domingo, 27 de janeiro de 2008

sábado, 26 de janeiro de 2008

DINHEIRO DE ANGOLA - IV

---- Como diria o velho João Ferreira, indubitávelmente o Homem do Negage, "...o dinheiro trás sempre outro dinheiro com ele! É preciso saber procurá-lo... e merecê-lo!". Para quê esta introdução, perguntarão, mas a isso responderei que apenas estou a justificar a continuação deste trabalho sobre o dinheiro de Angola, pois não quero que vos falte, palavra.
---- Começarei por falar da MACUTA, que em Quimbundo é Makuta, o plural de likuta, sendo o nome Quicongo dos célebres "panos" tecidos de fibras vegetais que correram em Angola como moeda, até cerca de 1694. A partir deste ano começaram a circular as moedas de 10 reis, especialmente estas, que eram produzidas para o Brasil e a Guiné, querendo este "Guiné" dizer todas as possessões Portuguesas da Costa Ocidental de África. As "Macutas", com o dístico "África Portuguesa", só vieram a ser cunhadas em 1762, no tempo do Marquez de Pombal. Conheceram uma enorme distribuição no reinado da Rainha D. Maria I, havendo emissões em 1783 - no valor de 10, 8, 6, 4 e 2 Macutas em prata e de 1 Macuta cobre; 1784 - no valor de 6 e 4 Macutas, em prata; 1785 - no valor de 1, 1/2 e 1/4, em cobre; 1786 -1 e 1/2 Macutas em cobre; 1789 - no valor de 12, 8, 6 e 4 Macutas em prata, de 1, 1/2 e 1/4 Macuta em bronze; 1796 - valores de 12, 10, 8, 6, 4 e 2 Macutas em prata. Foram desvalorizadas em 50% na regência de D. João, no ano de 1814 - foram carimbadas nas missões até 1816 e não houve novas emissões no reinado de D. Miguel. No reinado de D. Maria houve nova desvalorização de 20%, mas houve novas emissões em 1848, 1851 e 1853. No reinado de D. Pedro V fizeram-se emissões das moedas de 1/2 Macuta (1858) e de 1 e de 1/2 Macuta em 1860. No reinado de D. Luis I houve ensaio para uma nova moeda destinada a Angola, nos valores de 20, 10 e 5 Reis, para substituirem as Macutas a partir de 1886, mas ficou-se pela intenção, pelo que as Macutas tiveram curso corrente em Angola até à implantação da República, em 1910, durando, por conseguinte, 148 anos e 9 reinados.
---- MOEDA ANGOLANA - A primeira sugestão para a cunhagem de uma moeda privativa de Angola veio do Senado da Câmara da cidade de S. Paulo da Assunção, decorria o ano de 1649, governando então Salvador Correia de Sá, que foi quem assinou o respectivo auto, no dia 31 de Março. Seriam moedas de cobre, pesariam duas oitavas e dois terços, respectivamente, ou seja 2,66x3,586 gramas = 9,539g. Teriam o nome de "Meio Pano" e valeria 25 Reis, a primeira, e a segunda teria o nome de "Libongo", com uma oitava e um terço, correspondente a metade do peso da primeira, valendo, portanto, 12,5 Reis.
---- Mas o Conselho Ultramarino indeferiu o pedido do Capitão-General, o que levou a que o "Pano" circulasse até 1694. No entanto, em 31-03-1688, reinava D. Pedro II, o mesmo Conselho havia mandado cunhar, para Angola, concretamente, uma franquia de 5 Reis, que se cunho em 1693 e foi levada para Angola pelo Capitão General Henrique Jaques de Magalhães, no ano seguinte. No entanto, porque esta moeda deu norigem a rebeliões entre os soldados brasileiros da guarnição de Luanda, uma vez que o soldo nominal era de 200 Reis, mas ao serem pagos em "Panos" passavam a receber 800. Julga-se que esta moeda de 5 Reis nunca terá circulado em Angola, a fazer fé no facto de apenas as moedas de 20 Reis, de 1695, cunhadas para o Brasil e Guiné, têm sido encontradas em Angola, não havendo ninguém que alguma vez conseguisse ter uma moeda de 5 Reis na sua colecção, circulada neste País, pois em relação ao Brasil circularam a partir do ano de 1704 e até ao reinado de D. José I. No reinado de D. João V circularam em Angola as moedas brasileiras de 20 e 10 Reis, cunhadas em 1715, 1719, 1735 e 1736, e as de 20, 10 e 5 Reis (1749) do Estado do Maranhão. a mais abundante moeda a circular terá sido a de 10 Reis, cunhada no Reino de Portugal decorria o ano da graça de Deus de 1737.

