quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008

RECALDOS DA GUERRA - I

Aeroporto de Carmona - Uíge - mais uma "vítima" da guerra...

---- Logo que se deu a Revolução de Abril, muitos dos protagonistas trataram logo de deitar contas à vida e fazerem o seu balanço sobre aquilo que foram os anos daquela guerra que haviam passado, constatando então que o "DEVE" e o "HAVER" inclinava a balança, fortemente, apenas para um dos lados da barricada... e isso nunca poderia acontecer, cogitavam uns, enquanto havia outros que pensaram ter chegado a paz, finalmente, e que agora tudo iria ser diferente...
--- ...e não se enganavam, porque tudo mudou, num ápice, apenas com o senão de que estas coisas são, quase sempre, um pau de dois bicos, não se descortinando qual será o lado direito ou esquerdo do mesmo pau. É que o 25 de Abril foi algo de inesperado, se considerado o facto de que reinava a paz em quase todo o território de Angola, havendo apenas um registo de esporádicas escaramuças no Leste, de pouca monta, sendo os combates mais violentos aqueles que se travavam entre as hostes da UNITA, do MPLA e da FNLA. Em Luanda, por exemplo, vivia-se a santa paz dos anjos, via-se uma vida cosmopolita plenamente conseguida, mostrando-se à evidência - leia-se aos países financiadores da guerra - que a capital angolana era uma testemunha "abonatória" da situação de paz então reinante.
---- O facto de os Movimentos, que estavam aquartelados nos vizinhos Zaire ou Zâmbia, aproveitaram o mês de Maio para darem conta da vontade de continuar a luta até à independência total. Foi o golpe do 25 de Abril que veio dar aos Movimentos a importância que eles não tinham. Eram forças que já haviam reconhecido a derrota militar, mas o Movimento dos Capitães proporcionou-lhes mais uma injecção de alento, uma esperança de virem a conseguir uma vitória na secretaria que não lhes fora proporcionada no campo... de batalha.
---- Mas não foi essa vontade demonstrada de continuar a luta que tirava o sono aos Portugueses, cujas Forças Armadas haviam rechaçado os rebeldes para as fronteiras, controlando militarmente toda a vasta Angola, onde cessaram todas as operações de combate desde 1972, com plena liberdade de circulação.
----Após o surgimento, em meados dos anos 60, de actividades pseudo-militares no interior de Angola, onde o MPLA abriu, em 1966, a Frente Leste; a UNITA atacou a Vila Teixeira de Sousa, na fronteira com o Catanga, nos finais do ano de 1965, os Movimentos entraram em profunda crise interna: Agostinho Neto mandara fuzilar, dois anos antes, vários comandantes no Leste, após a revolta dos Bundas, tendo o movimento recuado para a Zâmbia, envolvidos num debate interno para a revitalização daquela frente. Daniel Chipenda havia proclamado, no ano anterior, uma cisão, como protesto contra a assinatura de Agostinho Neto e de Holden Roberto de um acordo para a criação de um Conselho Supremo para Libertação de Angola. O 25 de Abril veio proporcionar o aparecimento de outra facção, a Revolta Activa, em que era proposto um amplo debate para a redefinição da estratégia da luta armada de libertação.
---- Pelo lado da FNLA as coisas também estavam difíceis, mesmo sabendo-se que contavam com o apoio de Mobutu, estando em preparação, no Zaire, de um exército com cerca de 9.000 homens, que estariam a ser treinados por instrutores chineses, estando bem armados, dizia-se. Mas Holden Roberto não tinha quadros dirigentes. Mandara fuzilar, após a revolta no Kinkuzo, no Zaire, no início de 72, algumas dezenas de oficiais pertencentes ao seu Estado Maior, tendo muitos outros fugido para Brazaville. A UNITA estava no interior, abaixo da linha dos Caminhos de Ferro de Benguela, sem qualquer actividade conhecida...
---- O vice-Reitor da Universidade de Luanda, Professor Nuno Grande, dizia: "À medida que as pessoas se integravam, a ideia da guerra era uma ideia longínqua!". Apenas uma coisa pode ter acontecido, para que tudo se houvesse modificado: ALGUÉM SE PORTOU MAL E TRAÍU PORTUGAL E AS SUAS GENTES!..........continua

