quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

UM NOVO ANO DE SAUDADE...

Quem andou pelo Uíge
e no Negage viveu...
...aquilo que se exige
é que sinta como eu!
Vivo intensa saudade
dos amigos que lá fiz...
...porque esta é a verdade:
No Negage fui feliz!
E por isso o Fim da Ano
não é pleno de alegria...
...posso dizê-lo, ufano,
que recordo no dia-a-dia
os tempos que lá vivi...
...e fico triste, tão saudoso,
quando me lembro de ti,
e sou então venturoso
porque um dia te conheci!
*
A TODOS OS AMIGOS VERDADEIROS,
POIS NO NEGAGE OS HAVIA...
UM NOVO ANO TÃO "PORREIRO"
COM SAÚDE, AMOR, ALEGRIA...
E QUE O BOM DEUS NOS DÊ SEMPRE
O PÃO NOSSO DE CADA DIA!

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

É NATAL... tanta saudade!!!

Sim! O Natal no Negage foi marcante para mim, quer ao nível da minha Unidade, o Aeródromo Base 3, quer da urbe, onde se notava uma alegria entre as pessoas que era quase contagiante! Os jovens militares procuravam afanosamente qualquer coisa que pudessem enviar para as famílias na Metrópole... e havia tanta coisa bonita a fazer arregalar os olhos!
As montras do Gaspar e Fernandes, do Manuel Ribeiro Manso, da Papelaria 13 e um pouco por todo o lado onde se fizesse comércio, eram convidativas e as novidades japonesas ou chinesas, os brindes made in África do Sul... e muitas vezes da Metrópole, aguardavam o aparecimento de umas notitas daquelas com fauna Angolana, mesmo que preferencialmente fossem mais bem vindas as "Donas Marias" vindas do "Puto", da parte da madrinha ou da avó, não importava! Era preciso é que elas não viessem a faltar.
Na Base... bem... a Cantina era uma rainha nas vendas de Natal, pois comprava ao preço da uva mijona e vendia pelo mesmo preço... para quem quizer acreditar que assim fosse. Aí se comprava mil e uma maravilhas, a par do "VAT 69", do "Napoleon" do "Chivas" ou outra qualquer bebida generosa que... talvez viesse de Sacavém, quem sabe?
Bem... depois destes desabafos, apenas me resta desejar a todos os que me lêem, aos que do Negage têm recordações, aos que comigo sofreram nas terras do Norte as agruras da separação da família, dos amigos, da Pátria! E que a recordação daqueles que lá deram o seu sangue se justifique em cada Natal, pois eles eram os melhores de todos nós!

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

RECORDAÇÕES DE UM OUTRO NATAL...

Neste tempo de Advento, quando começamos a pensar naquilo que foram outros Natais vividos, especialmente aqueles que aconteceram quando em missão de soberania em defesa da Pátria, lá pelas terras de África, costumo recordar aquele que aconteceu no ano de 1961 no Toto, no Aeródromo de Manobra, um Natal que até mereceu ser notícia na "Revista do Ar" de Janeiro de 1963, em artigo escrito pelo ilustre Coronel Piloto Aviador Edgar Cardoso.
O Toto era então considerado uma zona insubmissa de Angola e raras eram as noites em que não se ouvia o "alegre" crepitar das armas, em resposta às arremetidas dos nossos ilustres visitantes da UPA. No Aeródromo estavam cerca de 80 homens a preparar-se para celebrar o nascimento de Jesus, naquele Natal de 1961. No entanto, porque estava anunciado que com o Salvador também viria mais um ataque terrorista, os homens estavam preparados para o combate, conscientes de que o momento era propício para um ataque de "surpresa". Tudo estava preparado para a confraternização natalícia quando um pequeno avião de transporte, vindo da Base Aérea nº. 9, de Luanda, aterra na pista do A.M. e dele sai o Brigadeiro João Anacoreta de Almeida Viana, da Força Aérea, o qual, dirigindo-se ao Tenente PA António Perestrello, que era quem comandava aquela "Malta do Capim", dispara:

- "Perguntei lá em Luanda qual era o sítio mais arriscado, ou melhor, mais causticado da Força Aérea. Eles falaram-me no Toto e por essa razão venho até cá passar o Natal convosco! Boas Festas, Comandante!

À noite, organizou-se uma grande mesa no pobre recinto, e "ali estava o Presépio, hábil e pacientemente arranjado pela rapaziada, a confirmar que Deus estava com todos eles". A mesa destinava-se ao Brigadeiro , aos Oficiais... e a todos os Soldados. Saberiam eles que era, assim mesmo, "A Mesa" do antigo Exército Português, comendo Oficiais e Soldados o mesmo pão e na mesma sala, sentados os Comandantes com os Comandados?!" Prendas, brindes, discursos, pois não havia nem "assistência Religiosa nem a Missa do Galo habitual. Mas ali estava Deus, mesmo entre eles. E estava também Portugal! Distribuiram-se prendas a toda a gente, a Oficiais e a Soldados sem distinção, e aos pretos, claro que tinha de ser. "Quando se aproximava do seu termo a festiva cerimónia, os Soldados, de moto próprio, resolveram em comissão presentear o Oficial General com armas gentílicas arrebatadas aos terroristas em combate.". Eram os seus queridos troféus! O Brigadeiro respondeu-lhes assim:

- "O Toto pode acabar, mas este Natal jamais pode ser esquecido! Obrigado pela vossa significativa oferta: como nada tenho para vos dar em troca, é meu dever ir para a torre fazer duas horas de sentinela em vez do soldado mais bem comportado a quem tal competir!".

(As torres eram umas estruturas improvisadas, feitas de troncos, madeiras e pregos capturados aos terroristas, e que serviam de atalaiss elevadas no campo).

Noite fora, os Soldados dormiram (se puderam dormir, após este encontro com Deus e com Portugal de Antanho!), porque, após o Brigadeiro seguir para a torre, também foram o Tenente Comandante do AM, os Sargentos e os Cabos, que se foram sucessivamente oferecendo e depois, por ordem hierárquica, de torre para torre gritavam: - "Sentinela alerta!" e nesse momento sentiu-se que ali Portugal podia responder, com verdade: - "ALERTA ESTÁ!"

sábado, 14 de novembro de 2009

POR VEZES... A SAUDADE DÓI

Se há coisas quase impossíveis de esquecer, uma delas deverá ser aquela sensação sentida quando alguém sente que chegou a um sítio onde jamais pensou chegar... a não ser que seja um sonhador que houvesse encontrado forma de "construír" cenários para os seus sonhos.
Não se pense que estas palavras terão alguma razão de ser se não forem devidamente explicadas...e para isso aqui estou a escrever este "post", que pretende dar a conhecer o que foi a minha primeira impressão quando pela primeira vez pisei terras do Negage.
Encontrei uma paisaigem bastante diversificada, onde o solo é vermelho, não pelo sangue que possa ter sido vertido nela mas porque a terra tinha realmente uma cor a lembrar os mártires que tombaram na região na sanha terrorista empreendida pela UPA naqueles dias tristes de Março de 1961.
No que à minha nova Unidade respeitava, não foi de todo decepcionante o panorama que desfrutei, pois tratava-se de um Aeródromo Base simpático, bastante florido, estruturalmente bem concebido, com um bom enquadramento das estruturas, que eram básicamente concebidas em módulos pré fabricados de regular qualidade, exceptuando-se a cantina da Unidade e o Clube de Oficiais, que eram edificações construídas em betão, blocos de cimento e tijolo, ou a Secção de Transportes e Carga Aérea, que estava a funcionar sob a carcassa de um avião "Skymaster" que se havia acidentado ao aterrar na pista do Aeródromo.
A vila também me não deu para arregalar os olhos, porque era uma povoação tipo daquelas que imaginava quando ainda estava na Metrópole: - uma ampla e comprida avenida, na qual funcionavam os principais serviços administrativos da urbe e se podiam vêr duas unidades do Exército - 3ª. Companhia de Caçadores e Companhia de Artilharia -, a Messe e o Clube de Oficiais da Força Aérea, a Igreja de São José Operário, o Hotel Avenida, o cinema do Desportivo, alguns restaurantes e cafés, uma papelaria, alguns estabelecimentos comerciais, um fotógrafo, etc.; uma avenida perpendicular à anterior, com mais unidades militares - PAD, Intendência, etc - um posto de abastecimento de combustíveis da Shell, uma fábrica de descasque de café, uma relojoaria, mais uma lojas de comércio geral...
Depois havia a avenida do Colégio do Negage, que era mais uma montra a mostrar que o Negage caminhava para a passos largos para a obtenção do estatuto de cidade.
Não sei como seria o dia-a-dia das gentes do Negage antes das Unidades Militares ali se estacionarem, mas creio sinceramente que terá sido decisiva a instalação dessas Unidades para o incremento daquele aglomerado populacional, pelo menos no que concerne ao desenvolvimento do parque habitacional, do comércio local e serviços ou dos equipamentos destinados ao lazer.
Pelo que me apercebi, a sociedade civil do Negage já tinha uma vida mais ou menos bem delineada quando o terrorismo a veio perturbar e mudar o seu estilo de vida, que passou a ter de contar com as suas capacidades de sobreviver até que a "tropa" veio ajudar a seguir em frente e fazer que pudesse voltar a ter confiança no porvir.
Quando se deu a independência, foi a guerra civil que destruíu muito do que havia sido conseguido, infelizmente! Tirou-se ao Negage a possibilidade de ser um orgulho para Angola, quanto àquilo que construíu! Aos construtores do Negage e seus descendentes resta a consciência tranquila por tudo o que fizeram em prol da terra, pois honraram o seu brasão!

