sexta-feira, 1 de fevereiro de 2008

ANGOLA - ASCENÇÃO OU QUEDA? - I


---- Quando olhamos para o período em que Angola viveu o prenúncio da abolição esclavagista, somos convidados a olhar uma sociedade nativa do período final do século XVIII, quando a população angolana era menos de 20 milhões numa área de 2,5 Km2, com uma distribuição bastante desigual, que estava congregada, preferencialmente, em aldeias formadas por tiranias hereditárias baseadas na linhagem de "sangue sagrado", segundo a tradição dos Grandes Lagos.
---- Há quem fale que essa população seria bastante menor, talvez entre 10 a 15 milhões... mas será é difícil estabelecer-se uma certeza quanto ao número de habitantes que, ao tempo, existiriam nos vales dos grandes rios e nos planaltos férteis de Luanda ('Congo higlands') e Benguela ('Huambo'), uma vez que os agregados existentes na savana eram bastante escassos e dispersos.
---- No Reino do Congo os antigos chefes regionais vieram a exprimir "a sua unidade através de forte adesão a ritos e símbolos cristãos, tais como a investidura da Ordem de Cristo, o direito de enterro nosn túmulos reais cristãos situados em São Salvador e o casamento cristão" que reputavam protegê-los "ao mesmo tempo, dos efeitos da feitiçaria". O Ntotela viu, porém, o seu poder reduzido, a partir de cerca de 1800, - e à semelhança do Papa - às imediações da sua capital.
---- A sociedade da região - pensa-se - seria 'linhageira', mas já antes de 1565 havia guerreiros profissionais, ou a 'nziku' (anzicos), provávelmente escravos, e no tempo de Candornega (1680) os súbditos do 'n'gola' encontravam-se completamente estratificados em duas camadas bem definidas: a gente 'mulenda' (de mulinda) ou linhageira e a do "ki nyku" (de quinjico) ou adquirida - guerreiros, serviçais, escravos - e que a sua escravização se intensificou em resposta ao tráfico. - Esta é a conclusão lógica, porém, à priori: de facto, a escravização jurídica tradicional, que decorria da condenação de indivíduos, seria limitada pela impraticabilidade de fabricar acusações para criminalizar alguém, uma prática de que apenas o "soba" beneficiaria; e o deflagrar 'normal' de conflitos entre etnias por razões territoriais - pastos, lavouras, águas - tenderia a reconhecer-se como contra-produtivo para os interesses das próprias produções. O aumento da escravatura no século XVIII não significará, portanto, uma intensificação do tráfico dentrom do território, mas, primeiro, uma extensão da prática e territórios vizinhos - históricamente o vasto império Luba - agenciado pelos chefes de Cassanje, e finalmente ao trato directo de Luanda com os chefes do interior de África.
---- No tráfico em geral, os africanos obtinham, através do tráfico, téxteis e armas de fogo, sendo que estas e a pólvora estavam no 3º. lugar das preferências, ou sejam 10% do valor exportado. O número de pessoas exportadas legalmente para a América, de que se conhecem os registos relativos ao período entre meados do século XVI e 1850, totalizou aproximadamente dois milhões. A partir de 1780, o tráfico de Luanda e de Benguela escalou-se de 168.000 na década de 1791-1800; 188.400 de 1801 a 1810; 246.000, entre 1811 e 1820 e 248.000 de 1821 a 1830, sendo o impacto demográfico incerto, mas considerado, geralmente, coberto pela fertilidade natural das mulheres, já que, eram homens que, maioritáriamente, se exportavam.
---- Congo e Luango eram territórios onde o governo português de Luanda tinha pouco ou nenhum poder de intervenção efectiva e onde quem agenciava o tráfico, desde o século XVII, entre o vale do rio Quango e os Bavili, cruzando o Cacongo, eram os 'Mubires', muito respeitados por exercerem o ofício semi-mágico de ferreiro; trocavam os escravos nas feitorias norte-americanas, brasileiras, espanholas e portuguesas da costa do Luango, por mercadorias europeias que utilizavam em parte na aquizição de mais escravos além Cuango; para sul a actividade dos 'mubires' penetrava o reino do Congo e chegava aos distritos de Dembos, Dande e Zenza, em território português. Estes mercadores, precursores de uma oligarquia comercial e burguesa na costa africana, entre o Luango -hoje Cabinda - e o Ambriz, subordinavam-se às autoridades linhaceiras locais. A sul do rio Zaire bem como ao norte - no Cacongo - o poder central estava moribundo; os 'ntotela' e o 'maloangu' do Maiombe apareciam como figuras de ritual nas administrações feudais respectivas; assim, "as relações formais entre o governo português e o Mani Congo, no século XIX, reduziam-se... à manipulação política dessa dimensão ideológica e espiritual, uma vez que os missionários... se encontravam em Luanda!".

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