sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

NOVO ANO 2009


Não sei se o Ano Novo das gentes do Negage será, hoje, mais feliz do que naqueles tempos em que Portugal foi potência administrativa dos territórios que são hoje uma parte da República Popular de Angola, mas não será isso a reflectir alguma importância, porque o Negage está agora inserido num todo em que não haverá lugar para opiniões "colonialistas", como dirão alguns desses "notáveis" que apenas sabem o que é liberdade por aquilo que outros lhes contaram, já que nem eles nem os novos senhores de Angola foram alguma vez livres, no verdadeiro significado etimológico do termo. Porque ser-se livre não é chamar-se seu àquilo que outros construíram e tiveram de abandonar por força da guerra, como será o caso de algum património edificado, dos bens de consumo produzidos pela generosidade da terra-mãe, a diversidade de maquinarias e equipamentos de toda a espécie... além dos sociais e outros que eu nem saberei mencionar .
É que a liberdade é algo que não se vende nas superfícies comerciais de grande dimensão, nem tampouco se poderá adquirir em resultado de uma guerra fraticida, porque as guerras podem ser um caminho para se chegar a essa mesma liberdade, mas terá de haver verdade e justiça nos pressupostos que conduziram ao conflito. E todos sabemos que o MPLA jamais dialogou para obter a paz, nem sequer se dignou respeitar os acordos que firmou em Bicesse, pelo que a liberdade existente apenas foi possível pelo querer de uns tantos que ousaram desbravar os caminhos conducentes a alguma forma de entendimento.
A UNITA, foi uma protagonista da luta pela liberdade contra o MPLA, mas também ela pretendeu impôr a sua liberdade, o que o partido do Governo de Angola não permitiu, porque pretendia assegurar o poder total, sem interferâncias de outras forças que pudessem ser impecilho aos enormes desejos de dominação que alimentavam os sonhos dos seguidores de Agostinho Neto, numa forma embrionária, e de forma total quando Eduardo dos Santos assumiu o poder de Estado.
Só deste modo foi possível a filha mais velha de Eduardo dos Santos tornar-se numa das maiores fortunas de África... enquanto o Povo vai morrendo de inanição, sofrendo no corpo e na alma os caprichos do novoriquismo de alguns aliados de todas as horas do "heróico" Eduardo dos Santos, que "matou" as ideias nacionalistas de Jonas Savimbi quando o conseguiu encurralar e derrubar pela força das balas, porque jamais iria deixar que este líder lhe pudesse fazer frente, a ele, poderoso senhor do Futungo de Belas e aos milhentos e lazarentos homens sem rosto que fazem parte da corte do nababo que se afirma Presidente de alguns Angolanos, que serão os que comem do mesmo prato... digo... comungam dos mesmos ideais do Dos Santos, Barão do Petróleo, rei dos diamantes e senhor absoluto de tudo quanto é rentável por aquelas bandas.
Mas... eu deveria estar aqui a falar da esperança, de dealbar de um Novo Ano com paz e prosperidade... mas pergunto-me onde ficará situada a felicidade dos Angolanos ou como será essa coisa da esperança para o Novo Ano, porque sabemos que 86% da população vive no limiar da miséria, enquanto a rica Luanda Sul vai dando ao mundo uma imagem da pompa e circunstância das noites de reveillon... que parecem durar uma parte importante do ano.
Mas o Povo Angolano é bastante sereno e tem esperança! Sabe que terá ainda de sofrer muito para que o dia da Justiça seja uma abertura de Angola à Liberdade plena e à felicidade total.
Até que esse dia chegue, sejamos realistas e vamos apenas desejar
UM NOVO ANO CHEIO DE PAZ, SAÚDE, PROSPERIDADE, TRABALHO.

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

é TEMPO DE NATAL...


DESEJO-VOS A TODOS
...FESTAS FELIZES... BOAS FESTAS...
UM ANO NOVO MUITO FELIZ !!!

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

OUTROS NATAIS...


Ainda que não pareça... estamos a chegar ao Natal! Antigamente, nestas alturas do ano, era uma roda viva de pessoas empenhadas em preparar tudo a tempo e horas para receber a família na consoada, que não tardaria, com a agravante de haver necessidade de estar tudo "nos trinkes" para receber os familiares que mourejam o pão de cada dia pelas Franças ou Alemanhas, para não falar da Suiça ou da Venezuela, do Canadá ou da Austrália.

É que a chegada do Advento é prenúncio de Natal... e Advento pressupõe a necessária reflexão e preparação para receber o Deus Menino, que chega até nós deitado na humildade de uma manjedoura com palhinhas no presépio de Belém.

E ao recordar estas coisas, vem-me à memória o primeiro Natal que passei no Negage, nos anos 60 do século passado. Lembro o entusiasmo que se verificava na montagem do presépio, nas insalubres e inacabadas instalações de uma cave da futura Igreja de São José Operário, que estava em início de construção. Fui das pessoas que percorreu a Capôpa e arredores, para encontrar matéria prima com que pudesse fazer uma encenação cuidada do Nascimento de Cristo. Um pouco aqui, outro tanto além... papéis, tintas de água, umas pedras, um "petromax"para iluminar o Presépio... e eis tudo em ordem para receber o Salvador.

Precisamente à meia noite de 24 para 25 de Dezembro, a voz potente de tenor do Capuchinho Padre Agatângelo, - bem timbrada e treinada, diga-se - começou a entoar o "Adeste Fidelis", enquanto este escriba procedia à colocação da imagem do Menino Deus na manjedoura. Aquela Missa do Galo era "apenas" a primeira a que assisti em África... e acredite-se ou não, terá sido das mais importantes a que assisti nos Natais porque já passei na minha vida! Via-se haver nos rostos dos fiéis qualquer coisa que poderia dizer-nos o quanto era importante estarem ali, numa terra onde a guerra deixara profundas marcas e cujo solo estava regado com o sangue de tantos inocentes, pois naquele Natal seriam indeléveis as saudades de cada um dos que os amavam. fossem eles familiares ou amigos.

"Alegrem-se os céus e a terra, cantemos com alegria... Já nasceu o Deus Menino, Filho da Virgem Maria!", ouvia-se cantar em uníssono por todos os que ali davam público louvor a Deus e à Virgem, comemorando o nascimento do Salvador do Mundo! Quando a Missa do Galo terminou, os cânticos continuaram, enquanto se ia beijamdo o Menino.

À saída, todos se cumprimentavam, demonstrando evidentes sinais de alegria: "Boas Festas! Feliz Natal!". E era ver como seguiam, diligentes, para suas casas, para fazerem a ceia de Natal em família, procurando seguir as tradições da terra distante!

Também no Aeródromo se fazia a Ceia de Natal, que era destinada a todos os militares e famílias - alguns tinham a ventura de ter consigo os familiares mais próximos, como as mulheres e filhos - e aproveitava-se então para uma troca de prendas entre todos, recriando-se assim as entregas de prendas do Menino Jesus, como era costume fazer-se na Metrópole. À meia noite, o Capelão Resende celebrava a Missa do Galo, destinada à Família Militar residente na Unidade.

Nessa noite de Natal, o primeiro que ali passei, fui convidado a cear em casa de uma família transmontana da Vila, que também quiz abrir-me as portas das suas memórias e proporcionar-me um conhecimento mais próximo dos Natais que haviam deixado para trás! Que bom foi aquele momento em que revivemos alguns Natais das nossas vidas... como agora o faço com o meu primeiro Natal em África.

Neste tempo de Advento, é bom podermos reflectir e preparar o nosso coração para mais uma comemoração do Nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo, que se fez Homem por amor aos Homens de Boa Vontade!

sexta-feira, 14 de novembro de 2008

A MEMÓRIA DAS COISAS...