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

O DIA DE FIÉIS DEFUNTOS

NESTE DIA DE FIÉIS DEFUNTOS OU DE FINADOS, TAMBÉM AQUELES QUE PERECERAM EM ANGOLA, NOMEADAMENTE NO NEGAGE, MERECERÃO QUE OS RECORDEMOS E OS RECOMENDEMOS À MISERICÓRDIA DIVINA ATRAVÉS DA NOSSA PRECE.
SEI QUE A PÁTRIA NÃO ESQUECE AQUELES QUE POR ELA DERAM A VIDA EM HOLOCAUSTO... PARA QUE OUTROS PUDESSEM VIVER! POR CERTO DEUS, QUE O É DOS VIVOS E DOS MORTOS, OS RESSUSCITARÁ NO FIM DOS TEMPOS, PARA QUE POSSAM GOZAR A RECOMPENSA DA SUA FIDELIDADE AO PAI DOS CÉUS JUNTO D'ELE, DA VIRGEM MARIA E DE TODOS OS SEUS ANJOS E SANTOS, VIVENDO EM PLENITUDE A VIDA ETERNA QUE LHES FOI RESERVADA POR ELE DESDE TODO O SEMPRE!
OS MÁRTIRES DO TERRORISMO, MILITARES OU CIVIS, JAMAIS PERECERÃO, POIS ESTARÃO SEMPRE NA NOSSA SAUDADE!
.
Silêncio... toca agora a alvorada
para aqueles que pereceram
nesta terra ensanguentada,
porque, para Deus, não morreram!
Por ser dia de Finados
recordamos , esta a verdade,
tantos heróicos soldados
que vivem na nossa saudade!
E também tantos civis
que morreram trágicamente
às mãos de assassinos vis,
teremos sempre presente!

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

A GUERRA COLONIAL EM ANGOLA

Quando leio alguns "escribas" dos novos tempos, daqueles que tudo sabem, tudo viram mas tudo calaram, para que o "tacho" se não esturre e possam meter a mão na "gamela" e tirar o sustento da sua cobardia, sinto uma tremenda vontade de vomitar, porque me dá asco tanta desfaçatez... especialmente quando esses "escribas" se escudam numa Academia Portuguesa de História para haver alguma credibilidade naquilo que escrevem.
Isto para dizer que li o volume 22 sobre as Batalhas da História de Portugal - GUERRA DE ÁFRICA ANGOLA - 1961-1974, cujo texto escrito, da autoria de Rui de Azevedo Teixeira, é apenas e tão só um libelo acusatório ao autoritarismo de "um Salazar que exacerba valores e heróis nacionais" e um repositório de maldicências, insinuações e aleivosias que "tocam" no ego do Povo e desvirtuam os sentimentos que possam ser nutridos por aqueles que foram chamados a pegar em armas em defesa daquilo que sempre tiveram por Solo Pátrio de Além Mar e das suas gentes.
Apresenta como exemplos Nuno Álvares, Gago Coutinho e Sacadura Cabral, que não passariam de uma encenação ditatorial de Oliveira Salazar, que fazia gala na "mostra" do extraordinário mapa em que as colónias portuguesas estão sobrepostas à Europa, mas trata de esconder um país infectado de características essênciais negativas, como é exemplo a elevada taxa de analfabetismo, pois que se alega que "basta que saibam lêr, escrever e contar".
Com o sistema colonial de Salazar, no dizer de Azevedo Teixeira, os negros são considerados sub-homens, susceptíveis de práticas negreiras. A contestação frontal verificada na madrugada de 04 de Fevereiro de 1961, levada a efeito por um grupo de nacionalistas angolanos, que atacam duas cadeias e o quartel da Polícia Móvel de Luanda, segundo o mesmo autor, tem como objectivo libertar os camaradas presos.
Quando leio este termo "CAMARADAS" fico logo de pé atrás, pois o termo poderá querer dizer muita coisa, em termos políticos e não só, como a afirmação de que seriam membros de um Partido Comunista qualquer - o que até era verdade, ou elementos das Forças Armadas... ou qualquer coisa parecida.
Em 15 de Março, como continuação das "festas" a que o MPLA dera início, a UPA/FNLA lança um festival de sangue e morte, de destruição e lágrimas, com especial impacto nas terras do Norte de Angola! Escusado será dizer-se que o autor não gostou que Salazar só em Abril pronunciasse a célebre frase "Para Angola, rápidamente e em força!".
"Ninguém sai da guerra inocente. Nem do colonialismo!" - diz Rui Teixeira Claro que não, digo eu! E digo-o ciente de que aqueles que estiveram a lutar em África não o fizeram por gostarem da guerra nem tampouco para encher os bolsos com os chorudos vencimentos que o autor afirma serem recebidos pelos Militares combatentes!
O Soldado Português pode ser pouco marcial, como diz o senhor Teixeira no seu livrinho, pode ter sido treinado à pressa, ser mal tudo aquilo que ele queira e até negligenciado pela hierarquia... mas não é cobarde, mesmo que sinta o tal medo do ataque inesperado em que a bala espreita ou a mina espera, como disse o desertor Manuel Alegre. Aquilo que pode minar a moral do Soldado é a traição, mesmo que esta seja apenas de palavras, porque há palavras que matam mais que as balas... e o senhor Rui Teixeira sabe que os Soldados Portugueses, em Angola, em Moçambique ou na Guiné fizeram coisas realmente fantásticas, maravilhosas! Foram dignos daquilo que um dia juraram, perante a Bandeira de Portugal:
"JURO!!! DEFENDER A MINHA PÁTRIA, E POR ELA DAR A VIDA, SE NECESSÁRIO!"
Parece que os fazedores de opinião, que escreveram para a coleção das Batalhas da História de Portugal, apenas pretenderam arranjar uma ocasião para poderem denegrir o nome de Portugal de então.
Como disse Salazar..."SÓ DEVEMOS CHORAR OS MORTOS SE OS VIVOS OS NÃO MERECEREM!". Tantos anos após esta "sentença", gostaria bem não ter de chorar aqueles que tombaram em holocausto da Pátria, para que os outros vivam! Quando chorar será de tristeza por todos aqueles que não mereceram o sacrifício de tantos que amaram e serviram a Pátria para além do dever, doando-lhe a sua vida! Honra aos Heróis!

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

O "REI" SOLDADO

Já vai distante o tempo em que vi chegar ao Aeródromo Base nº. 3, na então Vila do Negage, um jovem Alferes Miliciano Piloto que dava pelo nome vulgar de Nuno Bragança. Magro, louro, de bigode bem desenhado sobre uma boca que parecia apenas saber pedir desculpa e esboçar aqueles sorrisos que distribuía para um lado e para o outro... porque eram gratuitos, dizia eu cá para os meus botões.
Aquele militar não era uma pessoa qualquer, mesmo que o ti António o houvesse mandado para Angola como mais um e não como alguém que mereceria outras honras se estivesse inserido num outro sistema governativo que não uma República, pois era apenas e tão só o HERDEIRO DA COROA PORTUGUESA!
Sei que a Causa Monárquica não estava aqui em "causa", mas o que é verdade é que aquele jovem Oficial Piloto era nem mais nem menos que D. Duarte Pio de Bragança, o Princípe da Beira e Duque de Bragança, que havia levado o seu portuguesismo ao ponto de se oferecer para servir em África, no combate ao terrorismo que havia deflagrado em Angola, Guiné e Moçambique.
Talvez a contragosto, Salazar acabou por autorizar que ele viesse para Angola... mas com expressas ordens para não ser exposto às agruras do combate e ao perigo de captura por parte do inimigo, para que não houvesse exploração do facto por parte das facções partidárias da Monarquia, como se compreenderá.
No dia da sua chegada foi um espectáculo a subserviência patente no comportamento de alguns Oficiais do AB3, que em grandes reverências, quase tocando o nariz no chão, o tratavam por "Sua Alteza", "Majestade", "Senhor D. Duarte" e outras coisas do mesmo jaez, até que o Comandante Gião colocou um ponto final no caso! O jovem piloto era o Alferes Bragança e mais nada!
Como por magia, o herdeiro da Casa de Bragança simpatizou comigo, talvez por saber que também eu tinha alguma simpatia pela Causa, passando a ser o seu confidente, o seu amigo, o seu conselheiro e tudo o que se possa dizer numa situação em que alguém confia na nossa maior experiência das coisas do Negage e nos pede que lhe sirvamos de cicerone, o que fiz com toda a boa vontade.
Pela minha mão conheceu a Vila do Negage, algumas das pessoas mais antigas da terra, como o velho Ginja, o Fernando Santos, o João Ferreira, os Padres Prosdócimo de Pádua e Fortunato da Costa, o Manuel Manso, o Professor Carvalhosa... enfim: as pessoas que havia feito o Negage, que lhe deram um estatuto, uma história capaz de não envergonhar aquele que bem podia ter sido o seu Rei.
Chamo a D. Duarte Pio o Rei Soldado sem ironia, pois Rei deveria ele ser, pela graça de Deus, e soldado era-o na realidade, porque foi nessa condição que o vimos um dia chegar às terras mártires de Angola.
Ainda hoje me pergunto se alguma vez Portugal se poderá perdoar por não ter aproveitado a circunstância de ter no seu seio um homem bom que nasceu para ser Rei... mas a quem a tacanhez de espírito dos homens resolveu recusar o lugar que a história, por direito inalienável, lhe outorgou, que é o de REI DE PORTUGAL!