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008

O UÍGE E O INÍCIO DO TERRORISMO

Cidade do Uíge - antiga Carmona - nos anos 2000


---Assim que eclodiu nas ruas dos Congos Belga e Francês, a feroz perseguição aos colonos brancos, desde logo se começou a falar na possibilidade de, em Angola, mais concretamente no Congo Português, ser necessário tomarem-se providências para evitar as catástrofes de Brazaville. O Catanga sentiu-se impelido para a guerra, tentando a secessão, além de haver um antagonismo latente entre o Presidente do Congo Zaire, Kasavubu e do Primeiro Ministro P. Mumumba, que acaba por ser assassinado em 1961. A par disso... as potências estrangeiras vão-se intrometendo... porque há que garantir uma presença que lhes garanta a manutenção de previlégios comerciais...
---Ouviam-se, aqui e além, notícias inquietantes, perturbadoras, que davam conta de tumultos que se espalhavam um pouco por toda a África... e pela Ásia. Falava-se de confrontos na Argélia, que esteve em guerra entre 1954 e 1957, acabando por se tornar independente em 1962; de guerra na Indochina, que se eternizou entre os anos de 1946 a 75, abrangendo os territórios do Vietname, Laos, Tailândia e Cambodja; do terror em Nairobi, provocado pelas seitas Mau-Mau, que colocaram o Quénia a ferro e fogo, entre os anos de 1952 a 56, vindo a culminar com a independência em 1963; de lutas no Ghana...
---Um punhado de gente de boa vontade, entre os quais Montanha Pinto, Manuel Agre, João Ferreira, Manuel Manso, os irmãos Baganha, Jesuíno Dias, Fernando Santos e muitos outros, começa por solicitar ao Governador do Distrito que esteja atento aos movimentos de homens vindos da fronteira... mas nada fica decidido, até ao dia 4 de Fevereiro de 1961, quando o MPLA (Movimento Popular de Libertação de Angola) assalta uma Esquadra da Polícia de Segurança Pública de Luanda, a Casa de Reclusão Militar, a Cadeia de S. Paulo e a Delegação da Emissora Nacional . Claro que as Autoridades Portuguesas reprimiram violentamente esta "ousadia", não contando que também a UPA (União dos Povos de Angola), a 15 de Março, dirige sangrentos ataques contra os colonos e interesses portugueses no Norte do território, tendo-se iniciado assim a Guerra Colonial. Mais uma vez os homens do Norte pedem providências ao Governador... mas acabam por ser eles a providênciar a defesa de pessoas e bens e a dos seus entes queridos. Aqueles que tenham uma caçadeira sentem-se aptos para a defesa, que não é coisa de somenos importância, se considerada a selvajaria havida nos primeiros recontros. Se os "turras" tinham a intenção de fazer uma união entre os colonos, estavam mesmo a conseguir. Apesar de muitos terem optado pelo regresso à distante Metrópole , outros houve que decidiram defender o fruto do seu trabalho, até às últimas consequências. Eram os primeiros "voluntários" de Angola. Os "ventos da História" sopram, inexoráveis, de "Cabinda ao Cunene", no dizer do líder do MPLA. Os líderes africanos levam ao Conselho das Nações Unidas a palavra contra a presença de Portugal em África... mesmo que no final afirmassem que Portugal não poderia abandonar os Povos de Angola, Moçambique ou Guiné ao seu destino. Claro que não se acreditava muito na sinceridade de tais afirmações, até porque Portugal era pequeno demais para permanecer em África, quando algumas das grandes potências tiveram que retirar. A mensagem é "Para Angola, rápidamente e em força!...", mas são as gentes do Uíge a dar enormes lições de determinação e vontade de permanecer.
---Mal sabiam eles que uma corja de cobardes preparava o acabar de um sonho, o abandono de uma grandeza de 500 anos, que haviam levado Portugal à categoria das grandes Nações do Mundo. Aqueles a quem a história recente chama de "Capitães de Abril" abriu portas àquilo que o empenho dos Estados Unidos e da União Soviética, juntamente com outros abutres ou hienas, desejosos de lançar as garras sobre os despojos por nós deixados, tornaram inglório o esforço daqueles que fizeram aquela que é, hoje, a grande Nação Angolana... entregue nas mãos de gente que jamais pensou que lhes fosse entregue, de mão beijada, o valioso espólio de uma terra que foi generosamente regada pelo sangue de muitos Heróis.
---Certamente que os seus espíritos, um dia, clamarão por justiça... desconhecendo-se quem estará em condições de prestar contas pelo sangue por eles vertido.

