quarta-feira, 14 de maio de 2008

Dona MARIA ESTEFÂNIA ANACHORETA - I

- Quando se fala das Campanhas Ultramarinas, especialmente em Angola, não é raro haver quem se recorde daquela mulher forte, corajosa como nenhuma, que dava pelo nome de Maria Estefânia Anachoreta e era uma Ribatejana de corpo inteiro, que ousou calcorrear as mais recônditas aldeias do Norte de Angola, quer fossem perigosas zonas de guerra ou pontos de reagrupamento das Nossas Tropas, tais como Bases Aéreas, Aeródromos, Companhias, Batalhões, etc, etc.
- "Se havia lá um Militar... tinha de chegar lá!".
- Foi delegada do Movimento Nacional Feminino em Santarém. Ciente de que o bem estar dos Militares passava por haver notícias dos seus familiares, reunia as populações de Ourém, de S.Vicente do Paúl, de Abrantes, de Almeirim, de Alpiarça... enfim de todo o Ribatejo, onde, munida de um simples gravador, ouvia aquilo que as mães, esposas ou namoradas dos combatentes de Angola tinham para dizer aos seus. Prometeu-lhes que os rapazes iriam ouvir as mensagens, porque ela própria as levaria até eles.
- Perante a disponibilidade desta Mulher extraordinária, viam-se lágrimas nos rostos das mulheres, sempre que o gravador era ligado. Quantas vezes a Delegada do MFA tinha de recorrer ao bom humor para que as mensagens fossem conseguidas.
- No Verão de 1966, em plena guerra "colonial", Maria Estefânia deixou o conforto do seu lar, no Largo do Carmo, em Santarém, e partiu para Angola, indo ao encontro dos Soldados do seu Distrito. Na bagagem, o indispensável gravador e dezenas de bobines, com as 1.200 mensagens das famílias. A angústia que sentia sempre que contactava as famílias dos combatentes, foi o impulso necessário para encetar aquela viagem única. Ela dizia-lhes, às famílias, que não tivessem medo, pois se eles estavam lá... também ela conseguiria lá ir, porque aquilo não era bem como nas trincheiras da Flandres ou de La Lis.... e elas acreditavam, ganhavam confiança naquela Mulher corajosa.
- "Querido filho: Desejo que passes um Natal feliz. A tua avó, que tem 83 anos, espera poder abraçar-te!" - desabafava uma mãe, através do mic rofone, com a voz bastante embargada pela dor e emoção do momento.
- Os Militares estimavam-na e perguntavam-se quem era aquela Mulher, que chegava onde ninguém se aventurava ir. Era admirada e estimada, até pela sua postura: "Fui para África na condição de mãe dos Soldados!".
- Maria Estefânia regressou à Matrópole sete meses após haver embarcado para Angola, mas isto apenas por causa da doença de seu pai, que acabaria por morrer 10 dias após ela haver chegado. Durante muitos anos não voltou a falar da viagem. "Calei-me bem calada, porque em 67 já tinham ido e vindo muitos Militares... e se eu dissesse o que tinha feito, ninguém iria acreditar!".
- A viagem a Angola foi o grande feito da sua vida. Dizia ter a certeza de que jamais se iria esquecer do pôr-do-sol de África ou das flores brancas do cafezeiro. Acreditava também que nunca iriam sair da sua memória as vozes que haviam sido trocadas entre Portugal e África, naqueles ano quente de 1966.
- Com aquela tranquilidade que é apanágio apenas das grandes almas, faleceu aos 89 anos, no dia 08 de Janeiro de 2008. Paz à sua alma.
- Aqueles que a conheceram jamais a irão esquecer, pois foi uma grande Mulher, digna de ser recordada como um exemplo.

1 comentário:

Anónimo disse...

É tanta a algazarra e tão barulhento o vozeirão dos demagogos, que a voz dessa portuguesa cheia da dignidade, e de muita gente simples deste velho Portugal, não passa de um baixinho sussurro, que mal se ouve.

Mas há que aguentar.