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

NEGAGE é SAUDADE

O AB3 desfila em parada
No Negage jamais senti que estivesse longe daqueles que me eram queridos, porque sempre senti a impressão de que estaria no seio da família, tal a proximidade que se vivia entre as pessoas.
Num primeiro contacto com as gentes da terra, acontecido na "catacumba" da igreja de São José Operário, então em construção, que era onde se fazia a celebração da Santa Missa e se dava catequese às crianças, de imediato fiquei impressionado com a inquestionável solidariedade que era patente em todas as pessoas, que se cumprimentavam de forma afável, se convidavam mutuamente para uma churrascada ou um simples almoço entre amigos... porque era isso mesmo que eram, notóriamente.
Foi assim que no imediato me vi convidado para almoçar naquele meu 1º. Domingo no Negage, tendo declinado o convite por delicadeza... mas acabando por aceitar, tal a insistência usada, porque não queria ser indelicado para com aquelas pessoas generosas, que apenas pretendiam que os Militares, que estavam no Negage em comissão de serviço, não sofressem tanto as agruras da saudade dos entes queridos que haviam ficado lá longe!
Convidado pelo Padre Fortunato Agnoleto da Costa, missionário Capuchinho italiano, já com mais de trinta anos de missão naquelas terras, para ser catequista na paróquia, aceitei de imediato o convite, que muito me honrava.
Pouco tempo depois tive o ensejo de "fazer" o primeiro presépio daquela igreja improvisada, com a colocação na manjedoura da imagem do Menino Deus sido feita no momento em que o celebrante Padre Prodóscimo de Pádua, superior da missão e pároco de S. José Operário, fez a narração do nascimento de Jesus Cristo! Foi um momento emocionante, que jamais esquecerei!
O meu jantar dessa noite, a ceia de Natal, aconteceu em casa do Sr. Jesuíno Dias, que tempos depois veio a ser o meu senhorio, quando fui morar para os anexos que possuía junto à loja do Manuel Ribeiro Manso.
O almoço de dia de Natal foi-me servido no hotel Avenida, juntamente com alguns camaradas de armas, que também passavam as suas primeiras festas natalícias naquelas terras que já haviam provado o sabor do ódio daqueles que diziam pretender conquistar a liberdade... utilizando as armas do terror! Esse mesmo terror que levou as populações a unirem-se, a darem as mãos e procurarem lutar contra um inimigo feroz, que sacrificava velhos, mulheres e crianças em nome da liberdade.
Foi assim que vieram a "nascer" o Aeródromo Base nº. 3, a 3ª. Companhia de Caçadores, o Pelotão de Apoio Directo, a Companhia de Intendência, a Companhia de Artilharia... mas terá sido, fundamentalmente, a consciência de que a todos se pedia um bocadinho de si mesmos para que fosse possível continuar Portugal em África... que só não foi possível porque alguém traíu aqueles povos, lhes cortou cerce a esperança que haviam criado no dia em que demandaram aquela terra e se lhe entregaram de alma e coração, construíndo uma aldeia... uma vila... uma cidade de que se podiam orgulhar!
Tudo tiveram de deixar para trás, mas apenas aconteceu porque houve alguns militares que não mereceram a coragem, a abnegação, o esforço, o suor e sangue derramados por tantos heróis e mártires...para que a Bandeira de Portugal pudesse erguer-se e flutuar nos mastros!
A cidade do Negage não merecia "caír" nas maõs de gentes que não sentiam aquela terra, porque para que a merecessem era necessário que a amassem... e isso apenas aqueles que a ergueram estavam capacitados para o fazer!!!
Na minha saudade encontro sempre escrito o nome NEGAGE! Nesse nome vejo subjacente a palavra CORAGEM! Nessa coragem está implicita a HONRA, o SENTIDO PÁTRIO, o AMOR a algo que se viu nascer, crescer... mas nunca se esperou ver morrer, talvez porque O NEGAGE JAMAIS MORRERÁ! O sangue daqueles que ali foi vertido é que lhe irá proporcionar uma vida perene!

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Memórias da guerra...

Quem procurar saber o que foi a acção "gloriosa" dos chamados Movimentos de Libertação de Angola, deve procurar não tomar tudo o que se disse ter sido acontecimento como uma verdade histórica insufismável, pois muito do que se escreveu foi ditado pela tensão do momento, não foi documentado como prova histórica... por várias razões que fácilmente se entenderão.
Estou certo que alguns relatos foram vividos por outros que não os relatores, correspondendo a uma certa visão dos acontecimentos do 04 de Fevereiro ou do 15 de Março, como depois veio a acontecer com o 27 de Setembro e outras daquelas datas que foram emblemáticas do descalabro que aconteceu em Angola a partir da eclosão do terrorismo, mas talvez haja lugar a um meio termo naquilo que a "vox populorum" foi escarrapachando nos jornais e revistas mais sensacionalistas da época, que viram nos acontecimentos trágicos do Norte de Angola uma maneira fácil de arranjar mais uns milhares de Escudos à custa do sofrimento alheio.
Que lhes importava a eles, jornalistas, que as pessoas fossem ou não massacradas lá nas terras dos pretos? Alguém os mandou ir para lá? Então não sabiam que em Angola havia sempre pancadaria desde há muitos e muitos anos, havendo até quem afirmasse que desde que os Portugueses chegaram a Angola nunca mais houve sossego e talvez as populações nem vinte anos tivessem vivido em paz completa! Sabemos que isto são as más línguas do mundo... mas talvez até haja uma certa verdade em muitas das coisas que se dizem, por muito que doa admitir este facto.
Quem estiver atento ao que foi a vida em Angola nos tempos dos sertanejos Serpa Pinto, Hermenegildo Capelo, Caldas Xavier e tantos outros, não duvidará que a revolta do Bailundo aconteceu, as lutas com o Rei do Congo, com a Rainha N'djinga e com sobas, chefes tribais ou aproveitadores de circunstâncias para se aboletarem com as imensas riquezas que brotam dos solos desta imensidão que é Angola, verá que sempre houve uma certa tendência para que acontecessem todas as espécies de patifarias naquele território.
As lutas pela independência aconteceram por muitas razões, umas inexplicáveis outras não, mas aquilo que as pessoas relataram, debaixo da angustía, do terror, da dôr, talvez seja muito mais terrível do que alguns fazedores de notícias na altura relataram! Talvez Ferreira da Costa tenha dito algumas verdades nas suas "crónicas de Angola", mas apenas e tão só aquelas que não pudessem dar azo à aquisição de sentimentos de terror ou ódio pelos ouvintes da Emissora Nacional. Outros jornalistas, que seguiram as nossas tropas na reconquista de territórios como Mucaba, Nambuagongo, Quipedro, Quimaria ou Pedra Verde, também deram ao mundo a noção de que em Angola havia uma guerra de terror em que se matavam mulheres, crianças ou velhos, brancos ou pretos... desde que estes servissem os brancos ou não "alinhassem" com os assassinos armados pela cobiça de alguns países, que não se coibiam de mandar até "comissários" para o meio dos Movimentos.
E o Negage bem sentiu na pela os malefícios de uma guerra que não desejou! Até hoje!

