improvisadas, feitas de troncos, madeiras e pregos capturados aos terroristas, e que serviam de atalaiss elevadas no campo).

Noite fora, os Soldados dormiram (se puderam dormir, após este encontro com Deus e com Portugal de Antanho!), porque, após o Brigadeiro seguir para a torre, também foram o Tenente Comandante do AM, os Sargentos e os Cabos, que se foram sucessivamente oferecendo e depois, por ordem hierárquica, de torre para torre gritavam: - "Sentinela alerta!" e nesse momento sentiu-se que ali Portugal podia responder, com verdade: - "ALERTA ESTÁ!"