terça-feira, 11 de agosto de 2009

A UPA E O INÍCIO DA GUERRA

Funeral dos Guardas da PSP mortos em Luanda
em 4 de Fevereireiro de 1961
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A União dos Povos do Norte de Angola, que havia sido fundada em Leopoldville, em 1954, tinha como objectivo programático a independência do antigo reino do Congo, em que se incluía Cabinda.
Com esta ideia em mente, Holden Roberto foi, em Dezembro de 1958, ao Congresso dos Povos Africanos, que se realizou em Acra. Perante a vitalidade da ideia do pan-africanismo, convenceu-se da necessidade de minimizar a componente tribal do seu partido, o que o levou a mudar-lhe o nome para União dos Povos de Angola (UPA).
A partir então, a UPA transforma-se no movimento nacionalista mais bem organizado e que maiores simpatias suscita, pelo que de imediato iniciou o processo de implantação nas áreas de maior dimensão, com o objectivo de se vir a estender por todo o país.
Em Luanda, a maior parte dos seus apoiantes, que não óbviamente eram clandestinos, como de resto os dos outros movimentos, eram pertencentes às comunidades protestantes. Mas tinha também a simpatia de destacados católicos, como era o cónego Manuel Mendes das Neves, decano do capítulo da Catedral de Luanda, vigário-geral da mesma arquidiocese e director do Seminário de S.Domingos.
Nestes meios nacionalistas sentia-se uma necessidade imperiosa de oposição ao sistema colonial, por inspiração das primeiras independências africanas, especialmente a do Congo Belga, em Junho de 1960. Foi na sequência desse sentimento, que se planeou o assalto às duas prisões Luanda: a Casa de Reclusão Militar de Angola e o Forte de São PauIo, essencialmente para libertar alguns presos políticos nacionalistas.
De Leopoldvillle, onde se encontrava "exilado", Holden Roberto desaconselhou este projecto, invocando que em Luanda, em torno da UPA, se movimentava um apreciável número de mulatos, entre os quais o cónego Mendes das Neves, que não eram da sua confiança. Mas também porque desejava ser ele a iniciar a guerra com uma insurreição de grandes proporções, e esta já estava em preparação para a zona dos Povos Bacongos, onde as raízes da UPA eram bastante profundas.
No entanto, os conspiradores de Luanda não só não se detiveram, como trataram de acelerar a sua execução, para aproveitarem a presença na cidade de algumas dezenas de jornalistas estrangeiros, atraídos pelo assalto ao paquete Santa Maria, pois entendiam os conspiradores que poderiam vir a sensibilizar o mundo para a situação colonial portuguesa.
Eram cerca de uma centena de participantes na acção, sendo o núcleo principal formado principalmente por protestantes ligados à UPA, mas havendo igualmente estudantes católicos do Seminário de São Domingos e alguns simpatizantes do MPLA e de outros grupos, porque estas militâncias não seriam então muito rígidas.
O ataque iniciou-se na noite de 4 de Fevereiro.
O balanço oficial de vítimas aponta para cerca de 40 assaltantes e de sete polícias, já que as forças portuguesas, recuperadas da surpresa inicial, com facilidade neutralizaram o ataque, que foi realizado com os assaltantes armados de catanas e varapaus.
Nos dias seguintes, e especialmente no funeral dos polícias mortos, alguns colonos brancos e as forças militarizadas desencadearam uma violenta repressão nos bairros negros de Luanda, que durou cerca de um mês.
É curioso o facto de o MPLA, cuja direcção estava exilada em Conacri, reivindicar a acção, com a UPA remetida ao mais completo silêncio.
O Conselho de Segurança da ONU foi convocado para apreciar os acontecimentos de 4 de Fevereiro. A UPA, assessorada por alguns conselheiros americanos, pretendeu aproveitar essa oportunidade para conseguir as simpatias do mundo para a sua causa, levando-a a preparar uma sublevação geral em várias zonas do norte de Angola, incluindo São Salvador, Uije, Dembos, Luanda e Cuanza Norte. Foi nesta zona que, a partir do dia 15 de Março de 1961, elementos da UPA e apaniguados foram destruindo tudo o que encontraram pela frente, como foi o caso das fazendas, postos administrativos, destacamentos policiais, atacando indiscriminadamente brancos e pretos, crianças e mulheres, numa selvática onda jamais vista de chacinas e assassínios.
As vítimas estimaram-se em cerca de 1000 brancos e 6000 negros. Esta actuação da UPA contribuiu para um profundo sentimento de revolta dos colonos brancos e deu ao Governo português o argumento final que precisava para envolver Portugal numa guerra sem quartel contra qualquer movimento ou forma de expressão nacionalista. Demonstrou também haver a ausência, no seio da UPA, de qualquer base ideológica moderna, vindo ao de cima a sua natureza tribal. De facto, os Bacongos não conseguiram, nem sequer tentaram, o apoio, ou pelo menos a neutralidade dos trabalhadores negros contratados das fazendas do Norte, que eram fundamentalmente constituídos por Ovimbundos e Ganguelas, provenientes do Centro de Angola.
À barbárie tribal, responderam as forças portuguesas de forma implacável. No dia 9 de Agosto, o Exército entrou em Nambuangongo, que havia antes sido proclamada a capital dos revoltosos. Antes do fim do ano de 1961, de forma incompreensível e estranha , alguns responsáveis portugueses davam as hostilidades por terminadas, o que estava longe de acontecer, como se sabe.
A UPA, por ser o primeiro Movimento independentista a iniciar as hostilidades em grande escala, mobilizando alguns milhares de "combatentes" e não só, acabou por conseguir um grande apoio internacional, desde os Estados Unidos até aos vários países africanos. Visando corrigir a sua conotação tribal, a UPA veio a transformar-se na Frente Nacional de Libertação de Angola (FNLA) em Março de 1962, integrando o PDA. Pouco depois a FNLA constituiu um Governo Revolucionário de Angola no Exílio (GRAE), que, em fins de 1963, estava reconhecido pela OUA e por 32 países africanos.
O Povo do Negage jamais esquecerá aquilo que sofreu quando eclodiu o terrorismo, com a "heróica" acção das gentes de Holden Roberto. A noite negra tarda muito a amanhecer, pois a alvorada é sofrida pela saudade que nos sufoca.

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