quinta-feira, 5 de março de 2009

ANGOLA OS DIAS DO DESESPERO

Vítimas do terrorismo - 1961
d
Quem alguma vez pretenda documentar-se sobre os trágicos acontecimentos que vieram a empapar de sangue inocente a mártir terra de Angola, forçoso será dizer-se que terá de lêr a obra de Horácio Caio "ANGOLA: OS DIAS DO DESESPERO".
Ao acaso, abri o livro numa página onde consta este relato:
“Os primeiros refugiados vêm do Toto e Negage. Outros chegam de Quitexe, Quibaxe, Cuimba, Mavoio, Camabatela, Nambuangongo e Nova Caipemba. Vou tomando nota dos nomes: Celestino Guerra Pereira, outro velho por cujos queixos corre uma barbicha rala e grandes lágrimas e que me fala, soluçando, nos companheiros que lá deixou: Guilhermino Pereira, António da Rocha e mulher e filhos; Maria Rosa Soares, que descreve os pormenores da chacina do Quitexe e me fala da acção do Dr. Almeida Santos - não tem qualquer relação com o tipo com o mesmo nome, que entregou ao inimigo as nossas queridas terras de África - que, de arma na mão, persegue os facínoras nas ruas da povoação; uma mulher ferida na mão direita à catanada, quando lutou com um negro que pretendia matá-la, e que chora agora, convulsivamente, ao lembrar que contou 26 mortos no Quitexe e que junto de si foi morta uma criançaa de 8 anos...
... Ele, 80 anos; ela 75; quarenta e cinco vividos no Quitexe. Cabelos brancos sob o chapéu e o lenço negro a cobri-los. O homem solene, a mulher com um grande braçado de flores que ia levar aos santos da igreja. Mortos assim, às 8 e 30 de ontem no Quitexe.
Não consegui saber-lhes os nomes. Mas registo a serena silhueta dos velhos, sobraçando flores que levaram ao próprio enterro.”...
Por muito que se pretenda tentar esquecer os horrores do que foi a carnificina perpetrada pela UPA, há sempre acontecimentos que levam ao avivar de recordações sobre esses tempos conturbados, seja pelo esquecimento a que os antigos Combatentes têm sido votados pelo Governo Português, ostracismo que é agravado pelo facto de os mais elementares direitos consignados aos Militares, e até o direito à sua dignidade, lhes estarem a ser sonegados regulamentarmente.
Chego a temer que, tal como acontece com as indemnizações devidas aos ex-residentes, pela perda total dos seus bens resultantes de uma vida dedicada às terras de África, o Governo pretenda vencer pelo desaparecimento dos credores, Civis ou Militares, porque com a morte considerará extinto o débito enorme que tem para com aqueles que foram os obreiros das agora independentes pátrias Angolana, Moçambicana ou Guineense, para além de outras.
É triste constatar-se que, trinta e tal anos depois que alguns Militares terem mudado o "modus vivendi" de Portugal, com a introdução da "democracia", seja necessário dar razão a Samora Machel, quando diz:
«Enfrentámos generais portugueses corajosos como Caeiro Carrasco e Kaúlza de Arriaga, que nos teriam derrotado. Mas não queremos ver em Moçambique, depois da independência, esses oficiais e soldados que se renderam cobardemente, sem sequer defenderem aquilo por que morreram tantos dos seus.»
Samora Machel
In Fatos e Fotos, n.º 724, 07.07.1975.

3 comentários:

Anónimo disse...

Gostei de tudo o que li, mas, duas coisas me chamaram mais a atenção, uma a alusão a Almeida Santos. A segunda, para mim a mais importante, por ter sido proferida por quem foi,acerca dos militares indesejados em Moçambique, após a independência. Samora teve toda a razão. Mas não aconteceu só com os que em Moçambique prestaram serviço, mais grave do que isso talvez aqueles que em Angola, armavam a Unita, para não serem atacados, esquecendo-se de que no terreno andavam outras forças e que eram elas quem iam pagar pelos erros cometidos pelo exército. Caso da PIDE, da PSP (Guarda Rural) e Segurança Pública. Recordo-me de um dos incidentes mais grave em 1970, ataque a uma coluna dos madeireiros da Chicala, nas proximidades do Lugue-Bungo, onde perderam a vida cinco elementos da Guarda Rural, três dos quais queimados vivos, para além da destruição pelo fogo, de quatro ou cinco viaturas. Era guerra, por esse motivo, todos que por lá andavam, estavam sujeitos a sofrer graves consequências. Mas saber que um movimento estava a utilizar armamento e monições fornecidas pelo exército, para matar quem os defendia até às últimas consequências, cria uma grande sensação de revolta. Foi o que aconteceu comigo. Não mais vi com bons olhos os elementos do exército. Desconfiando tanto deles como dos negros que encontrava nas picadas, sem saber o motivo porque por ali estavam.

nell teixeira disse...

