terça-feira, 20 de maio de 2008

Dona MARIA ESTEFÂNIA ANACHORETA - II

Dona Maria Estefânia Anachoreta

Visita do Movimento Nacional Feminino
* Estava-se no dia 13 de Dezembro, naquele ano longínquo de 1965 e na picada que vai da Quibala para o Ambriz. Uma coluna é "apanhada" no meio de uma emboscada, que provoca um morto e 3 feridos. O Alferes MC, um jovem rapaz de Santarém, havia chegado a Luanda, no "Vera Cruz, nos últimos dias do mês de Novembro. Passou 3 dias em Luanda e foi mandado, em coluna, para se apresentar na sua Companhia, que estava na Quibala, por aquele tempo uma zona bastante difícil, de guerrilha bastante acesa, onde o inimigo parecia estar mais atento e mortífero.
* Numa pergunta feita ao jovem Alferes, ele disse tudo num simples relato: -
- " O EPISÓDIO MAIS MARCANTE DA MINHA ESTADIA NO TEATRO DE OPERAÇÕES, FOI QUANDO VI UMA SENHORA, NÃO POSSO DIZER COM PRECISÃO A DATA DA OCORRÊNCIA, VESTIDA COM UM SIMPLES VESTIDINHO E UNS SAPATOS LISOS, SEM OSTENTAÇÕES DE NENHUMA ORDEM, CHEGAR À NOSSA UNIDADE, NA QUIBALA, ACOMPANHANDO ALGUNS MILITARES E... MUNIDA DE UM GRAVADOR. PARECIA UMA VISÃO DESCIDA DO CÉU! UMA VISÃO OU COISA ASSIM... MAS NÃO ERA! ERA UMA PESSOA BEM REAL, DETENTORA DE UMA VOZ INCONFUNDÍVEL, QUE ALGUMAS HORAS DEPOIS SE OUVIA VINDA DO PEQUENO GRAVADOR, COM UMA MENSAGEM INESPERADA! FOI ESTE O MOMENTO MAIS IMPORTANTE DA MINHA PASSAGEM PELA GUERRA, POIS OUVI ALI A VOZ DA MINHA MÃE, NAQUELE FIM DO MUNDO!"
* Numa tarde primaveril, em 1998, Dona Maria Estefânia meteu-se no seu carro e tomou o caminho de Salvaterra de Magos, onde iria lanchar com uma amiga, que a aguardava. Era uma viagem que não demoraria mais de uma hora, se decorresse sem incidentes... mas o que é verdade é ter rebentado um pneu, numa estrada secundária... e pouco havia a fazer. No entanto, porque Deus estava com ela, Dona Maria Estefânia pouco tempo teve de esperar por auxílio, pois logo apareceu um senhor, que passava de mota, que logo se ofereceu para a ajudar a mudar a roda. Quando terminou o serviço, Dona Maria Estefânia perguntou-lhe:
- "Quando lhe devo pelo seu trabalho?".
- "Por quem é, minha senhora! Não me deve nada!" - respondeu-lhe o senhor.
-"Desculpe, mas pelo menos vai ter de aceitar qualquer coisa para beber uma cerveja, pois faço muito gosto nisso!" - teimou a Senhora.
O homem, olhando-a nos olhos, apenas lhe disse: - "Quando a Senhora foi a Nambuagongo levar uma mensagem da minha mãe... eu também não lhe dei nada!". E nos olhos daquele homem agradecido, uma lágrima furtiva teimava em cair!
* A Senhora Dona Maria Estefânia percorreu milhares de quilómetros a visitar os Militares do Distrito de Santarém, nas muitas Unidades espalhadas um pouco por toda a Angola. Sâo Salvador do Congo, Henrique de Carvalho, Gago Coutinho, Carmona, Cazombo, Luso, Teixeira de Sousa, Quibaxe, Salazar, Zala, Quibala, Veríssimo Sarmento, Bembe, Quitexe, Negage, Silva Porto, Lumeje... foram alguns dos muitos lugares onde desempenhou uma das mais nobres missões que o amor de alguém pelo seu próximo poderia imaginar vir a acontecer em tempo de guerra!
A Dona Maria Estefânia Anachoreta deve estar bastante feliz, junto do Pai Celeste, a descansar da labuta que a levou a Angola nos anos da guerra! Jamais será esquecida!