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Angola: os tempos do terror


"Excepto nos locais onde se viam alguns clarões das fogueiras acesas por alguém que deveria estar a preparar o "matabicho", ainda estava bastante escuro quando os sete camiões, transportando soldados Portugueses chegaram. Trataram de levar os homens nos camiões, desde as aldeias até ao rio. Aí ouviram-se então alguns tiros, e houve quatro homens que caíram no rio. Via-se que os Soldados não estavam ali para brincar, fazendo-se fé no modo como procediam.
Os rebeldes negros haviam dado aos Soldados de Portugal motivos suficientes para que pudessem ver-se alguns indícios de uma actuação mais agressiva, pelo modo como se haviam comportado para com as populações, pois também estes foram objecto de autêntica carnificina, não se respeitando crianças, mulheres ou velhos! Fosse branco ou preto, desde que este estivesse ao serviço daquele, a ordem era destruír com selvajeria, pelo terror!
Actuando em grupos de 20 a 30 homens, os rebeldes pintaram os rostos de vermelho , para se tornarem "invisíveis", fumaram maconha - liamba - para tornar as "balas em água", vestiram as calças pelo avesso como um meio de identificação na fuga às rusgas.
As suas intenções eram lançar o terror entre as populações brancas, indiscriminadamente, não pretendendo apenas matar, mas também mutilar, tirando-lhes os olhos ou cortando as mãos... e a cabeça.
No total, apenas no início da sua actuação, estima-se que os rebeldes tenham matado cerca de 800 angolanos brancos.
Os Portugueses afirmaram, de imediato, que a revolta não havia sido espontânea, mas sim instigada a partir do exterior, até porque as tropas do Exército haviam capturado 71 guerrilheiros ganesas bem armados, que lutanvam ao lado dos rebeldes.
O chefe rebelde Holden Roberto, que dirige a revolta a partir de Leopoldville, tem insistido que a UPA não teve ajuda de Gana, afirmando desprezar Nkrumah por ser demasiado esquerdista. Mas o Gana e a Guiné têm promovido a ajuda comunista ao grupo denominado Movimento para a Libertação de Angola (MPLA), e Nkrumah's tem dirigido abertamente os seus esforços e da OUA no fomento da rebelião em Angola.
Não escapa. O Exérciro Português colocou em ação aproximadamente 8000 brancos apoiados por 10.000 militares leais de côr, provenientes de tribos menores do Sul de Angola, que detestavam visceralmente os do Norte, que foram quem promoveu a rebelião. E um adicional de 25.000 soldados partiram de Portugal, mas enquanto não chegam, as autoridades têm fornecido armas para defesa aos assustados civis... que por vezes fazem justiça com as próprias mãos, o que é uma consequência da actuação dos Movimentos rebeldes.
Em Luanda, grupos de vigilantes civis invadiram São Paulo, nos subúrbios, dando caça aos "suspeitos de terrorismo", abatendo 33 deles. Um porta-voz governamental relatou os acontecimentos com orgulho.
Há quinze dias em Luanda, um plantador de café avistou dois negros que reconheceu como rebeldes que, com um grupo, lhe haviam queimado a plantação. Ele organizou um grupo de brancos, que foram rua principal de Luanda abaixo . A multidão "desfez" literalmente um homem à pancada, os outros fugiram rua fora, gritando.
Muitos Portugueses de Angola dizem estar revoltados com o terror anárquico que se vive na Província, afirmando que o maior desejo é o poderem saír dali para fora. No entanto, Salazar proibiu recentemente qualquer branco, do sexo masculino e com idades entre 18 e 45 anos de deixar Angola, reduzindo drásticamente a transferência de fundos para fora de Angola.
Têm-se verificado alguns sinais de moderação em Portugal, tendo Salazar promulgado mudanças drásticas na Constituição, visando conseguir uma prática democrática no País - o primeiro passo para a resolução dos problemas coloniais latentes de Portugal no estrangeiro".
(Extraído do relatório da Missão EvangélicaHolandesa em Angola)

terça-feira, 11 de agosto de 2009

A UPA E O INÍCIO DA GUERRA

Funeral dos Guardas da PSP mortos em Luanda
em 4 de Fevereireiro de 1961
*
A União dos Povos do Norte de Angola, que havia sido fundada em Leopoldville, em 1954, tinha como objectivo programático a independência do antigo reino do Congo, em que se incluía Cabinda.
Com esta ideia em mente, Holden Roberto foi, em Dezembro de 1958, ao Congresso dos Povos Africanos, que se realizou em Acra. Perante a vitalidade da ideia do pan-africanismo, convenceu-se da necessidade de minimizar a componente tribal do seu partido, o que o levou a mudar-lhe o nome para União dos Povos de Angola (UPA).
A partir então, a UPA transforma-se no movimento nacionalista mais bem organizado e que maiores simpatias suscita, pelo que de imediato iniciou o processo de implantação nas áreas de maior dimensão, com o objectivo de se vir a estender por todo o país.
Em Luanda, a maior parte dos seus apoiantes, que não óbviamente eram clandestinos, como de resto os dos outros movimentos, eram pertencentes às comunidades protestantes. Mas tinha também a simpatia de destacados católicos, como era o cónego Manuel Mendes das Neves, decano do capítulo da Catedral de Luanda, vigário-geral da mesma arquidiocese e director do Seminário de S.Domingos.
Nestes meios nacionalistas sentia-se uma necessidade imperiosa de oposição ao sistema colonial, por inspiração das primeiras independências africanas, especialmente a do Congo Belga, em Junho de 1960. Foi na sequência desse sentimento, que se planeou o assalto às duas prisões Luanda: a Casa de Reclusão Militar de Angola e o Forte de São PauIo, essencialmente para libertar alguns presos políticos nacionalistas.
De Leopoldvillle, onde se encontrava "exilado", Holden Roberto desaconselhou este projecto, invocando que em Luanda, em torno da UPA, se movimentava um apreciável número de mulatos, entre os quais o cónego Mendes das Neves, que não eram da sua confiança. Mas também porque desejava ser ele a iniciar a guerra com uma insurreição de grandes proporções, e esta já estava em preparação para a zona dos Povos Bacongos, onde as raízes da UPA eram bastante profundas.
No entanto, os conspiradores de Luanda não só não se detiveram, como trataram de acelerar a sua execução, para aproveitarem a presença na cidade de algumas dezenas de jornalistas estrangeiros, atraídos pelo assalto ao paquete Santa Maria, pois entendiam os conspiradores que poderiam vir a sensibilizar o mundo para a situação colonial portuguesa.
Eram cerca de uma centena de participantes na acção, sendo o núcleo principal formado principalmente por protestantes ligados à UPA, mas havendo igualmente estudantes católicos do Seminário de São Domingos e alguns simpatizantes do MPLA e de outros grupos, porque estas militâncias não seriam então muito rígidas.
O ataque iniciou-se na noite de 4 de Fevereiro.
O balanço oficial de vítimas aponta para cerca de 40 assaltantes e de sete polícias, já que as forças portuguesas, recuperadas da surpresa inicial, com facilidade neutralizaram o ataque, que foi realizado com os assaltantes armados de catanas e varapaus.
Nos dias seguintes, e especialmente no funeral dos polícias mortos, alguns colonos brancos e as forças militarizadas desencadearam uma violenta repressão nos bairros negros de Luanda, que durou cerca de um mês.
É curioso o facto de o MPLA, cuja direcção estava exilada em Conacri, reivindicar a acção, com a UPA remetida ao mais completo silêncio.
O Conselho de Segurança da ONU foi convocado para apreciar os acontecimentos de 4 de Fevereiro. A UPA, assessorada por alguns conselheiros americanos, pretendeu aproveitar essa oportunidade para conseguir as simpatias do mundo para a sua causa, levando-a a preparar uma sublevação geral em várias zonas do norte de Angola, incluindo São Salvador, Uije, Dembos, Luanda e Cuanza Norte. Foi nesta zona que, a partir do dia 15 de Março de 1961, elementos da UPA e apaniguados foram destruindo tudo o que encontraram pela frente, como foi o caso das fazendas, postos administrativos, destacamentos policiais, atacando indiscriminadamente brancos e pretos, crianças e mulheres, numa selvática onda jamais vista de chacinas e assassínios.
As vítimas estimaram-se em cerca de 1000 brancos e 6000 negros. Esta actuação da UPA contribuiu para um profundo sentimento de revolta dos colonos brancos e deu ao Governo português o argumento final que precisava para envolver Portugal numa guerra sem quartel contra qualquer movimento ou forma de expressão nacionalista. Demonstrou também haver a ausência, no seio da UPA, de qualquer base ideológica moderna, vindo ao de cima a sua natureza tribal. De facto, os Bacongos não conseguiram, nem sequer tentaram, o apoio, ou pelo menos a neutralidade dos trabalhadores negros contratados das fazendas do Norte, que eram fundamentalmente constituídos por Ovimbundos e Ganguelas, provenientes do Centro de Angola.
À barbárie tribal, responderam as forças portuguesas de forma implacável. No dia 9 de Agosto, o Exército entrou em Nambuangongo, que havia antes sido proclamada a capital dos revoltosos. Antes do fim do ano de 1961, de forma incompreensível e estranha , alguns responsáveis portugueses davam as hostilidades por terminadas, o que estava longe de acontecer, como se sabe.
A UPA, por ser o primeiro Movimento independentista a iniciar as hostilidades em grande escala, mobilizando alguns milhares de "combatentes" e não só, acabou por conseguir um grande apoio internacional, desde os Estados Unidos até aos vários países africanos. Visando corrigir a sua conotação tribal, a UPA veio a transformar-se na Frente Nacional de Libertação de Angola (FNLA) em Março de 1962, integrando o PDA. Pouco depois a FNLA constituiu um Governo Revolucionário de Angola no Exílio (GRAE), que, em fins de 1963, estava reconhecido pela OUA e por 32 países africanos.
O Povo do Negage jamais esquecerá aquilo que sofreu quando eclodiu o terrorismo, com a "heróica" acção das gentes de Holden Roberto. A noite negra tarda muito a amanhecer, pois a alvorada é sofrida pela saudade que nos sufoca.

terça-feira, 4 de agosto de 2009

OUTRAS GUERRAS...

