quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Angola: os tempos do terror


"Excepto nos locais onde se viam alguns clarões das fogueiras acesas por alguém que deveria estar a preparar o "matabicho", ainda estava bastante escuro quando os sete camiões, transportando soldados Portugueses chegaram. Trataram de levar os homens nos camiões, desde as aldeias até ao rio. Aí ouviram-se então alguns tiros, e houve quatro homens que caíram no rio. Via-se que os Soldados não estavam ali para brincar, fazendo-se fé no modo como procediam.
Os rebeldes negros haviam dado aos Soldados de Portugal motivos suficientes para que pudessem ver-se alguns indícios de uma actuação mais agressiva, pelo modo como se haviam comportado para com as populações, pois também estes foram objecto de autêntica carnificina, não se respeitando crianças, mulheres ou velhos! Fosse branco ou preto, desde que este estivesse ao serviço daquele, a ordem era destruír com selvajeria, pelo terror!
Actuando em grupos de 20 a 30 homens, os rebeldes pintaram os rostos de vermelho , para se tornarem "invisíveis", fumaram maconha - liamba - para tornar as "balas em água", vestiram as calças pelo avesso como um meio de identificação na fuga às rusgas.
As suas intenções eram lançar o terror entre as populações brancas, indiscriminadamente, não pretendendo apenas matar, mas também mutilar, tirando-lhes os olhos ou cortando as mãos... e a cabeça.
No total, apenas no início da sua actuação, estima-se que os rebeldes tenham matado cerca de 800 angolanos brancos.
Os Portugueses afirmaram, de imediato, que a revolta não havia sido espontânea, mas sim instigada a partir do exterior, até porque as tropas do Exército haviam capturado 71 guerrilheiros ganesas bem armados, que lutanvam ao lado dos rebeldes.
O chefe rebelde Holden Roberto, que dirige a revolta a partir de Leopoldville, tem insistido que a UPA não teve ajuda de Gana, afirmando desprezar Nkrumah por ser demasiado esquerdista. Mas o Gana e a Guiné têm promovido a ajuda comunista ao grupo denominado Movimento para a Libertação de Angola (MPLA), e Nkrumah's tem dirigido abertamente os seus esforços e da OUA no fomento da rebelião em Angola.
Não escapa. O Exérciro Português colocou em ação aproximadamente 8000 brancos apoiados por 10.000 militares leais de côr, provenientes de tribos menores do Sul de Angola, que detestavam visceralmente os do Norte, que foram quem promoveu a rebelião. E um adicional de 25.000 soldados partiram de Portugal, mas enquanto não chegam, as autoridades têm fornecido armas para defesa aos assustados civis... que por vezes fazem justiça com as próprias mãos, o que é uma consequência da actuação dos Movimentos rebeldes.
Em Luanda, grupos de vigilantes civis invadiram São Paulo, nos subúrbios, dando caça aos "suspeitos de terrorismo", abatendo 33 deles. Um porta-voz governamental relatou os acontecimentos com orgulho.
Há quinze dias em Luanda, um plantador de café avistou dois negros que reconheceu como rebeldes que, com um grupo, lhe haviam queimado a plantação. Ele organizou um grupo de brancos, que foram rua principal de Luanda abaixo . A multidão "desfez" literalmente um homem à pancada, os outros fugiram rua fora, gritando.
Muitos Portugueses de Angola dizem estar revoltados com o terror anárquico que se vive na Província, afirmando que o maior desejo é o poderem saír dali para fora. No entanto, Salazar proibiu recentemente qualquer branco, do sexo masculino e com idades entre 18 e 45 anos de deixar Angola, reduzindo drásticamente a transferência de fundos para fora de Angola.
Têm-se verificado alguns sinais de moderação em Portugal, tendo Salazar promulgado mudanças drásticas na Constituição, visando conseguir uma prática democrática no País - o primeiro passo para a resolução dos problemas coloniais latentes de Portugal no estrangeiro".
(Extraído do relatório da Missão EvangélicaHolandesa em Angola)