Socorro às populações num ataque da UPA
... deveria contribuír para que muitas dessas coisas começassem a ser mudadas, evitando-se assim que as feridas da guerra pudessem voltar a ser abertas por questões completamente estranhas a Angola e às suas gentes, que já sofreram no corpo o bastante para arrepiarem caminho e fomentarem a PAZ, que será o único caminho capaz de conduzir o País à reconciliação entre todas as etnias, entre todos os Angolanos filhos de uma guerra que não desejaram, herdeiros de ódios que não fomentaram, construtores de uma Pátria que tarda em lhes dar as oportunidades para serem parte efectiva de um País que tem orgulho na sua Bandeira, na liberdade conquistada com sangue suor e lágrimas...
Poder-se-ia dizer que já foi encontrada uma boa solução para que Angola possa ser uma terra de progresso, se esse progresso significasse uma oportunidade para todos e não apenas para uns em detrimento dos outros! Oportunidade essa que fosse consubstânciada no labor daqueles que sonharam uma Angola "de Cabinda ao Cunene", onde se mostrassem respeitados os direitos de todos sem ambiguidades, onde não se encontrem escondidos desejos "étnicos" ou "rácicos" de vinganças parolas que apenas conseguem contribuir para se manter um estado gerador de desconfianças, que vão prolongar o sofrimentos das populações até que se extingam as actuais gerações.
Torna-se necessário perguntar-se a cada um dos Angolanos sobre qual foi o papel que viram ser-lhes atribuído na contrução daquela Angola independente, livre e progressiva com que sempre sonharam. E então terão as respostas sobre aquilo que possibilitou darem-se enormes divisões entre os Povos Bacongos, Ambundos ou Ovibundos, que não viam com bons olhos os Bailundos, os Quiocos, os Ganguelas ou os Ovambos.
Sabe-se que a tragédia do tráfico de escravos foi uma das razões que os veio a separar como Povos de um mesmo território, pela aptência das gentes do Norte, desde os tempos da Rainha N'jinga, para aproveitarem as gentes do Sul como mão de obra "barata"- tornavam-se escravos dos próprios irmãos de raça - e as benesses que podiam tirar pela procura de "peças" humanas jovens, no abastecimento dos mercados holandeses e ingleses, apesar da resistência dos portugueses, que se encontravam completamente ultrapassados neste tipo de comércio humano, que não dominavam.
Talvez tenha já chegado o tempo em que todos devam dar as mãos e caminhar de rosto levantado, bem sereno, a transpirar confiança no porvir, pois Angola é o País das novas oportunidades, porque tem potencialidades para vir a ser um dos grandes países de África. Desde que haja um destribuição equitativa daquilo que o solo generoso dá, desde que não fique tudo hipotecado pela falta de visão daqueles que teimam em sacrificar a Pátria e o Povo Angolano únicamente aos seus interesses mais mesquinhos. É tempo de arrepiar caminho... e criar condições para o bem estar de um Povo que já fez jús à sua felicidade.

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

A RECONCILIAÇÃO... É POSSÍVEL?


Soldados Portugueses capturados por guerrilheiros
...
Quem andou pelas "terras da guerra", nos tempos conturbados que decorreram nos anos entre 1961 e 1974, certamente que se costuma interrogar sobre "o que andou por lá a fazer", se "valeu a pena o sacrifício", "porque me calhou ser eu a sofrer esse martírio"... etc... etc...
Não será muito fácil responder a estas questões, que acredito também serão postas pelo outro lado, por aqueles que ontem eram o inimigo, mas que são agora povos que lutaram pelos seus direitos de "liberdade", de "igualdade" e de "fraternidade"... mesmo que saibamos que isso foi uma utopia ditada pela esperança de melhores dias, que não se vislumbram ainda como possíveis nesta geração, já que há sempre aqueles que querem tirar dividendos da desavença entre irmãos, no mal estar que reina entre as famílias, porque o "vil metal" corrompe até à medula aqueles que apenas vêem no dinheiro a arma poderosa que lhes dá o controle de todas as coisas... até das consciências.
Sabemos nós, aqueles que lutámos por uma causa, que o Povo é sempre a maior vítima das guerras, que, a pretexto de qualquer razão invocada, deixa esse mesmo Povo sujeito às mais terríveis provações como sejam a morte, a fome, o estropiamento nas mais variadas formas, como sejam a mutilação, a sanidade mental ou qualquer outra sequela, o deslocamento do seu local habitual de residência ou de trabalho, motivado pela destruição das suas habitações e dos seus bens.
Mas as queixas repartem-se por ambos os lados da contenda, porque todos perdem com os conflitos. E é pertinente perguntar-se a quem foi declarada a guerra, se ao Governo "A", "B" ou "C", ao país "X" ou "Y", ou ao Povo, com especial incidência nas crianças, mulheres e idosos, uma vez que são sempre estes os maiores sacrificados na contenda. Por muito que se declare que não se faz guerra ao Povo... em última análise, é sempre este que sofre.
Quem foi o culpado pela Guerra no Ultramar? Quem a fomentou?Podemos tentar encontrar os possíveis culpados no seio do Povo Português, Guineense, Angolano ou Moçambicano? Não creiam que seja uma tarefa fácil, à luz do Direito Internacional, atribuírem-se culpas a uma pessoa ou outra, seja governante ou não.
No caso concreto de Portugal, houve a necessidade imediata de fazer parar o trágico genocídio que a UPA/FNLA estava a perpetrar no Norte de Angola. Aí foram massacradas inocentes famílias inteiras, foram amputados e degolados milhares de trabalhadores do sul, incendiadas as propriedades, destruídas as culturas, viram-se acontecer autênticas orgias de sangue... apenas porque os "mandantes" estavam convencidos que os Portugueses iriam fugir para o "Puto" e deixariam nas suas mãos todos os bens e o próprio território.
Seriam independentes e era isso o que lhes importava, não a forma como.
A Guerra Colonial terminou... dando lugar a uma guerra fraticida pelo poder, mercê das lamentáveis posições assumidas por algumas figuras e figurões após a Revolução portuguesa de 25 de Abril, que não tiveram pejo em tomar partido por um dos Movimentos que em Angola pegaram em armas contra Portugal.
Depois de saradas as feridas mais superficiais... talvez tenha chegado a hora de procurar dar as mãos uns aos outros, sem ódios, mesmo que ainda tenhamos latente a infinita triteza sentida quando deixámos uma terra que foi Portugal durante 500 anos... mas felizes porque continuou o Povo Português a "dar novos mundos ao mundo"!
Torna-se pertinente reconciliar irmãos com irmãos, sem pruridos, sem recriminações, sem dúbias acusações, que a nada conduzem a não ser ao disseminar do terrível ódio entre as gerações do amanhã, fomentador das discórdias, bem capaz de continuar a gerar conflitos... que é bem tempo de serem ultrapassados.
A memória permanecerá, mas acredito que podemos dar ao mundo uma licção de tolerância sem limites.

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

O NEGAGE E O TERRORISMO

Foto extraída na NET - Autor desconhecido
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» Ainda que pareça estar desfazado no tempo, é sempre oportuno poder-se fazer história para que os vindouros saibam o que foi essa coisa das Guerras do Ultramar, ou Coloniais ou de Libertação ou lá o que as mentes dos pseudo historiadores da nossa praça, ligados a convicções partidárias e nada isentos quanto à realidade dos factos possam colocar nos escritos que vão fazendo, para justificar o título de historiadores... de escritores... de narradores... de investigadores ou lá aquilo que pretendam chamar-se a eles próprios.
» É imperioso que se diga a verdade e apenas a verdade nestas coisas da delapidação do território pátrio que nos foi legado, pois os nossos netos deverão orgulhar-se dos seus avoengos e não os votar ao ostracismo, que para isso já bastam determinadas posições tomadas por alguns governos, que teimam em denegrir a memória daqueles "que por feitos gloriosos se vão da lei da morte libertando!", como vem acontecendo com os nossos Combatentes do Ultramar.
» Mas vamos às memórias da história! No dia 15 de Março de 1961, 13 dias após haver terminado a famigerada "Guerra do Algodão", acontecida na Baixa do Cassange, começam a espalhar-se as notícias segundo as quais haviam já muitos mortos, brancos e pretos, homens, mulheres e crianças, que tinham sido massacrados por grupos de bandoleiros armados com catanas e canhangulos, que vinham pondo a ferro e fogo as fazendas e os povoados espelhados pelo Uíge e com o Congo Português. Havia aldeias inteiras em fuga, para fugir das hordas terroristas assassinas, que vinham regando com sangue inocente as terras mártires de Angola.
» Segundo escritos de então, constantes de relatórios militares ou em notícias inseridas na Imprensa, o terrorismo alastrara como uma queimada em pleno Verão, levando tudo atrás. As tripulações pertencentes ao Aeródromo Base nº. 3, que mostravam estar surpresas e confusas com tão alarmantes quanto contraditórias notícias que chegavam de todo o lado, voavam por todo o lado e tentavam aperceber-se do que se estava a passar: "...descolei em direcção ao Quitexe, a poucos quilómetros. Sobrevoei a área. Cheguei perto de Zalala, mas demorei sobretudo no Quitexe. Não compreendia bem o que se passava, mas via muitas sanzalas a arder, uma fila de carros, camionetas e carrinhas no centro da povoação, e a população a olhar para o avião, com espingardas a tiracolo, ou simplesmente encostadas às viaturas...".
» Um avião DC-3, da DTA, aterrou no Negage e largou montanhas de passageiros, logo no dia 16. Eram mulheres e crianças que procuravam segurança. O avião volta a descolar e traz mais e mais gente, que segue depois para Luanda, a bordo de um NORD da Força Aérea, iniciando-se assim a evacuação das populações civis. As populações mais evoluídas do Norte de Angola, iam afluindo ao Negage utilizando aviões da DTA, dos Aero-clubes ou as "Auster" da Força Aérea, viaturas de todo o tipo... ou a pé! O que importava era fugir da morte e conseguirem "apanhar" o NORD ou o DC-3 da DTA para Luanda.
» No Aeródromo Base o pessoal não tinha tempo para folgar, pois havia que receber, consolar e, muito em especial, disciplinar as multidões descontroladas. Viam-se cenas assaz chocantes, de encontros e separações, de egoísmo e altruísmo, de abnegação e desumanidade ou desespero, numa mistura que era irreal, trágica e indescritível.

