segunda-feira, 19 de novembro de 2007

NA RAIA DOS MEDOS...

-----Impressiona vêr a destruição, que se apoderou daqueles cenários do Uíge que nos havíamos habituado a considerar uma terra abençoada por Deus... até que o deus Marte, acompanhado por Júpiter e talvez outros deuses mais dados a essas coisas - Baco, como deus do vinho, talvez tenha dado uma mãozinha - tenham colaborado no "bota abaixo" que imperou um pouco por toda esta terra mártir de Angola.
----- Não que se não soubesse haver uma má vontade do MPLA para com o Uíge, dado aqui ter sido sempre uma coutada da UPA/FNLA, nos tempos da convulsão que provocou, quando fez eclodir o terrorismo selvático por estas terras, que sempre declarou serem sua pertença, assim como toda aquela região. Ora o MPLA, no momento em que se conseguiu arvorar em senhor da República Popular de Angola e suas imediações - leia-se Cabinda - deverá ter jurado vingança sem quartel àquele Movimento terrorista do Sr. Holden Roberto, que sempre procurou manter o seu feudo reconhecido como tribalista e selvático, em contraponto com o seu figadal inimigo interno, o Dr.Agostinho Neto e o seu MPLA, que até se têm esforçado, do um modo que acreditam ser o mais lógico, em se constituirem como um amplo e honesto movimento nacionalista que venha a ser capaz de ultrapassar séculos de ódios, de rancores divisionistas e de desconhecimento mútuo, procurando deste modo reconciliar toda uma civilização urbana, essencialmente crioula, nascida da enorme "salada russa" feita de brancos, mulatos ou mestiços, que se foram miscenizando nos tempos do tráfico de escravos, com as diversas sociedades camponesas do interior do País.
----- Esta tentativa foi um falhanço total, como se torna evidente ter acontecido. É que o MPLA se afirmava combatente contra o tribalismo e o regionalismo, por pretenderem a unidade nacional, mas estas boas intenções caíam pela base, pois mostravam ser apenas um Movimento com uma mentalidade colonizada, completamente incapaz de perceber ser uma grande riqueza e enorme vantagem a enorme diversidade étnica e linguística que era existente por toda a Angola.
----- Os slogans de "UM SÓ POVO, UMA SÓ NAÇÃO" - era a principal palavra de ordem ouvida por aqueles dias - estavam, na realidade, a sugerir ser impossível construir-se um país mais moderno, que pudesse vir a respeitar as diferentes "nações" que formavam a grande Nação Angolana... e eles saberiam isso perfeitamente, a não ser que fossem destituídos de quaisquer resquícios de inteligência.
----- É que o Povo Angolano não é parvo, em absoluto, e custava-lhe compreender como se tornara possível os "Mulatos" lutarem contra os seus, porque tinham ascendência Portuguesa, mesmo se nascidos em África. Alguém poderia entender esta coisa de se verem os filhos a lutar contra os pais? Como foi possível serem os mestiços a liderar um movimento de libertação contra os Portugueses?-----
----- Jonas Savimbi, um homem poderoso, bastante violento... mas muito inteligente, soube utilizar a seu favor toda a arrogância dos dirigentes do MPLA - que eram os lídimos representantes do mundo urbano e das sociedades da mestiçagem crioula citadina - e procurou utilizar com êxito o ressentimento e a revolta que eram latentes nas populações rurais.
----- O Povo do Uíge, que sentiu na carne o ferrete da crueldade assassina da UPA/FNLA, jamais perdoará o sofrimento que lhe foi infligido pela sanha de um grupo de bandoleiros que não olhava a meios para conseguir prosseguir não se sabe que fins, pois nunca vieram a conquistar as boas graças do povo. E não se pense que as próximas gerações esquecerão o modo como se levou a cabo um tão hediondo crime de "lesa povo", que teve de aceitar um futuro que não escolheram, até porque nunca foram ouvidos nesse sentido.
----- Lentamente as feridas irão sarando, mas as sequelas são enormes e não se crê ser possível haver, a curto prazo, uma paz que se revele duradoura e lhes venha a proporcionar um futuro que traga, finalmente, uma esperança para o porvir.

sexta-feira, 16 de novembro de 2007

TANTA ESPERANÇA NO PORVIR...

