terça-feira, 2 de dezembro de 2008

OUTROS NATAIS...


Ainda que não pareça... estamos a chegar ao Natal! Antigamente, nestas alturas do ano, era uma roda viva de pessoas empenhadas em preparar tudo a tempo e horas para receber a família na consoada, que não tardaria, com a agravante de haver necessidade de estar tudo "nos trinkes" para receber os familiares que mourejam o pão de cada dia pelas Franças ou Alemanhas, para não falar da Suiça ou da Venezuela, do Canadá ou da Austrália.

É que a chegada do Advento é prenúncio de Natal... e Advento pressupõe a necessária reflexão e preparação para receber o Deus Menino, que chega até nós deitado na humildade de uma manjedoura com palhinhas no presépio de Belém.

E ao recordar estas coisas, vem-me à memória o primeiro Natal que passei no Negage, nos anos 60 do século passado. Lembro o entusiasmo que se verificava na montagem do presépio, nas insalubres e inacabadas instalações de uma cave da futura Igreja de São José Operário, que estava em início de construção. Fui das pessoas que percorreu a Capôpa e arredores, para encontrar matéria prima com que pudesse fazer uma encenação cuidada do Nascimento de Cristo. Um pouco aqui, outro tanto além... papéis, tintas de água, umas pedras, um "petromax"para iluminar o Presépio... e eis tudo em ordem para receber o Salvador.

Precisamente à meia noite de 24 para 25 de Dezembro, a voz potente de tenor do Capuchinho Padre Agatângelo, - bem timbrada e treinada, diga-se - começou a entoar o "Adeste Fidelis", enquanto este escriba procedia à colocação da imagem do Menino Deus na manjedoura. Aquela Missa do Galo era "apenas" a primeira a que assisti em África... e acredite-se ou não, terá sido das mais importantes a que assisti nos Natais porque já passei na minha vida! Via-se haver nos rostos dos fiéis qualquer coisa que poderia dizer-nos o quanto era importante estarem ali, numa terra onde a guerra deixara profundas marcas e cujo solo estava regado com o sangue de tantos inocentes, pois naquele Natal seriam indeléveis as saudades de cada um dos que os amavam. fossem eles familiares ou amigos.

"Alegrem-se os céus e a terra, cantemos com alegria... Já nasceu o Deus Menino, Filho da Virgem Maria!", ouvia-se cantar em uníssono por todos os que ali davam público louvor a Deus e à Virgem, comemorando o nascimento do Salvador do Mundo! Quando a Missa do Galo terminou, os cânticos continuaram, enquanto se ia beijamdo o Menino.

À saída, todos se cumprimentavam, demonstrando evidentes sinais de alegria: "Boas Festas! Feliz Natal!". E era ver como seguiam, diligentes, para suas casas, para fazerem a ceia de Natal em família, procurando seguir as tradições da terra distante!

Também no Aeródromo se fazia a Ceia de Natal, que era destinada a todos os militares e famílias - alguns tinham a ventura de ter consigo os familiares mais próximos, como as mulheres e filhos - e aproveitava-se então para uma troca de prendas entre todos, recriando-se assim as entregas de prendas do Menino Jesus, como era costume fazer-se na Metrópole. À meia noite, o Capelão Resende celebrava a Missa do Galo, destinada à Família Militar residente na Unidade.

Nessa noite de Natal, o primeiro que ali passei, fui convidado a cear em casa de uma família transmontana da Vila, que também quiz abrir-me as portas das suas memórias e proporcionar-me um conhecimento mais próximo dos Natais que haviam deixado para trás! Que bom foi aquele momento em que revivemos alguns Natais das nossas vidas... como agora o faço com o meu primeiro Natal em África.

Neste tempo de Advento, é bom podermos reflectir e preparar o nosso coração para mais uma comemoração do Nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo, que se fez Homem por amor aos Homens de Boa Vontade!

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