sábado, 19 de abril de 2008

A GUERRA COLONIAL... vista de dentro - I

Os escritos aqui inseridos são relatos do Senhor Coronel Libânio Pontes Miquelina, em entrevista ao jornal "Correio da Manhã" acontecida em 2007.
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- Relatos do ex-Alferes Libânio Pontes Miquelina, da Compª. 105 do BCAÇ 96, que viveu directamente, na frente, a Guerra Colonial em Angola, pois o seu Batalhão foi o primeiro a entrar em Nambuagongo, em Agosto de 1961:

* "Os combates eram duros e muito feios!" - recorda o Alferes Libânio. "Com o êxito da 'Operação Viriato', a primeira de grande dimensão nas Campanhas de África, acabou-se com o 'santuário da UPA', onde os independentistas se consideravam inexpugnáveis, apesar de alguns aviões da Força Aérea Portuguesa irem lá, de quando em quando, despejar umas bombas."
* "A partir de um morro rodeado de matas diabólicas, com as picadas que lá conduziam obstruídas por árvores e muitas valas, a UPA lançava ataques a povoações próximas e mantinha sob ameaça cidades mais distantes, como Carmona, Ambriz e até mesmo Luanda. Para o Comando Militar português destruír a base tornou-se decisivo e não teve dúvidas em montar uma operação de envergadura."
* " Por três itinerários diferentes, outras tantas forças militares receberam ordens para chegar a Nambuagongo. O Batalhão de Caçadores 114, comandado pelo Ten Cor. Henrique de Oliveira Rodrigues, foi o único que não conseguiu lá chegar. E o '96', do Ten. Cor. Armando Maçanita, foi o primeiro a atingir o objectivo, tendo à frente a Companhia 103 dos Alferes Santana Pereira, já falecido, e Casimiro, que também morreu em campanha."
- O Coronel Libânio Miquelina teve o seu baptismo de fogo a 10 de Junho de 1961, na tomada da Pedra Verde. É natural de Grandola, fez quatro comissões em África, sendo três em Angola e a última em Moçambique, onde comandou uma Unidade de Morteiros.
* " Ficámos um pouco para trás, por causa de um avião Broussard, atingido por uns tiros do inimigo e que, vendo a localidade ocupada por militares, decidiu aterrar na rua central de Muxalando, a uns 20 quilómetros de Nambuagongo. A caminhada que havia sido encetada rumo a este objectivo, durou mais de 20 dias de intensos combates, mas as dificuldades começaram numa ponte sobre o Dange, a 100 quilómetros do alvo. Quando chegámos à zona, tivemos de intervir rápido, porque descobrimos que o inimigo estava a tentar destruír a única ponte existente. Para isso faziam enormes fogueiras, com muitas árvores e ramos sobre o tabuleiro, lançando depois água para cima do mesmo para estalarem o cimento armado por efeito da mudança de temperaturas. Foi um ataque bastante difícil, porque eles já estavam armados com metralhadoras automáticas, além de "canhangulos e bazukas", enquanto no nosso Exército as melhores ferramentas para cavar abrigos eram as... baionetas das velhas espingardas Mauser. Deixei lá dois mortos e muitos feridos. "
* " Os ataques inimigos aconteciam de dia e de noite, ao meio-dia e ao meio da tarde, mas nunca se chegou ao corpo-a-corpo, de que muitas vezes se falava."

5 comentários:

Anónimo disse...

Quem andou na guerra do ultramar, não ouvia outro nome que não fosse mesmo e só "GUERRA DO ULTRAMAR".

Só mesmo por um complexo crónico de "coitadinhos", é que agora se muda o nome para colonial, de libertação, e para aquilo que se queira. Estas coisas só dificultam a compreensão da história.

Porque mudar uma coisa que passou à história com um nome, não é a mesma coisa que mudar o nome a uma rua, a uma ponte, a um estádio, etc, porque estes continuam vivos e continuam a fazer história.

Conforme se mudou de ponte Salazar para 25 de Abril, tambem se podia ter mudado o nome da estátua de Cristo Rei que está ao lado, para, por exemplo Lenine, ou Alvaro Cunhal ou Mário Soares, ou qualquer nome que na altura estivesse na berra.

Pois mudar nomes tambem é fazer história. Agora, aquilo que já passou à história, já tem nome, que esse sim, fez história.

rotivsaile disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
rotivsaile disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
rotivsaile disse...

Caro Amigo ANÓNIMO:
Não posso deixar de comentar o seu comentário, que se poderá prestar a confusões de ordem vária. Para já, o escrito é de um ilustre Coronel do Exército Português... e com toda a certeza não vai pôr em causa ou ter andado ou não na Guerra do Ultramar. Era o que faltava, não?
Essa coisa do complexo de coitadinho deverá ser-lhe aplicada na integra, porque está a estrapular sentanças sem conhecer a razão do escrito reproduzido, creio bem. O termo "Guerra Colonial" não é por mim muito querido, acredite, mas também me não é querido o termo "Guerra da Independência", de "Libertação" ou outra qualquer designação que queiram dar a uma guerra... porque fiquei farto de guerras em doze anos que por lá penei.
Guerra Colonial designa uma situação que não pode ser separada da terminologia então usada por muito boa gente, pois HAVIA COLÓNIAS PORTUGUESAS EM ÁFRICA, sabia-se, e o termo "Colonial" torna-se lógico, se bem que jamais me senti "colonialista" por ter lá andado na guerra. Essa de dificultar a compreensão da história apenas lembrará aos que querem embirrar com qualquer coisa, nem que seja com algo que já passou à história e tomou designações as mais diversas, consoante os interesses em jogo.
É que eu estive na guerra contra o terrorismo em Angola, que nos foi movida por interesses de países terceiros, hávidos de colocar as patas nas nossas possessões ultramarinas de 500 anos. O resto... peça contas ao Mário Soares, ou aos famosos "Militares de Abril", que venderam a consciência por um prato de lentilhas... quando venderam a liberdade dos Povos da África Portuguesa a troco de benesses nunca apuradas. Seria isso traição?
Homem: Não faça juízos de valor por o Autor ter usado o termo "Colonial", porque fomos potência colonial com muita honra!
Victor Elias

Andreiaaa!!! disse...

Tenho um tio que esteve em Negage de 16 de Abril de 1961 até 22 de Dezembro do mesmo ano. Neste momento estou a fazer uma pesquisa para um trabalho de História A, e por acaso encontrei este site! Obrigada!
Se quiserem alguma informação (visto que ando a entrevistar vários familiares que participaram na guerra) é só dizer!
=)