domingo, 9 de setembro de 2007

O NEGAGE... DO NADA SE FEZ CIDADE - I

Os "Turras" esperam na mata...
Eis que chego à Vila do Negage, para a primeira visita à terra que iria ser fiel depositária do meu esqueleto nos tempos mais chegados. Parecia-me haver chegado a uma qualquer aldeia perdida nos mais recônditos locais da minha Metrópole distante. Nada vi, ao saír da viatura que me trouxe do AB3, que me conseguisse entusiasmar pelo facto de ali passar a viver, longe de tudo e de todos, mesmo havendo os meus "companheiros de infortúnio", na Unidade, que estariam, certamente, a passar pelos mesmos problemas de integração naquele meio, como seria lógico, intuitivo e racional acontecer... podendo, no entanto, estar enganado e eles até estarem a gostar do meio, por ser diferente daquilo a que estariam habituados, penso.
Mas... não vale a pena estar a dissertar sobre coisas que não se resolvem com palavras, mas sim com acção, razão porque tratei já de fazer um reconhecimento da terra, procurando saber onde fica o quê, já porque não pretendo perder-me nas próximas "visitas não guiadas" à urbe.
A Vila do Negage situa-se no Norte de Angola, no distrito do Uíge, a cerca de 37 Km de Carmona, a capital distrital, sendo parte de um sistema montanhoso que a eleva a 1.300 m de altitude. As suas principais actividades económicas são o cultivo e secagem do café, a agricultura e a pecuária.
Trata-se de uma zona militar por excelência, considerando estarem nela estacionados o Aeródromo Base nº. 3; a 3ª. Companhia de Caçadores; o Pelotão de Apoio Directo nº. 248; o Pelotão de Artilharia Anti Aérea nº. 984; o Pelotão de Intendência nº. 168 e a Companhia de Artilharia nº. 749.
Num passado bastante recente, sofreu os ataques dos guerrilheiros terroristas da UPA/FLNA, que colocaram toda a zona a ferro e fogo... mas tiveram pela frente um Povo que soube dar uma resposta imediata, resistindo estóica e tenazmente àquela barbárie das hordas assassinas do sr. Holden Roberto. Nas instalações da Administração de Circunscrição ainda estão bem vincadas as marcas deixadas pelos "turras", razão pela qual a presença dos Militares dá às populações um enorme sentimento de segurança, pelo que me apercebi. Sei que nas imediações do Negage há outras Unidades Militares sediadas, visando a defesa das populações, nomeadamente no Quitexe, em Carmona, na Aldeia Viçosa, no Dange, no Bengo, no Puri, no Bungo... enfim, um pouco por todo o Norte, que nada tinha, em termos militares, antes de eclodir o terrorismo.
Negage é uma povoação com predominância de um tipo de urbanismo tradicionalmente visto neste enorme território, ou seja: - projectou-se uma via a partir da estrada de Camabatela para Carmona. Essa via formou uma extensa "avenida", com vias descendente e ascendente desde aquela estrada e que termina nos terrenos junto à "Capoupa", ou seja, no termo da zona habitacional até então desenvolvida. Foram abertas vias perpendiculares, a ligarem esta nova via à estrada para Carmona, e traçaram-se arruamentos paralelos à "avenida", onde foram construídas as novas habitações da Vila nascente. Na artéria principal, a que foi dado o nome de "Avenida Salazar", fica a que será a Igreja de S.José Operário, já em construção, bem como o edifício onde está aquartelada a 3ª. Companhia de Caçadores. Também se encontra ali a Administração de Circunscrição, como quem diz... a Câmara Municipal, e entre esta e o Grande Hotel do Negage, agora tranformado em Messe de Oficiais da Força Aérea, encontra-se a sede do Grupo Desportivo do Negage, que é o Cinema e Salão de Festas da Vila. Após o Grande Hotel, encontra-se a cervejaria e pastelaria "Estrela do Negage", com a "Foto Cruz" logo ao lado, após a casa do velho pioneiro Fernando Santos. Frente à casa deste fica a "Papelaria 13", do Sr. Horácio e do irmão. É também nesta Avenida que se situa a loja da "Companhia Congo Agrícola", ficando o estabelecimento "Gaspar & Fernandes", mesmo defronte a este e ao lado do Hotel "Avenida", que pertence ao maior proprietário desta zona, o lendário caçador e produtor agrícola João Ferreira, também dono do edifício mais moderno da avenida e da primeira bomba para abastecimento de combustíveis montada no Negage. Um pouco mais abaixo fica o "Manuel Ribeiro Manso", ficando ao lado deste a casa do Jesuíno Dias e a seguir a esta a Companhia de Artilharia. Há mais algumas casas, de construção tradicional em "adobe de matope", o mesmo que dizer... de barro. As coberturas são para todos os gostos: - Há telhas tipo Marselha, Lusa ou Portuguesa, chapas onduladas de zinco, alumínio ou em Lusalite. Um pouco mais para a periferia, viam-se coberturas de colmo.
No sentido Negage-Camabatela, logo à saída da Vila, no local onde a estrada faz bifurcação com a estrada para Carmona, encontra-se um impressionante aglomerado populacional da Aldeia da Missão Católica do Negage. É o ponto de encontro de muitos dos Militares estacionados na Vila, ou porque esperam assistir a uma "M'rrabenta"... uma "Merengada", ou vão procurar a lavadeira para saberem como está a roupa... ou aventuram a hipótese de um "casamento" com "os minina", pois " és mesmo um garota orrera sena" e " eu gostas mesmo de tu, jura"! Escusado será dizer-se que as rondas das Unidades tentam, a todo a transe, desmobilizar o pessoal das idas à Sanzala, mas estes encontram sempre uma maneira para fugir à vigilância, causando verdadeiras dores de cabeça aos Comandantes, que se desdobram na aplicação de castigos, quando há doenças venéreas a apanharem os rapazes nas suas garras, com as consequências que se podem imaginar.
Existe um estádio pertencente ao Grupo Desportivo do Negage, situado à saída da Vila pelo lado da Capoupa, já na estrada para o Quisseque e o Pinganho.
Na Avenida que saí mesmo defronte à Companhia Congo Agricola, ficam as novas bombas de gasolina da Shell, o PAD, o Pelotão de Intendência, a Fábrica de Descasque de café, vários comércios gerais, uma relojoaria, uma das frentes do "Gaspar & Fernandes" e várias residências. Na rua paralela à Avenida Salazar, fica o Colégio do Negage, vários estabelecimentos comerciais, a Escola de Condução Valadares, terminando esta numa zona destinada a jardim, situada nas trazeiras da Igreja, onde está a cripta que vai servindo de Igreja, enquanto esta se vai erguendo. Nesse largo está também situado o Bairro de Oficiais e Sargentos da Força Aérea e bem assim as residências dos Comandantes do Aeródromo Base nº. 3.
Oportunamente direi mais qualquer coisa sobre a Vila do Negage... que cresceu...cresceu até que a cidade apareceu. Disso falaremos depois, até porque há algumas histórias deliciosas relacionadas com a Vila, o Colégio... e algumas pessoas que fazem parte da vida de uma cidade!


