segunda-feira, 10 de setembro de 2007

O NEGAGE... DO NADA SE FEZ CIDADE - II

Muitas vezes me pergunto se os Povos que se dedicaram à tarefa insana de povoar e construír o imenso território a que foi dado o nome de Angola, alguma vez se detiveram para pensar naquilo que esta poderia ter sido se não tivesse acontecido uma mão providencial dos Portugueses na colaboração activa para o seu desenvolvimento, pese embora tudo o que se possa dizer contra a acção dos Portugueses que "colonizaram" o território..
Quem queira olhar para a evolução acontecida em Angola nos últimos 100 anos... pode fazer um exercício de imaginação que os faça passar pelo tipo de habitação autóctone ainda existente um pouco por toda a África: - Vêem-se predominantes as paredes erguidas com adobe de "matope"; com caniço revestido a barro ou as paredes feitas de folhas de palmeira entrançadas com capim, que também é aplicado nas coberturas, tal como o colmo. Foi sendo introduzida alguma evolução nos elementos constructivos tradicionais, e em muitas zonas adiciona-se um pouco de cimento à "matope", visando dar um pouco de consistência às paredes, que podem ser passadas à desempenadeira e esponja, para serem, posteriormente, caiadas ou pintadas... mas a verdadeira evolução está patenteada nos modernos aldeamentos dotados com as condições de saneamento exigidas para preservação da saúde pública das populações.
A Vila do Negage cresceu numa transição da tosca "casa de barro" tradicional para uma construção com elevações em alvenaria de adobe de cimento ou tijolo cerâmico, betão armado, e tudo o mais que proporcione as condições necessárias para o bem estar dos utentes. É notória toda a transição de que falo, pois ao longo dos arruamentos vêem-se construções que nos contam toda a história do desenvolvimento arquitectónico que vem acontecendo na Vila.
A casa do velho Ginja, um "jovem" de 98 anos de idade, o mais antigo habitante branco de todo o Uíge e do Negage, onde vive desde os 30 anos, é o exemplo acabado da adaptação de uma velha construção nativa tradicional em mansão tipo colonial do fim do século passado. Bastou acrescentar uma zona de lazer formada por uma varanda composta por 6 colunas de madeira que sustentam a cobertura com telha tipo Marselha, devidamente colmada para protecção dos raios solares. A casa ergue-se a cerca de 1,20m do nível do solo, assente sobre uma plataforma a que se acede por uma tosca escada, presumívelmente com o intuíto de proteger a casa dos animais rastejantes ou dos ratos e doninhas.
Também edificadas no mesmo estilo neo-colonial da antecedente, encontram-se várias outras edificações espalhadas pela Vila, de entre as quais se podem salientar o edifício Administração, da Companhia Congo Agrícola, da Papelaria 13, do Fernando Santos, entre outras. Todo o bloco onde se situa a casa da Dona Bárbara é um tipo colonial típico na região destinado aos trabalhadores das fazendas, pois eram construções em blocos de barro, com coberturas de zinco, posteriormente alteradas para telha ou Lusalite.
Foi o Colégio do Negage, o Hotel Avenida ou o estabelecimento do Manuel Ribeiro Manso o primeiro sinal de mudança na construção, seguindo-se-lhe o Agre & Ferreira , a 3ª. Companhia, o Grande Hotel, a Igreja e mais algumas residências que foram sendo construídas nos novos arruamentos e começaram a mudar a fisionomia da Vila do Negage. O progresso começava a dar mostras de querer instalar-se naquela terra, que estava, cada dia que passava, cada vez mais bonita e airosa.
Não há qualquer espécie de dúvida: - O terrorismo veio a tornar-se num factor de progresso para o Negage, para não dizer de toda a Angola, pois a vida das cidades e vilas revitalizou-se com a presença dos Militares vindos da Metrópole, talvez até porque muitos deles, quando terminavam a Comissão, acabavam por optar por ficar Angola, casavam e fixavam-se em algum bocadinho de terra que pediam à Junta Provincial de Povoamento, que os ajudava na criação de estruturas agro-pecuárias ou noutros tipos de empresas. Angola era apetecível, pois tinha grandes potencialidades a todos os níveis, e os Militares viam nela uma oportunidade para darem sentido às suas vidas.

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