quarta-feira, 16 de janeiro de 2008

DINHEIRO DE ANGOLA - III

---- Depois de uma breve pausa, vamos lá a continuar a falar da Moeda de Angola, pois esta é como a Nau Catrineta, "que tem muito, muito que contar". E sem perder tempo, vamos a isto:
---- LERALI - O lingote dos Pedi, uma barra cilíndrica de cerca de 45 cm de comprimento, com um cone de + - 160º numa extremidade e decorações protuberantes, em forma de chifres, de que não há imagens.
---- LIBONGO - Nome que tem origem no Quibundo e se dava a um "paninho" tecido no Longo, em tudo semelhante ao "paninho do Congo" ou likutu; acrescente-se que é palavra do Quibundo calunda lu mbongo, que significa 'moeda - mbonge - irrisória, numerosa, como o nó do caniço', já que um libongo, em 1695, valia 5 réis, ao tempo em que o Governador Henrique Jaques de Magalhães fez circular esta primeira moeda divisionária em Angola - já ali havendo moedas de 20 e 10 réis - originando deste modo um motim entre a soldadesca brasileira que se encontrava a guarnecer a cidade de Luanda.
---- LINGOTE - Forma manejável em que é vertido um metal pesado, monetário ou não. Depreende-se que o lingote de cobre africano fosse executado em três formas: a barra cilíndrica, o 'H longo' em forma de astrágalo - o 'jogo das pedrinhas' - o objecto monomotápico, assim denominado por Theodore Bent em "The Rulned Cities of Mashonaland", e a cruzeta.
---- A forma cilíndrica, ou vergalhão, é a mais espalhada pela África Austral, tanto como material para a confecção de manilhas, como na forma de 'mutsuku', os "cilindros rectangulares com fileiras de tachas no topo", cada uma equivalente a 113 gramas de metal, o preço de uma enxada de ferro. As extremidades de um lingote monomotápico - de que a forma mais antiga foi encontrada na margem do Rio Mpofu, Lomagundi - lembram, nos tamanhos mais pequenos, as orelhas de um martelo; foi Bent quem primeiro descreveu o objecto, encontrado pela sua escavação das ruínas do Zimbabué de Fort Victória, de que Hal and Neal, em 1903, encontraram o molde, em talco xistoso, na estação de u'Mununkwaba, juntamente com gongos duplos e "um jogo de bolinhas de talco xistoso"; outros 12 moldes conhecem-se de Elisabetheville e da Zâmbia; 21 espécimes foram encontradas por António Joaquim da Rocha em Guengue, junto ao Rio Búzi, na propriedade do Sr. Clemente da Silva, na Província de Manica e Sofala, em Moçambique. Da cruzeta falaremos separadamente.
---- Os "mutsuku" já eram fundidos pelos Lemba, autóctones do Transvaal setentrional, quando os Venda bantos ali chegaram, no século XVIII. A origem do lingote monomotápico, e portanto o da cruzeta, provávelmente dele derivado, é obscura; Diodoro Sículo descreveu lingotes da Dalmácia, que o arqueólogo Sir John Evans, comparou ao lingote africano, conforme James Walton - The African Village; poderá ser o objecto dálmata o lingote em "H", convexo - o monomotápico é côncavo - forma estilizada reminescente da do antigo lingote mediterrânico, no feitio e no tamanho de um couro de carneiro; em África, pensa-se que a indústria tivera origem entre os Macaranga.
---- Os lingotes africanos mais semelhantes ao objecto moderno foram produzidos pelos Kwena - mineiros de estanho em Rooiberg, distrito de Waterberg, Transvaal - em moldes cavados em areia ou em talco xistoso.
---- LOMBONGO - De Libongo, nome dado em Angola ao 'paninho' tecido no Loango, que corria como moeda no reino do Congo e em Angola. O termo parece ter começado a aplicar-se às moedinhas de 5 réis que circularam neste reino a partir de 1695; segundo o Autor, o termo é em crioulo, derivado do Quimbundo m'ilambongo, 'uma quantidade de imbonge' - singular mbonge, ou 'bongue' - coisa de contar, como o nó caniço. Significa hoje, simplesmente 'DINHEIRO'.
---- Continua, porque dinheiro puxa dinheiro...

segunda-feira, 7 de janeiro de 2008

DINHEIRO DE ANGOLA - II


----Depois de já haver falado das "Cruzetas", que se fundiam em dois desenhos básicos em que o normal era em forma de "X" e pertencia^`as culturas Luba e Calunda, e o longo, as "cruzes de Santo André", da cultura monomotápica, "típicas das minas do Manicongo", segundo o autor Júlio Alves Victor, que refere, aparentemente, "os rios mencionados por um narrador quinhentista de nome Fernandes".

----As Cruzetas normais são os objectos que se encontram representados nas moedas de 1 e 5 Francos de 1961, do Catanga, semelhantes a espécimes encontrados nesta região e na região da Lunda, que são as chamadas "vela de moinho", como já havia sido dito. As do segundo tipo mencionado apresentam uma confecção mais bem cuidada, com rebordo e secção trapezoidal, que foram encontradas nas margens do rio Mpofu - Zimbabwe, julgando-se que sejam percursoras das Cruzetas do Catanga. As Cruzetas normais atingiam os 30 cm de envergadura e chegavam a atingir o peso de 1.700 gramas. Representavam, refere o autor, o preço de um escravo, e, mais recentemente, feste objecto dava-se em troca de uma esposa, entre os Baluba.

