domingo, 5 de outubro de 2008

BOATOS...BOATOS...BOATOS...


* Tal como é costume acontecer em tempos de crise, os murmúrios começam a espalhar-se entre os pilotos, pelas oficinas, nos bares e até na torre de controlo: “Os jornais de Lisboa escarrapacharam notícias alarmantes sobre o terror em Angola!” “Dizem que há milhares de corpos de velhos, mulheres e crianças que foram barbaramente mutilados pelos terroristas”. Estas notícias espalham-se por todos os lados, vindo a causar verdadeiro pânico entre os militares mais antigos.
Quem pode acreditar naquilo que vem publicado na Ordem de Serviço? “Todos os militares com menos de 18 meses de serviço devem apresentar-se na Secretaria das respectivas esquadras, durante esta semana”.
* Os alunos especialistas mais mal classificados nos respectivos cursos, e bem assim os militares do Serviço Geral, de imediato começam a ser preparados para seguirem com destino à Base Aérea 3, onde irão efectuar um estágio para a Polícia Aérea, com uma duração prevista de três semanas! Ninguém percebe qual o alcance desta determinação, que os leva a desanimar por completo. Há dezenas de militares inconformados com tal situação, dizendo-se frustrados com o que o futuro lhes reservara. Porque carga de água iam eles para a Polícia Aérea? E era em três semanas que se iam preparar para a guerra?
* Para aumentar a desmotivação entre aqueles rapazes de olhares sisudos e cujas palavras eram balbuciadas a conta-gotas, o boato soez e torpe começa a fazer estragos, pois começou a espalhar-se a "notícia" de que grande parte do pessoal pertencente ao pelotão de Polícia Aérea que tinha ido defender a Base do Negage, tinha sido completamente dizimada pelos terroristas da UPA. “Tiveram um fim bastante inglório”, ouve-se dizer a alguns; “tiveram um azar do caraças”, era a opinião de outros. Haviam ainda aqueles que esfregavam as mão de contentes, porque a guerra subversiva do boato dava os seus frutos.
Começa a luta do subconsciente que vai dizendo ser melhor embarcar, mesmo com enormes probabilidades de poder ser esquartejado pelos "turras", ou desertar, simplesmente, pondo de lado a esperança de vir a ter um futuro e uma vida normal. Os jovens militares sabem que juraram defender a Pátria e a Bandeira, mesmo com o sacrifício da própria vida, mas não vêem a obrigatoriedade de esse Juramento se estender para além deste jardim à beira mar plantado que se chama Portugal. Mesmo que se diga que aqui é a Metrópole de um vasto mundo Português, que espera pelo nosso esforço de libertação, tentam justificar-se. No entanto, entendem que desertar será um acto de cobardia e de abandono daqueles Portugueses que em Angola estão a ser massacrados.
Aqueles que chegam a Luanda vêm com vontade de ajudar a combater aquelas hordas de terroristas selvagens, que de forma tão aviltante se entregaram à estripação e esquartejamento de pobres e indefesos inocentes no Norte de Angola. Depois de haverem sido preparados embarcam no avião da noite, sem haver ninguém para lhes dizer adeus, sem se despedirem dos familiares e dos amigos. Cultiva-se a ideia de que as lamechices só servem para esmorecer a vontade de vencer!
* Alguns meses depois, alguém publicou esta mensagem no jornal “Notícias de Penafiel”:
“Neste momento de dúvida e de tristeza, sinto a nostalgia da ausência que me dá saudade. Vou abandonar a mãe-Pátria e partir para a nossa querida província de Angola. Apodera-se de mim o desejo de abraçar todos os entes queridos, os grandes amigos e colegas.
Estou sensibilizado, mas não desejo ser herói nem famoso, não pretendo conquistar o que quer que seja. Sou chamado a defender a Pátria, a manter a soberania portuguesa. Parto confiado na protecção omnipotente. Será sempre essa a minha defesa, o meu refúgio. Agora que me afasto de vós, pedi a Deus que eu não tarde a voltar. É meu dever; por isso vou com a fronte erguida.”

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