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2008

O CARNAVAL... faz esquecer problemas?

----Sempre que as televisões dão as notícias do dia, de Portugal e do mundo, somos confrontados com situações acontecidas um pouco por toda a parte, onde são reveladas as misérias e grandezas do quotidiano, como sejam o assustador avanço da SIDA, as calamidades naturais, a onda de abortos, a angústia da pobreza extrema, os abandonos de crianças e idosos, o recrudescer da violência, a alarmante insegurança, o aumento do desemprego, os assaltos, os roubos, os raptos...
----Não que eu seja um moralista, nem tampouco alguém com vocação para pregador ou missionário, acreditem-me, mas, com a chegada deste tempo de Carnaval, é frequente perder-se a noção da decência e da moralidade, com a consequente onda de disparates, que é prática desta época. O Carnaval mostra-nos o rosto da completa alienação espiritual e ética, a que a sociedade se vai permitindo... cada vez mais.
----Nota-se o desopilar da contenção de 360 dias de angústia constante, de mil desilusões e completo desespero pela falta de soluções para os problemas que o quotidiano do País propicia. Pelo menos, ao celebrar-se o Entrudo, deitam-se pela porta fora todos os problemas... e que possa reinar a folia.
----Ponham-se os olhos no Carnaval Carioca. É uma cidade que está a ferro e fogo, uma imagem moderna de Sodoma ou Gomorra, onde impera a podridão dos costumes, onde se podem encontrar milhentos " meninos de rua" a exigir que sejam encontradas soluções que permitam proporcionar-lhes uma integração futura na sociedade a que as crianças, queira-se ou não, pertencem. Constacta-se que, no Carnaval do Rio, tudo se permite, porque a alegria e a música, o suor e a droga, os corpos despudoradamente nús, a violência gerada por acertos de contas antigas, a embriaguês, o roubo... são marca de uma cidade com favelas onde fervilha uma vida que não é consentânea com o título de "Cidade maravilhosa" habitualmente atribuído ao Rio de Janeiro. Sim! As televisões permitem-se veicular as grandezas e misérias de uma festa plena de côr, de alegria, de luzes mil... que, ao chegar a alvorada da Quarta Feira de cinzas, não passará de uma quimera que se finou, tendo causado um gasto monumental, que foi feito para gáudio de uns tantos milhões de turistas, apenas interessados na passagem de um bocado de tempo bem passado, nem se apercebendo de que a faustosidade que se vê naquele carro... corresponderá a umas tantas crianças que continuarão a passar fome, a uns tantos velhos desamparados, porque agora, para os foliões, vale apenas a reinação.
----É CARNAVAL... pois que viva o Carnaval, esperando-se apenas, e tão só, que um novo amanhã possa permitir-nos continuar a folia... com confiança e verdade.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2008