Como ex combatente e residente em Angola, teriamos muito que conversar estou certo. Gostei do seu blog, como de tantos outros que falam de Angola. Gostaria que pudesse consultar este que anexo quhttp://carlos-las-heras.blogspot.com/e ate porque sou testemunha das situacoes descritas.
Se quiser contactar me escreva para emanuel1950gmail.com, Saludos, desde Barranquilla, Colombia.

Anónimo disse...

O dia mais deseperado da minha vida, foi precisamente no dia em que a UNITA, armada por alguns malfadados militares, atacou a coluna de madeireiros da Chicala, nas proximadades do rio Lungue-Bungo. Alguns eram dos melhores homens por mim comandados, tendo entre eles, alguns, pertencido aos comandos. Contudo, sabendo aquelas bestas que se não usassem dum exesso de poderia bélico, não levariam a melhor, sobre aqueles bravos e destemidos homens, organizaram um embuscada, de forma a que todas as viaturas fossem atacadas simultaneamente. Para ali enviou a UNITA, comandada por esse selvático Savimbe, todo o poderia que no momento dispunha na região. Para dar uma ideia das forças da Unita, diga-se que a embuscada teve uma extensão de 400 metros. A maior incidência de fogo, foi para a primeira viatura, onde eu, sempre que fazia parte da escolta, tomava lugar. Os três elementos da escolta que o cupavam essa viatura, foram queimados e reduzidos a cinzas, porque segundo parece sobre eles, ainda vivos, foram lançadas gradas de fósforo. Dos três apenas um se conseguiu identificar, homem dos seus noventa e tais kilos, não porque fosse gordo ou obeso, mas porque tinha uma estatura relevante. Para se ter uma ideia do estado em que ficou, devo dizer, que os seus restos mortais, foram transportados numa lata das usadas pela manutenção militar, para chouriço, 5 kgs. A sua identificação foi conseguida porque, saiba-se lá porquê, o dedo anelar, que continha a aliança de casamento, ficou praticamente intacto. Ainda hoje me arrepio e me pergunto, porque é que aquele pequeníssimo, comparado com o resto do corpo, dedo, não ficou carbonizado. Também me interrogo porque é que quando eu ao saber do que estava a suceder, me dirigi ao comandante Distrital, a pedir para fazer parte da força militar que ia ser heli-transportada para o local, tal me foi recusado. Pior ainda, é que ao sugerir que me fosse fornecido pessoal para encetar uma perseguição aqueles bandidos, me foi respondido de que ao pensar daquela forma, o melhor que fazia era pedir demissão da PSPA-G.RURAL. Ao que respondi que quando aquele Sr. foi para a PSPA, eu já lá estava, e, ao contrário dele, era um profissional de Polícia, ele iria embora da Corporação, eu continuaria. Para se ter uma ideia de quanto o Savimbe, era selvático, numa embuscada perpetrada contra uma viatura, da PSPA, ramo de segurança, entre o povo Muceque e Chicala, onde foram mortos dois agentes e feridos outros, um deles, pensando os bandidos, ser a minha pessoa, dadas as semelhanças físicas e uso de óculos escuros, decapitaram-no. Veio a saber-se de que a cabeça tinha sido embalsamada, e servia de talismã, a um grupo daqueles bandidos. Num outro local de Angola, cheguei a ser ameaçado, por um oficial do exército, comandante de uma companhia, só porque quando havia qualquer ataque de forças terroristas, a uma qualquer unidade agrícula, viaturas de civis ou de qualquer outra índule, as nossas forças, dado possuirem viaturas mais rápidas, iam em socorro de quem dele necessitava, não esperando pelos militares, o que, segundo eles, os desprestigiavam. Quero aqui deixar a todos quantos lutaram pela segurança e bem estar, de brancos e negros, que com seu suor tentavam viver em paz e harmonia, um bem haja. Àqueles que devido à sua bravura tomabram, paz à sua alma.