quarta-feira, 26 de setembro de 2007

PASSEIO EM HARWARD T- 6 G...

Se alguma vez me dissessem que viria a ter a subida honra de "voar" pelas terras da guerra cavalgando um "bicho" chamado T-6... não acreditava , de todo, e pensaria que alguém estava a brincar com a minha proverbial "boa vontade". Não porque tal fosse impossível de acreditar, mas tão só porque o "animalejo" era um bilugar e não me via a substituír o Mecânico numa qualquer missão que houvesse para realizar.
Mas... porque estou para aqui a falar de algo que não lembra ao Menino Jesus? Quando os Nord, os Dakota ou algum outro avião de passageiros viesse até ao Negage, levaria quem houvesse de transportar e não se falava mais do assun... pensava eu, na minha boa fé. Um dia, estava eu à pouco mais de 2 meses na Unidade, fui chamado à Secretaria do Comando. Colocaram-me uma Guia de Marcha na mão, dois envelopes enormes e disseram-me apenas: "Às 08H30 na Placa! Não chegues atrazado, pois o avião tem outra Missão a cumprir!". Como se compreenderá, logo pela manhã fui até à Placa de estacionamento e procurei saber quem era o Piloto que ia saír e qual o avião. Soube que havia vários voos previstos para essa manhã, quase todos para o Toto, pelo que teria de esperar para saber quem me saira na rifa.
Quase em cima da hora, o Sargento Ajudante Piloto Ferdinando Antunes Caixas chamou por mim e pergunta quantos "passeios" já tinha feito em T-6. Quando lhe disse ser uma estreia absoluta, ri-se com vontade e diz para não ter receio, pois umas cervejas resolveriam todos os problemas. Não respondi, mas compreendi que ele entendia ser o momento para se cumprir o velho código: "VOMITAS... PAGAS E LIMPAS!" Esta era uma prática com muitos anos e eu estava bastante bem avisado para ela. Sabia que teria de aguentar e não dar parte de fraco... mesmo que fosse "provocado", e a provocação era fácil para o Piloto: umas voltas mais puxadas, com "toneaux", "looping" e outras brincadeiras capazes de pôr as tripas de um santo fora da boca... e lá está o "pagante" a "chamar pelo Gregório"! Quando fomos para o ar, fiz de conta que ia passear na carrinha da Unidade, que os buracos da estrada seriam os correspondentes "poços de ar" ou coisa que se parecesse. O Caixas foi chamando a atenção para os animais que se iam avistando, nomeadamente algumas corsas, uns quantos elefantes e outros mamíferos da fauna local. Era interessate fazer-se este safari aéreo, apesar de o coração bater descompassado quando pensava no local onde me encontrava. Era ali o coração da guerra! Nem queria pensar no que poderia acontecer se houvesse necessidade de aterrar naquelas paragens. É que havia os animais selvagens, mas também humanos que seriam mais selvagens que os animais, por aquilo que se sabia ter acontecido e continuava acontecer por parte dos "turras" da UPA. Quando o avião fez a aproximação à pista do Toto, um sentimento de alívio era latente... tal como o desalento do Piloto Ferdinando Caixas, pois não havia conseduido os seus intentos: BEBER UMAS CERVEJOLAS À PALA DO BICO DE PATO... que até se portara à altura, diria ele de si para si.
Dirigi-me à pseudo Secretaria do Aeródromo de Manobra nº. 32, onde entreguei a documentação trazida - que até nem era assim tão importante, pois tratava-se dos vencimentos de 3 meses do pessoal em serviço naquela Unidade - e pedi que me fosse carimbada a Guia de Marcha, para que partisse logo que o meu "transporte" chegasse. O Sargento das Comunicações disse para ir dar uma volta, pois o Caixas só iria embora depois do bombardeamento que foi fazer. Tinha tempo para passear, almoçar, dormir uma soneca... que só para o fim da tarde partiria para o Negage. Assim me foi dito... assim o fiz!
Quando regressei ao Negage, vendo a combinação de voo do Caixas completamente encharcada, pensei para comigo: "Este sacana tudo fez para beber uma cervejinha fresca à minha saúde... mas mereceu bem que lhe pagasse essa cerveja! Porque não fazer-lhe a vontade?". E convidei o Ferdinando Caixas para ir comigo beber a tal cerveja, que pagaria com todo o gosto. Aceitou... não deixou que fosse eu a pagar... e arranjei ali um amigo para a vida!
Esta minha primeira viagem, a bordo de um T-6 G, foi realmente uma estreia no voo neste tipo de aeronaves... que me marcou positivamente e me fez respeitar cada vez mais os Homens que os pilotavam e se orgulhavam de dizer que tinham "RONCO FORTE... TROTE LENTO".