*Sequelas da guerra *
*
...parecem ser necessárias para que alguns incrédulos possam julgar por si mesmos aquilo que poderá fazer - ou desfazer, tanto importa - o carácter de uma pessoa, quando submetida à pressão que é não saber se acorda no dia seguinte, por mercê da acção inimiga que teima em lhe coartar qualquer possibilidade de viver a sonhar com um amanhã... que poderá nunca acontecer.
Perguntarão, aqueles que me conhecem, o porquê de estar para aqui a gastar os neurónios com coisas tão estranhas de se pensar, quanto mais de dizer, até porque dei um pouco da minha vida em terras onde se nasceu e cresceu sobre o signo de uma Bandeira que representava uma Pátria grandiosa em passado, gloriosa em gestas e ridente no porvir que se construía paulatinamente do Minho ao Algarve, daí até às Ilhas atlânticas, a Cabo Verde e São Tomé, à Guiné, a Angola, a Moçambique, à Índia, a Macau, a Timor... onde se lutou de forma insana contra aqueles que haviam aparecido com ideias novas para aqueles territórios, porque nos haviam ensinado ser ali um pedaço de Portugal... e morreu-se por essa convicção de que Portugal era, na realidade, uma imensa Pátria em pedaços repartida!
Foi assim que vi muitos Camaradas de Armas, não importa agora se da Terra, do Mar ou do Ar, verterem o seu sangue por essa convicção, tal como foi o sangue de milhares de Portugueses, sem distinguir qualquer raça ou religião, extracto social ou categoria profissional, que veio a regar generosamente com o seu sague aquelas terras que haviam sido demandadas pelos nossos antepassados nos tempos de antanho.
Muitas vezes recordo o que foram as epopeias de Mucaba, de Nambuagongo, do Quitexe, da Pedra Verde, dos Dembos, logo no dealbar dos anos 60! Tenho presente o ataque de 4 de Fevereiro feito às cadeias em Luanda e ao quartel da Polícia Móvel, mas muito profundo é o que está gravado no cérebro quanto os massacres levados a cabo no Norte de Angola a 15 de Março de 1961!
Podem continuar a dizer que foi para vingar os acontecimentos da Baixa do Cassange, em Janeiro de 1961, porque isso não basta para me convencer que os apaniguados do Cónego da Sé de Luanda, os sequazes do Padre Mário Pinto de Andrade e do irmão, do Viriato da Cruz e do Agostinho Neto, convictos comunistas, não sabiam que a UPA ia atacar no Norte... porque ninguém se bom censo acredita nisso.l Estavam concertados para fazer massacres e com eles "correr com os brancos para o mar", como muitas vezes diziam durante oa ataques. O MPLA e a sua Frente Unida, que pretendia fazer a guerrilha contra os portugueses, conforme o manifesto de 1956, dizia que não era tribalista... mas era sectário e aproveitava-se do trabalho dos outros.
Quem fizer exercícios de memória recordará o que foi a luta de velhos colonos que "fizeram o Negage", como o Fernando Santos e família, o João Ferreira, filhos e demais familiares, a família Baganha, o Jesuíno Dias e família, os Carvalhosa, o Horácio da Papelaria e o irmão, a Família Fernandes, o velho Ginja, o Manuel Ribeiro Manso e família, os Costas, as Famílias Pires, Valadares ou Pedrosas, o Manel da Ana... e tantos... tantos outros cidadãos anónimos que lutaram abnegadamente para darem uma razão de ser às suas vidas, pugnando até à exaustão pela sua dignidade e a dos seus!
Falta referir muita gente? É verdade que sim, mas não pretendia estar para aqui a fazer uma lista "daqueles em quem poder não teve a morte", mas tão só dizer que o Negage foi obra de Homens e Mulheres que, "onde necessário e quando necessário" também souberam dizer "PRESENTE"!
De todos os que se apenas a razão da força ousou vencer, deveremos apenas dizer: "HONRA-SE A PÁTRIA DE TAL GENTE"!

terça-feira, 28 de julho de 2009

4 de Fevereiro - Princípio da guerra em Angola?

Grupo terrorista da UPA
Mal raiou a madrugada do dia 4 de Fevereiro, realizaram-se alguns assaltos a diversos departamentos e serviços públicos de Luanda, nomeadamente às cadeias civis, à Casa de Reclusão Militar e ao Quartel da Brigada Móvel da PSP de Luanda. No dia seguinte, que era domingo, quando larga maioria da população da capital angolana acompanhava à sua última morada os mártires agentes da ordem que haviam mortos no dia anterior, alguns agitadores entretiveram-se a disparar tiros em várias direcções, numa clara demonstração de provocação às populações.
A Polícia e o Exército intervieram logo, como lhes competia, travando-se então uma luta destes com os provocadores, que acabaram por conseguir ter entre eles mortos e muitos outros que acabaram por ser presos.
Noutros pontos da cidade também houve motins, que deixaram feridos alguns polícias . No dia 8, quarta‑feira, foi a vez dos assaltantes atacarem a cadeia de S. Paulo, tendo nesta acção morrido 17 assaltantes e muitos outros ficaram feridos, efectuando‑se ainda bastantes prisões, como havia acontecido no sábado, dia 4.
A grande maioria dos assaltantes, que eram nativos, encontrava-se fortemente drogada com “marijuana” e estavam armados com armas brancas - catanas - e algumas armas de fogo de origem checa. Entre os assaltantes mortos ou aqueles que foram presos, encontravam-se alguns europeus, com o corpo pintado de preto.
A PSP e o Exército vão efectuando “rusgas” pelos muceques e têm prendido numerosos indígenas que são suspeitos de haverem tomado parte nos assaltos. Perto do cemitério, no Bairro de São Paulo, foram encontrados muitos pretos feridos, que eram tratados por duas feiticeiras, num improvisado hospital, tendo sido todos presos .
Os polícias da Brigada Móvel trataram de terraplanar os terrenos que circundam o quartel, instalando alguns projectores nos diversos edifícios do aquartelamento e cercando tudo de arame farpado, pronto para ser electrificado caso possa haver um novo assalto.
Também na cadeia de S. Paulo viu serem instalados projectores e a guarda reforçada, sendo igualmente reforçada a guarda ao Comando Geral da PSP de Angola, que passou a dispôr de um Guarda da PSP e 6 Cipaios munidos de metralhadora e com a baioneta calada dispostos de 20 em 20 metros.
Fora estas medidas e o facto de se efectuarem aturadas “rusgas” aos muceques, tudo parece estar normal, como se nada de extraordinário houvesse acontecido.
Pode-se dizer que toda a população branca da cidade terá ido aos funerais. Estavam as pessoas dentro do cemitério da Estrada de Catete quando alguém começou a gritar: - " Eles vêm aí! " começando desde logo a ouvir‑se o matraquear das metralhadoras disparando em rajada. A partir desse momento o pânico e o caos generalizam-se , vendo-se pessoas a correr de forma desordenada, com gritos de terror, tentando fugir uns para aqui e outros para ali, em busca do portão principal do cemitério, que se mostrava pequeno para tanta gente em fuga.
Dentro do cemitério, viam-se sapatos pelo chão, com algumas pessoas a correr de pé descalço e outras procurando partir árvores ou estacas de sustentação das campas para conseguirem armas improvisadas . Fora dos muros do cemitério, aqueles que conseguiam saír corriam em direcção às viaturas que ali haviam deixado estacionadas.
De repente ouvem‑se mais rajadas de metralhadora, levando a que algumas pessoas procurassem encontrar uma cova que as pudesse proteger. O regresso é feito a passo de caracol e talvez muito mais brancos tivessem sido chacinados se os tiros fossem mesmo de um ataque. Alguns amigos disseram-me que a última imagem que terá ficado na retina de muitas daquelas pessoas, no meio daquela retirada geral sem qualquer segurança, foi a imagem de um negro desolado, parado à beira da estrada, todo esfarrapado e ensanguentado. É que nessa noite e nas que se seguiram terão sido de represálias indiscriminadas sobre os negros dos musseques, que tiveram a mão de alguns civis brancos armados, segundo alguns pró-turras.
Não estou na defesa nem no ataque seja de que facção seja, mas na minha terra natal diz-se que "cá se fazem... cá se pagam!" ou "quem vai à guerra.. dá... e leva!" ou ainda "quem semeia ventos... colhe tempestades!"
Não tardaria muito para se vêr até que ponto a matança estaria presente na história de Angola. Os massacres terroristas da UPA foram a verdadeira matança dos inocentes! Em nome de quê?

sexta-feira, 17 de julho de 2009

Histórias Angolanas

* A LENDA DA GALINHA D'ANGOLA
***
Numa certa manhã, vinha de cabeça baixa e muito triste uma Kerere, lamentando-se «estou fraca, estou fraca, estou fraca!».
Resolveu saciar a sede num riacho. Lá deparou-se com uma linda mulher que se banhava e coquete como só ela sabia começou a pintar-se.
Kerere quando viu aquilo admirou-se: era Dandalunda, aquela que dá brilho às jóias e se banha e pinta antes mesmo de cuidar dos filhos...
Dandalunda quando percebeu a tristeza daquela ave perguntou-lhe:- Porque é essa tristeza Kerere?
Kerere respondeu-lhe:- Entre os meus pares eu sou a mais feia!
Naquela época Kerere era toda preta...
Dandalunda então pediu para Kerer se aproximar. Ela pegou em osum e pintou o seu bico; depois com osum vermelho os brincos. Depois com waji tornou as penas azul escuro e com efum fez as pinturas brancas. E continuou a pintar Kerere. Esta ao ver a sua imagem no abebé de Dandalunda saiu correndo de tanta felicidade cantando "Kuéim, kuéim, kuéim".
Dandalunda que ainda não tinha terminado de pintar Kerere pediu a Kakulu, divindade dos gémeos para que corresse atrás de Kerere e a trouxesse de volta pois não tinha pintado o seu peito.
Kerere lá voltou e pediu para que Dandalunda ao invés de pintar o peito lhe desse um colar.
Dandalunda fez-lhe a vontade e ofereceu-lhe um colar em forma de coroa que Kerere carrega até hoje... e entre os seus pares é a mais linda de todas...
Tempos depois Kerere voltou e tornou-se o primeiro ser que "tomou" obrigações por aquela que é capaz de modificar todos com a sua doce magia encantada.
Kerere, o primeiro ser raspado, adornado e pintado por Dandalunda... e é por este motivo que quando um Kerer é sacrificado temos que tirar este colar em forma de coroa e coloca-lo em evidência!
.... Kerere é também conhecida por Konquem, "Tô" fraco, E tu ou Galinha de Angola!

