segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

FOI CARNAVAL ???

Nestes tempos de folia carnavalesca, vem-me à lembrança os tempos em que vivi no Negage e em Nova Lisboa, porque eram tempos de dificuldade pelas agruras de uma guerra fraticida que ia acontecendo um pouco por toda a África de soberania portuguesa.
Que me lembre, o Carnaval apenas tinha alguma expressão no Sul de Angola, com especial incidência em Nova Lisboa e no Lobito, para não falar em Luanda, que exorcisava os temores do conflito armado com uma vida sempre à pressão, onde não faltava uma exuberantemente bem conseguida vida nocturna, com shows para todos os gostos... até para tentar tirar dividendos da permanência dos Militares que combatiam o bom combate nos matos do Norte e Leste.
Nos meus anos de guerra, habituei-me a assistir aos "corsos" dos Militares que desfilavam na Marginal, como acontecia nas terras onde ficavam aquartelados, nas alturas em que os diversos Batalhões, as Companhias ou os Pelotões procediam às despedidas, porque estava iminente o seu regresso à Metrópole.
Pergunto-me se haverá motivo para alguém se escandalizar por vêr tantos folgazões a usar roupas militares nos folguedos carnavalescos, uma vez que foram as fardas a "máscara" mais usada pelos jovens filhos deste País, lá pelas terras da guerra! Porque me parece, apenas e tão só, que as fardas que foram usadas com dignidade, quando em Comissão de Serviço, deveriam ser guardadas como memória desses tempos e não usadas de forma mais desrespeitosa, como fantasia de Carnaval.
Tampouco deveria ser permitido o uso de artigos militares nas caçadas ou nas obras, porque estou ciente que não é o hábito que faz o monge... mas monge sem hábito suscita sempre dúvidas!
Os jovens Militares podiam não gostar muito de andar fardados... mas quando se fardavam sabiam que lhes era pedido total respeito na defesa da dignidade da Arma a que pertenciam... e a farda que envergavam.
Perguntará quem me lê: - "Isto tem alguma coisa a vêr com o Entrudo? É que se diz que no Carnaval nada parece mal, ainda que seja andar a fingir ser militar!".
Não concordo nem discordo deste raciocínio, mas quem levar as mãos à consciência para pensar um pouco, verá que terá havido sangue demais a ser derramado por jovens que morreram para honrarem aquelas fardas, houve jovens que ficaram confinados a uma cadeira de rodas, que receberam deficiências várias que os marcaram para todo o sempre... e isto aconteceu quando se "mascararam" de Militares para defender as populações e os territórios onde flutuava a Bandeira das quinas, sobre a qual juraram fidelidade!
Não será isto motivo mais que suficiente para respeitar as fardas militares? Nem sequer aqueles que desertaram ou mostraram cobardia debaixo de fogo devem dar azo à conspurcação das fardas, porque eles, quando cometeram os actos que lhes são imputados, desonraram a farda que envergavam... e esta desonra não se limpa com aviltamento ou desrespeito para com a mesma!
Afinal... no Carnaval sempre haverá coisas que parecem mal!

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