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

OUTRAS GUERRAS NO NEGAGE


* Quando vou ao álbum das recordações, que guardo ciosamente no meu cérebro, o cofre forte inviolável para as coisas que pretendo guardar da curiosidade de alguns, que não desdenhariam poder encontrar ali farta matéria para se cortar na casaca sobre factos que são tabu... até que me dê na telha aquela vontade de colocar a nu tudo aquilo que me vai na alma!
* Enquanto tal não acontece, dedico alguns momentos de reflectida prosápia onde se fala disto e daquilo... até de nada em especial. Hoje dedico à visita feita pelo Governador Geral Rebocho Vaz ao Negage, no âmbito da inauguração da I Exposição Feira Agro-Pecuária e Industrial, ali realizada.
* Depois de muitas horas de trabalho, onde imperou o bom gosto na concepção, decoração e apresentação dos diversos pavilhões que acolheram o evento, lá chegou o grande dia da inauguração. O Governador entrou no Negage devidamente escoltado por batedores da PSP, perante a satisfação de todos, que o iam vitoriando na sua passagem.
* Nestas alturas há sempre alguma coisa que falha... e um improvisado "sinaleiro", envergando o Uniforme nº. 1 da Força Aérea, onde se ostentavam umas divisas de Furriel, postou-se no meio da Avenida Salazar, mesmo em frente frente à Companhia Congo-Agrícola e ao Gaspar & Fernandes, a regular o trânsito com aqueles gestos apenas capazes de ser reproduzidos por quem esteja completamente embriagado. Um Jeep da Polícia tratou de retirar o "sinaleiro" de serviço voluntário e levá-lo para a Esquadra, ali mesmo ao pé.
* Como é lógico perceber-se, os colegas não gostaram de saber que o embriagado Furriel havia sido levado para o Posto... e toca e ir lá tentar que ele fosse devolvido à "santa liberdade", pois ele até estava a colaborar com a Polícia, que devia ter providenciado colocar ali alguém a regular o trânsito. Era uma indecência o que lhe estavam a fazer.
* O Chefe da Esquadra, que até tinha sido militar no Aeródromo Base 6, mandou que os seus homens, empunhando pistola-metralhadora, mantivessem os militares à distância. Perante tal prova de força... os militares da Base foram embora, mas resolveram mobilizar-se e organizar manobras de diversão no recinto da Feira, provocando a Polícia... que tinha vindo de Carmona para reforçar as forças do Negage, que eram em número reduzido.
* É indescritível aquilo que aconteceu naquele dia de inauguração. O pessoal da Polícia Aérea foi chamado para pôr termo à guerra que se havia instalado, bem como as forças de choque dos Voluntários, que cercaram todo o recinto... mas não sabiam quem era quem naquela emergência e deixaram que o pessoal da Força Aérea abandonasse o local sem problemas. Quando souberam que eram eles quem tinha feito eclodir a guerra, ainda foram até à Base, mas já não viram ninguém a quem pedir responsabilidades.
* O Governador do Distrito, Coronel Guardado Moreira, mandou fazer um inquérito, mas foi inconclusivo, porque a união entre todos os militares prevaleceu e ninguém veio a ser responsabilizado. O Furriel que, involuntáriamente, provocou a zaragata, sofreu uns dias de detenção por não se apresentar sóbrio e ter contribuído, com a sua acção, para os desacatos verificados na exposição, que foi um êxito retumbante, mesmo com este percalço inaugural, que serviu para marcar de forma indelével o evento.
* Durante o tempo em que os homens do Governo de Distrito, do Comando Distrital da PSP de Angola, da Judiciária e da PIDE andaram a caminhar para o Aeródromo Base nº. 3, para tentar encontrar culpados da guerra com a PSP, houve uma certa tensão entre o pessoal, pois havia o receio de que as diferenças entre as especialidades contribuissem para que alguém pudesse mostrar falta de solidariedade, mas tal nunca aconteceu, felizmente para todos.

domingo, 5 de outubro de 2008

BOATOS...BOATOS...BOATOS...


* Tal como é costume acontecer em tempos de crise, os murmúrios começam a espalhar-se entre os pilotos, pelas oficinas, nos bares e até na torre de controlo: “Os jornais de Lisboa escarrapacharam notícias alarmantes sobre o terror em Angola!” “Dizem que há milhares de corpos de velhos, mulheres e crianças que foram barbaramente mutilados pelos terroristas”. Estas notícias espalham-se por todos os lados, vindo a causar verdadeiro pânico entre os militares mais antigos.
Quem pode acreditar naquilo que vem publicado na Ordem de Serviço? “Todos os militares com menos de 18 meses de serviço devem apresentar-se na Secretaria das respectivas esquadras, durante esta semana”.
* Os alunos especialistas mais mal classificados nos respectivos cursos, e bem assim os militares do Serviço Geral, de imediato começam a ser preparados para seguirem com destino à Base Aérea 3, onde irão efectuar um estágio para a Polícia Aérea, com uma duração prevista de três semanas! Ninguém percebe qual o alcance desta determinação, que os leva a desanimar por completo. Há dezenas de militares inconformados com tal situação, dizendo-se frustrados com o que o futuro lhes reservara. Porque carga de água iam eles para a Polícia Aérea? E era em três semanas que se iam preparar para a guerra?
* Para aumentar a desmotivação entre aqueles rapazes de olhares sisudos e cujas palavras eram balbuciadas a conta-gotas, o boato soez e torpe começa a fazer estragos, pois começou a espalhar-se a "notícia" de que grande parte do pessoal pertencente ao pelotão de Polícia Aérea que tinha ido defender a Base do Negage, tinha sido completamente dizimada pelos terroristas da UPA. “Tiveram um fim bastante inglório”, ouve-se dizer a alguns; “tiveram um azar do caraças”, era a opinião de outros. Haviam ainda aqueles que esfregavam as mão de contentes, porque a guerra subversiva do boato dava os seus frutos.
Começa a luta do subconsciente que vai dizendo ser melhor embarcar, mesmo com enormes probabilidades de poder ser esquartejado pelos "turras", ou desertar, simplesmente, pondo de lado a esperança de vir a ter um futuro e uma vida normal. Os jovens militares sabem que juraram defender a Pátria e a Bandeira, mesmo com o sacrifício da própria vida, mas não vêem a obrigatoriedade de esse Juramento se estender para além deste jardim à beira mar plantado que se chama Portugal. Mesmo que se diga que aqui é a Metrópole de um vasto mundo Português, que espera pelo nosso esforço de libertação, tentam justificar-se. No entanto, entendem que desertar será um acto de cobardia e de abandono daqueles Portugueses que em Angola estão a ser massacrados.
Aqueles que chegam a Luanda vêm com vontade de ajudar a combater aquelas hordas de terroristas selvagens, que de forma tão aviltante se entregaram à estripação e esquartejamento de pobres e indefesos inocentes no Norte de Angola. Depois de haverem sido preparados embarcam no avião da noite, sem haver ninguém para lhes dizer adeus, sem se despedirem dos familiares e dos amigos. Cultiva-se a ideia de que as lamechices só servem para esmorecer a vontade de vencer!
* Alguns meses depois, alguém publicou esta mensagem no jornal “Notícias de Penafiel”:
“Neste momento de dúvida e de tristeza, sinto a nostalgia da ausência que me dá saudade. Vou abandonar a mãe-Pátria e partir para a nossa querida província de Angola. Apodera-se de mim o desejo de abraçar todos os entes queridos, os grandes amigos e colegas.
Estou sensibilizado, mas não desejo ser herói nem famoso, não pretendo conquistar o que quer que seja. Sou chamado a defender a Pátria, a manter a soberania portuguesa. Parto confiado na protecção omnipotente. Será sempre essa a minha defesa, o meu refúgio. Agora que me afasto de vós, pedi a Deus que eu não tarde a voltar. É meu dever; por isso vou com a fronte erguida.”

segunda-feira, 15 de setembro de 2008

OUTRAS HISTÓRIAS...

