sábado, 30 de agosto de 2008

"ENTRE AS BRUMAS DA MEMÓRIA..."

Casa residencial e comercial nos Dembos, após um ataque da UPA
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- Logo após o horrendo massacre, que teve início a 15 de Março de 1961, em que se tornaram mártires vilas como a de Úcua ou 31 de Janeiro e quase inexpugnáveis e traiçoeiros alguns redutos rebeldes como Nambuangongo, a imprensa internacional ocupou as suas primeiras páginas com grandes parangonas alusivas aos graves acontecimentos que se desenvolviam em todo o Norte angolano.
- Era indubitavel, nessa fase, que houvesse alguns revezes militares bastante penosos, que atingiam as forças do Exército português. O Doutor Salazar, um pouco às pressas, determinou, com algum atraso na execução destas determinações (pois estava a sofrer um boicote, de forma encapotada, feito pelos ministros responsáveis pela área militar, os mesmos que intentaram, pouco depois, em Abril, fazer um pronunciamento militar), que se procedesse ao envio de contingentes do Exército... "rápidamente e em força!".
- Do Batalhão de Caçadores 5, em Campolide - Lisboa, partiu então uma Companhia, que foi transportada para Angola por via aérea... e logo enviada para a região do antigo reino do Congo, onde o seu Comandante, bastante inexperiente e desconhecendo as técnicas do combate de guerrilha, rápidamente caíu numa emboscada montada pela UPA - União dos Povos de Angola -, tendo sido a subunidade massacrada de forma impiedosa...
- Debelada que foi a crise pela tentativa de golpe militar de Botelho Moniz, o Presidente do Conselho tratou de ordenar uma mobilização imediata... e essa determinação conquistou as simpatias gerais, até por parte de alguns velhos opositores ideológicos e das populações européias de Angola. Aqui tiveram lugar várias manifestações públicas de júbilo e esperança, e o nome daquele que, para alguns era, até então, o odiado ditador... foi vibrantemente aclamado aclamado.
- A massa humana da população branca e milhares de negros fiéis a Portugal, pediram insistentemente a deslocação de Salazar àquele território, porque lhe queriam agradeceer. Mas, sendo ele pessoa experiente e bastante prudentemente , lá foi adiando, protelando... mas prometendo sempre que iria mais tarde, quando as coisas acalmassem e se normalizassem... coisa que nunca aconteceu, apesar de, militarmente, a chamada "guerra colonial" em Angola, quando eclodiu a chamada "revolução dos cravos vermelhos", estar iniludivelmente ganha pelas Forças Armadas portuguesas, havendo cansaço e desânimo para o lado dos chamados "combatentes da libertação", que não vislumbravam no horizonte qualquer prespectiva de vitória.
- Descortinavam, os "libertadores", uma aurora de progresso económico e social bastante promissor e inequívoco, de que também eles almejavam poder vir a beneficiar, preferindo a integração na sociedade angolana à luta armada, aceitando as soluções pacíficas com que o poder político português ia acenando com as diversas iniciativas liberalizantes que estavam a assumir, graças à boa visão das coisas manifestada pelos governantes locais portugueses e angolanos (que vinham substituíndo gradativamente aqueles durante o governo de Marcelo Caetano).
- Mas, voltando aos ataques sanguinolentos pós-15 de Março de 1961, para que melhor possam ser entendidos todos os factos subsequentes: A Cidade de Luanda, cosmopolita e linda capital de Angola, corria o grande risco de poder ser invadida por hordas terroristas sedentas de sangue, drogadas com liamba e armadas, principalmente, com canhangulos (espingardas de fabrico artesanal), catanas e machadinhas, embora não faltassem as armas modernas... que lhes eram fornecidas pelos nobre e democráticos norte-americanos! Quando o terrorismo eclodiu, as autoridades portuguesas terão sido, aparentemente, apanhadas de surpresa. E não dispunham de contingentes militares em número suficiente para enfrentar a vaga terrorista...