Uma lenda da autoria de: Tata riá Nkissi Nkassuté
Com a devida vénia de http://www.sanzalangola.com/

sexta-feira, 10 de julho de 2009

Dona Beatriz do Congo ou Kimpa Vita

Impressiona a história do grande reino do Kongo, que se estendia por ambas as margens do rio Zaire e abrangia a maior parte da região norte de Angola e o sudoeste da República Democrática do Congo até Bandundu e Kananga.
Pode afirmar-se que era um dos maiores e mais poderosos estados da costa ocidental de África, mais de trezentos anos antes da história que me proponho contar.
Ainda hoje os investigadores históricos se mostram intrigados pelo facto de, inversamente àquilo que se sabe ter acontecido noutras regiões do continente, os primeiros contactos com os recém chegados europeus – no caso vertente os portugueses – não resultaram na destruição do reino do Kongo, pois foram bastante pacíficos e muito vantajosos para ambos os lados. Esses contactos, que foram iniciados em 1482, deram lugar a um longo período pleno de amizade e de progresso.
Quando, em 1491, os portugueses chegaram à capital, M'banza Kongo ou M'Banji-a-Ekongo, o manikongo (rei) da época, Muene-Muzinga-a-Cuum, pediu-lhes para ser baptizado, tendo então recebido o nome do rei de Portugal, D. João.
Mais tarde, por volta de 1507, o seu segundo filho, M'benza-a-Nzinga, ao tornar-se no manikongo Afonso, lançou-se na transformação completa do Congo em reino cristão, mandando construír igrejas e mudando o nome da capital para S. Salvador, além de procurar, a todo o custo, “europeizar” o seu povo. Desejava desenvolver, de uma maneira pacífica, a sua terra, procurando fazer um enxerto da cultura do pequeno reino ibérico e trocando amiúde corresponência com o monarca el-Rei D. Manuel I de Portugal, a quem tratava de forma carinhosa por "meu irmão" .
Por outro lado, D. Manuel I alude a D. Afonso I do Congo nas precisas instruções que eram transmitidas a um seu representante nas terras de África, como “ um rei a quem temos mui grande amor e que estimamos por sua virtude, como ele merece ”.
A deterioração das relações entre o rei do Kongo e os portugueses poderá ser considerada uma tragédia, pois foi um conjunto de erros e de posições estremadas de parte a parte. Por um lado o manikongo confundiu o cristianismo com o poder, tomando decisões politicamente menos acertadas, por outro, a ambição dos negreiros de São Tomé que estavam combinados com traficantes instalados na costa, e a intermediação feita por alguns missionários, incrementavam de forma crescente o comércio de escravos.
A escravatura já era conhecida no Congo muito antes de os portugueses haverem chegado, embora sob a forma de uma servidão, muitas vezes temporária, resultante da punição de crimes, do pagamento de dívidas ou por captura feita pelos inimigos no decorrer de lutas tribais. Mas D. Afonso do Congo não demorou a perceber as vantagens que poderia auferir com a venda de escravos aos europeus, que necessitavam deles para as grandes colónias do Novo Mundo, além de que entre os próprios clérigos, muitos se revelavam destituídos de qualquer vocação missionária, antes se mostrando mais interessados em preencher o papel de comerciantes de vidas humanas.
Para manter escravos em stock, D. Afonso I fez guerra às nações vizinhas, sobretudo ao reino do N'Dongo, fazendo grande número de prisioneiros que posteriormente vendia para a costa.
Mesmo depois do seu reinado, estas guerras continuaram, até que em 1556 as forças do filho de D. Afonso, o manikongo D. Diogo, foram derrotadas e este perdeu a vida durante os combates.
O seu sucessor governou um reino tão enfraquecido que os jaga conseguiram derrotá-lo, deixando o Kongo em escombros, no meio dos quais os sucessores de Afonso presidiam ao arremedo de uma corte europeia.
Desta situação caótica que se vivia nos fins do século XVII, chegam-nos ecos através do relato de um padre capuchinho, Lourent de Lucques, que em 1701 escrevia:
As notícias provenientes do Congo são cada vez piores e as inimizades entre as casas reais estão a dividir o país cada vez mais. De momento contam-se quatro reis no Congo. Há também dois grão-duques em Mamba; três grão-duques em Ovampo; dois grão-duques de Batta e quatro marqueses em Enhcus. A autoridade de cada um deles é cada vez mais fraca e estão a destruir-se mutuamente, com grandes guerras entre eles. Todos querem ser chefes. Lançam ataques contra o território dos outros de modo a roubar e a vender os seus prisioneiros .”
São Salvador de Congo entra então em ruína completa e a população começou a abandonar a capital.
No meio de tanta adversidade ocorreu um inesperado e insólito facto: Como sempre acontece, é o povo quem mais se ressente com as consequências do declínio e anseia por dias melhores, pelos tempos de Afonso, filho de João. Muitos estão convencidos que o renascimento da fé cristã poderia fazer voltar os dias felizes do tempo da chegada dos primeiros portugueses, daí resultando o rápido alastrar de um certo fanatismo religioso, com foi o aparecimento de profetizas e profetas a anunciarem visões e revelações, misturando a religião com crendice e política. Uma mulher teria visto a Virgem Maria, que lhe comunicara estar irritada pelo que vinha acontecendo no Kongo; um jovem proclamava que Deus iria punir o povo se a cidade de S. Salvador não fosse reconstruída rapidamente.
Uma mulher chamada Ma-Futa, chegou mesmo a declarar que possuía a cabeça de Cristo, desfigurada pela perversidade dos homens – concluiu-se que não passava de uma pedra do rio Ambriz. De outra vez, Ma-Futa teve uma visão da Virgem Maria e soube das catástrofes e desastres que ocorreriam se o manikongo não recuperasse a cidade. A rainha convenceu-se dos poderes de cura e adivinhação de Ma-Futa e espalhou-se o boato de que esta era uma santa. Quando os caridosos missionários da fé a quiseram levar a julgamento por bruxaria, o manikongo protegeu-a, impondo a sua autoridade.
Todos estes acontecimentos conduziram a um novo fervor religioso que haveria de empolgar todo o Congo e ao aparecimento de uma mulher que iria tentar o renascimento nacional, através da sua própria interpretação da fé cristã.
Kimpa Vita, de seu primeiro nome, surge e vive neste contexto. Era de origem nobre, da aristocracia Bacongo, sacerdotisa do culto de Marinda, habituada aos meandros do poder e às intrigas da elite governante, pelo que teve consciência do malogro desta classe e, ao mesmo tempo, observou com bastante perspicácia a forma como alguém, como Ma-Futa, influía eficazmente nos espíritos e nos acontecimentos. E tomou a decisão de assim fazer, na qualidade de D. Beatriz.
Como quis revelar mais tarde, começou tudo durante um longo período de doença em que esteve às portas da morte e lhe apareceu Santo António. Não havia nada de muito extraordinário na escolha do santo – era um santo português, muito reverenciado por missionários e colonos nos reinos do Kongo e N'Dongo – a diferença residia no facto de não se tratar de um santo “ branco ”.
O Santo António que apareceu a D. Beatriz assumiu o aspecto de um dos seus irmãos, aglutinando numa mesma pessoa a religião estrangeira e uma personalidade africana. Estava mesmo à medida do que D. Beatriz desejava para a restauração de um reino como romanticamente se acreditava que fora o de Afonso I.
À semelhança de muitos místicos em todo o mundo e em todas as épocas, renunciou à coisas materiais. Chegou mesmo a imitar a morte de Cristo – os seus seguidores convenceram-se de que morrera numa sexta-feira, subindo aos céus para advogar a causa do seu povo e ressuscitou no sábado seguinte. A sua mensagem política era simples: o Congo devia ressurgir, renascer e o aparato religioso de que se rodeou ia de acordo ao imaginário da sua gente. Foi fácil ser aceite de imediato por quase todos aqueles que ouviam a sua voz.
Continua...

quarta-feira, 17 de junho de 2009

UM DIA A HISTÓRIA DIRÁ...

