sábado, 13 de outubro de 2007

NEGAGE... DO NADA SE FEZ CIDADE - IV

g ... alguma vez teria de ser possível compreender o industrial empreendedor, o comerciante astuto, o caçador destemido, o Homem para lá da sua capa de duro, que pretende dar uma imagem de insenssibilidade para quantos o conhecem... mas é uma coração de ouro que não faz mal a ninguém... por bem.

g * Como disse em crónica anterior, João Ferreira constituíu-me seu "confidente" de ocasião, pelo que o fui entendendo cada vez mais à medida que ia ouvindo a narrativa da sua vida contada pelo próprio. Mas também procurei saber junto dos filhos e amigos até que ponto haveria alguma veracidade naquilo que ele me contava... e vim a saber pormenores deliciosos sobre a sua personalidade

g * Certo dia , estando a decorrer o mercado do café, o João Ferreira deslocou-se a Luanda, para efectuar algumas compras, pagamentos a fornecedores... e levantar uma importância em dinheiro, para o filho José Luis pagar o café adquirido no mercado. João Ferreira foi ao parque onde as suas camionetas estacionavam, normalmente. Perguntou ao vigilante qual era a camioneta que estava para partir para o Negage, este indicou-lha o veículo, onde João Ferreira colocou um embrulho de jornais entalado na corda que prendia o oleado, após o que, sem dizer água vai a ninguém, se retirou.

g * A camioneta partiu para o seu destino, sem dar conta de nada. Já quando subia para Salazar, as viaturas que faziam o trajecto em sentido contrário não paravam de fazer sinais ao motorista, que acabou por encostar e foi vêr o que se passava. Olhou para a carga e não viu qualquer anormalidade, pois o oleado estava no sítio, as cordas apertadas... o que seria que os colegas lhe estavam a querer dizer? Será que estavam "turras" nas imediações? Não era a primeira vez nem seria a última. Enquanto fazia estas conjecturas, um outro camionista parou um pouco adiante e veio até ele trazendo um pacote, embrulhado em jornal, nas mãos. - "Olha, pá! Pediram-me para te entregar isto, que caíu da camioneta! É coisa leve, não parecendo haver nada partido! Onde raio é que transportavas isto?". O camionista nem sabia o que dizer, pois não tinha conhecimento do que seria o embrulho nem quem o teria ali colocado. Agradeceu e dirigiu-se para a sua viatura, para continuar o caminho, pois queria evitar chegar noite ao Negage.
Sentou-se ao volante e resolveu verificar o conteúdo do embrulho. Qual não terá sido o espanto quando descobriu uma caixa de sapatos cheia de notas do Banco de Angola, muito direitinhas, novinhas em folha, cintadas "de fábrica"... que se podiam ter perdido se não fosse um colega passar por ele no momento em que o embrulho saltou da camioneta. Só podia ter sido o patrão... mas ele foi a Luanda, colocou o dinheiro na camioneta... e não disse nada? Quando chegasse ao escritório, o patrão João tinha que o ouvir, pois aquilo não se fazia,

g * Se bem o tinha pensado, melhor o fez. Como o Patrão tinha vindo de avião, a viagem foi mais rápida, como é evidente. O motorista, entregando a caixa embrulhada em jornal ao José Luis, perguntou ao João Ferreira: - "Patrãozinho, desculpe lá a pergunta: Não havia possibilidades de me entregar a caixa em mão? É que se não têm visto a caixa caír da camioneta, que me foi entregue por um colega a quem um outro havia dado para que ma entregasse, não sei o que seria agora de mim! Quanto dinheiro é que o senhor mandou na caixa?". - "Eram apenas 15.000 contos! Chegaram todos, não foi? Então está tudo bem!" - respondeu-lhe o João Ferreira, com a maior naturalidade do mundo - "Olha aí, ò Zé Luis: passa cá um maço para mim!" . O filho passa-lhe um maço de notas, que ele entrega ao motorista, dizendo-lhe: "Vai buscar a outra camioneta que tem estado a arranjar, paga o conserto e o resto é para pagar o susto!". Muito confuso com aquilo tudo, foi à oficina buscar a camioneta, que tinha mudado o compressor e os ferodos dos travões, pagou... e ficou a olhar para o resto do dinheiro: O JOÃO FERREIRA DERA-LHE 50 CONTOS DE REIS, e mais uns trocados, por causa da cena do dinheiro no cordame do oleado, mas não lhe pediu desculpa, tal era o orgulho! O que valia era ele ter coisas destas, que apagavam os maus momentos que ele lhes fazia passar.

g * Dias depois, entre dois dedos de conversa e um café no Avenida, o João Ferreira lá lhe confessou ter colocado o din heiro entalado nas cordas, sem nunca ter pensado na possibilidade de eles caírem... como já lhe havia acontecido noutra ocasião, mas desta vez perdeu-se parte do dinheiro, que vinha só embrulhado, sem caixa de cartão para o proteger... pelo que voou. Mas como tinha sido na sua carrinha, foi com ele não houve problema.

g * Mas as aventuras de João Ferreira continuam... sempre ligadas ao dinheiro... e não só. Depois eu conto, tá?

Sem comentários: