sexta-feira, 10 de julho de 2009

Dona Beatriz do Congo ou Kimpa Vita

Impressiona a história do grande reino do Kongo, que se estendia por ambas as margens do rio Zaire e abrangia a maior parte da região norte de Angola e o sudoeste da República Democrática do Congo até Bandundu e Kananga.
Pode afirmar-se que era um dos maiores e mais poderosos estados da costa ocidental de África, mais de trezentos anos antes da história que me proponho contar.
Ainda hoje os investigadores históricos se mostram intrigados pelo facto de, inversamente àquilo que se sabe ter acontecido noutras regiões do continente, os primeiros contactos com os recém chegados europeus – no caso vertente os portugueses – não resultaram na destruição do reino do Kongo, pois foram bastante pacíficos e muito vantajosos para ambos os lados. Esses contactos, que foram iniciados em 1482, deram lugar a um longo período pleno de amizade e de progresso.
Quando, em 1491, os portugueses chegaram à capital, M'banza Kongo ou M'Banji-a-Ekongo, o manikongo (rei) da época, Muene-Muzinga-a-Cuum, pediu-lhes para ser baptizado, tendo então recebido o nome do rei de Portugal, D. João.
Mais tarde, por volta de 1507, o seu segundo filho, M'benza-a-Nzinga, ao tornar-se no manikongo Afonso, lançou-se na transformação completa do Congo em reino cristão, mandando construír igrejas e mudando o nome da capital para S. Salvador, além de procurar, a todo o custo, “europeizar” o seu povo. Desejava desenvolver, de uma maneira pacífica, a sua terra, procurando fazer um enxerto da cultura do pequeno reino ibérico e trocando amiúde corresponência com o monarca el-Rei D. Manuel I de Portugal, a quem tratava de forma carinhosa por "meu irmão" .
Por outro lado, D. Manuel I alude a D. Afonso I do Congo nas precisas instruções que eram transmitidas a um seu representante nas terras de África, como “ um rei a quem temos mui grande amor e que estimamos por sua virtude, como ele merece ”.
A deterioração das relações entre o rei do Kongo e os portugueses poderá ser considerada uma tragédia, pois foi um conjunto de erros e de posições estremadas de parte a parte. Por um lado o manikongo confundiu o cristianismo com o poder, tomando decisões politicamente menos acertadas, por outro, a ambição dos negreiros de São Tomé que estavam combinados com traficantes instalados na costa, e a intermediação feita por alguns missionários, incrementavam de forma crescente o comércio de escravos.
A escravatura já era conhecida no Congo muito antes de os portugueses haverem chegado, embora sob a forma de uma servidão, muitas vezes temporária, resultante da punição de crimes, do pagamento de dívidas ou por captura feita pelos inimigos no decorrer de lutas tribais. Mas D. Afonso do Congo não demorou a perceber as vantagens que poderia auferir com a venda de escravos aos europeus, que necessitavam deles para as grandes colónias do Novo Mundo, além de que entre os próprios clérigos, muitos se revelavam destituídos de qualquer vocação missionária, antes se mostrando mais interessados em preencher o papel de comerciantes de vidas humanas.
Para manter escravos em stock, D. Afonso I fez guerra às nações vizinhas, sobretudo ao reino do N'Dongo, fazendo grande número de prisioneiros que posteriormente vendia para a costa.
Mesmo depois do seu reinado, estas guerras continuaram, até que em 1556 as forças do filho de D. Afonso, o manikongo D. Diogo, foram derrotadas e este perdeu a vida durante os combates.
O seu sucessor governou um reino tão enfraquecido que os jaga conseguiram derrotá-lo, deixando o Kongo em escombros, no meio dos quais os sucessores de Afonso presidiam ao arremedo de uma corte europeia.
Desta situação caótica que se vivia nos fins do século XVII, chegam-nos ecos através do relato de um padre capuchinho, Lourent de Lucques, que em 1701 escrevia:
As notícias provenientes do Congo são cada vez piores e as inimizades entre as casas reais estão a dividir o país cada vez mais. De momento contam-se quatro reis no Congo. Há também dois grão-duques em Mamba; três grão-duques em Ovampo; dois grão-duques de Batta e quatro marqueses em Enhcus. A autoridade de cada um deles é cada vez mais fraca e estão a destruir-se mutuamente, com grandes guerras entre eles. Todos querem ser chefes. Lançam ataques contra o território dos outros de modo a roubar e a vender os seus prisioneiros .”
São Salvador de Congo entra então em ruína completa e a população começou a abandonar a capital.
No meio de tanta adversidade ocorreu um inesperado e insólito facto: Como sempre acontece, é o povo quem mais se ressente com as consequências do declínio e anseia por dias melhores, pelos tempos de Afonso, filho de João. Muitos estão convencidos que o renascimento da fé cristã poderia fazer voltar os dias felizes do tempo da chegada dos primeiros portugueses, daí resultando o rápido alastrar de um certo fanatismo religioso, com foi o aparecimento de profetizas e profetas a anunciarem visões e revelações, misturando a religião com crendice e política. Uma mulher teria visto a Virgem Maria, que lhe comunicara estar irritada pelo que vinha acontecendo no Kongo; um jovem proclamava que Deus iria punir o povo se a cidade de S. Salvador não fosse reconstruída rapidamente.
Uma mulher chamada Ma-Futa, chegou mesmo a declarar que possuía a cabeça de Cristo, desfigurada pela perversidade dos homens – concluiu-se que não passava de uma pedra do rio Ambriz. De outra vez, Ma-Futa teve uma visão da Virgem Maria e soube das catástrofes e desastres que ocorreriam se o manikongo não recuperasse a cidade. A rainha convenceu-se dos poderes de cura e adivinhação de Ma-Futa e espalhou-se o boato de que esta era uma santa. Quando os caridosos missionários da fé a quiseram levar a julgamento por bruxaria, o manikongo protegeu-a, impondo a sua autoridade.
Todos estes acontecimentos conduziram a um novo fervor religioso que haveria de empolgar todo o Congo e ao aparecimento de uma mulher que iria tentar o renascimento nacional, através da sua própria interpretação da fé cristã.
Kimpa Vita, de seu primeiro nome, surge e vive neste contexto. Era de origem nobre, da aristocracia Bacongo, sacerdotisa do culto de Marinda, habituada aos meandros do poder e às intrigas da elite governante, pelo que teve consciência do malogro desta classe e, ao mesmo tempo, observou com bastante perspicácia a forma como alguém, como Ma-Futa, influía eficazmente nos espíritos e nos acontecimentos. E tomou a decisão de assim fazer, na qualidade de D. Beatriz.
Como quis revelar mais tarde, começou tudo durante um longo período de doença em que esteve às portas da morte e lhe apareceu Santo António. Não havia nada de muito extraordinário na escolha do santo – era um santo português, muito reverenciado por missionários e colonos nos reinos do Kongo e N'Dongo – a diferença residia no facto de não se tratar de um santo “ branco ”.
O Santo António que apareceu a D. Beatriz assumiu o aspecto de um dos seus irmãos, aglutinando numa mesma pessoa a religião estrangeira e uma personalidade africana. Estava mesmo à medida do que D. Beatriz desejava para a restauração de um reino como romanticamente se acreditava que fora o de Afonso I.
À semelhança de muitos místicos em todo o mundo e em todas as épocas, renunciou à coisas materiais. Chegou mesmo a imitar a morte de Cristo – os seus seguidores convenceram-se de que morrera numa sexta-feira, subindo aos céus para advogar a causa do seu povo e ressuscitou no sábado seguinte. A sua mensagem política era simples: o Congo devia ressurgir, renascer e o aparato religioso de que se rodeou ia de acordo ao imaginário da sua gente. Foi fácil ser aceite de imediato por quase todos aqueles que ouviam a sua voz.
Continua...

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