Quando por cá, no pequeno rectângulo que é Portugal, se comemora o 25 de Abril, há alguns que sentem motivos para se congratular, pela badalada entrada na democracia... ainda que se saiba não ter o 25 de Abril tido ressonância apenas no Portugal Continental e Insular, uma vez que também eram Portugal os territórios de África, Ásia e Oceânia, e aí as coisas não acabaram nada bem, mercê das altamente gravosas consequências trazidas para os Povos desses territórios.
A Revolução dos Capitães veio afectar um País pluricontinental, onde se incluía este pedaço de terra chamado Portugal, com os cerca de 8 milhões de habitantes, e todos os Estados do então denominado Ul­tramar, onde viviam aproximadamente 500 mil portugueses que tinham ascendência europeia, além de aproximadamente 16 milhões de cidadãos naturais... que também eram portugueses "de jure".
Haverá alguns que vêm dizer que aqueles apenas seriam portugueses desde 1961 e nem sequer falavam português, mas quem conheça a realidade que eram os Povos de Angola e Moçambique, por exemplo, acabará por dar a mão à palmatória para a realidade que estava bem patente numa cidade como Luanda, antes dos massacres terroristas de 1961, tal como acontecia com Benguela, o Lobito, Nova Lisboa, Sá da Bandeira, Moçamedes, etc...etc...etc, onde a dimensão da evolução urbanística e infraestrutural estava bem documentada... sendo a prova absoluta de que não seriam o tal povo abandonado, como alguns pretendem fazer-nos acreditar. Havia bastante evolução nas construções de enorme qualidade que se erguiam um pouco por todo o lado, onde se podiam encontrar cidades e vilas bem projectadas urbanísticamente; nos mercados e bazares, havia um abastecimento rico em todos os sentidos, onde nada faltava quanto a bens de 1ª. necessidade... e não só.
Afirmam também os arautos da desgraça que o Ultramar passava pela tutela que era feita pelos "portu­gueses" sobre os "indígenas", a quem os "brancos" se pro­punham "civilizar", mas as Nações Unidas acabam por "obrigar" Salazar a promover a eliminação das desigualdades, mas ele pretendeu manter a sobe­rania a partir de Lisboa.
Convenhamos que alguns portugueses, que por certo leram as obras completas de Miguel de Vasconcelos - o ínsigne autor dos "Manuais da Traição à Pátria" ou do vademecum das traições "Como vender um País" -, terão com ele aprendido algumas artes que transmitiram aos Movimentos de Guerrilha entretanto criados para fazer massacres entre os "brancos" colonialistas... que estavam ali a enriquecer nas suas terras, que até então eram mato. Mas também os negros foram passados pela catana e pelo canhangulo, pela "Kalachi" ou pela mina, porque ajudavam o branco... logo eram réus de morte.
Mas... infelizmente para os territórios, as guerrilhas não mostraram ser a melhor solução, porque os terroristas queriam fazer coinci­dir as independências com uma limpeza étnica (matando os euro­peus) e uma revolução política, cultural, social e económica dirigida por um partido único.
Os líderes terroristas, que na sua maioria haviam estudado na Europa, sentiam, na generalidade, o mesmo des­prezo que os colonizadores sentiriam pelas culturas locais, razão porque vieram a encontrar uma enorme resistência, não apenas por parte dos europeus, mas também dos africanos.
A guerra "colonial" tornou-se assim e desde muito cedo, numa guerra civil entre os povos das etnias locais.
Foi o ano de 1974 que mostrou algumas pseudo elites militares portuguesas, ressentirem-se pela intervenção que estavam a ter nessa guerra, pelo que resolveram ser chegada a hora para se dar um murro na mesa, lançando-se na aventura em que "ousaram" prometer a liberdade e a democracia para todos, tanto na Metrópole como no Ultramar. Mas depressa se aperceberam os Revolucionários que, para poderem honrar a promessa feita, seria necessário que no Ultramar se continuasse a intervenção militar, porque os guerrilheiros recusavam eleições e o plura­lismo político. Também a actividade política na Metrópole teria de ser conduzida com muita paciência, pois os Partidos da esquerda em Portugal contestavam a intervenção e apoiavam as guer­rilhas.
A democratização da Metrópole pa­recia ser incompatível com a do Ultramar, logo não haveria um "25 de Abril" para todos. É aqui que o MFA acaba por tomar a opção de se desligar de quaisquer responsabilidades para com os não europeus, a quem, por decreto-lei de 24 de Junho de 1975, foi retirada a nacionalidade portuguesa, para que não pudessem reclamar o direito de serem acolhidos por Portugal,
A "descolonização exemplar" consistiu apenas e tão só numa evacuação dos soldados e civis europeus, seguida do trespasse da administração dos territórios para um dos Movimentos separatistas, no caso de Angola o MPLA, em Moçambique a FRELIMO, na Guiné o PAIGC. Foi desde modo que, tal como estava previsto vir a acontecer, as brutais experiências ideológicas de um re­gime de partido único acabaram por proporcionar aos habitantes dos novos países assim surgidos, brutais condições de despotismo e miséria.
Naqueles momentos em que comemore a pseudo "sorte grande" dos oito milhões de Portugueses da Europa, será de se fazer um minuto de recolhimento em memória da má sorte que calhou aos outros 16 milhões de "mártires".
Talvez um dia a História nos dê conta da verdade que foi a traição perpetrada por alguns portugueses, que não tiveram pejo em conduzir para a morte e a miséria tantos milhões de pessoas, Portugueses como nós. É que o julgamento do Tribunal da História dirá um dia quão grave foi o crime daqueles que não cuidaram pugnar pelos direitos e pela dignidade dos Povos outrora Portugueses.

quarta-feira, 10 de junho de 2009

QUEIMADAS...

Com a chegada do cacimbo, era frequente verem-se linhas imensas de fogo, subindo montes e vales conforme o vento que soprava, fazendo aquele "restolhar" tão característico que é provocado pelo fogo a consumir o capim... e não só. Pareciam estalinhos dos fogos chinezes, se bem que apenas nos miríades de estalidos que estalejavam no ar.
Era por essa altura que mais apetecia ir à caça, porque as gazelas, as palancas, os javalis, os sofos ou as pacaças procuravam fugir do fogo,,, e era apenas necessário estar atento aos seus movimentos... mas também as surucucus, os leopardos, as hienas ou qualquer outro bicharoco poderia rondar, o que não seria nada bom prenúncio para o caçador.
Sabe-se que as queimadas são um problema ambiental bastante melindroso para o equilíbrio do eco-sistema angolano, mas está bastante arreigado nos costumes dos povos que se dedicam à agricultura, pois é ponto assente nos seus espíritos que a queimada lhes vem beneficiar as terras, fertilizando-as.
Quem consegue convencer aquela boa gente que apenas estão a causar prejuízos à fauna e flora, tirando-lhes importantes meios de subsistência no que à caça respeita, além de estarem a destruír pelo fogo a maior parte das sementes, quem não germinarão... e verificar-se-á a breve prazo o desaparecimento de muitos espécimes florais raros e únicos, para além dos recursos cinegéticos, que não são eternos e têm necessidade de protecção imediata.
Mas julga-se estar a ser preparada legislação proibitiva das queimadas, que apenas se espera não venha a ser mais um motivo de ressabiamento contra as autoridades governamentais, como infelizmente se verificava nos tempos em que por lá andei em missão, quando servi a Força Aérea no Aeródromo Base nº. 3!
Nesse tempo ficava horas a fio a vêr o serpentear do fogo, iluminando os locais onde passava e lançando núvens de fumo que se desfaziam no ar! Era um espectáculo lindo... mesmo sabendo que aquela queimada estava a contribuír de algum modo para a destruição do eco-sistema do território.

domingo, 24 de maio de 2009

O 48º. Aniversário

Sabemos que ninguém gosta de vêr os anos a passar como uma vertingem, mas o Aeródromo Base nº. 3, que aprendemos a preservar no nosso coração, feito saudade indelével desde o dia saudoso em que lográmos saber que Negage e A.B.3 são étimos da palavra SAUDADE, já porque se tornaram motivo de confraternização salutar em que se salienta a passagem de mais um aniversário da que foi... e é... uma efeméride inesquecível para todos os que sabem ter sido o Negage uma experiência de vida sem precedentes.
Ontem mesmo, no cenário magnificiente da Base Aérea nº. 1, na Granja do Marquês, em Sintra, reuniram-se cerca de 200 antigos "utentes" das instalações que o querer de alguns e a vontade de outros ergueram no Negage, ficando estas como penhor daquele espírito grandíloquente que foi apanágio dos nossos avoengos, quando, ao demandarem terras desconhecidas, erguiam padrões para a posterioridade.
Essa posterioridade está patente na amizade que ficou, nas saudades que se sentem, na imagem de uma Unidade modelar que deixámos a "perpetuar" o esforço Português de então! E desse passado nos orgulhamos, porque fomos dignos de quantos, combatentes de terra, ar e mar, regaram com o seu sangue as terras do Uíge... e não só! É a razão porque nunca deixamos de pedir à nossa Padroeira, Nossa Senhora do Ar, que interceda junto de Seu Filho Jesus para que esses nossos amigos estejam com Ele nas bem aventuranças do céu!
Foi bom rever amigos! E essa lembrança é extensiva aos que partiram, porque também são parte da nossa saudade!
Para o ano, se essa fôr a vontade do Pai do Céu, voltaremos a estar reunidos, recordando uma Unidade que nos foi bastante cara!
MUITO PODE QUEM QUER... e nós quizémos!

