quarta-feira, 22 de outubro de 2008

O NEGAGE E O TERRORISMO

Foto extraída na NET - Autor desconhecido
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» Ainda que pareça estar desfazado no tempo, é sempre oportuno poder-se fazer história para que os vindouros saibam o que foi essa coisa das Guerras do Ultramar, ou Coloniais ou de Libertação ou lá o que as mentes dos pseudo historiadores da nossa praça, ligados a convicções partidárias e nada isentos quanto à realidade dos factos possam colocar nos escritos que vão fazendo, para justificar o título de historiadores... de escritores... de narradores... de investigadores ou lá aquilo que pretendam chamar-se a eles próprios.
» É imperioso que se diga a verdade e apenas a verdade nestas coisas da delapidação do território pátrio que nos foi legado, pois os nossos netos deverão orgulhar-se dos seus avoengos e não os votar ao ostracismo, que para isso já bastam determinadas posições tomadas por alguns governos, que teimam em denegrir a memória daqueles "que por feitos gloriosos se vão da lei da morte libertando!", como vem acontecendo com os nossos Combatentes do Ultramar.
» Mas vamos às memórias da história! No dia 15 de Março de 1961, 13 dias após haver terminado a famigerada "Guerra do Algodão", acontecida na Baixa do Cassange, começam a espalhar-se as notícias segundo as quais haviam já muitos mortos, brancos e pretos, homens, mulheres e crianças, que tinham sido massacrados por grupos de bandoleiros armados com catanas e canhangulos, que vinham pondo a ferro e fogo as fazendas e os povoados espelhados pelo Uíge e com o Congo Português. Havia aldeias inteiras em fuga, para fugir das hordas terroristas assassinas, que vinham regando com sangue inocente as terras mártires de Angola.
» Segundo escritos de então, constantes de relatórios militares ou em notícias inseridas na Imprensa, o terrorismo alastrara como uma queimada em pleno Verão, levando tudo atrás. As tripulações pertencentes ao Aeródromo Base nº. 3, que mostravam estar surpresas e confusas com tão alarmantes quanto contraditórias notícias que chegavam de todo o lado, voavam por todo o lado e tentavam aperceber-se do que se estava a passar: "...descolei em direcção ao Quitexe, a poucos quilómetros. Sobrevoei a área. Cheguei perto de Zalala, mas demorei sobretudo no Quitexe. Não compreendia bem o que se passava, mas via muitas sanzalas a arder, uma fila de carros, camionetas e carrinhas no centro da povoação, e a população a olhar para o avião, com espingardas a tiracolo, ou simplesmente encostadas às viaturas...".
» Um avião DC-3, da DTA, aterrou no Negage e largou montanhas de passageiros, logo no dia 16. Eram mulheres e crianças que procuravam segurança. O avião volta a descolar e traz mais e mais gente, que segue depois para Luanda, a bordo de um NORD da Força Aérea, iniciando-se assim a evacuação das populações civis. As populações mais evoluídas do Norte de Angola, iam afluindo ao Negage utilizando aviões da DTA, dos Aero-clubes ou as "Auster" da Força Aérea, viaturas de todo o tipo... ou a pé! O que importava era fugir da morte e conseguirem "apanhar" o NORD ou o DC-3 da DTA para Luanda.
» No Aeródromo Base o pessoal não tinha tempo para folgar, pois havia que receber, consolar e, muito em especial, disciplinar as multidões descontroladas. Viam-se cenas assaz chocantes, de encontros e separações, de egoísmo e altruísmo, de abnegação e desumanidade ou desespero, numa mistura que era irreal, trágica e indescritível.

