segunda-feira, 15 de setembro de 2008

OUTRAS HISTÓRIAS...

...são sempre passíveis de acontecer numa terra como é o Negage.
* Toda a dinâmica daquela terra passa pelo "diz-se que", "consta que", "parece que", sendo raras as vezes em que se ouvia dizer qualquer coisa com laivos de afirmação, que tivesse a vêr apenas com um "É"..."VI" ou "FEZ-SE"! Porque o boato, a partir de uma determinada altura da vida do Negage, passou a comandar a vida das gentes, que estavam longe de tudo... e as notícias eram apenas e tão só aquelas que os rádios das fazendas iam captando ou algumas notícias que o Rádio Clube do Uíge ia colocando no ar.
* Não espanta, portanto, o facto de andarem pelo ar muitas histórias mal contadas, ou que careciam de sustentação, enquanto havia outras que apenas pretendiam causar alguns impactos na comunidade, fossem eles de medo, fossem de alegria, fossem de desespero, ou ainda de esperança. Quando a realidade das coisas chegava... por vezes já era tarde demais para evitar determinadas situações mais destrutivas... porque o boato havia cumprido o seu papel: DESMORALIZAR!
* A cidade do Negage foi a obra de alguns colonos, muitos deles conhecidos por pessoas que, como militares ou civis, nela vieram a encontrar guarida: O Velho Ginja; o Fernando Santos; o Manuel Agre; o Martins, o Ribeiro Manso; o Jesuíno Dias, o Horácio da "13"; as famílias Baganha, Valadares, Laranjo, Ramos, Fernandes e tantas outras... onde o mítico João Ferreira, pelo seu contributo para o progresso do povoado, que se tornou Vila e depois cidade, merece abrir o quadro de honra das personalidades da terra.
* Recordo uma história relacionada com a iluminação pública e doméstica do Negage. Um velho gerador "Dorman", em tempos oferecido pela Força Aérea à Administração, cumpria um rigoroso programa de utilização, porque já não aguentava fornecer a iluminação pública e doméstica em simultâneo. Não raras eram as vezes em que tudo ficava às escuras, valendo então as velhas lanternas "tempestade" a petróleo, os Petromax ou as velas de sebo, parafina ou cera.
* Durante uma reunião da vereação municipal, o João Ferreira propôs-se oferecer à Vila um gerador "Catterpilar", detentor de bastante mais capacidade e que poderia resolver por uma vez a velha questão da falta de energia. O Baganha, não resistindo à tentação, atirou-lhe:
- "Então não querem lá vêr... o João Ferreira está a propor-se para uma estátua no jardim, só pode..."
- "Olha, lá, meu barrigudo... Eu sei bem onde deves meter essa estátua, meu sacana de m...!" - responde o J.Ferreira.
- "Mesmo com a barriga grande, a estátua não cabe cá, João! Olha logo tu, que não quizesses nada em troca do motor! Já te conheço bem! Se te derem um porco, ofereces um chouriço, não é?" - retrucou o Baganha.
* O João Ferreira saíu furioso da reunião. Dias depois deste acontecimento, chegaram à Vila do Negage três enormes caixotes, cada um com um grupo gerador da "Catterpilar". Foram descarregados no pátio da casa do caçador e empresário J.Ferreira, que tratou de avisar a Administração sobre a necessidade de se construír uma nova central eléctrica. Novamente ouviu as "bocas" do Baganha, pelo que mandou montar um gerador para fornecer energia a uma sua fazenda, outro foi instalado para servir a fábrica de descasque... ficando o terceiro a degradar-se com as inclemências do tempo.
* Porque o problema com o grupo Dorman, mesmo com a assistência que lhe era feita pelo pessoal electricista do Aeródromo, não estava resolvido, antes se agravava, foram várias as diligências para que o João Ferreira desse o grupo à vila, pois até já tinham construído uma nova central. O nosso homem apenas dizia que não precisava de estátuas e que o motor estava pago, pelo que podia apodrecer à vontade! O Governador de Distrito, o Bispo D. Eurico, os Costas do Bungo, os bons dos Capuchinhos Fortunato e Agatângelo, o Professor Carvalhosa... todos pugnavam pela oferta do gerador... até que o João Ferreira acabou por dar a mão à palmatória... e o gerador lá foi cedido e montado na sua nova casa !
* Não sei aquilo que iria no peito do Administrador Reis, quando da inauguração da nova central... mas ele jamais se esquecerá de como foi duro negociar com um Ferreira tão duro e determinado em fazer pagar cara a ousadia do bom do Baganha "da Administração", que nunca mais caíu na tentação de terçar armas contra o João Ferreira! Livra, que ele era difícil!

1 comentário:

lili laranjo disse...

gostei de ler.
sábado vou estar num almoço com o Senhor Baganha que está muito bem.
Almoço é do Colégio Carvalhosa... é sempre um momento muito alto...
depois mostro fotos...
beijos