ANGOLA - ASCENÇÃO OU QUEDA? - I


---- Quando olhamos para o período em que Angola viveu o prenúncio da abolição esclavagista, somos convidados a olhar uma sociedade nativa do período final do século XVIII, quando a população angolana era menos de 20 milhões numa área de 2,5 Km2, com uma distribuição bastante desigual, que estava congregada, preferencialmente, em aldeias formadas por tiranias hereditárias baseadas na linhagem de "sangue sagrado", segundo a tradição dos Grandes Lagos.
---- Há quem fale que essa população seria bastante menor, talvez entre 10 a 15 milhões... mas será é difícil estabelecer-se uma certeza quanto ao número de habitantes que, ao tempo, existiriam nos vales dos grandes rios e nos planaltos férteis de Luanda ('Congo higlands') e Benguela ('Huambo'), uma vez que os agregados existentes na savana eram bastante escassos e dispersos.
---- No Reino do Congo os antigos chefes regionais vieram a exprimir "a sua unidade através de forte adesão a ritos e símbolos cristãos, tais como a investidura da Ordem de Cristo, o direito de enterro nosn túmulos reais cristãos situados em São Salvador e o casamento cristão" que reputavam protegê-los "ao mesmo tempo, dos efeitos da feitiçaria". O Ntotela viu, porém, o seu poder reduzido, a partir de cerca de 1800, - e à semelhança do Papa - às imediações da sua capital.
---- A sociedade da região - pensa-se - seria 'linhageira', mas já antes de 1565 havia guerreiros profissionais, ou a 'nziku' (anzicos), provávelmente escravos, e no tempo de Candornega (1680) os súbditos do 'n'gola' encontravam-se completamente estratificados em duas camadas bem definidas: a gente 'mulenda' (de mulinda) ou linhageira e a do "ki nyku" (de quinjico) ou adquirida - guerreiros, serviçais, escravos - e que a sua escravização se intensificou em resposta ao tráfico. - Esta é a conclusão lógica, porém, à priori: de facto, a escravização jurídica tradicional, que decorria da condenação de indivíduos, seria limitada pela impraticabilidade de fabricar acusações para criminalizar alguém, uma prática de que apenas o "soba" beneficiaria; e o deflagrar 'normal' de conflitos entre etnias por razões territoriais - pastos, lavouras, águas - tenderia a reconhecer-se como contra-produtivo para os interesses das próprias produções. O aumento da escravatura no século XVIII não significará, portanto, uma intensificação do tráfico dentrom do território, mas, primeiro, uma extensão da prática e territórios vizinhos - históricamente o vasto império Luba - agenciado pelos chefes de Cassanje, e finalmente ao trato directo de Luanda com os chefes do interior de África.
---- No tráfico em geral, os africanos obtinham, através do tráfico, téxteis e armas de fogo, sendo que estas e a pólvora estavam no 3º. lugar das preferências, ou sejam 10% do valor exportado. O número de pessoas exportadas legalmente para a América, de que se conhecem os registos relativos ao período entre meados do século XVI e 1850, totalizou aproximadamente dois milhões. A partir de 1780, o tráfico de Luanda e de Benguela escalou-se de 168.000 na década de 1791-1800; 188.400 de 1801 a 1810; 246.000, entre 1811 e 1820 e 248.000 de 1821 a 1830, sendo o impacto demográfico incerto, mas considerado, geralmente, coberto pela fertilidade natural das mulheres, já que, eram homens que, maioritáriamente, se exportavam.
---- Congo e Luango eram territórios onde o governo português de Luanda tinha pouco ou nenhum poder de intervenção efectiva e onde quem agenciava o tráfico, desde o século XVII, entre o vale do rio Quango e os Bavili, cruzando o Cacongo, eram os 'Mubires', muito respeitados por exercerem o ofício semi-mágico de ferreiro; trocavam os escravos nas feitorias norte-americanas, brasileiras, espanholas e portuguesas da costa do Luango, por mercadorias europeias que utilizavam em parte na aquizição de mais escravos além Cuango; para sul a actividade dos 'mubires' penetrava o reino do Congo e chegava aos distritos de Dembos, Dande e Zenza, em território português. Estes mercadores, precursores de uma oligarquia comercial e burguesa na costa africana, entre o Luango -hoje Cabinda - e o Ambriz, subordinavam-se às autoridades linhaceiras locais. A sul do rio Zaire bem como ao norte - no Cacongo - o poder central estava moribundo; os 'ntotela' e o 'maloangu' do Maiombe apareciam como figuras de ritual nas administrações feudais respectivas; assim, "as relações formais entre o governo português e o Mani Congo, no século XIX, reduziam-se... à manipulação política dessa dimensão ideológica e espiritual, uma vez que os missionários... se encontravam em Luanda!".