...E O NEGAGE JÀ É CIDADE...

... "e não querem lá vêr esta Vilazita sem importância, situada a cerca de 1.300 metros de altitude, num planalto do Uíge... ser cidade? Quem podia pensar numa coisa destas quando, no início dos anos sessenta, ela se viu parangona dos jornais, por motivos tão mais trágicos?" - seria o comentário mais capaz de ser ouvido, a partir do momento em que se soube que a Vila do Negage, situada no Norte de Angola, na Província do Uíge, era elevada à categoria de cidade, por proposta do Governador Geral de Angola, ouvido o Conselho Provincial de Angola e o Governador de Distrito do Uíge.
Não pode deixar de se recordar o que foi a luta deste Povo, as suas angústias, a coragem de voltar a colocar as mãos numa terra que sentiu derramado o sangue generoso de tantos entes queridos que foram mortos pela barbárie terrorista e assassina dos assassinos da UPA, naqueles anos de inicio da guerra travada no antigo Ultramar Português. Porque acreditaram ser possível fixarem-se nas terras que serviram de tumba aos seus antepassados, lutaram com convicção, cientes de que iriam voltar a ser felizes. O corolário da sua coragem para lutar pela terra que desejaram sua, estava para ser concretizado com a elevação a cidade. Quando o Governador Geral, Rebocho Vaz, se deslocar ao Negage para inaugurar a Exposição Feira Agro Pecuária, Comercial e Industrial do Negage, será o primeiro Governador de Angola a visitar a novel cidade!
Num pequeno exercício de auscultação ao que sente o Povo neste momento tão importante para a vida do Negage, encontramos de tudo um pouco:
- "Merecemos este prémio, que premeia os momentos de horror porque passámos!";
- "Se o meu pai tivesse sobrevivido ao ataque, como estaria feliz!";
- "Dá vontade de chorar, pois o momento em que nos dão esta honra jamais será esquecido! Valeu a pena o esforço e a vontade de ficar!".
Esta é a voz de alguns daqueles que construiram a Cidade do Negage, que fizeram desta terra um local onde apetece viver. Recordam-se os que partiram, mas enaltece-se o esforço de quem ficou, com confiança redobrada nos destinos deste pedaço de terra mártir. No anais da cidade do Negage perdurará o nome do velho Ginja, do João Ferreira, filhos e netos, do Fernando Santos e da enorme prole que deixou, da Família Fernandes, do Ramos da Administração, do Administrador Reis Santos, dos Baganhas, do Dr. Carvalhosa, o Professor que educou meio Negage... e tantos outros homens, mulheres e crianças que deram sentido e coração a uma cidade que lhes foi suscitada no dia-a-dia das lutas pela sobrevivência naquelas terras que aprenderam a amar, que sentiam como sua, mesmo que oriundos de um distante rincão natal situado algures na Metrópole.
O Negage não é mais aquela vilazinha atravessada por uma extensa "avenida" de terra batida, onde se viam casas de adobe bastante viradas para uma ideia de "cubata" mais elaborada, com um pouco de "civilização" no facto de terem levado um pouco de cimento nas paredes, com utilização de uma esponja e alguma tinta branca para as pintar. O Negage é agora uma cidade "moderna", uma cidade virada para o futuro. Começa a sentir-se vontade de fazer "coisas" nesta terra, pois não é por acaso que se constrói um novo e bonito e bem apetrechado cine-teatro, um hotel que orgulha qualquer cidade do mundo, dois estádios de futebol com as melhores condições para a prática da modalidade, uma modelar e bem equipada Escola Comercial e Industrial... não é isto sinal de progresso?
A Cidade do Negage está aí... aberta a novos empreendimentos, a novas indústrias e comércios, a novos centros de lazer e bem estar, parques, jardins, avenidas, ruas... mas fundamentalmente ao amor daqueles que a desejam uma cidade feliz!

domingo, 16 de setembro de 2007

O NEGAGE...