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

OUTRAS GUERRAS NO NEGAGE


* Quando vou ao álbum das recordações, que guardo ciosamente no meu cérebro, o cofre forte inviolável para as coisas que pretendo guardar da curiosidade de alguns, que não desdenhariam poder encontrar ali farta matéria para se cortar na casaca sobre factos que são tabu... até que me dê na telha aquela vontade de colocar a nu tudo aquilo que me vai na alma!
* Enquanto tal não acontece, dedico alguns momentos de reflectida prosápia onde se fala disto e daquilo... até de nada em especial. Hoje dedico à visita feita pelo Governador Geral Rebocho Vaz ao Negage, no âmbito da inauguração da I Exposição Feira Agro-Pecuária e Industrial, ali realizada.
* Depois de muitas horas de trabalho, onde imperou o bom gosto na concepção, decoração e apresentação dos diversos pavilhões que acolheram o evento, lá chegou o grande dia da inauguração. O Governador entrou no Negage devidamente escoltado por batedores da PSP, perante a satisfação de todos, que o iam vitoriando na sua passagem.
* Nestas alturas há sempre alguma coisa que falha... e um improvisado "sinaleiro", envergando o Uniforme nº. 1 da Força Aérea, onde se ostentavam umas divisas de Furriel, postou-se no meio da Avenida Salazar, mesmo em frente frente à Companhia Congo-Agrícola e ao Gaspar & Fernandes, a regular o trânsito com aqueles gestos apenas capazes de ser reproduzidos por quem esteja completamente embriagado. Um Jeep da Polícia tratou de retirar o "sinaleiro" de serviço voluntário e levá-lo para a Esquadra, ali mesmo ao pé.
* Como é lógico perceber-se, os colegas não gostaram de saber que o embriagado Furriel havia sido levado para o Posto... e toca e ir lá tentar que ele fosse devolvido à "santa liberdade", pois ele até estava a colaborar com a Polícia, que devia ter providenciado colocar ali alguém a regular o trânsito. Era uma indecência o que lhe estavam a fazer.
* O Chefe da Esquadra, que até tinha sido militar no Aeródromo Base 6, mandou que os seus homens, empunhando pistola-metralhadora, mantivessem os militares à distância. Perante tal prova de força... os militares da Base foram embora, mas resolveram mobilizar-se e organizar manobras de diversão no recinto da Feira, provocando a Polícia... que tinha vindo de Carmona para reforçar as forças do Negage, que eram em número reduzido.
* É indescritível aquilo que aconteceu naquele dia de inauguração. O pessoal da Polícia Aérea foi chamado para pôr termo à guerra que se havia instalado, bem como as forças de choque dos Voluntários, que cercaram todo o recinto... mas não sabiam quem era quem naquela emergência e deixaram que o pessoal da Força Aérea abandonasse o local sem problemas. Quando souberam que eram eles quem tinha feito eclodir a guerra, ainda foram até à Base, mas já não viram ninguém a quem pedir responsabilidades.
* O Governador do Distrito, Coronel Guardado Moreira, mandou fazer um inquérito, mas foi inconclusivo, porque a união entre todos os militares prevaleceu e ninguém veio a ser responsabilizado. O Furriel que, involuntáriamente, provocou a zaragata, sofreu uns dias de detenção por não se apresentar sóbrio e ter contribuído, com a sua acção, para os desacatos verificados na exposição, que foi um êxito retumbante, mesmo com este percalço inaugural, que serviu para marcar de forma indelével o evento.
* Durante o tempo em que os homens do Governo de Distrito, do Comando Distrital da PSP de Angola, da Judiciária e da PIDE andaram a caminhar para o Aeródromo Base nº. 3, para tentar encontrar culpados da guerra com a PSP, houve uma certa tensão entre o pessoal, pois havia o receio de que as diferenças entre as especialidades contribuissem para que alguém pudesse mostrar falta de solidariedade, mas tal nunca aconteceu, felizmente para todos.

domingo, 5 de outubro de 2008

BOATOS...BOATOS...BOATOS...


