sexta-feira, 25 de setembro de 2009

NEGAGE é SAUDADE

O AB3 desfila em parada
No Negage jamais senti que estivesse longe daqueles que me eram queridos, porque sempre senti a impressão de que estaria no seio da família, tal a proximidade que se vivia entre as pessoas.
Num primeiro contacto com as gentes da terra, acontecido na "catacumba" da igreja de São José Operário, então em construção, que era onde se fazia a celebração da Santa Missa e se dava catequese às crianças, de imediato fiquei impressionado com a inquestionável solidariedade que era patente em todas as pessoas, que se cumprimentavam de forma afável, se convidavam mutuamente para uma churrascada ou um simples almoço entre amigos... porque era isso mesmo que eram, notóriamente.
Foi assim que no imediato me vi convidado para almoçar naquele meu 1º. Domingo no Negage, tendo declinado o convite por delicadeza... mas acabando por aceitar, tal a insistência usada, porque não queria ser indelicado para com aquelas pessoas generosas, que apenas pretendiam que os Militares, que estavam no Negage em comissão de serviço, não sofressem tanto as agruras da saudade dos entes queridos que haviam ficado lá longe!
Convidado pelo Padre Fortunato Agnoleto da Costa, missionário Capuchinho italiano, já com mais de trinta anos de missão naquelas terras, para ser catequista na paróquia, aceitei de imediato o convite, que muito me honrava.
Pouco tempo depois tive o ensejo de "fazer" o primeiro presépio daquela igreja improvisada, com a colocação na manjedoura da imagem do Menino Deus sido feita no momento em que o celebrante Padre Prodóscimo de Pádua, superior da missão e pároco de S. José Operário, fez a narração do nascimento de Jesus Cristo! Foi um momento emocionante, que jamais esquecerei!
O meu jantar dessa noite, a ceia de Natal, aconteceu em casa do Sr. Jesuíno Dias, que tempos depois veio a ser o meu senhorio, quando fui morar para os anexos que possuía junto à loja do Manuel Ribeiro Manso.
O almoço de dia de Natal foi-me servido no hotel Avenida, juntamente com alguns camaradas de armas, que também passavam as suas primeiras festas natalícias naquelas terras que já haviam provado o sabor do ódio daqueles que diziam pretender conquistar a liberdade... utilizando as armas do terror! Esse mesmo terror que levou as populações a unirem-se, a darem as mãos e procurarem lutar contra um inimigo feroz, que sacrificava velhos, mulheres e crianças em nome da liberdade.
Foi assim que vieram a "nascer" o Aeródromo Base nº. 3, a 3ª. Companhia de Caçadores, o Pelotão de Apoio Directo, a Companhia de Intendência, a Companhia de Artilharia... mas terá sido, fundamentalmente, a consciência de que a todos se pedia um bocadinho de si mesmos para que fosse possível continuar Portugal em África... que só não foi possível porque alguém traíu aqueles povos, lhes cortou cerce a esperança que haviam criado no dia em que demandaram aquela terra e se lhe entregaram de alma e coração, construíndo uma aldeia... uma vila... uma cidade de que se podiam orgulhar!
Tudo tiveram de deixar para trás, mas apenas aconteceu porque houve alguns militares que não mereceram a coragem, a abnegação, o esforço, o suor e sangue derramados por tantos heróis e mártires...para que a Bandeira de Portugal pudesse erguer-se e flutuar nos mastros!
A cidade do Negage não merecia "caír" nas maõs de gentes que não sentiam aquela terra, porque para que a merecessem era necessário que a amassem... e isso apenas aqueles que a ergueram estavam capacitados para o fazer!!!
Na minha saudade encontro sempre escrito o nome NEGAGE! Nesse nome vejo subjacente a palavra CORAGEM! Nessa coragem está implicita a HONRA, o SENTIDO PÁTRIO, o AMOR a algo que se viu nascer, crescer... mas nunca se esperou ver morrer, talvez porque O NEGAGE JAMAIS MORRERÁ! O sangue daqueles que ali foi vertido é que lhe irá proporcionar uma vida perene!

3 comentários:

AFRICA EM POESIA disse...

um berijo por me recordares um pouco do que também foi meu...
Dei aulas nas célebres...catacumbas...
beijinhos

AFRICA EM POESIA disse...

n
ao é berijo é mesmo beijinho desculpa...

AFRICA EM POESIA disse...

venham ao almoço do Negage dia 17 na mealhada nos 3 pinheiros





Ai-u-é...
Que sôdade...
Eu tenho de ti!...
......................
Ai-ú-é...
Que sôdade...
Eu sinto do "antigamente"...
....................
Ai-u-é...
Que sôdade...
Do funge e do pirão...
...................
Ai-u-é...
Que sôdade ...
Eu tenho de ti...
Terra do lado de lá...
...................
Ai-u-é...
Que sôdade...
Da vida livre...
..............
Ai-u-é...
Que sôdade...
Dormir com a porta aberta...
E saber que o dia seguinte...
Vinha tranquilo...
..................
Ai-u-é...
O "antigamente"...
Era mesmo o "paraíso"...
....................
Ai-u-é...
E era também...
Vida livre.



lili laranjo