----O autor, Júlio A.Victor, refere que, segundo o Padre Arnot, os Basanga fabricaram lingotes de cobre até 1891, de minas de malaquite e em fundições exploradas por certas famílias aristocráticas, possivelmente até uma casta. Os nativos mencionados pelo Fernandes eram "povos mais brancos que escuros", que Tracey coloca além do rio Hnugani". Os nomes atribuídos pelo autor aos lingotes de cobre que eram usados pelos povos do Catanga ao Monomotapa e ao planalto de Luanda, eram: Andas de Cobre, numária monomotápica ou ensaio numismático-arqueológico, na citação feita no "Notícia" publicado em 1966, na cidade do Natal - República da África do Sul. Esta palavra "HANDA" significa, entre os Povos Ovibundos e outros, a sul da Angola, CLÃ. O explorador e fundador da etnografia belga, Leo Frobenius, chamava aos mesmos lingotes de cobre "handacreuse", que seria o heterónimo da palavra flamenga "handelkruis" = CRUZETA DE COMÉRCIO, de onde derivará este termo, pela certa. É preferível, portanto, que se fale de Cruzetas e Lingotes.

----JIMBAMBA é uma palavra criola, formada de JIMBO, o nome Quimbundo da "Ciprea Angolana", que significa o zimbro, que era usado como moeda até às terras do Catanga ou uma quantidade de zimbros, coisa de valor. Acresce dizer-se que este termo ainda perdura no Português angolano como "embamba", referindo os pertences de alguém.

----JIMBO - Quim, yimbu, do Quicungo, nzimbu, moeda, palavra que deu origem a JIMBAMBA.
----Procurando não me tornar monótono, vou aproveitar para resumir alguns conceitos sobre a moeda, não só de Angola como do mundo. A moeda, que hoje é conhecida em todo o planeta, sofreu enorme evolução ao longos dos séculos. Antes da moeda praticava-se o ESCAMBRO, que correspondia à troca de mercadoria por mercadoria, sem qualquer equivalência de valor.

----Espero CONTINUAR a resenha histórica da Moeda Angolana, valendo-me, para o efeito, do magnífico trabalho sobre esta matéria de Júlio Alves Victor, a quem agradeço.

terça-feira, 1 de janeiro de 2008

"OS NOSSOS SOLDADOS... LUTAM E ATÉ MORREM... LONGE DOS ENTES QUERIDOS..."

----- A organização das Forças Portuguesas em Angola, serviu de matriz àquela que foi designada "a maneira portuguesa de fazer a guerra", e que foi aplicada na Guiné e em Moçambique.
-----Uma Região Militar para comandar as forças do Exército e essencialmente com funções logísticas, no caso da Região Militar de Angola - RMA - um Comando Naval, para chefiar as forças da Armada, navios bases e forças - Fuzileiros Navais e Especiais - e uma Região Aérea. para superintender os meios aéreos - Bases Aéreas, aviões e forças - Pára-quedistas, Pilotos e demais pessoal.
-----O emprego operacional era feito através de um comando chefe conjunto, o Comando-Chefe das Forças Armadas de Angola - CCFAA - , cujo quartel general era constiuído por elementos dos 3 Ramos das Forças Armadas e que, com a remodelação ordenada por Ciosta Gomes, passou também a controlar a actividade dos vários corpos de "tropas" não regulares e militares, até aí dependentes das respectivas Administrações, no caso dos GE's e das Milícias, ou da PIDE/DGS, no caso dos Flechas. Esse emprego operacional distinguia-se por dois níveis: TERRITORIAL aquele que se materializava por uma quadrícula em que as Companhias e os Batalhões de Caçadores eram os responsáveis por uma zona de acção; DE INTERVENÇÃO, aquele que representava a capacidade do comandante de agir sobre determinadas áreas ou objectivos decisivos e ao qual eram atribuídas forças especiais tais como Comandos, Pára-quedistas, Fuzileiros e tropas não regulares. Acontecia ser esta uma adaptação à guerra de contra-guerrilha da convencional doutrina do emprego de meios militares e da divisão do campo de batalha. As "tropas" de quadrícula correspondiam às forças de contacto e as "tropas" de intervenção seriam as forças de reserva. Às primeiras era destinada uma missão essencialmente defensiva, cabendo-lhe um importante papel na acção psicossocial, a "velha" APSIC ou "psícola", enquanto que às segundas era destinadas as missões ofensivas de assalto e os golpe de mão. Esta era uma divisão esquemática que, na prática, nunca foi rígida.
------Mas disso voltaremos a falar, prometo. Sei que tenho outros trabalhos para continuar, mas cada coisa na sua vez.