...são sempre passíveis de acontecer numa terra como é o Negage.
* Toda a dinâmica daquela terra passa pelo "diz-se que", "consta que", "parece que", sendo raras as vezes em que se ouvia dizer qualquer coisa com laivos de afirmação, que tivesse a vêr apenas com um "É"..."VI" ou "FEZ-SE"! Porque o boato, a partir de uma determinada altura da vida do Negage, passou a comandar a vida das gentes, que estavam longe de tudo... e as notícias eram apenas e tão só aquelas que os rádios das fazendas iam captando ou algumas notícias que o Rádio Clube do Uíge ia colocando no ar.
* Não espanta, portanto, o facto de andarem pelo ar muitas histórias mal contadas, ou que careciam de sustentação, enquanto havia outras que apenas pretendiam causar alguns impactos na comunidade, fossem eles de medo, fossem de alegria, fossem de desespero, ou ainda de esperança. Quando a realidade das coisas chegava... por vezes já era tarde demais para evitar determinadas situações mais destrutivas... porque o boato havia cumprido o seu papel: DESMORALIZAR!
* A cidade do Negage foi a obra de alguns colonos, muitos deles conhecidos por pessoas que, como militares ou civis, nela vieram a encontrar guarida: O Velho Ginja; o Fernando Santos; o Manuel Agre; o Martins, o Ribeiro Manso; o Jesuíno Dias, o Horácio da "13"; as famílias Baganha, Valadares, Laranjo, Ramos, Fernandes e tantas outras... onde o mítico João Ferreira, pelo seu contributo para o progresso do povoado, que se tornou Vila e depois cidade, merece abrir o quadro de honra das personalidades da terra.
* Recordo uma história relacionada com a iluminação pública e doméstica do Negage. Um velho gerador "Dorman", em tempos oferecido pela Força Aérea à Administração, cumpria um rigoroso programa de utilização, porque já não aguentava fornecer a iluminação pública e doméstica em simultâneo. Não raras eram as vezes em que tudo ficava às escuras, valendo então as velhas lanternas "tempestade" a petróleo, os Petromax ou as velas de sebo, parafina ou cera.
* Durante uma reunião da vereação municipal, o João Ferreira propôs-se oferecer à Vila um gerador "Catterpilar", detentor de bastante mais capacidade e que poderia resolver por uma vez a velha questão da falta de energia. O Baganha, não resistindo à tentação, atirou-lhe:
- "Então não querem lá vêr... o João Ferreira está a propor-se para uma estátua no jardim, só pode..."
- "Olha, lá, meu barrigudo... Eu sei bem onde deves meter essa estátua, meu sacana de m...!" - responde o J.Ferreira.
- "Mesmo com a barriga grande, a estátua não cabe cá, João! Olha logo tu, que não quizesses nada em troca do motor! Já te conheço bem! Se te derem um porco, ofereces um chouriço, não é?" - retrucou o Baganha.
* O João Ferreira saíu furioso da reunião. Dias depois deste acontecimento, chegaram à Vila do Negage três enormes caixotes, cada um com um grupo gerador da "Catterpilar". Foram descarregados no pátio da casa do caçador e empresário J.Ferreira, que tratou de avisar a Administração sobre a necessidade de se construír uma nova central eléctrica. Novamente ouviu as "bocas" do Baganha, pelo que mandou montar um gerador para fornecer energia a uma sua fazenda, outro foi instalado para servir a fábrica de descasque... ficando o terceiro a degradar-se com as inclemências do tempo.
* Porque o problema com o grupo Dorman, mesmo com a assistência que lhe era feita pelo pessoal electricista do Aeródromo, não estava resolvido, antes se agravava, foram várias as diligências para que o João Ferreira desse o grupo à vila, pois até já tinham construído uma nova central. O nosso homem apenas dizia que não precisava de estátuas e que o motor estava pago, pelo que podia apodrecer à vontade! O Governador de Distrito, o Bispo D. Eurico, os Costas do Bungo, os bons dos Capuchinhos Fortunato e Agatângelo, o Professor Carvalhosa... todos pugnavam pela oferta do gerador... até que o João Ferreira acabou por dar a mão à palmatória... e o gerador lá foi cedido e montado na sua nova casa !
* Não sei aquilo que iria no peito do Administrador Reis, quando da inauguração da nova central... mas ele jamais se esquecerá de como foi duro negociar com um Ferreira tão duro e determinado em fazer pagar cara a ousadia do bom do Baganha "da Administração", que nunca mais caíu na tentação de terçar armas contra o João Ferreira! Livra, que ele era difícil!

segunda-feira, 8 de setembro de 2008

HISTÓRIAS E HISTORIETAS


º - Passados todos estes anos - a independência de Angola foi há 33 anos - ainda haverá muitas histórias para contar, sobre grandezas e misérias, alegrias e tristezas, coragem e cobardia, sorte e azar... enfim: aquelas histórias que fizeram o dia-a-dia de tantos de nós, ou a luta quotidiana que foi preciso travar-se para se sobreviver numa terra que se tornou hostil, pela mercê de toda a espécie de propaganda que foi levada a cabo por alguns que se diriam Portugueses, mas que mostravam à evidência estarem apenas e tão só a soldo de interesses não coincidentes com os interesses pátrios, como a história, um dia, o provará .
ª - Não vou estar aqui a dissertar sobre aquilo que foi a presença Portuguesa em Angola ou nos outros territórios havidos da gloriosa gesta dos Descobrimentos, porquanto já muito foi dito,,, pelo que julgo ser mais proveitoso virar as atenções para outro lado, pois ainda restam algumas histórias curiosas vividas no Negage.
+ - Na 3ª. Companhia, comandada pelo excelente Homem que dava pelo nome de Capitão Xavier, larga maioria do pessoal era do recrutamento da Província, especialmente naquilo que às Praças respeitava, uma vez que a Oficialidade era quase toda constituída por militares oriundos da Metrópole - do Puto, como os locais gostavam de chamar - e os Sargentos também eram maioritáriamente metropolitanos... exceptuando-se os Milicianos, dos quadros de Oficiais e Sargentos, que eram formados na EAMA, em Nova Lisboa.
^ - Um certo dia, quando o pessoal se preparava para o "Render da Parada", dois soldados de côr, que iam entrar de serviço, travaram-se de razões de forma acalorada . Dizia um, bastante agitado:
-- " Xi, pá! Então tu é o Nesto, os preto que roubou os meu mulher? Como pode, pá?
~- Ofendido, o visado replica-lhe: "Tá maluco dos cabeça, Tomaso! Eu fui no Sr. Padre, ele deu uns papel a eu p'ra assinar e depois disse que o coisa que Deus uniu os home não pode separar mesmo!"
_ - "Mas eu deu um bois nos pai dela... deu os milho e os mandioca... fez alambamento e tu diz que os meu Elvira és teu? Tá mesmo maluco, tem de ir nos Quinta! Lá trata maluco mesmo..."
* - O Capitão Xavier, que estava no gabinete a aguardar que o chamassem para lhe apresentar a Parada, resolveu ir acabar com a discussão. E se bem o pensou, melhor o fez: "Meus senhores! Não quero mais berreiro aqui! Está a minha cabeça a doer de tanta barulheira! Vão para a formatura e amanhã, quando sairem do serviço, vão ao meu gabinete para resolver a maka! Percebido?"
» - O Soldado Nesto, ciente de que o haver formalizado o casamento de forma legal lhe dava razão, limitou-se a dizer ao Comandante: - " Meus Comandante: Quando eu foi de férias no Cuito, casou com o meu esposa, com papel passado e tudo! Este Soldado Tomaso diz que deu uns boi no pai dela... mas eu não tem culpa! Os meu mulher é meu e pronto!"
> - "Senhor Tomaso: ouviu o que eu disse? Amanhã tratamos do assunto!"
? - "Não és preciso, nosso Comandante! Eu não fala mais com ele!".
= - Cerca da meia noite, de uma das torres de vigía gritava-se:"Sentinela alerta... sentinela alerta...", mas ninguém respondia. Volta-se a ouvir uma segunda, terceira, quarta vez, até que o Oficial de Dia se dirige à torre silenciosa e pergunta: "Ouve lá, rapaz! Estás a dormir ou quê? Não ouves o teu colega? Porque não respondes?"
! - Resposta pronta da sentinela: - "Então o senhor Tenente não sabes que eu não fala com ele?"

sábado, 30 de agosto de 2008

"ENTRE AS BRUMAS DA MEMÓRIA..."

Casa residencial e comercial nos Dembos, após um ataque da UPA
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- Logo após o horrendo massacre, que teve início a 15 de Março de 1961, em que se tornaram mártires vilas como a de Úcua ou 31 de Janeiro e quase inexpugnáveis e traiçoeiros alguns redutos rebeldes como Nambuangongo, a imprensa internacional ocupou as suas primeiras páginas com grandes parangonas alusivas aos graves acontecimentos que se desenvolviam em todo o Norte angolano.
- Era indubitavel, nessa fase, que houvesse alguns revezes militares bastante penosos, que atingiam as forças do Exército português. O Doutor Salazar, um pouco às pressas, determinou, com algum atraso na execução destas determinações (pois estava a sofrer um boicote, de forma encapotada, feito pelos ministros responsáveis pela área militar, os mesmos que intentaram, pouco depois, em Abril, fazer um pronunciamento militar), que se procedesse ao envio de contingentes do Exército... "rápidamente e em força!".
- Do Batalhão de Caçadores 5, em Campolide - Lisboa, partiu então uma Companhia, que foi transportada para Angola por via aérea... e logo enviada para a região do antigo reino do Congo, onde o seu Comandante, bastante inexperiente e desconhecendo as técnicas do combate de guerrilha, rápidamente caíu numa emboscada montada pela UPA - União dos Povos de Angola -, tendo sido a subunidade massacrada de forma impiedosa...
- Debelada que foi a crise pela tentativa de golpe militar de Botelho Moniz, o Presidente do Conselho tratou de ordenar uma mobilização imediata... e essa determinação conquistou as simpatias gerais, até por parte de alguns velhos opositores ideológicos e das populações européias de Angola. Aqui tiveram lugar várias manifestações públicas de júbilo e esperança, e o nome daquele que, para alguns era, até então, o odiado ditador... foi vibrantemente aclamado aclamado.
- A massa humana da população branca e milhares de negros fiéis a Portugal, pediram insistentemente a deslocação de Salazar àquele território, porque lhe queriam agradeceer. Mas, sendo ele pessoa experiente e bastante prudentemente , lá foi adiando, protelando... mas prometendo sempre que iria mais tarde, quando as coisas acalmassem e se normalizassem... coisa que nunca aconteceu, apesar de, militarmente, a chamada "guerra colonial" em Angola, quando eclodiu a chamada "revolução dos cravos vermelhos", estar iniludivelmente ganha pelas Forças Armadas portuguesas, havendo cansaço e desânimo para o lado dos chamados "combatentes da libertação", que não vislumbravam no horizonte qualquer prespectiva de vitória.
- Descortinavam, os "libertadores", uma aurora de progresso económico e social bastante promissor e inequívoco, de que também eles almejavam poder vir a beneficiar, preferindo a integração na sociedade angolana à luta armada, aceitando as soluções pacíficas com que o poder político português ia acenando com as diversas iniciativas liberalizantes que estavam a assumir, graças à boa visão das coisas manifestada pelos governantes locais portugueses e angolanos (que vinham substituíndo gradativamente aqueles durante o governo de Marcelo Caetano).
- Mas, voltando aos ataques sanguinolentos pós-15 de Março de 1961, para que melhor possam ser entendidos todos os factos subsequentes: A Cidade de Luanda, cosmopolita e linda capital de Angola, corria o grande risco de poder ser invadida por hordas terroristas sedentas de sangue, drogadas com liamba e armadas, principalmente, com canhangulos (espingardas de fabrico artesanal), catanas e machadinhas, embora não faltassem as armas modernas... que lhes eram fornecidas pelos nobre e democráticos norte-americanos! Quando o terrorismo eclodiu, as autoridades portuguesas terão sido, aparentemente, apanhadas de surpresa. E não dispunham de contingentes militares em número suficiente para enfrentar a vaga terrorista...