... é uma terra a ressurgir do pesadelo causado pelo terrorismo da UPA/FNLA. Há no ar um sentimento de decidida vontade em dar a volta aos momentos em que se acreditou haver chegado ao fim a aventura Angolana. A chegada das Unidades Militares veio restituír a confiança àquelas pessoas que haviam enfrentado as hordas ululantes de bandidos brandindo catanas e canhangulos... e haviam sobrevivido graças à heroicidade de uns tantos que não se vergaram às investidas dos "turras".
O velho Ginja, quase centenário pioneiro, o Fernando Santos, dos mais antigos naturais, os Sr.s Fernandes e Manuel Agre, o Horácio da Papelaria 13 e o irmão, o Valadares da Escola da Condução, o Manuel Ribeiro Manso, fazendeiro e comerciante, o Professor Carvalhosa, do Colégio do Negage, o Faria do cinema, o Padre Pires, do Movimento AFRIS, os Missionário Capuchinhos, Padres Fortunado Agnoletto da Costa, Prodóscimo de Pádua ou Agatângelo, os irmãos Baganha, da Câmara e do Aeródromo Base nº 3, o Sr. Paula do Registo Civil, sem esquecer o "lendário" João Ferreira, "alma mater" daquela comunidade mártir, que soube reerguer-se das sequelas da bárbara agressão que contra ela foi cometida. O Administrador Reis Santos também é de referir como alguém que soube resistir à matança perpetrada pelos biltres que ousaram tentar destruír aquela comunidade.
As estradas vão sendo asfaltadas, vão-se instalando novas empresas, constuíu-se o Bairro de Oficiais e Sargentos da Força Aérea, procedeu-se à abertura dos Clubes e Messes do AB3, ponstruiram-se novos campos de futebol e um campo de tiro, organiza-se a 1ª. Exposição Feira das Actividades Económicas do Negage, constrói-se uma nova Central Eléctrica bem como a nova Igreja de S. José Operário e o novo Cine-Teatro do Negage, como resposta deste Povo aos cobardes mandantes do vil e criminoso ataque feito contra esta promissora terra: - Viemos para o Negage para ficar, porque o Negage é uma parte inalienável de Angola... e esta ainda é Portugal!
O Negage orgulha-se das gentes que constituem o seu património humano, pois é com Portugueses como estes, "com o peito às armas feito", que se poderá construír uma Angola capaz de ser exemplo para o mundo!