sexta-feira, 22 de agosto de 2008

RECORDANDO...outros tempos

* Falar de Angola, do Uíge, das matas de sequóias altaneiras, a tocar o céu, do café que cresce nas fazendas, para gáudio do produtor, que espera uma grande safra, falar do MPLA ou da FNLA... e não falar dos nossos amigos de quatro patas, que connosco partilham os matos frondosos, as savanas, os montes ou os desertos Angolanos, seria um crime de lesa majestade, porque eles são, indubitávelmente, os "senhores" da terra.
* Habituado a vêr tais seres no remanso de um qualquer jardim zoológico ou nos circos da minha infância e juventude, sempre senti um arrepio ao pensar como seria o meu encontro com um animal selvagem no seu território! Seria de pânico, pensava!
* No entanto, começando a conhecer um pouco melhor a fauna em questão, depressa me apercebi que o "tratamento" admissível para quem confronta um animal selvagem é um pouco diferente daquilo que pensamos, pois o leão é nobre, por natureza, não matando por prazer mas por necessidade. Defendem as suas proles, como qualquer outro animal, e não gostam nada de ser "açulados"! Aí tornam-se perigosos, o mesmo acontecendo com os solitários.
* O leopardo é um carnívoro muito mais matreiro! Sobe para as ramadas das árvores e de lá vai observando as suas possíveis presas. Inadvertidamente, salta sobre o alvo escolhido... e era uma vez! O elefante é outro animal a evitar, esp0ecialmente quando "zangado", pois destrói tudo por onde passa! E ai de quem se deixe apanhar pela fúria dele!
* Mas a subtileza da hiena é que me deixa completamente estarrecido. É cobarde como só uma hiena sabe ser, feia como só ela o poderia ser, é fedorenta quante baste... usa e abusa de estratégias para arranjar que comer, desde o fantástico pôr-se de pé... e vendo que é mais alta que a presa... esta está feita ao bife... de hiena! É por demais conhecida por ser necrófaga, aproveitando as sobras dos banquetes leoninos para encher a pança, ou então vamos lá a ingerir esta pacaçazita, porque já está putrefacta e assim a carne é mais macia! O choro da hiena é por demais conhecido através de relatos que nos foram facultados desde os livros da nossa infância até às histórias dos sertanejos, que com eles conviviam no dia-a-dia dos matos.
* O engraçado é que a memória de um animal perigoso - sem serem as variadas cobras que serpenteavam pelos matos, desde a surucucu até à coral - tenho-a de um mangusto, um animalzinho até simpático, muito parecido com o esquilo europeu, que não gostando nada de se vêr perseguido por um jeep da Polícia Aérea do A.B.3, saltou sobre o vidro, o condutor despista-se, resvalam por uma ravina... e temos os primeiros mortos da Polícia Aérea em terras do Negage. É ou não perigoso? Por alguma razão se afirma que é dos animais mais ferozes de África... pela forma como luta, vence e devora as serpentes! Sem medo!
* Aqui para nós: a matacanha é o animal mais pequenino dos matos... mas talvez o que mais vítimas atira para os hospitais... se não houver uma mão firme para retirar a maldita, quando penetra bem fundo nas nossas carnes!
* E por hoje ficamos por aqui, que parece haver aí uma chita a rondar o meu kimbo!

domingo, 17 de agosto de 2008

O 27 DE MAIO... SUBSÍDIOS...

* Quanto mais nos embrenhamos nos acontecimentos do 27 de Maio, mais vontade temos de poder, um dia, vir a saber toda a verdade desses mesmos acontecimentos.
* Merece-o o Povo de Angola, esse mesmo Povo que tem esperado, ao longo dos 33 anos que já leva de experiência como Povo independente, que não torne a sentir vontade de voltar para o "domínio colonialista", pois nesse tempo, mal ou bem, sempre ia vivendo na esperança da mudança... que nunca mais aparece!
* O militante do MPLA Pedro Fortunato era o Comissário Provincial de Luanda. Pretendia fugir de Angola, porque sabia ter a vida por um fio, pois querem-no matar. A vida que viveu foi-lhe madrasta, vê mal, está a cegar, progressivamente... mas não perdeu os seus vícios antigos:
«Se pagarem alguma coisa de jeito, conto a verdadeira história dos mortos do golpe de 27 de Maio».
* Não há lugar a rebates de consciência, pois apenas cumpriu ordens e nada mais que isso; nunca actuou envergando a farda da DISA, pois nessas missões fardava-se sempre... de militar. "Pitoco" - o seu nome de guerra - fazia verdadeiros equilibrios, agarrando-se ao que podia... e lança mais alguns nomes para a arena. Desta vez fala de Vítor Jeitoeira. Jura que este não fez nada, salvando até alguns condenados! Tinha alinhado com as tropas do Dodó Kitumba, um dos acusados de fraccionismo. Até gostava dele, mas ao descobrir que ele tinha os dias contados, tratou de inventar uma história para vender Ludy:
«Não mates o gajo, porque ele tem diamantes escondidos que valem mais de 50 milhões de dólares e é ele o único que pode indicar-nos o esconderijo.»
* José Eduardo dos Santos, ao assumir as rédeas do país, fez o ajuste de contas. Alguns ministros fiéis a Agostinho Neto são afastados do governo. Entre eles estava Iko Carreira, o ministro da Defesa, que foi acusado por Nito de ser um traficante de diamantes.
* Luís dos Passos, o 'estratega' que dirigiu o assalto aos quartéis e efectuou a tomada da Rádio Nacional em 27 de Maio, só voltou a Luanda em 1990. Durante cerca de 13 anos viveu escondido na mata, no norte de Angola. Aí comeu raízes de árvores, sofreu vários ataques de paludismo, mas... sobreviveu.
* O jornalista da BBC João Van Dunem, requereu ao ministro da Justiça angolano, Lázaro Dias, certidões de óbito do seu irmão José e de Sita Walles, mas aquele governante limitou-se a remeter o assunto para os seus colegas da Defesa, da Saúde e da Segurança, com a alegação seguinte:
«Sabido que o Ministério da Justiça só emite certificados de óbito com base em notas ou nótulas de médicos a atestar o óbito
- o que não aconteceu -,
solicito a informação sobre se têm algum conhecimento do falecimento das pessoas acima referidas.»
* Longe das intrigas de Estado, em Kaleba, Francisco Karicukila envelheceu e perdeu a esperança. Ali ouviu dizer que a União Soviética, a mãe de todas as revoluções, está moribunda. Também ele acreditou no socialismo e em Neto, mas na sua aldeia os homens trabalham na lavra e bebem vinho de palma para esquecer a fome.
* A casa onde escondeu Sita está agora abandonada e cercada de capim... o filho, que levava as mensagens dos fugitivos, também foi fuzilado, e ele foi torturado durante dois anos.
Com um sorriso triste, recorda as últimas palavras proferidas por Sita:
«Fomos traídos, mas um dia haverá igualdade no nosso país.»