sexta-feira, 22 de agosto de 2008

RECORDANDO...outros tempos

* Falar de Angola, do Uíge, das matas de sequóias altaneiras, a tocar o céu, do café que cresce nas fazendas, para gáudio do produtor, que espera uma grande safra, falar do MPLA ou da FNLA... e não falar dos nossos amigos de quatro patas, que connosco partilham os matos frondosos, as savanas, os montes ou os desertos Angolanos, seria um crime de lesa majestade, porque eles são, indubitávelmente, os "senhores" da terra.
* Habituado a vêr tais seres no remanso de um qualquer jardim zoológico ou nos circos da minha infância e juventude, sempre senti um arrepio ao pensar como seria o meu encontro com um animal selvagem no seu território! Seria de pânico, pensava!
* No entanto, começando a conhecer um pouco melhor a fauna em questão, depressa me apercebi que o "tratamento" admissível para quem confronta um animal selvagem é um pouco diferente daquilo que pensamos, pois o leão é nobre, por natureza, não matando por prazer mas por necessidade. Defendem as suas proles, como qualquer outro animal, e não gostam nada de ser "açulados"! Aí tornam-se perigosos, o mesmo acontecendo com os solitários.
* O leopardo é um carnívoro muito mais matreiro! Sobe para as ramadas das árvores e de lá vai observando as suas possíveis presas. Inadvertidamente, salta sobre o alvo escolhido... e era uma vez! O elefante é outro animal a evitar, esp0ecialmente quando "zangado", pois destrói tudo por onde passa! E ai de quem se deixe apanhar pela fúria dele!
* Mas a subtileza da hiena é que me deixa completamente estarrecido. É cobarde como só uma hiena sabe ser, feia como só ela o poderia ser, é fedorenta quante baste... usa e abusa de estratégias para arranjar que comer, desde o fantástico pôr-se de pé... e vendo que é mais alta que a presa... esta está feita ao bife... de hiena! É por demais conhecida por ser necrófaga, aproveitando as sobras dos banquetes leoninos para encher a pança, ou então vamos lá a ingerir esta pacaçazita, porque já está putrefacta e assim a carne é mais macia! O choro da hiena é por demais conhecido através de relatos que nos foram facultados desde os livros da nossa infância até às histórias dos sertanejos, que com eles conviviam no dia-a-dia dos matos.
* O engraçado é que a memória de um animal perigoso - sem serem as variadas cobras que serpenteavam pelos matos, desde a surucucu até à coral - tenho-a de um mangusto, um animalzinho até simpático, muito parecido com o esquilo europeu, que não gostando nada de se vêr perseguido por um jeep da Polícia Aérea do A.B.3, saltou sobre o vidro, o condutor despista-se, resvalam por uma ravina... e temos os primeiros mortos da Polícia Aérea em terras do Negage. É ou não perigoso? Por alguma razão se afirma que é dos animais mais ferozes de África... pela forma como luta, vence e devora as serpentes! Sem medo!
* Aqui para nós: a matacanha é o animal mais pequenino dos matos... mas talvez o que mais vítimas atira para os hospitais... se não houver uma mão firme para retirar a maldita, quando penetra bem fundo nas nossas carnes!
* E por hoje ficamos por aqui, que parece haver aí uma chita a rondar o meu kimbo!

domingo, 17 de agosto de 2008

O 27 DE MAIO... SUBSÍDIOS...

* Quanto mais nos embrenhamos nos acontecimentos do 27 de Maio, mais vontade temos de poder, um dia, vir a saber toda a verdade desses mesmos acontecimentos.
* Merece-o o Povo de Angola, esse mesmo Povo que tem esperado, ao longo dos 33 anos que já leva de experiência como Povo independente, que não torne a sentir vontade de voltar para o "domínio colonialista", pois nesse tempo, mal ou bem, sempre ia vivendo na esperança da mudança... que nunca mais aparece!
* O militante do MPLA Pedro Fortunato era o Comissário Provincial de Luanda. Pretendia fugir de Angola, porque sabia ter a vida por um fio, pois querem-no matar. A vida que viveu foi-lhe madrasta, vê mal, está a cegar, progressivamente... mas não perdeu os seus vícios antigos:
«Se pagarem alguma coisa de jeito, conto a verdadeira história dos mortos do golpe de 27 de Maio».
* Não há lugar a rebates de consciência, pois apenas cumpriu ordens e nada mais que isso; nunca actuou envergando a farda da DISA, pois nessas missões fardava-se sempre... de militar. "Pitoco" - o seu nome de guerra - fazia verdadeiros equilibrios, agarrando-se ao que podia... e lança mais alguns nomes para a arena. Desta vez fala de Vítor Jeitoeira. Jura que este não fez nada, salvando até alguns condenados! Tinha alinhado com as tropas do Dodó Kitumba, um dos acusados de fraccionismo. Até gostava dele, mas ao descobrir que ele tinha os dias contados, tratou de inventar uma história para vender Ludy:
«Não mates o gajo, porque ele tem diamantes escondidos que valem mais de 50 milhões de dólares e é ele o único que pode indicar-nos o esconderijo.»
* José Eduardo dos Santos, ao assumir as rédeas do país, fez o ajuste de contas. Alguns ministros fiéis a Agostinho Neto são afastados do governo. Entre eles estava Iko Carreira, o ministro da Defesa, que foi acusado por Nito de ser um traficante de diamantes.
* Luís dos Passos, o 'estratega' que dirigiu o assalto aos quartéis e efectuou a tomada da Rádio Nacional em 27 de Maio, só voltou a Luanda em 1990. Durante cerca de 13 anos viveu escondido na mata, no norte de Angola. Aí comeu raízes de árvores, sofreu vários ataques de paludismo, mas... sobreviveu.
* O jornalista da BBC João Van Dunem, requereu ao ministro da Justiça angolano, Lázaro Dias, certidões de óbito do seu irmão José e de Sita Walles, mas aquele governante limitou-se a remeter o assunto para os seus colegas da Defesa, da Saúde e da Segurança, com a alegação seguinte:
«Sabido que o Ministério da Justiça só emite certificados de óbito com base em notas ou nótulas de médicos a atestar o óbito
- o que não aconteceu -,
solicito a informação sobre se têm algum conhecimento do falecimento das pessoas acima referidas.»
* Longe das intrigas de Estado, em Kaleba, Francisco Karicukila envelheceu e perdeu a esperança. Ali ouviu dizer que a União Soviética, a mãe de todas as revoluções, está moribunda. Também ele acreditou no socialismo e em Neto, mas na sua aldeia os homens trabalham na lavra e bebem vinho de palma para esquecer a fome.
* A casa onde escondeu Sita está agora abandonada e cercada de capim... o filho, que levava as mensagens dos fugitivos, também foi fuzilado, e ele foi torturado durante dois anos.
Com um sorriso triste, recorda as últimas palavras proferidas por Sita:
«Fomos traídos, mas um dia haverá igualdade no nosso país.»

segunda-feira, 4 de agosto de 2008

RECORDANDO O NEGAGE

O A.B.3 visto do ar
* - A cidade do Negage situa-se no Norte de Angola, a cerca de 37 quilómetros da cidade do Uíje - antiga Carmona -, a capital provincial, sendo parte de um sistema montanhoso que a eleva a 1.300 metros de altitude.
* - As suas principais actividades económicas, num passado ainda recente, eram o cultivo e a secagem do café, a agricultura e a pecuária. Foi, no tempo "colonial", uma zona militar por excelência, considerando-se o facto de nela estarem estacionados o Aeródromo Base nº. 3; a 3ª. Companhia de Caçadores do Capitão Xavier; o Pelotão de Apoio Directo nº. 248; o Pelotão de Artilharia Anti Aérea nº. 984; o Pelotão de Intendência nº. 168 ou a Companhia de Artilharia nº. 749.
* - Em 1961, o Negage foi uma das regiões do Norte de Angola mais atingidas pela barbárie da guerra de terror, que colocou toda a zona a ferro e fogo. Muita gente ainda sentirá o pânico que foi verem passar nas ruas verdadeiras hordas de bandidos, armados com canhangulos e catanas, arcos e flechas, para além das armas que iam roubando das Fazendas que haviam atacado indistintamente.
* - Nas imediações do Negage encontram-se os municípios do Quitexe, Puri e Bungo, também martirizados pelo terrorismo.
* - Contam-se muitas histórias àcerca da figura de João Ferreira, um mítico caçador e o maior produtor agrícola do Negage, de entre as quais a historieta de que, por ser um homem desmesuradamente podre de rico, como era, pretenderia mandar confeccionar um fato com a pele de um, dois ou três negros. Não passará de uma das muitas lendas que se contavam sobre este residente, especialmente por parte das facções do MPLA, que jamais veio a ter as boas graças deste Transmontano ricaço, pai de miríades de filhos, brancos, pretos e mulatos, com mais netos que a aldeia poderia suportar, que comprava hotéis só para mandar os directores para o desemprego e tantas outras fantasias que fazem de João Ferreira alguém que se deveria procurar conhecer muito bem.
* - No sentido Negage-Camabatela, logo à saída da cidade, no local onde a estrada faz uma bifurcação com a estrada para a cidade do Uíje, encontra-se o impressionante aglomerado populacional da Aldeia da Missão Católica do Negage. Existiam, igualmente, dois estádios, um pertencente ao Grupo Desportivo do Negage e o outro ao Sporting Clube do Negage, ambos situados à saída da cidade pelo lado da Capoupa, já na estrada para o Quisseque e o Pinganho, onde também havia um campo de Tiro, com fosso olímpico, prancha Trapp, várias máquinas de lançamento de pratos, etc.
* - Sabe-se que hoje, por iniciativa dos vários sectores da sociedade angolana, entre os quais o governo do MPLA, está a ser implementada a reconstrução da cidade, em todos os parâmetros das necessidades locais e com a abertura de novas valências comerciais e industriais. O café já não será o "OURO NEGRO" de que tanto se orgulhava Angola, pois era um produto reconhecido nas quatro partidas do mundo... mas as feridas vão cicatrizando, lentamente, é certo, mas definitivamente.

domingo, 27 de julho de 2008

VALEU A PENA?

- Quantas vezes se repete esta pergunta, quando voltamos o pensamento para o antigo Ultramar?
- E quando os nossos netos nos perguntam
"porque é que houve guerra na África"... "porque é que tu fostes lá para a guerra" ... "porque é que o avô do Pedrinho não veio de lá da guerra"... alguém saberá o que lhe responder?
- Passaram-se já 35 anos sobre a morte de três jovens em Guidaje, a norte da Guiné-Bissau. Porque é norma das Tropas Pára-quedistas “NINGUÉM FICA PARA TRÁS...”, eis que eles regressaram, finalmente, da missão das suas vidas! O José Lourenço, o António Vitoriano e o Manuel Peixoto estão, finalmente, a descansar dos perigos da missão, junto dos que sempre lhe foram queridos! 35 anos depois, eis que regressaram à Pátria Mãe, vindos de uma terra que lhe disseram ser uma filha de Portugal, mas uma filha tão rebelde que ousou separar-se da mãe, que tanto lhe queria!
- Quantas vidas, como as destes três pára-quedistas, ficaram espalhadas pelas terras de África? Em razão de quê? Foi-lhes cometida a honra de lutar PELA SUA PÁTRIA, pois Portugal era então um mundo em pedaços repartido e os territórios do ultramar seriam tão portugueses como o eram o Minho ou o Algarve, os Açores ou a Madeira! Lutava-se em África para que o mundo soubesse que os Portugueses tinham gosto em defender aquilo que foi seu legado perene, deixado quando da gesta dos Descobrimentos Marítimos.
- Houve algumas falhas no relacionamento entre a Metrópole e os seus territórios ultramarinos? Houve! Quem alguma vez viu uma relação pais/filhos que não tivesse os seus momentos de tensão? É assim que se cresce, é assim que se caminha para aquele momento em que os filhos se separam dos pais, sem pedras para atirar uns aos outros, mas com cordialidade, com urbanidade, com amor!
- Diziam os arautos da destruição deste País-Portugal, que não deviam ter sido enviadas “tropas” para morrer inglóriamente nas províncias de Portugal em África... mas esses mesmos iluminados não manifestam tanta “alergia” quanto ao facto de agora irem os Militares portugueses morrer por conta dos interesses de outros, em países que não nos são mais nada que “pagadores” do trabalho mercenário que a lógica nos diz ser desenvolvido pelos tais “tropas” que... não podiam defender as gentes portuguesas, mas podem defender os Curdos, os Sérvios, os Kosovares, os Afegãos... e tantos outros novos territórios que cabe aos portugueses defender... mesmo com o sacrifício da própria vida, porque para isso é que são pagos!
- Valeu a pena? "Tudo vale a pena, se a alma não é pequena" - no dizer do Poeta - ... e a alma dos verdadeiros Portugueses é enorme, acreditem!
V.E.

terça-feira, 22 de julho de 2008

POR QUEM OS JOVENS SE DERAM...

* Foi no ano de 1961 que a juventude portuguesa começou a ser empurrada para um destino de morte, fosse ele em Angola, Guiné ou Moçambique. Eram rapazes na força da idade, prontos para uma vida de luta por eles próprios, para que a vida lhes abrisse os braços e lhes desse uma oportunidade; e foi repentinamente que se viram enviados como ovelhas para o matadouro infernal, para um sítio falso onde apenas há sangue, suor e lágrimas... e um desprezo enorme que teima em ficar gravado nas suas almas.
* A maior parte desses rapazes nem sabiam qual a razão que os levava a lutar, nem por quem lutavam! Uns morreram, outros ficaram indelévelmente marcados pela mutilação atroz, que lhes levou o sorriso e lhes deu uma vida quase vegetativa, porque marcados no corpo e na sua auto-estima, destroçados psicológicamente.
* Por vezes dou comigo a interrogar-me: - Há alguém que tenha procurado saber como estão 0s militares que combateram na Guerra travada em Angola contra os Movimentos Independentistas, que lhes destroçaram todas as esperanças de vir a ter uma juventude vivida sem sobressaltos, porque a hora era de sacrifício e eles eram a última esperança que restava às populações de Angola, que estavam a ser massacradas pelos homem de Holden Roberto, pois a UPA destruía tudo o que fosse branco ou estivesse ao serviço do branco!
* Nas minhas lucubrações, volta a ouvir-se aquela voz interior que me diz: "À Pátria deste o melhor da tua juventude, deste-lhe o teu suor, o teu sangue, as tuas lágrimas... e viste muitos amigos que até deram a própria vida! Valeu a pena? Estou convicto que cumpri, porque 'Todo o Português deve pronta e completa obediência às Leis e Regulamentos militares, não lhe aproveitando em caso algum, a alegação do seu desconhecimento!' E não me esqueço de que a preparação para a defesa nacional abrange todos os indivíduos do sexo masculino, desde os sete anos até à idade de incorporação no serviço militar activo. Talvez possa ter tido o azar de nascer num período em que o mundo estava todo em transformação, mercê das sequelas da II Guerra Mundial. Implementou-se a Mocidade Portuguesa, para propiciar à juventude um enquadramento político-ideológico... que muito útil se veio a tornar em África."
* Mas... também penso naqueles que, mercê da sua cobardia disfarçada de necessidade de inserção no mercado de trabalho, iam fugindo para todo o sítio que lhes fornecesse a garantia de que estariam livres da guerra... alguns, não todos, porque também o estar a labutar nas terras de França não era pera doce, chegando-se a vêr jovens a regressar... porque preferiam ser mandados para África a viver a guerra medonha da sobrevivência nos "Bidonville". Não se tratava de "meninos da mamã" que tinham um pai médico para lhes arranjar um "pé chato" ou coisa parecida!
* O nosso espírito havia sido moldado e formado segundo princípios de que jamais discutiremos Deus e a virtude; não discutimos a Pátria e as páginas de ouro que formam a sua milenar história; não discutimos a autoridade e o seu prestígio; não discutiremos a Família e a sua moral; não discutiremos a glória do trabalho e o seu dever.
* E são as palavras "DEUS", "PÁTRIA", "AUTORIDADE", "FAMÍLIA" e "TRABALHO" que, mesmo sendo usadas como uma bandeira de valores ideológicos e políticos do antigo regime, continuam a ser uma inegável referência dos princípios morais e patrióticos que para sempre ficarão gravados no mais íntimo de cada um daqueles que, como eu, amam, acima de de tudo, a sua Pátria.
* "Honra-se a Pátria de tal gente!", dizia Luis Vaz de Camões! E não é para menos, pois temos a glória de ser um Povo que deu novos mundos ao mundo... e disso nos orgulhamos, pois só assim seremos dignos de toda a nossa História e conseguiremos então que os outros Povos nos respeitem pelos muitos mundos que construímos.

domingo, 13 de julho de 2008

ESTE FALAR PORTUGUÊS...