-----...porque sempre fomos um povo confiante no seu destino, mesmo que este, por vezes, nos goste de pregar partidas, e que partidas!
-----No Negage, a confiança está em alta graças ao esforço das autoridades locais visando restabelecer a ordem e a segurança de pessoas e bens na região, pelo que os empreendimentos iam surgindo em catadupa! Com a realização da 1ª. Exposição-Feira de Actividades Comerciais, Industriais e Agro-pecuárias do Negage, deu-se a abertura de novos empreendimentos, tais como o novo Cine Teatro do Negage, Estádio "João Ferreira", do Sporting Clube do Negage, o novo Hotel Residencial do Negage, o "Tambuazo", a nova Igreja de S. José Operário, a Escola Comercial e Industrial, o Banco Comercial de Angola - Delegação do Negage, bairros residenciais que se vão expandindo, novos estabelecimentos comerciais, asfaltagem de todas as vias da novel cidade - porque foi digna dessa honra, por decisão governativa - e o embelezamento das ruas e avenidas, com a colocação de palmeiras que lhes dão uma beleza impar, indústrias que se vão estabelecendo e dão uma insufismável e derradeira prova de que os Portugueses vieram mesmo para ficar.

AS CUCAS... AS NOCAIS...AS SAUDADES




-----De vez em quando, muito de vez em quando, sinto um certo peso no estômago, como se acabasse de beber uma "bazuka" gelada, acompanhada por um magnífico prato de marisco, não daquele que o bom Rei Eusébio consagrou, mas tão só um magnífico e bem fresquinho camarão, apanhado horas antes nas tranquilas águas Angolanas.
-----Porque falo em "bazuka", claro que terei de lembrar também as cervejas da CUCA e da NOCAL, até porque a maior publicidade que vi a estas marcas provinha de histórias que o Povo - o bom Povo de Angola - ia contando nas banjas onde me deslocava, por vezes, a convite de um Soba ou de um amigo dos muitos que deixei por lá. Não sei até que ponto não seria fantasia de algum fulano que pretendesse fazer propaganda ao seu produto, em detrimento do da concorrência, mas afirmava-se que "A CUCA AJUDA A UPA!" concluíndo-se logo após que "A NOCAL... AJUDA PORTUGAL"!
-----Não sei até que ponto esta propaganda seria "publicidade enganosa" ou não... mas aquilo que se veio a constatar é o facto de a CUCA ainda se mantêr em laboração plena, com boa implantação no mercado Angolano, ao mesmo tempo que a NOCAL desapareceu por completo... tendo surgido a novel "N'GOLA" como herdeira das tradições cervejeiras que seriam da NOCAL. É que a fábrica existia, ficou em solo Angolano, não lhe acontecendo qualquer contratempo até à data da independência. Depois desta acontecer, poderá muito bem ter sido mais um "espólio de guerra" desviado para Cuba, como recompensa dos serviços prestados pelos seus "conselheiros" culturais e políticos, o mesmo que dizer "SOLDADOS CUBANOS".
----- Terá havido alguma verdade naquelas histórias espalhadas por toda a Angola de que a CUCA apoiava os terroristas de Holden Roberto, no início da luta armada, quando os bandos demandavam as terras do Uíge semeando o terror? Não quero acreditar ter alguma vez Manuel Vinhas pactuado com tal infâmia, pois era por demais um Homem íntegro e probo, que poderá ser acusado de muita coisa, mas de traição, jamais.
-----Agora basta-nos a memória dos petiscos bem regados com cerveja, predominando aquela cujo sabor seria mais próximo da nossa tradicional "SAGRES", que nunca poderei afirmar ser uma ou outra, porque antes de ir para Angola nunca tinha bebido cerveja... e depois de regressar nunca mais a bebi. Havendo tão bom whisky em Angola - que também o fabricava na sua fábrica do Lobito, a SBELL - e a preços tão convidativos... era um crime não beber um um trago, com uma ou duas pedrinhas de gelo... que saudades, meu Deus!
-----Estou convicto de que alguns dos que me lêem terão a mesma opinião... mas uma "loirinha", Cuca ou Nocal não importa, com uns "jaquinzinhos" ou uma "dobradinha", ao fim da tarde, sentado na explanada do "Estrelas" ou do "Avenida", no Negage, ou em Luanda, na "Portugália", na "Mexicana" ou na Ilha... acreditem que mesmo com os tremoços - o tal marisco do Eusébio - eu mataria as saudades que me ficaram daqueles tempos, pois sei serem estas uma parte de mim que jamais olvidarei.

terça-feira, 6 de novembro de 2007

ESCREVENDO AO SABOR DA PENA...