segunda-feira, 4 de agosto de 2008

RECORDANDO O NEGAGE

O A.B.3 visto do ar
* - A cidade do Negage situa-se no Norte de Angola, a cerca de 37 quilómetros da cidade do Uíje - antiga Carmona -, a capital provincial, sendo parte de um sistema montanhoso que a eleva a 1.300 metros de altitude.
* - As suas principais actividades económicas, num passado ainda recente, eram o cultivo e a secagem do café, a agricultura e a pecuária. Foi, no tempo "colonial", uma zona militar por excelência, considerando-se o facto de nela estarem estacionados o Aeródromo Base nº. 3; a 3ª. Companhia de Caçadores do Capitão Xavier; o Pelotão de Apoio Directo nº. 248; o Pelotão de Artilharia Anti Aérea nº. 984; o Pelotão de Intendência nº. 168 ou a Companhia de Artilharia nº. 749.
* - Em 1961, o Negage foi uma das regiões do Norte de Angola mais atingidas pela barbárie da guerra de terror, que colocou toda a zona a ferro e fogo. Muita gente ainda sentirá o pânico que foi verem passar nas ruas verdadeiras hordas de bandidos, armados com canhangulos e catanas, arcos e flechas, para além das armas que iam roubando das Fazendas que haviam atacado indistintamente.
* - Nas imediações do Negage encontram-se os municípios do Quitexe, Puri e Bungo, também martirizados pelo terrorismo.
* - Contam-se muitas histórias àcerca da figura de João Ferreira, um mítico caçador e o maior produtor agrícola do Negage, de entre as quais a historieta de que, por ser um homem desmesuradamente podre de rico, como era, pretenderia mandar confeccionar um fato com a pele de um, dois ou três negros. Não passará de uma das muitas lendas que se contavam sobre este residente, especialmente por parte das facções do MPLA, que jamais veio a ter as boas graças deste Transmontano ricaço, pai de miríades de filhos, brancos, pretos e mulatos, com mais netos que a aldeia poderia suportar, que comprava hotéis só para mandar os directores para o desemprego e tantas outras fantasias que fazem de João Ferreira alguém que se deveria procurar conhecer muito bem.
* - No sentido Negage-Camabatela, logo à saída da cidade, no local onde a estrada faz uma bifurcação com a estrada para a cidade do Uíje, encontra-se o impressionante aglomerado populacional da Aldeia da Missão Católica do Negage. Existiam, igualmente, dois estádios, um pertencente ao Grupo Desportivo do Negage e o outro ao Sporting Clube do Negage, ambos situados à saída da cidade pelo lado da Capoupa, já na estrada para o Quisseque e o Pinganho, onde também havia um campo de Tiro, com fosso olímpico, prancha Trapp, várias máquinas de lançamento de pratos, etc.
* - Sabe-se que hoje, por iniciativa dos vários sectores da sociedade angolana, entre os quais o governo do MPLA, está a ser implementada a reconstrução da cidade, em todos os parâmetros das necessidades locais e com a abertura de novas valências comerciais e industriais. O café já não será o "OURO NEGRO" de que tanto se orgulhava Angola, pois era um produto reconhecido nas quatro partidas do mundo... mas as feridas vão cicatrizando, lentamente, é certo, mas definitivamente.