quinta-feira, 27 de março de 2008

DOM FRANCISCO DA MATA MOURISCA

Dom Francisco da Mata Mourisca (ao centro)

* Depois de mais de 40 anos ao serviço do Povo de Deus, nas Dioceses Moçambicanas de Uíge e São Salvador, com a provecta idade de 78 anos - muito próximo dos 79 - José Moreira dos Santos, que todos os que estiveram em Angola, antes e depois da independência, conheceram como Dom Francisco da Mata Mourisca - Bispo pela Graça de Deus e da Santa Sé, resignou!
* Foi um Homem que à sua Diocese todo se duou, durante os mais de 40 anos em que ali exerceu o seu ministério episcopal. Não se coibe de afirmar que "Angola é hoje um País que regrediu muitos anos, mas onde já se vive com muita esperança. Está-se a fazer um esforço muito grande para recuperar a escolaridade e a saúde." D. Francisco sabe que nada parece imediato num país que foi totalmente devastado pela guerra. Angola é, de facto, um território muito rico, que registou, ultimamente, um PIB extraordinário, baseado num enorme crescimento... mas a aplicação dessa riqueza não se vê. Porquê? "Certamente que estão a fazer alguma coisa - estradas, escolas, empreendimentos vários - mas todos pretendem vêr um pouco de maior celeridade nesse trabalho!", opina o Bispo.
* Todo esse investimento será a pedra de toque para a melhoria das condições sociais do Povo Angolano, mas a economia sofre ainda o revés dos muitos lóbis que povoam as altas estâncias decisórias e políticas. "Segundo me dizem, a corrupção é uma intituição internacional... e Angola não está isenta dessa instituição. Sei de uns senhores que foram lá estudar a hipótese de investimentos, e um deles disse-me: 'Olhe que há muito onde investir, mas há que dar 'mata-bicho' em vários escalões, e depois o saldo positivo fica muito pequeno..."
* D. Francisco parece estar decidido a permanecer ainda pelo Uíge, porque lhe custa abandonar aqueles que são a sua "família". Sempre fez grandes esforços para sobreviver: "Uma guerra são dois exércitos a destruír o próprio país (ou três, como aconteceu em Angola em determinada altura). A Igreja, no meio de 15 anos de marxismo, sentia-se definhar, sobrevivendo apenas através das ajudas externas que iam chegando da Europa, especialmente da Cáritas, de que chegou a ser o presidente em Angola.". "Com o acabar da guerra, compreende-se que as pessoas sintam menos motivação para ajudar Angola. Sabem que Angola é rica - dizem-no claramente - e sentem então menos motivações para ajudar. Mas eu costumo dizer, é verdade, 'Angola é um país rico de gente pobre'. Ainda não acabou o tempo de precisarmos de ajuda do exterior.".
* Recuando no tempo, à década de 60, Dom Francisco da Mata Mourisca viajou até Angola para inaugurar a Igreja de Nossa Senhora de Fátima dos Capuchinhos. Ficou maravilhado com o progresso que encontrou em Luanda. Quando foi nomeado Bispo de Carmona (hoje Uíge) e São Salvador do Congo, não lhe advieram hesitações. Encontrou um país de mentalidade aberta. "Os portugueses tinham uma visão bastante aberta do Mundo, dos problemas.". O choque dá-se no final dos anos 70. "Guerra é guerra. Houve realmente ameaças e práticamente um temor colectivo entre os portugueses. Poucos tiveram a coragem de ficar. Penso que foi mau para eles, mas em Portugal refizeram as suas vidas. Já os Angolanos contaram-me que desceram na qualidade de vida." A economia perdeu-se. As casas, estradas, pontes, infra-estruturas foram destruídas...
* ...a guerra estendeu-se a todo o país, mas com focos realmente arrasadores no Norte e no Sul do país. "Depois de a UNITA perder a Jamba, foi ocupar as bases que a FNLA havia abandonado, passando os homens desta para o Movimento do Galo Negro ou para o MPLA. Nos últimos anos de guerra, o Norte foi flagelado pela guerra de um modo especial.". As homilias de Dom Francisco incidiam no tema da paz e da concórdia entre o MPLA e a UNITA.
* Que possa descansar em paz aquele que tanto labutou!

4 comentários:

Camilo disse...

Lembro-me dele durante os meus tempos de jocista
(JOC-Juventude Operária Católica).

Anónimo disse...

Sou jovem estudante da universidade Agostinho Neto e Tenho o Bispo Francisco da Mata Mourisca como uma refencia obrigatória de Consciência moral e ética de convivência social, pra ser sincero não consigo encontrar termos ideais para expressar a nobresa de raciocíneo que vejo nas obras do Bispo Francisco da
Mata Mourisca Tudo farei para conseguir todos os livros e guarda-los-ei com todo cuidado para Futuras gerações ... Agradeço´à Deus por nos ter dado uma pessoa tão preciosa, embora não seje cristão... Deixo os meus melhores comprimentos para o saudoso bispo.

Maria José disse...

Lembro-me dele, vivi em Carmona e foi nessa vila que dei os meus primeiros passos na catequese.
Maria José

Renato disse...

Boas
Sou filho de gente que viveu de perto com Dom Francisco em Carmona, minha familia era da electrificadora do Uige, já estive em Angola onde penso regressar brevemente e ai sim, espero conseguir dar um salto ao Uige para endereçar cumprimentos da minha familia a este grande senhor,
Renato Soares
rensoar@gmail.com