terça-feira, 5 de maio de 2009

48º. Aniversário do AB3

No próximo dia 23 de Maio vai ser comemorado mais um aniversário daquela que foi uma das mais queridas Unidades da Força Aérea em Angola.
Muitos daqueles que, em determinada altura das suas vidas, serviram o País durante as Guerras do Ultramar, deram o melhor de si mesmos nas terras do N'gage, irão estar presentes na festa comemorativa que irá acontecer em Sintra, na Base Aérea nº. 1 e na Academia da FAP, com a concentração junto da Porta d'Armas da BA1, às 10:00; pelas 11:00 será celebrada Missa evocativa da efeméride, na Capela de Nossa Senhora do Ar; às 12:00, frente ao Comando da BA1, será feita uma "foto de família"; às 12:30 será servido um almoço/convívio na Messe de Alunos da Academia; pelas 15:00 será efectuada uma visita ao Pólo de Sintra do Museu do Ar.
Não! Não está a ser lida a Ordem de Serviço do AB3, que dá o detalhe de serviço para o Dia da Unidade, onde tería-mos o Capitão Sá (Mouco) Nogueira a gritar a ordem, com aquela potente voz de comando que o tanto caracterizava: - "AVANÇA A BANDEIRA!". Não!!! Também não teremos o Capitão Brito, Comandante da PA, a berrar a plenos pulmões - "FIRMIIII...SENTIDO!".
Sentem-se saudades do Perestrelo... do Geadas... do Corbal... do Conceição e Silva... do Aníbal Freire... do Ramiro... do Abel Queirós... do Umbelino... do Belarmino... do Mesquita... do Capela... do Jacinto... do Saraiva... do Cravo... do Capelão Resende... do Manuel Pereira... do Melo... do Cavaco... do Caixas...do Portijo...do Pires... do Prego... do Amarelo... do Dr. Carlos Pinto... do Dr. Santos Silva... do Dr. Amândio Albuquerque...do Martinho Enfermeiro... do Noé... do Gandum... do Lanhas... dos Cabos Alegria, Corte Real, Maia e tantos outros, uns que já partiram, outros que vivem essa saudade de uma forma mais ou menos presentes neste dia de aniversário.
E também tenho saudades das irmãs Fernandes, a Isabel e a Apolónia, da Ana Maria da Cantina, do Valdemar da carpintaria, desaparecido trágicamente na DO-27 onde pereceram os Alferes Lamy, Leal Faria, Salgueiro Lopes, Sargento Mesquita... e de tantos outros funcionários civis que eram parte do AB3.
Parabéns, AERÓDROMO BASE Nº. 3! Vivemos contigo na memória!

sábado, 25 de abril de 2009

25 DE ABRIL... 35 ANOS!

Os "putos" vêem passar os "militares de Abril"
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Com a revolução "dos Cravos", acontecida no dia 25 de Abril, faz hoje 35 anos, começou a reescrever-se a história de um País que foi grande, espalhado pela imensidão do mundo, e a principal notícia tem a ver com a realidade da guerra que se travou no Ultramar e levou às independências dos territórios que eram parte indelével de Portugal há mais de 500 anos.
Não acredito que Portugal alguma vez pudesse mudar os caminhos da História dos Povos, que se cruzam com o inalienável direito à sua independência ou autonomia, mas acredito firmemente que a melhor maneira de "descolonizar", um dos 3 "D" constantes do programa do Movimento das Forças Armadas, não foi a seguida pelas novas autoridades saídas da revolução.
É que mais parecia estarem essas autoridades interessadas em cumprir alguma promessa que possam ter feito aos que contra nós se levantaram em armas. Talvez fosse a continuação daquele apoio que alguns líderes partidários e seus "kamaradas" foram dando aos MPLA's, FRELIMO's ou PAIGC's, dando até apoio às deserções que alguns "heróis" do 25 de Abril vieram a protagonizar.
Depois... um território dado a Portugal, como reconhecimento da ajuda prestada na luta contra a pirataria, foi devolvido ao país ofertante... que aproveitou para exigir contrapartidas para receber esse território, que por acaso se chamava Cidade do Santo Nome de Deus de MACAU. Outro território, que nem era habitado quando os Portugueses há 500 anos atrás o demandaram, foi também entregue à sanha da independência... abandonou-se o povo de Timor à sua sorte, tendo-se emendado a mão apenas depois do massacre de Santa Cruz...
Mas o 25 de Abril foi uma porta aberta para a fomentação de novas riquezas, em paridade com as misérias a que foram votados muitos dos que ousaram combater nas guerras do Ultramar! Hoje enviam-se "tropas" para ganharem rios de dinheiro como mercenários voluntários para estarem ao serviço de quem lhes pagar melhor, enquanto ontem se dizia "nem mais um Soldado para Angola".
Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades. Não é que agora se tenta incentivar os Portugueses a irem trabalhar para Angola, não apenas a pedido do governo deste país, outrora português, como do governo de Portugal?
"Malhas que o Império tece", dizia-se. Hoje apenas julgo pertinente dizer: Coisas que a Revolução dos Cravos nos deu! Coisas que a Revolução nos tirou!

sábado, 18 de abril de 2009

O REI DO TÔTO...


O Toto poderia ser apenas uma fazenda que ficava próxima do Bembe e do Colonato do Vale do Loge, mas, nunca se saberá como, era pertença de um fazendeiro natural da região de Leiria, de sua graça Cid Adão Gonçalves, pois lhe havia sido distribuída pela administração da colónia A METRO (!!!), isto é... a administração havia-lhe atribuído a propriedade de um território com um raio de 20 Km, cujo ponto central seria a lagoa do Toto.
Ficou com direitos sobre as populações nativas ali existentes, que perderam a sua terra e passaram a ser criados desse "CidAdão", sem direito à utilização de um simples palmo de terra daquele rincão que havia sido a sua antiga terra de subsistência. Além do mais, ficou o branco com a obrigação de os empregar... mas sem quaisquer salário estabelecido.
Em 1961 foi esta uma zona bastante atingida pelos levantamentos das populações nativas contra os fazendeiros brancos, razão porque, por essa altura, Cid Adão Gonçalves resolveu abandonar Angola. A mim disse ter estado de licença (?), que era de seis meses por cada dois anos, como acontecia a todos os funcionários administrativos no território. Só que não consigo entender qual a qualidade em que ele geria o Toto: - era o dono ou era funcionário do Estado?
Foram para ali, na antiga fazenda, acantonadas diversas Unidades Militares. A cerca de 200 metros e numa pequena casa construída depois que a tropa lá chegou, residia o feitor do Cid Adão Gonçalves, que explorava um pequeno estabelecimento onde se vendia de tudo um pouco e que servia igualmente como posto de correio e hotel local.
A pouco mais ou menos de 500 metros do estabelecimento, existia uma pequena sanzala onde os nativos, que seriam entre 100 e 200 pessoas naturais da agora fazenda do Cid, iam subsistindo entalados entre dois medos: - o dos terroristas e o da "tropa! De uns porque os acusavam de colaborar com os brancos, dos outros por não se destinguirem dos turras.
No alto de um pequeno monte sobranceiro à aldeia e ao quartel, erguia-se uma pequena ermida que foi construída pelos missionários da Missão do Bembe.
Ao redor do quartel havia uma plantação de palmeiras, que dava um ar agradável àquele aglomerado que se estendia por cerca de 2 Km até à lagoa do Toto, que tinha aproximadamente 800 metros de diâmetro e constituia um local agradávelmente bonito. Dessa lagoa, durante alguns tempos, se retirava a água para o uso diário, por ser de boa qualidade.
Mas... não foi preciso muito para que a água deixasse de oferecer confiança, quer pela sua utilização para os militares se banharem, quer ainda porque os "turras" trataram logo de a inquinar, como é lógico. Num instante passou a ser frequente encontrarem-se animais mortos nas suas águas, que chegaram a matar alguns militares pertencentes ao Aeródromo de Manobra nº. 32, onde vim a permanecer durante um ano, mais coisa menos coisa.
O Cid Adão Gonçalves, talvez pelo facto de haver várias Unidades Militares aquarteladas no Toto, das quais poderei citar a Companhia de Intendência, o Comando Militar do Sector, a Companhia de Artilharia, o Pelotão de Apoio Directo ou o Aeródromo de Manobra, sentiu-se à vontade para voltar ao seu império... o que não tardou muito a acontecer, dando azo às várias histórias que tenho para contar, pouco a pouco, porque quero deixar um pouco de suspense no ar, apenas para vos abrir o apetite para as seguintes, acreditem.
Depois vão vêr que valeu a pena esperar.