Retrato de um Soba
* Após o Governo Português conceder ao mundo a dita de assinar e promulgar o já estafado Acordo Ortográfico da Língua, começaram a ser veiculadas as mais diversas opiniões sobre este assunto, que mostram à saciedade que o Zé Povinho não aceita de bom grado este acordo... pelas muitas divergências linguísticas que o mesmo já suscita.
* Um amigo, com residência em Angola, deu-me conta do facto de se estar a perder, naquele país, o uso da língua do "antigo colonizador", considerada como a "língua oficial", apesar de a "guerra colonial" ter permitido uma maior assimilação linguística e muitos outros hábitos e valores portugueses.
* A presença de um elevado número de colonos portugueses, espalhados por todo o vasto território angolano, bem como os sucessivos contigentes militares que demandavam a Província, foram um processo impositivo, pelo que a adopção do português, como língua de comunicação corrente em Angola, propiciou também a veiculação de ideais de emancipação em certos sectores da sociedade angolana. A língua portuguesa, a partir da 2ª.metade do século XX, veio facilitar a comunicação entre as pessoas de diferentes etnias. Poderá dizer-se que a "Guerra do Ultramar " foi um elemento importante e fundamental para a expansão da consciência nacional angolana. De instrumento de dominação e clivagem entre "colonizador" e "colonizado", a língua portuguesa adquiriu um carácter unificador entre os diferentes povos de Angola.
* Após a independência, ocorrida em 1975, a guerra civil foi também um factor de expansão da língua portuguesa, especialmente pela fuga das populações rurais para as cidades - nomeadamente Luanda - que levou à necessiade de comunicarem entre si... em português. Mas o português falado e escrito em Angola, está em constante mutação, apesar de ser falado "apenas" por cerca de 30% dos naturais. É que também as línguas maternas estão a ser adaptadas, como é o exemplo dos vocábulos quimbundos "di-kamba" = amigo; "dikota" = mais velho; "kasule" = o filho mais novo; "kubaza" = fugir, que são usados por todo o país como "camba", "cota", "caçula" ou "bazar". O dicionário da língua portuguesa possui já muitos outros termos angolanos, como é o exemplo de batuque, bobó, bunda, cambolar, capanga, catinga, curinga, dendê, gimgar, jimbolo, moleque, quitanda, samba, xingar, etc.

OPORTUNAMENTE VOLTAREI A ESTE ASSUNTO.

sábado, 21 de junho de 2008

A BAIXA DO CASSANGE...

* A partir do final da década de 40 surgiram, no Norte de Angola, vários movimentos com o objectivo comum de se oporem ao sistema colonial. Tiveram, de início, características messiânicas e uma base tribal, destacando-se o movimento encabeçado pelo “profeta” Simão Toco (ou Tinoco?), que anunciava ao povo angolano o fim da miséria e uma nova mensagem divina. Embora viesse a ser detido pelas autoridades, em 1949, as suas ideias (doutrina Tocoísta) estenderam-se entre os bacongos, emigrados no então Congo Belga, que vieram a criar, em 1956 a Aliança do Povo Zombo (Aliazo). Este movimento converteu-se, em 1962, no Partido Democrático de Angola (PDA).
* Mas foi outro movimento, de características similares, que esteve na base da sublevação da Baixa do Cassange, em Janeiro de 1961. O movimento, que, de alguma forma colheu de surpresa as autoridades portuguesas, iniciou-se com uma greve dos trabalhadores da Companhia Cotonang, como forma de protesto contra o atraso no pagamento dos salários, mas rapidamente se transformou num protesto das populações contra o cultivo obrigatório do algodão e as duras condições de trabalho que tinham.
* Em todo o movimento, desempenhou papel de destaque António Mariano, que pertencia a uma seita religiosa, era bastante próximo da União das Populações de Angola (UPA), e cujo nome ficou ligado à insurreição conhecida com o nome “A Guerra da Maria”. Os habitantes da região louvavam Patrice Lumumba, o líder revolucionário do Congo, clamavam pela independência de Angola, enquanto queimavam as sementes, destruíam ou interrompiam as vias de comunicação, destruiam pontes fluviais, matavam os gados, invadiam os armazéns e as missões católicas, expulsavam os brancos... mas não utilizavam armas. No entanto, isto tornou-se o prelúdio ao inferno.
* Para reprimir este movimento, as autoridades socorreram-se de unidades do Exército e Força Aérea presentes em Angola, que atacaram os grevistas de 24 de Janeiro a 2 de Março, transformando a acção num desproporcionado massacre de populações, cujo número de vítimas nunca se conheceu com exactidão. As Forças Armadas esmagaram a revolta com companhias de caçadores especiais e bombas incendiárias lançadas de aviões.
* Um responsável da Força Aérea Portuguesa disse, na altura, ao embaixador americano em Lisboa, C. Burke Elbrick, que "a violência tinha como origem a exploração dos nativos pela Cotonang", uma firma algodoeira luso-belga. Este turbilhão na Baixa do Cassange foi omitido à opinião pública, mas a propaganda dos Movimentos Terroristas tratou de o dar a conhecer... com o aumento de pormenores quanto aos meios e às vitimas que se calcula. Do 8 ao 80 valeu de tudo! Ainda hoje os responsáveis Angolanos - que até dedicam um dia à memória da Baixa do Cassange - são como os vendedores da banha da cobra... e falam da Baixa do Cassange como um momento alto para fomentar o ódio contra os colonizadores... esquecendo aquilo que a UPA fez a 15 de Março... ou o MPLA no 27 de Maio. E se aparecer quem mostre a realidade histórica do que foi Angola antes e depois do 25 de Abril?
* E se... aproveitassem e honrassem aqueles que pereceram e merecem ser recordados pelo que fizeram de positivo pelo Povo, em vez de se lançarem atoardas que apenas são propiciadoras de mal estar entre os homens de boa vontade?

sexta-feira, 13 de junho de 2008

OS SANTOS POPULARES... EM ANGOLA

...-. Na Metrópole de então, durante o mês de Junho, realizavam-se as Festas dos Santos Populares. As festas em honra de Santo António começavam logo na noite do dia 12, porque todos os anos, a cidade de Lisboa organizava as Marchas Populares, que é hoje uma mediática atração turística em que acontece um grande desfile alegórico, com gente que canta e dança a descer a Avenida da Liberdade e no qual podemos vêr em competição os diferentes Bairros da capital, que montaram grandiosos arraiais onde é rainha a sardinha assada frequinha, os pimentos assados e o vinho tinto a escorrer dos pipos, com um cheirinho que se espalha por toda a cidade. Como encerramento do desfile, costumava lançar-se um feérico fogo-de-artifício.
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Os rapazes iam comprar manjericos (uma verdejante planta aromática, que em alemão se chama "das Basilikum"), plantados em pequenos vasos, para oferecerem às namoradas. Estes manjericos ostentavam uma bandeirinha em que estava escrita uma quadra popular, que tanto poderia ser brejeira como jocosa.

.... Em Angola, como noutros locais da antiga África Portuguesa, foram os Militares que voltaram a dar cunho popular às festividades dos Santos, organizando verbenas, arraiais, bailes... e até se começavam a vêr algumas tentativas de organizar Marchas Populares, especialmente naquelas terras que tinham algum dos Santos Populares como Padroeiro ou algum Bairro dedicado a um dos Santos, como era o exemplo de Nova Lisboa (Huambo), que tinha os Bairros de Stº. António, S. João e São Pedro, aproveitando tal facto para os comemorar condignamente. Tive oportunidade para assistir ao vivo a essa comemoração quando frequentei, na Escola de Aplicação Militar de Angola, o Curso de Sargentos Milicianos.
---- A comunidade Paroquial do Bairro de Stº. António organizou-se e conseguiu recordar um pouco Alfama ou Bairro Alto, Madragoa ou Benfica, até com mini marchas populares. O Bairro de S. João, através do Clube Ferroviário e da Paróquia, gostava de mostrar um cheirinho a Ribeira, a Rio Tinto ou às Fontaínhas. O Bairro de São Pedro vestia-se de galas para nos mostrar um pouco de São Pedro de Sintra,ou do Montijo, para não falar de tantos outros locais onde estes Santos são objecto do Culto dos Portugueses.
.... Também no Negage - e não era por força de haver algum bairro com dedicação a estes Santos -, se realizavam os Santos Populares, organizados pelos Militares das várias Unidades, os mais saudosistas desta data, como seria de prever. E mesmo não havendo possibilidades de se organizar uma boa sardinhada, a festa fazia-se na mesma e, acredite-se ou não, no confronto com as congéneres organizadas na Metrópole, até nem ficavam muito mal.
... E... nem sequer se tornavam necessários os tradicionais foguetes... que iam aparecendo nas lojas muito de vez em quando, mas sempre apareciam. É que o engenho do homem é tremendo... e o desenrasque dos Portugueses é sobejamente conhecido, arranjando sempre alternativas para tudo.

quarta-feira, 11 de junho de 2008

TANTA HISTÓRIA POR CONTAR...

