terça-feira, 6 de novembro de 2007

ESCREVENDO AO SABOR DA PENA...

.... Quando, num dia já bem distante, cheguei ao Negage, não julguei ser possível encontrar uma tão grande convivência entre os elementos étnicos que constituíam os seus residentes, tendo-se em conta tudo aquilo que era voz corrente ouvir-se no Portugal Metropolitano - o "Puto" no dizer dos autoctónes - ao afirmar-se que os pretos seriam apenas uns meros animais tratados à chibata, certamente porque seriam também uns deres despojados de alma e sem nenhuma compreensão das coisas que os rodeavam...
.......e foi, por acaso naquele preciso momento em que pisei o solo Angolano, que concluí não ser possível aceitar-se como saídas de "gente" como eu, que me presumo alguém dotado de cabeça para pensar por mim próprio e de olhos para vêr com clareza que aquele era um Povo que, pondo-se de parte a sua coloração ou a pigmentação da sua pele, seria tão digno de um tratamento como pessoa humana, que o era, em absoluto, com as suas alegrias ou tristezas, as suas qualidades ou defeitos, as suas convicções ou dúvidas, a sua capacidade para amar ou odiar, que dedicava ao trabalho toda a sua vontade e honestidade, quando empenhado nesse mister, pois também constactei haver enorme predisposição para a fuga ao trabalho por parte de grande maioria dos homens do Norte, pois essa tarefa era normalmente desempenhada pela mulher, a quem competiam as tarefas do campo... e não só. Talvez seja a razão porque se não viam no Norte as tradicionais hortas, onde as populações negras podiam colher os produtos necessários ao complemento da sua alimentação. O pouco milho colhido era realmente pouco, pois não se preparava a terra para o efeito.
....O homem negro do Norte de Angola sempre viveu de expedientes vários, não raras as vezes à margem das leis vigentes.
....Quando fui para Nova Lisboa, para fazer o Curso de Sargentos Milicianos (CSM), na Escola de Aplicação Militar de Angola, tive oportunidade de verificar que a realidade das relações do homem negro com o trabalho eram bastante diferentes no Sul. Estava esclarecido quanto ao motivo porque os fazendeiros do Norte mandavam vir do Sul os trabalhadores para as suas propriedades, especialmente os de etnia Bailundo. Estes eram trabalhadores, leais, dignos de confiança e dotados de uma bondade a toda a prova. No Norte o homem preto mostrava alguma sobranceria para com os do Sul... tal como faz com os brancos. E a razão para haver esta maneira tão diversa de comportamento estará relacionada com a revolta do povo Bailundo, acontecida porque estes estavam fartos de que, pelas autoridades, lhes fossem impostas quotas de produção e tivessem obrigatoriedade de produzir algodão nos campos que cultivavam. O Rei mandou então um vapor com Caldas Xavier e 100 homens, devidamente armados e montados a cavalo, que tinham por missão a pacificação do território amotinado. No entanto...estes soldados e os cavalos foram adoecendo, ao longo da viagem, e quando chegaram a Luanda, não havia metade de homens e animais válidos, capazes de se deslocarem para a luta, tendo então recorrido ao auxílio de homens do Norte, bastante bem pagos para isso. Aproveitou-se Caldas Xavier se serem estes homens do Norte figadais inimigos dos Bailundos, não morrendo também estes de amores pelos homens do Norte, que lhes raptavam os jovens do Sul para venderem nos mercados de escravos.
....Julga-se assim explicado o motivo porque os Bailundos se voluntriavam para integrar as fileiras do Exército Português, em Angola, pois assim podiam vingar os seus mortos feitos no período da revolta do algodão. Talvez seja esta também a razão porque a UPA tinha os Bailundos por inimigos, tão ou mais merecedores de sofrer a morte que os colonizadores brancos... especialmente se estes eram Portugueses.
....Curvo-me, reverente e respeitoso, perante a memória de alguns milhares de Homens e Mulheres cujo único crime foi o de serem Bailundos. No Negage e arredores bastas vezes ficou demonstrado serem estes pessoas de grande alma e dignidade! Foram, certamente, os melhores de muitos de nós, sendo essa a razão porque pereceram. Restará a consolação de que não haverá discriminação étnica no Céu, tal como não há brancos e pretos, vermelhos e amarelos, mas sim HOMENS e MULHERES que viveram a sua vida com aquela dignidade de ser que alguns lhes não queriam reconhecer.

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