quarta-feira, 5 de novembro de 2008

A RECONCILIAÇÃO... É POSSÍVEL?


Soldados Portugueses capturados por guerrilheiros
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Quem andou pelas "terras da guerra", nos tempos conturbados que decorreram nos anos entre 1961 e 1974, certamente que se costuma interrogar sobre "o que andou por lá a fazer", se "valeu a pena o sacrifício", "porque me calhou ser eu a sofrer esse martírio"... etc... etc...
Não será muito fácil responder a estas questões, que acredito também serão postas pelo outro lado, por aqueles que ontem eram o inimigo, mas que são agora povos que lutaram pelos seus direitos de "liberdade", de "igualdade" e de "fraternidade"... mesmo que saibamos que isso foi uma utopia ditada pela esperança de melhores dias, que não se vislumbram ainda como possíveis nesta geração, já que há sempre aqueles que querem tirar dividendos da desavença entre irmãos, no mal estar que reina entre as famílias, porque o "vil metal" corrompe até à medula aqueles que apenas vêem no dinheiro a arma poderosa que lhes dá o controle de todas as coisas... até das consciências.
Sabemos nós, aqueles que lutámos por uma causa, que o Povo é sempre a maior vítima das guerras, que, a pretexto de qualquer razão invocada, deixa esse mesmo Povo sujeito às mais terríveis provações como sejam a morte, a fome, o estropiamento nas mais variadas formas, como sejam a mutilação, a sanidade mental ou qualquer outra sequela, o deslocamento do seu local habitual de residência ou de trabalho, motivado pela destruição das suas habitações e dos seus bens.
Mas as queixas repartem-se por ambos os lados da contenda, porque todos perdem com os conflitos. E é pertinente perguntar-se a quem foi declarada a guerra, se ao Governo "A", "B" ou "C", ao país "X" ou "Y", ou ao Povo, com especial incidência nas crianças, mulheres e idosos, uma vez que são sempre estes os maiores sacrificados na contenda. Por muito que se declare que não se faz guerra ao Povo... em última análise, é sempre este que sofre.
Quem foi o culpado pela Guerra no Ultramar? Quem a fomentou?Podemos tentar encontrar os possíveis culpados no seio do Povo Português, Guineense, Angolano ou Moçambicano? Não creiam que seja uma tarefa fácil, à luz do Direito Internacional, atribuírem-se culpas a uma pessoa ou outra, seja governante ou não.
No caso concreto de Portugal, houve a necessidade imediata de fazer parar o trágico genocídio que a UPA/FNLA estava a perpetrar no Norte de Angola. Aí foram massacradas inocentes famílias inteiras, foram amputados e degolados milhares de trabalhadores do sul, incendiadas as propriedades, destruídas as culturas, viram-se acontecer autênticas orgias de sangue... apenas porque os "mandantes" estavam convencidos que os Portugueses iriam fugir para o "Puto" e deixariam nas suas mãos todos os bens e o próprio território.
Seriam independentes e era isso o que lhes importava, não a forma como.
A Guerra Colonial terminou... dando lugar a uma guerra fraticida pelo poder, mercê das lamentáveis posições assumidas por algumas figuras e figurões após a Revolução portuguesa de 25 de Abril, que não tiveram pejo em tomar partido por um dos Movimentos que em Angola pegaram em armas contra Portugal.
Depois de saradas as feridas mais superficiais... talvez tenha chegado a hora de procurar dar as mãos uns aos outros, sem ódios, mesmo que ainda tenhamos latente a infinita triteza sentida quando deixámos uma terra que foi Portugal durante 500 anos... mas felizes porque continuou o Povo Português a "dar novos mundos ao mundo"!
Torna-se pertinente reconciliar irmãos com irmãos, sem pruridos, sem recriminações, sem dúbias acusações, que a nada conduzem a não ser ao disseminar do terrível ódio entre as gerações do amanhã, fomentador das discórdias, bem capaz de continuar a gerar conflitos... que é bem tempo de serem ultrapassados.
A memória permanecerá, mas acredito que podemos dar ao mundo uma licção de tolerância sem limites.

1 comentário:

Sérgio O. Sá disse...

As minhas felicitações ao autor dete texto.
Já era, nessa altura, a favor dos Povos de Angola, embora tivesse de cumprir aquilo que designavam como dever para com a minha Pátria, tendo ido parar àquela província, como então lhe chamavam, para lá comer do "pão que o diabo amassou" ente fins de 1965 e início de 1968. Tive a sorte de nunca precisar de dar um tiro. Era enfermeiro, e nessa qualidade só ajudei: camaradas de armas, nativos e até elementos da guerrilha capturados, que respeitei como que de irmãos se tratasse.
Como quis dizer o autor do texto, a presença das nossas tropas, no início, foi imprescindível.
Lutar sim, antes de mais usando a palavra como arma. E se de ao belicismo tiveram de recorrer, a acção da UPA foi inqualificável, tendo todo o ser civilizado de condenar, a todos os títulos, o modo como aquele movimento se expressou inicialmente.
Todo esse conflito de 13 anos seria desnecessário se os nossos governantes de então soubessem interpretar o decurso do tempo, com as previsíveis mudanças que são a razão de ser da História.
De lamentar é também a actuação dos "Altos" Comissários, realivamente ao cumprimento do Acordo do Alvor - documento bem elaborado, ainda que de simples leitura, que eu próprio subscreveria de boa vontade -. Actuação que deu origem à tragédia dos "retornados" e àquilo a que depois se assistiu no próprio território angolano, para desgraça de todos.Até nisso Portugal tem de assumir responsabilidades.
Fique ao menos a esperança de SITA (v. meu coment. em "O 27 de MAIO...),e a nossa também, de que a igualdade de direitos entre os angolanos venha a ser uma realidade. A nós cabe-nos contribuir, pedagogicamente, para que isso aconteça.
Quanto à RECONCILIAÇÃO..., ela é possível entre homens de boa fé.
Sérgio O. Sá