2 comentários:

Camilo disse...

Elias...
Só tu... com a mentalidade igual à minha...(gaba-te cesto)
poderia lembrar o que a todos está esquecido.
É assim mesmo, rapaz...
Mostra e escreve o que a maior parte não conhece...
outros já esqueceram...
e outros ainda teimam em não querer conhecer!!!

um grande Abraço do Amigo
camilo.

Anónimo disse...

Parabéns pelo blog.
Desde sempre tive curiosidade em conhecer o Negage, não tanto pelo povoado, mas mais pela unidade da força aérea, arma da qual também fiz parte entre 1969-74.
Aproveitando trabalhar em Angola, de visita ao Uíge, não perdi a oportunidade de finalmente ir conhecer o Negage.
Depois de uma visita à povoação, meio a correr, almoçei nas instalações do Clube Desportivo local, após o que me desloquei ao "Aeroporto do Negage".
Fui naturalmente barrado junto à porta de armas e só ao fim de alguma conversa, consegui entrar na unidade, com a condição de ser acompanhado pelo cabo de serviço, aliás bastante simpático apesar de me informar que não seria permitido fotografar, com muita pela minha.
Enfim, registei visual e mentalmente tudo o que vi, tentando imaginar o que seria aquela unidade militar 40 anos antes, comparada com a triste realidade dos dias de hoje, onde o capim tomou posse dos espaços descobertos, entre edifícios, engolindo quase por completo as ruas asfaltadas existentes. Os edifícios e hangares, esses não tinham cobertura e as paredes apresentavam adiantado estado de degradação, por ser uma unidade desactivada, provavelmente.
Enfim, foi a visita possivel.
Voltando novamente à povoação, após ter percorrido aquela estrada de cerca de 2km ??,registei algumas imagens das suas construções, já no caminho de regresso à cidade de Uíge.
No final, fiquei a imaginar o que seria o Negage na década de 60.
Um ultimo apontamento. É nítido algum movimento de recuperação e reabilitação das construções e vias de circulação, o que é um sinal bastante positivo, principalmente desde que a guerra civil terminou.
ADN