terça-feira, 11 de agosto de 2009

A UPA E O INÍCIO DA GUERRA

Funeral dos Guardas da PSP mortos em Luanda
em 4 de Fevereireiro de 1961
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A União dos Povos do Norte de Angola, que havia sido fundada em Leopoldville, em 1954, tinha como objectivo programático a independência do antigo reino do Congo, em que se incluía Cabinda.
Com esta ideia em mente, Holden Roberto foi, em Dezembro de 1958, ao Congresso dos Povos Africanos, que se realizou em Acra. Perante a vitalidade da ideia do pan-africanismo, convenceu-se da necessidade de minimizar a componente tribal do seu partido, o que o levou a mudar-lhe o nome para União dos Povos de Angola (UPA).
A partir então, a UPA transforma-se no movimento nacionalista mais bem organizado e que maiores simpatias suscita, pelo que de imediato iniciou o processo de implantação nas áreas de maior dimensão, com o objectivo de se vir a estender por todo o país.
Em Luanda, a maior parte dos seus apoiantes, que não óbviamente eram clandestinos, como de resto os dos outros movimentos, eram pertencentes às comunidades protestantes. Mas tinha também a simpatia de destacados católicos, como era o cónego Manuel Mendes das Neves, decano do capítulo da Catedral de Luanda, vigário-geral da mesma arquidiocese e director do Seminário de S.Domingos.
Nestes meios nacionalistas sentia-se uma necessidade imperiosa de oposição ao sistema colonial, por inspiração das primeiras independências africanas, especialmente a do Congo Belga, em Junho de 1960. Foi na sequência desse sentimento, que se planeou o assalto às duas prisões Luanda: a Casa de Reclusão Militar de Angola e o Forte de São PauIo, essencialmente para libertar alguns presos políticos nacionalistas.
De Leopoldvillle, onde se encontrava "exilado", Holden Roberto desaconselhou este projecto, invocando que em Luanda, em torno da UPA, se movimentava um apreciável número de mulatos, entre os quais o cónego Mendes das Neves, que não eram da sua confiança. Mas também porque desejava ser ele a iniciar a guerra com uma insurreição de grandes proporções, e esta já estava em preparação para a zona dos Povos Bacongos, onde as raízes da UPA eram bastante profundas.
No entanto, os conspiradores de Luanda não só não se detiveram, como trataram de acelerar a sua execução, para aproveitarem a presença na cidade de algumas dezenas de jornalistas estrangeiros, atraídos pelo assalto ao paquete Santa Maria, pois entendiam os conspiradores que poderiam vir a sensibilizar o mundo para a situação colonial portuguesa.
Eram cerca de uma centena de participantes na acção, sendo o núcleo principal formado principalmente por protestantes ligados à UPA, mas havendo igualmente estudantes católicos do Seminário de São Domingos e alguns simpatizantes do MPLA e de outros grupos, porque estas militâncias não seriam então muito rígidas.
O ataque iniciou-se na noite de 4 de Fevereiro.
O balanço oficial de vítimas aponta para cerca de 40 assaltantes e de sete polícias, já que as forças portuguesas, recuperadas da surpresa inicial, com facilidade neutralizaram o ataque, que foi realizado com os assaltantes armados de catanas e varapaus.
Nos dias seguintes, e especialmente no funeral dos polícias mortos, alguns colonos brancos e as forças militarizadas desencadearam uma violenta repressão nos bairros negros de Luanda, que durou cerca de um mês.
É curioso o facto de o MPLA, cuja direcção estava exilada em Conacri, reivindicar a acção, com a UPA remetida ao mais completo silêncio.
O Conselho de Segurança da ONU foi convocado para apreciar os acontecimentos de 4 de Fevereiro. A UPA, assessorada por alguns conselheiros americanos, pretendeu aproveitar essa oportunidade para conseguir as simpatias do mundo para a sua causa, levando-a a preparar uma sublevação geral em várias zonas do norte de Angola, incluindo São Salvador, Uije, Dembos, Luanda e Cuanza Norte. Foi nesta zona que, a partir do dia 15 de Março de 1961, elementos da UPA e apaniguados foram destruindo tudo o que encontraram pela frente, como foi o caso das fazendas, postos administrativos, destacamentos policiais, atacando indiscriminadamente brancos e pretos, crianças e mulheres, numa selvática onda jamais vista de chacinas e assassínios.
As vítimas estimaram-se em cerca de 1000 brancos e 6000 negros. Esta actuação da UPA contribuiu para um profundo sentimento de revolta dos colonos brancos e deu ao Governo português o argumento final que precisava para envolver Portugal numa guerra sem quartel contra qualquer movimento ou forma de expressão nacionalista. Demonstrou também haver a ausência, no seio da UPA, de qualquer base ideológica moderna, vindo ao de cima a sua natureza tribal. De facto, os Bacongos não conseguiram, nem sequer tentaram, o apoio, ou pelo menos a neutralidade dos trabalhadores negros contratados das fazendas do Norte, que eram fundamentalmente constituídos por Ovimbundos e Ganguelas, provenientes do Centro de Angola.
À barbárie tribal, responderam as forças portuguesas de forma implacável. No dia 9 de Agosto, o Exército entrou em Nambuangongo, que havia antes sido proclamada a capital dos revoltosos. Antes do fim do ano de 1961, de forma incompreensível e estranha , alguns responsáveis portugueses davam as hostilidades por terminadas, o que estava longe de acontecer, como se sabe.
A UPA, por ser o primeiro Movimento independentista a iniciar as hostilidades em grande escala, mobilizando alguns milhares de "combatentes" e não só, acabou por conseguir um grande apoio internacional, desde os Estados Unidos até aos vários países africanos. Visando corrigir a sua conotação tribal, a UPA veio a transformar-se na Frente Nacional de Libertação de Angola (FNLA) em Março de 1962, integrando o PDA. Pouco depois a FNLA constituiu um Governo Revolucionário de Angola no Exílio (GRAE), que, em fins de 1963, estava reconhecido pela OUA e por 32 países africanos.
O Povo do Negage jamais esquecerá aquilo que sofreu quando eclodiu o terrorismo, com a "heróica" acção das gentes de Holden Roberto. A noite negra tarda muito a amanhecer, pois a alvorada é sofrida pela saudade que nos sufoca.