quarta-feira, 14 de maio de 2008

Dona MARIA ESTEFÂNIA ANACHORETA - I

- Quando se fala das Campanhas Ultramarinas, especialmente em Angola, não é raro haver quem se recorde daquela mulher forte, corajosa como nenhuma, que dava pelo nome de Maria Estefânia Anachoreta e era uma Ribatejana de corpo inteiro, que ousou calcorrear as mais recônditas aldeias do Norte de Angola, quer fossem perigosas zonas de guerra ou pontos de reagrupamento das Nossas Tropas, tais como Bases Aéreas, Aeródromos, Companhias, Batalhões, etc, etc.
- "Se havia lá um Militar... tinha de chegar lá!".
- Foi delegada do Movimento Nacional Feminino em Santarém. Ciente de que o bem estar dos Militares passava por haver notícias dos seus familiares, reunia as populações de Ourém, de S.Vicente do Paúl, de Abrantes, de Almeirim, de Alpiarça... enfim de todo o Ribatejo, onde, munida de um simples gravador, ouvia aquilo que as mães, esposas ou namoradas dos combatentes de Angola tinham para dizer aos seus. Prometeu-lhes que os rapazes iriam ouvir as mensagens, porque ela própria as levaria até eles.
- Perante a disponibilidade desta Mulher extraordinária, viam-se lágrimas nos rostos das mulheres, sempre que o gravador era ligado. Quantas vezes a Delegada do MFA tinha de recorrer ao bom humor para que as mensagens fossem conseguidas.
- No Verão de 1966, em plena guerra "colonial", Maria Estefânia deixou o conforto do seu lar, no Largo do Carmo, em Santarém, e partiu para Angola, indo ao encontro dos Soldados do seu Distrito. Na bagagem, o indispensável gravador e dezenas de bobines, com as 1.200 mensagens das famílias. A angústia que sentia sempre que contactava as famílias dos combatentes, foi o impulso necessário para encetar aquela viagem única. Ela dizia-lhes, às famílias, que não tivessem medo, pois se eles estavam lá... também ela conseguiria lá ir, porque aquilo não era bem como nas trincheiras da Flandres ou de La Lis.... e elas acreditavam, ganhavam confiança naquela Mulher corajosa.
- "Querido filho: Desejo que passes um Natal feliz. A tua avó, que tem 83 anos, espera poder abraçar-te!" - desabafava uma mãe, através do mic rofone, com a voz bastante embargada pela dor e emoção do momento.
- Os Militares estimavam-na e perguntavam-se quem era aquela Mulher, que chegava onde ninguém se aventurava ir. Era admirada e estimada, até pela sua postura: "Fui para África na condição de mãe dos Soldados!".
- Maria Estefânia regressou à Matrópole sete meses após haver embarcado para Angola, mas isto apenas por causa da doença de seu pai, que acabaria por morrer 10 dias após ela haver chegado. Durante muitos anos não voltou a falar da viagem. "Calei-me bem calada, porque em 67 já tinham ido e vindo muitos Militares... e se eu dissesse o que tinha feito, ninguém iria acreditar!".
- A viagem a Angola foi o grande feito da sua vida. Dizia ter a certeza de que jamais se iria esquecer do pôr-do-sol de África ou das flores brancas do cafezeiro. Acreditava também que nunca iriam sair da sua memória as vozes que haviam sido trocadas entre Portugal e África, naqueles ano quente de 1966.
- Com aquela tranquilidade que é apanágio apenas das grandes almas, faleceu aos 89 anos, no dia 08 de Janeiro de 2008. Paz à sua alma.
- Aqueles que a conheceram jamais a irão esquecer, pois foi uma grande Mulher, digna de ser recordada como um exemplo.

terça-feira, 13 de maio de 2008

RUMO...

É tempo, companheiro!
Caminhemos...
Longe, a Terra chama por nós,
e ninguém resiste à voz
Da Terra...
Nela,
O mesmo sol ardente nos queimou
a mesma lua triste nos acariciou,
e se tu és negro e eu sou branco,
a mesma Terra nos gerou!
Vamos, companheiro...
É tempo!
Que o meu coração
se abra à mágoa
das tuas mágoas e ao prazer dos teus prazeres
Irmão
Que as minhas mãos brancas se estendam
para estreitar com amor as tuas longas mãos negras...
e o meu suor se junte ao teu
suor, quando rasgarmos os trilhos
de um mundo melhor!
Vamos! que outro oceano nos inflama...
Ouves? É a Terra que nos chama...
É tempo, companheiro!
Caminhemos...
(Alda Lara)

quinta-feira, 8 de maio de 2008

RACISMO...RACISMOS...PRECONCEITOS... II


O POLÍTICAMENTE INCORRECTO... MUITO BEM!

