sábado, 18 de abril de 2009

O REI DO TÔTO...


O Toto poderia ser apenas uma fazenda que ficava próxima do Bembe e do Colonato do Vale do Loge, mas, nunca se saberá como, era pertença de um fazendeiro natural da região de Leiria, de sua graça Cid Adão Gonçalves, pois lhe havia sido distribuída pela administração da colónia A METRO (!!!), isto é... a administração havia-lhe atribuído a propriedade de um território com um raio de 20 Km, cujo ponto central seria a lagoa do Toto.
Ficou com direitos sobre as populações nativas ali existentes, que perderam a sua terra e passaram a ser criados desse "CidAdão", sem direito à utilização de um simples palmo de terra daquele rincão que havia sido a sua antiga terra de subsistência. Além do mais, ficou o branco com a obrigação de os empregar... mas sem quaisquer salário estabelecido.
Em 1961 foi esta uma zona bastante atingida pelos levantamentos das populações nativas contra os fazendeiros brancos, razão porque, por essa altura, Cid Adão Gonçalves resolveu abandonar Angola. A mim disse ter estado de licença (?), que era de seis meses por cada dois anos, como acontecia a todos os funcionários administrativos no território. Só que não consigo entender qual a qualidade em que ele geria o Toto: - era o dono ou era funcionário do Estado?
Foram para ali, na antiga fazenda, acantonadas diversas Unidades Militares. A cerca de 200 metros e numa pequena casa construída depois que a tropa lá chegou, residia o feitor do Cid Adão Gonçalves, que explorava um pequeno estabelecimento onde se vendia de tudo um pouco e que servia igualmente como posto de correio e hotel local.
A pouco mais ou menos de 500 metros do estabelecimento, existia uma pequena sanzala onde os nativos, que seriam entre 100 e 200 pessoas naturais da agora fazenda do Cid, iam subsistindo entalados entre dois medos: - o dos terroristas e o da "tropa! De uns porque os acusavam de colaborar com os brancos, dos outros por não se destinguirem dos turras.
No alto de um pequeno monte sobranceiro à aldeia e ao quartel, erguia-se uma pequena ermida que foi construída pelos missionários da Missão do Bembe.
Ao redor do quartel havia uma plantação de palmeiras, que dava um ar agradável àquele aglomerado que se estendia por cerca de 2 Km até à lagoa do Toto, que tinha aproximadamente 800 metros de diâmetro e constituia um local agradávelmente bonito. Dessa lagoa, durante alguns tempos, se retirava a água para o uso diário, por ser de boa qualidade.
Mas... não foi preciso muito para que a água deixasse de oferecer confiança, quer pela sua utilização para os militares se banharem, quer ainda porque os "turras" trataram logo de a inquinar, como é lógico. Num instante passou a ser frequente encontrarem-se animais mortos nas suas águas, que chegaram a matar alguns militares pertencentes ao Aeródromo de Manobra nº. 32, onde vim a permanecer durante um ano, mais coisa menos coisa.
O Cid Adão Gonçalves, talvez pelo facto de haver várias Unidades Militares aquarteladas no Toto, das quais poderei citar a Companhia de Intendência, o Comando Militar do Sector, a Companhia de Artilharia, o Pelotão de Apoio Directo ou o Aeródromo de Manobra, sentiu-se à vontade para voltar ao seu império... o que não tardou muito a acontecer, dando azo às várias histórias que tenho para contar, pouco a pouco, porque quero deixar um pouco de suspense no ar, apenas para vos abrir o apetite para as seguintes, acreditem.
Depois vão vêr que valeu a pena esperar.

6 comentários:

Manuel disse...

se souber mais historias do cid adao gonçalves gostaria de saber pois estive no toto 4 anos de 1967 a 1971

Anónimo disse...

sou descendente do Tôto e penso fazer este ano uma visita para um registo do que resta da vida que lá se viveu

gisela disse...

oCid era meu avô por afinidade por ser padrasto da minha mãe. Passei grande parte da minha infancia no Toto e ainda mantenho contacto com gente de lá. A filha do Cid , minha tia, vive em Arouca - Portugal.

Anónimo disse...

Boa tarde, o meu nome é Paulo Cid, como o nome indica sou familiar de Cid Adão Gonçalves (meu avô).

Ao ler o seu blog reparei que faz uma pequena confusão entre o meu avô e o meu tio.

O meu avô faleceu em 1966 tendo o meu tio Cid Adão Lasbarreres Gonçalves tomado o seu lugar.

Eu tenho em meu poder um folheto que melhor o pode informar sobre o meu avô e sobre o TOTO.

Caso tenha interesse deixo aqui o contacto de um familiar meu directo bakardo@hotmail.com

Espero que deseje corrigir o seu texto em breve.

P.S: Caso envie um e-mail escreva no assunto "cid adao", obrigado

Anónimo disse...

Lembro-me de numa das suas viagens a Luanda, no Amazonas, alguém ter proferido o nome de Sr Cid, uma outra pessoa que estava na mesa ao lado, disse: Então o senhnor é que é o senhor Cid do Toto? Não senhor seu filho da ...,o Toto é que é que é do senhor Cid. Apesar de ter ido e passado pelo Toto várias vezes, não tive o prazer de conhecer este senhor.

Anónimo disse...

Boas! Na revista militar com o titulo "Os últimos filhos do imperio colonial" vem a falar do Sr. Cid Adão, espero que passem la para dar uma olhada, obrigado