quarta-feira, 26 de setembro de 2007

PASSEIO EM HARWARD T- 6 G...

Se alguma vez me dissessem que viria a ter a subida honra de "voar" pelas terras da guerra cavalgando um "bicho" chamado T-6... não acreditava , de todo, e pensaria que alguém estava a brincar com a minha proverbial "boa vontade". Não porque tal fosse impossível de acreditar, mas tão só porque o "animalejo" era um bilugar e não me via a substituír o Mecânico numa qualquer missão que houvesse para realizar.
Mas... porque estou para aqui a falar de algo que não lembra ao Menino Jesus? Quando os Nord, os Dakota ou algum outro avião de passageiros viesse até ao Negage, levaria quem houvesse de transportar e não se falava mais do assun... pensava eu, na minha boa fé. Um dia, estava eu à pouco mais de 2 meses na Unidade, fui chamado à Secretaria do Comando. Colocaram-me uma Guia de Marcha na mão, dois envelopes enormes e disseram-me apenas: "Às 08H30 na Placa! Não chegues atrazado, pois o avião tem outra Missão a cumprir!". Como se compreenderá, logo pela manhã fui até à Placa de estacionamento e procurei saber quem era o Piloto que ia saír e qual o avião. Soube que havia vários voos previstos para essa manhã, quase todos para o Toto, pelo que teria de esperar para saber quem me saira na rifa.
Quase em cima da hora, o Sargento Ajudante Piloto Ferdinando Antunes Caixas chamou por mim e pergunta quantos "passeios" já tinha feito em T-6. Quando lhe disse ser uma estreia absoluta, ri-se com vontade e diz para não ter receio, pois umas cervejas resolveriam todos os problemas. Não respondi, mas compreendi que ele entendia ser o momento para se cumprir o velho código: "VOMITAS... PAGAS E LIMPAS!" Esta era uma prática com muitos anos e eu estava bastante bem avisado para ela. Sabia que teria de aguentar e não dar parte de fraco... mesmo que fosse "provocado", e a provocação era fácil para o Piloto: umas voltas mais puxadas, com "toneaux", "looping" e outras brincadeiras capazes de pôr as tripas de um santo fora da boca... e lá está o "pagante" a "chamar pelo Gregório"! Quando fomos para o ar, fiz de conta que ia passear na carrinha da Unidade, que os buracos da estrada seriam os correspondentes "poços de ar" ou coisa que se parecesse. O Caixas foi chamando a atenção para os animais que se iam avistando, nomeadamente algumas corsas, uns quantos elefantes e outros mamíferos da fauna local. Era interessate fazer-se este safari aéreo, apesar de o coração bater descompassado quando pensava no local onde me encontrava. Era ali o coração da guerra! Nem queria pensar no que poderia acontecer se houvesse necessidade de aterrar naquelas paragens. É que havia os animais selvagens, mas também humanos que seriam mais selvagens que os animais, por aquilo que se sabia ter acontecido e continuava acontecer por parte dos "turras" da UPA. Quando o avião fez a aproximação à pista do Toto, um sentimento de alívio era latente... tal como o desalento do Piloto Ferdinando Caixas, pois não havia conseduido os seus intentos: BEBER UMAS CERVEJOLAS À PALA DO BICO DE PATO... que até se portara à altura, diria ele de si para si.
Dirigi-me à pseudo Secretaria do Aeródromo de Manobra nº. 32, onde entreguei a documentação trazida - que até nem era assim tão importante, pois tratava-se dos vencimentos de 3 meses do pessoal em serviço naquela Unidade - e pedi que me fosse carimbada a Guia de Marcha, para que partisse logo que o meu "transporte" chegasse. O Sargento das Comunicações disse para ir dar uma volta, pois o Caixas só iria embora depois do bombardeamento que foi fazer. Tinha tempo para passear, almoçar, dormir uma soneca... que só para o fim da tarde partiria para o Negage. Assim me foi dito... assim o fiz!
Quando regressei ao Negage, vendo a combinação de voo do Caixas completamente encharcada, pensei para comigo: "Este sacana tudo fez para beber uma cervejinha fresca à minha saúde... mas mereceu bem que lhe pagasse essa cerveja! Porque não fazer-lhe a vontade?". E convidei o Ferdinando Caixas para ir comigo beber a tal cerveja, que pagaria com todo o gosto. Aceitou... não deixou que fosse eu a pagar... e arranjei ali um amigo para a vida!
Esta minha primeira viagem, a bordo de um T-6 G, foi realmente uma estreia no voo neste tipo de aeronaves... que me marcou positivamente e me fez respeitar cada vez mais os Homens que os pilotavam e se orgulhavam de dizer que tinham "RONCO FORTE... TROTE LENTO".

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