Michael Richards, conhecido como "Kramer" da série de TV "Seinfield, levantou um problema dos grandes, quando fez o seu discurso de defesa em tribunal, depois de haver feito alguns comentários raciais na sua peça de comédia. E, como não podia deixar de ser, ele focou alguns pontos interessantes:

" Tenho orgulho em ser BRANCO!
FINALMENTE HÁ ALGUÉM QUE VOS DIZ ISTO!
Quantas pessoas estão, actualmente, a prestar atenção a isto?
Existem Afro-Americanos, Americanos Hispânicos, Americanos Asiáticos, Americanos Árabes, etc.
E depois há aqueles que são apenas Americanos.
Vocês passam por mim, na rua, e mostram arrogância, chamam-me "White boy", "Cracker", Honkey", "Whitey", "Caverman"... e está tudo bem... mas se sou eu a chamar-vos "Nigger", "Kike", "Towel head", "Sand- nigger", "Camel Jockey", "Banner" "Gook" ou "Chink"... vocês tratam logo de dizer que sou RACISTA!
Quando vocês dizem que os Brancos cometem muita violência contra os Pretos, alguma vez se perguntaram porque razão os GHETTOS são os sítios mais perigosos para se viver?

- VOCÊS TÊM O UNITED NEGRO COLLEGE FUND;
- VOCÊS TÊM O MARTIN LUTHER KING DAY;
- VOCÊS TÊM O BLACK HISTORY MONTH;
- VOCÊS TÊM O CESAR CHAVEZ DAY;
- VOCÊS TÊM O YOM HSHOAH;
- VOCÊS TÊM O MA'ULED AL-NABI;
- VOCÊS TÊM O NAACP;
- VOCÊS TÊM O BET (Black Entertainment Television) - tradução: Televisão de Entretenimento para Pretos.
Se nós tivéssemos uma White Entertainment Television... seriamos RACISTAS.
Se tivessemos o Dia do Orgulho Branco, vocês diriam que seriamos RACISTAS.
Se tivéssemos o mês da História Branca... éramos logo uns RACISTAS!
Se tivessemos alguma organização para ajudar os Brancos a levar a sua vida para a frente, éramos apelidados de RACISTAS!
Existem, actualmente, a Hispanic Chamber of Commerce, a Black Chamber of Commerce... e nós apenas temos a Chamber of Commerce.
Quem paga por isto?
Uma mulher Branca não pode ser eleita como Miss Black American, mas qualquer mulher de outra cor poderá ser a Miss América!
Se nós tivessemos bolsas direccionadas apenas para estudantes Brancos, éramos logo chamados RACISTAS!
Existem por todos os Estados Unidos cerca de 60 colégios destinados apenas a Negros. Se nós tivéssemos colégios para Brancos... eram colégios RACISTAS.
Os Pretos têm marchas pela sua raça e pelos seus direitos civis, como o Million Man March. Se os Brancos fizessem uma marcha pela sua raça e pelos seus direitos... eram logo e apenas RACISTAS.
Vocês têm orgulho em ser pretos, castanhos, amarelos ou laranja, e não têm medo de o demonstrar publicamente... mas se nós dissermos que temos "Orgulho Branco", vocês chamam-nos RACISTAS!
Vocês roubam-nos, fazem-nos carjack, disparam sobre nós... mas quando um Oficial de Polícia Branco dispara contra um Preto de um gang, ou pára um traficante de droga Preto, que era um fora-da-lei e um perigo para a sociedade, vocês dizem ter sido um acto RACISTA.
Eu tenho orgulho... mas vocês chamam-me racista.
PORQUE RAZÃO SÓ OS BRANCOS PODEM SER CHAMADOS DE RACISTAS?"
Se a leitura deste texto der azo a uma boa reflexão... acreditem que ficarei muito feliz por esse facto!
Voltarei a este assunto, prometo!

sábado, 3 de maio de 2008

RACISMO...RACISMOS...PRECONCEITOS...

  1. * Nos meus tempos de ócio, andei a pesquisar tudo o que podia sobre psicologia, especialmente no que a preconceitos e estereótipos respeita, pelo que, como não podia deixar de ser, andei a dissecar os racismos naquilo que os dois termos me poderiam dizer. O racismo - os racismos, porque há mais que um - tem muito por onde se pegue, para quem queira documentar-se e tentar compreender o porquê, como, quem ou onde tal "fenómeno" ocorre.
  2. * Alguém escreveu, um dia, que "o racismo é inevitável", coisa que eu contesto em absoluto, porque não será de todo "inevitável", mas apenas "não desejável". No entanto, a doutrina racista tende a preservar a unidade da raça e assenta na suposta superioridade de uma raça que se confere o direito de exercer o domínio sobre as outras ou ter reacções e tomar atitudes que se harmonizam com esta teoria. Não raro acontece haver hostilidades face a um grupo étnico ou social, como acontece os ciganos, por exemplo.
  3. * Quando vamos pela rua, se tomamos a iniciativa de seguir a pégadas de um qualquer casal "branquinho da Silva" e não os trilhos seguidos pelo casalinho "achocolatado", estamos a tomar uma posição racista. Um dia, já não sei bem quando, fui dar sangue para uma rapariga de côr, que tinha sido vitimada por um atropelamento na via principal do Negage. Um dos enfermeiros que prestava serviço no AB3, que até era mulato, perguntou-me se sabia o que estava a fazer, ao dar sangue para "uma preta". Respondi que sabia bem e que, quando dava sangue, jamais perguntei para quem era destinado. Era preciso, dava e mais nada. Ele concordou e não disse mais nada, mas os pais da rapariga, quando a foram visitar ao Hospital de Carmona, para onde foi transferida após os tratamentos no Aeródromo, ficaram muito admirados de ter sido um branco a dar sangue para a sua menina. Quando vieram agradecer, apenas lhes disse que era sinal de que a côr da pele nada tem a vêr com o íntimo de cada um! Diferentes na pele, mas iguais em tudo o resto.
  4. * Tudo isto para dizer que é imperioso mudar a nossa atitude e comportamentos perante o racismo. Os estereótipos estão presentes, mas apenas devem servir como a luz que ilumina o nosso caminho e não como um caminho ou dado adquirido. É estupidez fingir-se que não existem esteótipos para evitar ser-se racista. Angola é um país que vive um racismo mais ou menos camuflado... se atentar-mos naquilo que se vai verificando no dia-a-dia daqueles que agem como se estivessem a lidar com seres inferiores... mas não se pense que é de brancos para negros ou vice-versa! Não! Prestos, brancos, mulatos, cabritos, albinos e o que mais adiente se possa encontrar nestas terras de Deus, vivem para além da realidade que seria desejável entre humanos. E então é vêr quem manda em quê... como se a côr da pele desse ascendência a alguém sobre outro ser de côr diferente.
  5. * Uma pergunta deixo no ar: - É mais racista o branco que o negro? Ou será que o contrário também é uma realidade que pode ser constatada no dia-a-dia, quer de uns quer de outros? É frequente verem-se homens de côr a engraxar sapatos... em detrimento dos brancos... mas isto será sinal de superioridade? Só porque os empregados de mesa nos cafés são homens negros, será que são inferiores aos brancos? Não são seres inferiores, mas apenas e tão só mais ingénuos que os brancos! Não usam de esperteza saloia nas suas relações com os brancos, como estes fazem entre si!
  6. * Mas não se pense que isso os iliba das responsabilidades tidas nos massacres perpetrados contra homens, mulheres e crianças, brancos e negros, quando eclodiu a maior prova de intolerância rácica, que foi o terrorismo no Norte de Angola. Aí foi notório todo um ódio contra os brancos - e não se pense que apenas era uma guerra contra o colonialismo português, porque bastava ser-se branco ou trabalhar para o branco para se ser réu de morte - e bem assim contra os Bailundos, cujo único crime foi trabalharem para os brancos. Julgo que o racismo negro é mais que notório na actual sociedade angolana. E é pena que assim seja. Nenhum racismo tem justificação, nem de brancos para negros nem destes para brancos.
  7. * Voltarei a este tema.