segunda-feira, 10 de setembro de 2007

O NEGAGE ... A SENTINELA DO UÍGE!


- Nestas terras do Uíge há histórias de heroicidade que não podem ficar escondidas na poeira dos tempos. Para tanto, torna-se necessário agir no imediato para que aqueles que, algum dia, estiveram no mato a garantir a liberdade das populações, por forma a que estas vivam uma vida de dignidade, sejam ouvidos enquanto a memória é possível, pois é importante poder-se registar aquilo que foi a saga destas pessoas na luta contra o terrorismo. Reis Ventura, no seu livro "Sangue no capim", relata incíveis feitos de coragem, como o praticado pelo Sargento João Paula dos Santos, que não exitou em se atirar para cima de uma granada de mão, salvando, com a doação da própria vida, os homens que compunham a sua Secção de Combate. Também a heróica resistência do Povo de Mucaba, sob orientação do Caboverdiano Sena, Administrador da pequena Vila, é digna de ser dada a conhecer aos vindouros. Quando o PV-2, pilotado pelo Ten.Cor. Manuel Diogo Neto surge nos céus, uma nova esperança levou os resistentes a dar tudo de si mesmos para que a Bandeira Portuguesa continuasse a flutuar no tosco mastro erguido na pequena Capela de Mucaba. Mas não só estes, mas tantos outros feitos heróicos demonstram o patriotismo das nossas gentes, como o cozinheiro que se fez matar pelo patrão para não ter de cumprir a ordem do "turra" que lhe ordenara matá-lo... a interpidez dos Pilotos Correia Mendes e Rui de Freitas, que aterram o pequeno avião numa rua de Mucondo, com o trem avariado desde que saíram da BA9-Luanda, pois havia que evacuar dois feridos graves... o acto temerário do Administrador de Carmona que, apenas acompanhado por dois cipaios, subiu ao cume da serra do Uíge para oferecer a paz ao soba rebelde... a morte em completa glória do Alferes Páraquedista Manuel Jorge Mota da Costa e do seu pisteiro João Caras Lindas, que se viram cercados por muitas centenas de "Turras", ou talvez milhares, mas ficaram a cobrir a retirada aos mártires defensores do Bungo. Unindo costas com costas, aguentaram mais de três horas, até esgotarem todas as munições, continuando então num feroz corpo-a-corpo, até que a força desproporcionada do inimigo conseguiu esmagar a sua resistência. Deram-se para que os outros vivessem! Também o velho Soldado de côr João de Almeida, que, depois de resistir aos cruéis inimigos, foi apanhar, um a um, todos os bocadinhos da Bandeira Portuguesa, que havia sido rasgada pela barbárie terrorista, guardando-a com todo o carinho "para que a Pátria não se perca!". Era esta a raça dos Homens que defendiam o Norte de Angola.
É necessário que o Povo Português não esqueça aquilo que realmente aconteceu nas nossas antigas Províncias Ultramarinas - especialmente em Angola - naqueles anos de 1961 a 1974. Não tenhamos constrangimentos com o facto de haver-mos combatido no então NOSSO ULTRAMAR! Devemos ter orgulho daquilo que conseguimos ser em termos de esperança para tantos Homens e Mulheres que construíram uma nova realidade em África.
Vicente Ferreira e Norton de Matos preconizaram uma Angola que viesse a ser sede do Governo de Portugal, com a capital em Nova Lisboa! Não os ouviram... foi pena!
É voz corrente que, na 2ª. metade dos anos sessenta, eram muitas as altas figuras do Pentágono que iam à Fortaleza de S. Miguel para tentar compreender como podia um Exército convencional neutralizar a guerrilha terrorista de forma vitoriosa. Recorde-se que os Estados Unidos estavam a viver a sua tragédia do Vietenam... e estavam a perder em todos os capítulos, mesmo com os meios sofisticados de que dispunham.
A vitoriosa resistência Portuguesa em Angola, como nas outras Províncias, só foi vencida pela traição, porque houve gente que não se coibiu de recordar o canto de Camões, quando declara: "...porque traidores, entre os Portugueses, sempre os houvera!".
Nas minhas conversas com o velho Ginja, o pioneiro destas terras, ouço histórias capazes de nos encher o peito de orgulho, tal como há outras que merecem que curvemos reverentes a cabeça, em homenagem à tenacidade dos muitos que se deram de corpo e alma para que esta terra fosse hoje uma bandeira de progresso. Quantas lágrimas regaram as vastas plantações de café? Sujeitos às investidas de animais selvagens, às picadas dos mosquitos, às terríveis matacanhas, às surucucu... aos perigos de uma terra que sabe ser mãe, mas também é madrasta, muitas das vezes.
O Negage foi uma sentinela importante no Norte de Angola! Das suas gentes muito havia a esperar, pela capacidade constantemente demonstrada na consecução dos seus objectivos, a todos os níveis! Era um povo diferente, que se encontrou com o destino através da luta pela sobrevivência, como Povo e como Nação! Podem dizer que só foram vencidos pela falta de amor Pátrio de alguns indivíduos que nem merecem ser chamados Portugueses, porque estes têm Valor e Honra, jamais se deixando vencer pela ganância e pela cobardia!
Os ventos da História ainda hão-de soprar forte ! Aí de quem não tenha algo a que se agarre, pois serão atirados para longe do conceito dos Portugueses!

4 comentários:

Florindo disse...

Tudo isto nos é familiar.
Por isso trabalho 5 estrelas.

Espaço Etéreo disse...

Fiz parte do contingente de Pára-quedistas que viveram a segunda metade do ano de 1961 na guerra de Angola. Fazendo fé nos testemunhos dos intervenientes na defesa do Bungo, onde morreu o Alferes Mota da Costa e o Fazendeiro Caras Lindas, escrevi um rezumo da narrativa que foi publicado no livro: "O Despertar dos Combatentes, fotos com estórias em Angola". Parte dessas narrativas estão no site: www.webclick.com.pt./espacoetereo/
Na verdade, o Negage sempre foi o centro dos apoios às acções operacionais na região do Uige e Dembos.
Bem hajam pelo Blog. É mais uma luz sobre os acontecimentos daqueles tempos.

Fidalgo disse...

Águia exParaq.
Também eu acredito que aqueles que amam este país, ainda não disseram a última palavra!

Aviocar disse...

É gratificante que alguém nos dê testemunhos dum passado que a todos nos diz respeito.