Patrulha de T-6 voando em Angola
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* Como já houve oportunidade de dizer, quando eclodiram os primeiros ataques terroristas em Angola, a Força Aérea andava a preparar-se para qualquer problema que viesse a ocorrer... pelo menos "no pape"l, considerando o facto de, desde 1957, haver várias missões que procuravam estudar o terreno para implementar a FAP no território. Em 1958 seguiu para África uma missão chefiada pelo SubCEM, General PilAv Venâncio Deslandes, que visitou Cabo Verde, Guiné, São Tomé, Angola e Moçambique, visando o reconhecimento dos locais para inatalar as Unidades necessárias à operação aérea naqueles territórios. A missão chefiada pelo General Viana Tavares foi destinada ao norte de Angola, para efectuar reconhecimento detalhado de terrenos existentes na área da cidade de Carmona. Já em Luanda, é esta missão confrontada com uma comissão de residentes da Vila do Negage, que se colocou à disposição da missão no sentido de ser construída uma Unidade da Força Aérea na Vila, que tinha todas as condições para ali ser implantada, dadas as características do local, a meteorologia, os ventos dominantes... e a boa vontade demonstrada pelas populações, quando da viisita que então ali foi efectuada pelos elementos da comissão. Por esta mesma Comissão, em simultâneo, foram estudadas as infra-estruturas aeronáuticas civis existentes na Província, até pelo apoio que era exigido para o Exercício "HIMBA", que aconteceu em Abril de 1959 e foi como que um exercício preparatório para o regresso da Aviação Militar a Angola. O Aeródromo Base nº. 3 foi instituído pelo Decreto Lei nº. 18 029, de 31 de Outubro de 1960, sendo nomeado para seu 1º. Comandante o então Major PILAV Augusto Soares de Moura, por Portaria de 31 de Dezembro de 1960.
* Este Exercício "HIMBA" foi chefiado pelo próprio Comandante da 1ª. Região Aérea e nele tomaram parte mais de 200 Militares, de várias patentes e especialidades aeronáuticas, e bem assim 14 aviões de trensporte e bombardeamento, que tinham como missão o reconhecimento de locais para instalação futura de aeródromos, ao mesmo tempo que se fazia uma grande operação de charme para levar a juventude do Ultramar a abraçar a causa do ar.
* Tratados que foram os aspectos legais, com aprovação de um eventual reforço das Forças Armadas das Províncias Ultramarinas e estabelecidas possíveis rotas para uma ligação aérea entre a Metrópole e aquelas Províncias, especialmente para o transporte de Militares e meios aéreos necessários, foi então possível enviar, já no decorrer do ano de 60, seis aviões NORATLAS e 8 PV-2 para Luanda, ao mesmo tempo que para o Negage foram enviados oito AUSTER. Foi instituída a 2ª. Regão Aérea, e , quando eclodiu o terrorismo em Angola, em 1961, havia já a funcionar pistas em Luanda, no Negage e no Toto. Aos meios aéreos referidos, juntaram-se mais 4 aviões Harward T-6, que foram adquiridos através de um país amigo, ali da área.

* O que é certo, nisto tudo, é que no dia 15 de Março de 1961, quando a UPA perpetra os terríficos ataques contra as populações do Norte de Angola, Portugal é apanhado completamente desprevenido. É que a Força Aérea era apenas uma recém-nascida, "ainda de fraldas", mas não se furtou ao dever de acudir às populações através dos parcos meios aéreos de que dispunha. Foi assim que contribuiu grandemente para elevar o moral das populações, com os bombardeamentos efectuados pelos PV-2 e os T-6.

domingo, 1 de junho de 2008

OS 47 ANOS DO A.B.3 - N'GAGE

* No Campo de Tiro de Alcochete - Messe de Sargentos - decorreu, no dia 31 de Maio, o 47º. Aniversário do AB3, que juntou cerca de 260 participantes - Militares, Civis e Famílias - além de muitas crianças, numa confraternização de amizade, camaradagem e saudade que já se tornou tradição.
* Este evento teve o alto patrocínio do Estado Maior da Força Aérea/Grupo de Apoio e do Comandante do CTA, até porque da Comissão Organizadora faz parte um Oficial General na situação de "Activo", facilitando assim a "vida" aos restantes membros, que apenas têm de estar atentos e controlar as inscrições, como se torna óbvio.
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* Lamenta-se apenas que estes patrocínios não sejam estendidos a outros eventos desta natureza, como sendo os Aniversários da BA3, do AB4 ou do AB6, para não falar de outros, pois parece que a Força Aérea continua a ser uma coutada onde alguns podem continuar a caçar... em detrimento de outros, a quem nem fisga lhes será permitido usar.

terça-feira, 20 de maio de 2008

Dona MARIA ESTEFÂNIA ANACHORETA - II

Dona Maria Estefânia Anachoreta

Visita do Movimento Nacional Feminino
* Estava-se no dia 13 de Dezembro, naquele ano longínquo de 1965 e na picada que vai da Quibala para o Ambriz. Uma coluna é "apanhada" no meio de uma emboscada, que provoca um morto e 3 feridos. O Alferes MC, um jovem rapaz de Santarém, havia chegado a Luanda, no "Vera Cruz, nos últimos dias do mês de Novembro. Passou 3 dias em Luanda e foi mandado, em coluna, para se apresentar na sua Companhia, que estava na Quibala, por aquele tempo uma zona bastante difícil, de guerrilha bastante acesa, onde o inimigo parecia estar mais atento e mortífero.
* Numa pergunta feita ao jovem Alferes, ele disse tudo num simples relato: -
- " O EPISÓDIO MAIS MARCANTE DA MINHA ESTADIA NO TEATRO DE OPERAÇÕES, FOI QUANDO VI UMA SENHORA, NÃO POSSO DIZER COM PRECISÃO A DATA DA OCORRÊNCIA, VESTIDA COM UM SIMPLES VESTIDINHO E UNS SAPATOS LISOS, SEM OSTENTAÇÕES DE NENHUMA ORDEM, CHEGAR À NOSSA UNIDADE, NA QUIBALA, ACOMPANHANDO ALGUNS MILITARES E... MUNIDA DE UM GRAVADOR. PARECIA UMA VISÃO DESCIDA DO CÉU! UMA VISÃO OU COISA ASSIM... MAS NÃO ERA! ERA UMA PESSOA BEM REAL, DETENTORA DE UMA VOZ INCONFUNDÍVEL, QUE ALGUMAS HORAS DEPOIS SE OUVIA VINDA DO PEQUENO GRAVADOR, COM UMA MENSAGEM INESPERADA! FOI ESTE O MOMENTO MAIS IMPORTANTE DA MINHA PASSAGEM PELA GUERRA, POIS OUVI ALI A VOZ DA MINHA MÃE, NAQUELE FIM DO MUNDO!"
* Numa tarde primaveril, em 1998, Dona Maria Estefânia meteu-se no seu carro e tomou o caminho de Salvaterra de Magos, onde iria lanchar com uma amiga, que a aguardava. Era uma viagem que não demoraria mais de uma hora, se decorresse sem incidentes... mas o que é verdade é ter rebentado um pneu, numa estrada secundária... e pouco havia a fazer. No entanto, porque Deus estava com ela, Dona Maria Estefânia pouco tempo teve de esperar por auxílio, pois logo apareceu um senhor, que passava de mota, que logo se ofereceu para a ajudar a mudar a roda. Quando terminou o serviço, Dona Maria Estefânia perguntou-lhe:
- "Quando lhe devo pelo seu trabalho?".
- "Por quem é, minha senhora! Não me deve nada!" - respondeu-lhe o senhor.
-"Desculpe, mas pelo menos vai ter de aceitar qualquer coisa para beber uma cerveja, pois faço muito gosto nisso!" - teimou a Senhora.
O homem, olhando-a nos olhos, apenas lhe disse: - "Quando a Senhora foi a Nambuagongo levar uma mensagem da minha mãe... eu também não lhe dei nada!". E nos olhos daquele homem agradecido, uma lágrima furtiva teimava em cair!
* A Senhora Dona Maria Estefânia percorreu milhares de quilómetros a visitar os Militares do Distrito de Santarém, nas muitas Unidades espalhadas um pouco por toda a Angola. Sâo Salvador do Congo, Henrique de Carvalho, Gago Coutinho, Carmona, Cazombo, Luso, Teixeira de Sousa, Quibaxe, Salazar, Zala, Quibala, Veríssimo Sarmento, Bembe, Quitexe, Negage, Silva Porto, Lumeje... foram alguns dos muitos lugares onde desempenhou uma das mais nobres missões que o amor de alguém pelo seu próximo poderia imaginar vir a acontecer em tempo de guerra!
A Dona Maria Estefânia Anachoreta deve estar bastante feliz, junto do Pai Celeste, a descansar da labuta que a levou a Angola nos anos da guerra! Jamais será esquecida!