terça-feira, 4 de agosto de 2009

OUTRAS GUERRAS...

*Sequelas da guerra *
*
...parecem ser necessárias para que alguns incrédulos possam julgar por si mesmos aquilo que poderá fazer - ou desfazer, tanto importa - o carácter de uma pessoa, quando submetida à pressão que é não saber se acorda no dia seguinte, por mercê da acção inimiga que teima em lhe coartar qualquer possibilidade de viver a sonhar com um amanhã... que poderá nunca acontecer.
Perguntarão, aqueles que me conhecem, o porquê de estar para aqui a gastar os neurónios com coisas tão estranhas de se pensar, quanto mais de dizer, até porque dei um pouco da minha vida em terras onde se nasceu e cresceu sobre o signo de uma Bandeira que representava uma Pátria grandiosa em passado, gloriosa em gestas e ridente no porvir que se construía paulatinamente do Minho ao Algarve, daí até às Ilhas atlânticas, a Cabo Verde e São Tomé, à Guiné, a Angola, a Moçambique, à Índia, a Macau, a Timor... onde se lutou de forma insana contra aqueles que haviam aparecido com ideias novas para aqueles territórios, porque nos haviam ensinado ser ali um pedaço de Portugal... e morreu-se por essa convicção de que Portugal era, na realidade, uma imensa Pátria em pedaços repartida!
Foi assim que vi muitos Camaradas de Armas, não importa agora se da Terra, do Mar ou do Ar, verterem o seu sangue por essa convicção, tal como foi o sangue de milhares de Portugueses, sem distinguir qualquer raça ou religião, extracto social ou categoria profissional, que veio a regar generosamente com o seu sague aquelas terras que haviam sido demandadas pelos nossos antepassados nos tempos de antanho.
Muitas vezes recordo o que foram as epopeias de Mucaba, de Nambuagongo, do Quitexe, da Pedra Verde, dos Dembos, logo no dealbar dos anos 60! Tenho presente o ataque de 4 de Fevereiro feito às cadeias em Luanda e ao quartel da Polícia Móvel, mas muito profundo é o que está gravado no cérebro quanto os massacres levados a cabo no Norte de Angola a 15 de Março de 1961!
Podem continuar a dizer que foi para vingar os acontecimentos da Baixa do Cassange, em Janeiro de 1961, porque isso não basta para me convencer que os apaniguados do Cónego da Sé de Luanda, os sequazes do Padre Mário Pinto de Andrade e do irmão, do Viriato da Cruz e do Agostinho Neto, convictos comunistas, não sabiam que a UPA ia atacar no Norte... porque ninguém se bom censo acredita nisso.l Estavam concertados para fazer massacres e com eles "correr com os brancos para o mar", como muitas vezes diziam durante oa ataques. O MPLA e a sua Frente Unida, que pretendia fazer a guerrilha contra os portugueses, conforme o manifesto de 1956, dizia que não era tribalista... mas era sectário e aproveitava-se do trabalho dos outros.
Quem fizer exercícios de memória recordará o que foi a luta de velhos colonos que "fizeram o Negage", como o Fernando Santos e família, o João Ferreira, filhos e demais familiares, a família Baganha, o Jesuíno Dias e família, os Carvalhosa, o Horácio da Papelaria e o irmão, a Família Fernandes, o velho Ginja, o Manuel Ribeiro Manso e família, os Costas, as Famílias Pires, Valadares ou Pedrosas, o Manel da Ana... e tantos... tantos outros cidadãos anónimos que lutaram abnegadamente para darem uma razão de ser às suas vidas, pugnando até à exaustão pela sua dignidade e a dos seus!
Falta referir muita gente? É verdade que sim, mas não pretendia estar para aqui a fazer uma lista "daqueles em quem poder não teve a morte", mas tão só dizer que o Negage foi obra de Homens e Mulheres que, "onde necessário e quando necessário" também souberam dizer "PRESENTE"!
De todos os que se apenas a razão da força ousou vencer, deveremos apenas dizer: "HONRA-SE A PÁTRIA DE TAL GENTE"!