.... Quando, num dia já bem distante, cheguei ao Negage, não julguei ser possível encontrar uma tão grande convivência entre os elementos étnicos que constituíam os seus residentes, tendo-se em conta tudo aquilo que era voz corrente ouvir-se no Portugal Metropolitano - o "Puto" no dizer dos autoctónes - ao afirmar-se que os pretos seriam apenas uns meros animais tratados à chibata, certamente porque seriam também uns deres despojados de alma e sem nenhuma compreensão das coisas que os rodeavam...
.......e foi, por acaso naquele preciso momento em que pisei o solo Angolano, que concluí não ser possível aceitar-se como saídas de "gente" como eu, que me presumo alguém dotado de cabeça para pensar por mim próprio e de olhos para vêr com clareza que aquele era um Povo que, pondo-se de parte a sua coloração ou a pigmentação da sua pele, seria tão digno de um tratamento como pessoa humana, que o era, em absoluto, com as suas alegrias ou tristezas, as suas qualidades ou defeitos, as suas convicções ou dúvidas, a sua capacidade para amar ou odiar, que dedicava ao trabalho toda a sua vontade e honestidade, quando empenhado nesse mister, pois também constactei haver enorme predisposição para a fuga ao trabalho por parte de grande maioria dos homens do Norte, pois essa tarefa era normalmente desempenhada pela mulher, a quem competiam as tarefas do campo... e não só. Talvez seja a razão porque se não viam no Norte as tradicionais hortas, onde as populações negras podiam colher os produtos necessários ao complemento da sua alimentação. O pouco milho colhido era realmente pouco, pois não se preparava a terra para o efeito.
....O homem negro do Norte de Angola sempre viveu de expedientes vários, não raras as vezes à margem das leis vigentes.
....Quando fui para Nova Lisboa, para fazer o Curso de Sargentos Milicianos (CSM), na Escola de Aplicação Militar de Angola, tive oportunidade de verificar que a realidade das relações do homem negro com o trabalho eram bastante diferentes no Sul. Estava esclarecido quanto ao motivo porque os fazendeiros do Norte mandavam vir do Sul os trabalhadores para as suas propriedades, especialmente os de etnia Bailundo. Estes eram trabalhadores, leais, dignos de confiança e dotados de uma bondade a toda a prova. No Norte o homem preto mostrava alguma sobranceria para com os do Sul... tal como faz com os brancos. E a razão para haver esta maneira tão diversa de comportamento estará relacionada com a revolta do povo Bailundo, acontecida porque estes estavam fartos de que, pelas autoridades, lhes fossem impostas quotas de produção e tivessem obrigatoriedade de produzir algodão nos campos que cultivavam. O Rei mandou então um vapor com Caldas Xavier e 100 homens, devidamente armados e montados a cavalo, que tinham por missão a pacificação do território amotinado. No entanto...estes soldados e os cavalos foram adoecendo, ao longo da viagem, e quando chegaram a Luanda, não havia metade de homens e animais válidos, capazes de se deslocarem para a luta, tendo então recorrido ao auxílio de homens do Norte, bastante bem pagos para isso. Aproveitou-se Caldas Xavier se serem estes homens do Norte figadais inimigos dos Bailundos, não morrendo também estes de amores pelos homens do Norte, que lhes raptavam os jovens do Sul para venderem nos mercados de escravos.
....Julga-se assim explicado o motivo porque os Bailundos se voluntriavam para integrar as fileiras do Exército Português, em Angola, pois assim podiam vingar os seus mortos feitos no período da revolta do algodão. Talvez seja esta também a razão porque a UPA tinha os Bailundos por inimigos, tão ou mais merecedores de sofrer a morte que os colonizadores brancos... especialmente se estes eram Portugueses.
....Curvo-me, reverente e respeitoso, perante a memória de alguns milhares de Homens e Mulheres cujo único crime foi o de serem Bailundos. No Negage e arredores bastas vezes ficou demonstrado serem estes pessoas de grande alma e dignidade! Foram, certamente, os melhores de muitos de nós, sendo essa a razão porque pereceram. Restará a consolação de que não haverá discriminação étnica no Céu, tal como não há brancos e pretos, vermelhos e amarelos, mas sim HOMENS e MULHERES que viveram a sua vida com aquela dignidade de ser que alguns lhes não queriam reconhecer.