quarta-feira, 26 de setembro de 2007

...E O NEGAGE JÀ É CIDADE...

... "e não querem lá vêr esta Vilazita sem importância, situada a cerca de 1.300 metros de altitude, num planalto do Uíge... ser cidade? Quem podia pensar numa coisa destas quando, no início dos anos sessenta, ela se viu parangona dos jornais, por motivos tão mais trágicos?" - seria o comentário mais capaz de ser ouvido, a partir do momento em que se soube que a Vila do Negage, situada no Norte de Angola, na Província do Uíge, era elevada à categoria de cidade, por proposta do Governador Geral de Angola, ouvido o Conselho Provincial de Angola e o Governador de Distrito do Uíge.
Não pode deixar de se recordar o que foi a luta deste Povo, as suas angústias, a coragem de voltar a colocar as mãos numa terra que sentiu derramado o sangue generoso de tantos entes queridos que foram mortos pela barbárie terrorista e assassina dos assassinos da UPA, naqueles anos de inicio da guerra travada no antigo Ultramar Português. Porque acreditaram ser possível fixarem-se nas terras que serviram de tumba aos seus antepassados, lutaram com convicção, cientes de que iriam voltar a ser felizes. O corolário da sua coragem para lutar pela terra que desejaram sua, estava para ser concretizado com a elevação a cidade. Quando o Governador Geral, Rebocho Vaz, se deslocar ao Negage para inaugurar a Exposição Feira Agro Pecuária, Comercial e Industrial do Negage, será o primeiro Governador de Angola a visitar a novel cidade!
Num pequeno exercício de auscultação ao que sente o Povo neste momento tão importante para a vida do Negage, encontramos de tudo um pouco:
- "Merecemos este prémio, que premeia os momentos de horror porque passámos!";
- "Se o meu pai tivesse sobrevivido ao ataque, como estaria feliz!";
- "Dá vontade de chorar, pois o momento em que nos dão esta honra jamais será esquecido! Valeu a pena o esforço e a vontade de ficar!".
Esta é a voz de alguns daqueles que construiram a Cidade do Negage, que fizeram desta terra um local onde apetece viver. Recordam-se os que partiram, mas enaltece-se o esforço de quem ficou, com confiança redobrada nos destinos deste pedaço de terra mártir. No anais da cidade do Negage perdurará o nome do velho Ginja, do João Ferreira, filhos e netos, do Fernando Santos e da enorme prole que deixou, da Família Fernandes, do Ramos da Administração, do Administrador Reis Santos, dos Baganhas, do Dr. Carvalhosa, o Professor que educou meio Negage... e tantos outros homens, mulheres e crianças que deram sentido e coração a uma cidade que lhes foi suscitada no dia-a-dia das lutas pela sobrevivência naquelas terras que aprenderam a amar, que sentiam como sua, mesmo que oriundos de um distante rincão natal situado algures na Metrópole.
O Negage não é mais aquela vilazinha atravessada por uma extensa "avenida" de terra batida, onde se viam casas de adobe bastante viradas para uma ideia de "cubata" mais elaborada, com um pouco de "civilização" no facto de terem levado um pouco de cimento nas paredes, com utilização de uma esponja e alguma tinta branca para as pintar. O Negage é agora uma cidade "moderna", uma cidade virada para o futuro. Começa a sentir-se vontade de fazer "coisas" nesta terra, pois não é por acaso que se constrói um novo e bonito e bem apetrechado cine-teatro, um hotel que orgulha qualquer cidade do mundo, dois estádios de futebol com as melhores condições para a prática da modalidade, uma modelar e bem equipada Escola Comercial e Industrial... não é isto sinal de progresso?
A Cidade do Negage está aí... aberta a novos empreendimentos, a novas indústrias e comércios, a novos centros de lazer e bem estar, parques, jardins, avenidas, ruas... mas fundamentalmente ao amor daqueles que a desejam uma cidade feliz!

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