* Tal como é costume acontecer em tempos de crise, os murmúrios começam a espalhar-se entre os pilotos, pelas oficinas, nos bares e até na torre de controlo: “Os jornais de Lisboa escarrapacharam notícias alarmantes sobre o terror em Angola!” “Dizem que há milhares de corpos de velhos, mulheres e crianças que foram barbaramente mutilados pelos terroristas”. Estas notícias espalham-se por todos os lados, vindo a causar verdadeiro pânico entre os militares mais antigos.
Quem pode acreditar naquilo que vem publicado na Ordem de Serviço? “Todos os militares com menos de 18 meses de serviço devem apresentar-se na Secretaria das respectivas esquadras, durante esta semana”.
* Os alunos especialistas mais mal classificados nos respectivos cursos, e bem assim os militares do Serviço Geral, de imediato começam a ser preparados para seguirem com destino à Base Aérea 3, onde irão efectuar um estágio para a Polícia Aérea, com uma duração prevista de três semanas! Ninguém percebe qual o alcance desta determinação, que os leva a desanimar por completo. Há dezenas de militares inconformados com tal situação, dizendo-se frustrados com o que o futuro lhes reservara. Porque carga de água iam eles para a Polícia Aérea? E era em três semanas que se iam preparar para a guerra?
* Para aumentar a desmotivação entre aqueles rapazes de olhares sisudos e cujas palavras eram balbuciadas a conta-gotas, o boato soez e torpe começa a fazer estragos, pois começou a espalhar-se a "notícia" de que grande parte do pessoal pertencente ao pelotão de Polícia Aérea que tinha ido defender a Base do Negage, tinha sido completamente dizimada pelos terroristas da UPA. “Tiveram um fim bastante inglório”, ouve-se dizer a alguns; “tiveram um azar do caraças”, era a opinião de outros. Haviam ainda aqueles que esfregavam as mão de contentes, porque a guerra subversiva do boato dava os seus frutos.
Começa a luta do subconsciente que vai dizendo ser melhor embarcar, mesmo com enormes probabilidades de poder ser esquartejado pelos "turras", ou desertar, simplesmente, pondo de lado a esperança de vir a ter um futuro e uma vida normal. Os jovens militares sabem que juraram defender a Pátria e a Bandeira, mesmo com o sacrifício da própria vida, mas não vêem a obrigatoriedade de esse Juramento se estender para além deste jardim à beira mar plantado que se chama Portugal. Mesmo que se diga que aqui é a Metrópole de um vasto mundo Português, que espera pelo nosso esforço de libertação, tentam justificar-se. No entanto, entendem que desertar será um acto de cobardia e de abandono daqueles Portugueses que em Angola estão a ser massacrados.
Aqueles que chegam a Luanda vêm com vontade de ajudar a combater aquelas hordas de terroristas selvagens, que de forma tão aviltante se entregaram à estripação e esquartejamento de pobres e indefesos inocentes no Norte de Angola. Depois de haverem sido preparados embarcam no avião da noite, sem haver ninguém para lhes dizer adeus, sem se despedirem dos familiares e dos amigos. Cultiva-se a ideia de que as lamechices só servem para esmorecer a vontade de vencer!
* Alguns meses depois, alguém publicou esta mensagem no jornal “Notícias de Penafiel”:
“Neste momento de dúvida e de tristeza, sinto a nostalgia da ausência que me dá saudade. Vou abandonar a mãe-Pátria e partir para a nossa querida província de Angola. Apodera-se de mim o desejo de abraçar todos os entes queridos, os grandes amigos e colegas.
Estou sensibilizado, mas não desejo ser herói nem famoso, não pretendo conquistar o que quer que seja. Sou chamado a defender a Pátria, a manter a soberania portuguesa. Parto confiado na protecção omnipotente. Será sempre essa a minha defesa, o meu refúgio. Agora que me afasto de vós, pedi a Deus que eu não tarde a voltar. É meu dever; por isso vou com a fronte erguida.”