segunda-feira, 10 de setembro de 2007

ANGOLA... NA HISTÓRIA E NA LENDA - II

Em Angola têm-se descoberto importantes vestígios de antigas civilizações, como será o caso de Galanga, em Cassongue, no Quanza Sul, a cerca de 120 Km. de Nova Lisboa, a actual Huambo. Foram alí encontradas pinturas rupestres, alguns utensílios e um ossário datados de um período situado entre 2.115 e 6.000 anos a.C., ou seja da Idade da Pedra.
No Monte Negro, no extremo Sul de Angola, a escassos 300 metros da margem direita do Rio Cunene, foram também localizadas pinturas efectuadas na rocha, que se supõe remontarem igualmente à Idade da Pedra, embora o local tenha sido frequentado até épocas bastante recentes. Também perto do Lubango, em Capanhongue, foi descoberta uma estação paleolítica com milhares de instrumentos, que parece indicarem a existência de uma cultura própria, talvez semelhante à que foi encontrada na Namíbia. As pedras furadas encontradas na Lunda têm características bastante semelhantes às que têm sido encontradas noutros Continentes e em toda a África, desde o Egipto à África Sul. Muitos dos achados arqueológicos, designadamente as pinturas rupestres de Caninguiri (10.000 a.C.), do Congombe, Benfica, Farol das Palmeirinhas, Tchitundo-Hulo (3.000 a.C.), Macahama, Quibala, Bembe, N'Zeto, Negage, Samba Cajú e outras, demonstram que o território Angolano foi habitado desde tempos imemoriais, de Cabinda ao Cunene, do Miconge ao Cassai ou à Luiana.
Os Khoisan - bosquímanes e hotentotes - constitui o grupo humano à mais tempo ocupante do território Angolano, pois ter-se-ão fixado nestas regiões há mais de 11.000 anos. Sabe-se também que os Cuissi ou os seus antepassados habitaram a região do Tchitundo-Hulo, no Deserto de Moçâmedes, que seria então uma região verde, há mais de 3.000 anos.
O primeiro estado conhecido, organizado segundo a estrutura geral da civilização banto, é o Reino do Congo, cuja fundação teria tido lugar no século XIII. Mani Kabunga era o chefe dos chefes dos clãs que habitavam os territórios entre os rios Congo e Dande. Teria, segundo a tradição, sido vencido por Mutino Mbene, o filho mais novo do chefe do clã Bungu, tributário do reino Loango, a Norte do Rio Congo. Mutino teria então casado com a filha do Mani Kabunga, aconselhando os seus homens a casarem com as filhas dos chefes locais. O Reino ficou dividido em províncias: Soyo, Nsundi, Mpango, Mpemba e Mbamba. Cada uma era dirigida por um governador nomeado pelo Rei., cujo poder se estendeu além fronteiras, pois os Reinos de Ocanga, Musuco, Matamba, Dembos, N'Gongo, Kissama e outros eram tributários de facto do Rei do Congo, que governava directamente a província de Mpemba, onde se encontrava a capital.
Como veremos, muita água correu nos rios, muitas gerações se sucederam até que a cidade de São Paulo de Loanda, fundada por Paulo Dias de Novais, viesse a ser a Capital que encanta quem por mar chega à sua maravilhosa baía. A bela cidade de Luanda, que na fotografia se nos apresenta deslumbrantemente iluminada, foi obra de Portugueses, que souberam dar "novos mundos ao mundo!"
Sabemos como Portugal é obra de Portugueses, que souberam deixar a sua marca quando demandaram o mundo "...por mares nunca dantes navegados...", de tal modo que Camões dizia que "...cantando, espalharei por toda a parte o peito ilustre Lusitano, se a tanto me ajudarem engenho e arte!".

NEGAGE... DO NADA SE FEZ CIDADE - III

* Desde o primeiro momento que "aterrei" nas "inóspitas" terras de Angola, das quais temia vir a ter de comparar com as planícies Alentejanas, mercê de tantas descrições que ia ouvindo, aqui e ali, que davam esta terra como "parecida" ou coisa que o valha... mas a verdade é que nada há que se pareça... nem na côr nem no luxuriante da vegetação, que no Alentejo é palha para ceifeira cegar e aui é um pouco de tudo, desde o café ao capim, que se queima para enriquecimento da terra, sem que esta deixe de ser vermelha.
* Uma das pessoas que achei, desde logo, ir ter o prazer de conhecer, foi o João Ferreira, um dos "donos" da terra, cuja fama corria por todas as estradas e picadas de toda a Angola, de "Cabinda ao Cunene".
* Na fotografia pode vêr-se o edifício da Firma "Ferreira & Martins", que era uma das muitas empresas que o dito senhor detinha na Província. Também o local onde se encontra estacionada a viatura, com os homens da Força Aérea a darem dois dedos de conversa a um residente, era um hotel, o "Avenida", pertencente ao mesmo empresário, como, de resto, a maioria do comércio e indústrias existentes no Negage. Mas também noutras localidades... e até em Luanda...
* Perguntará quem me lê: - "Qual o interesse do nome deste homem? Porque se fala tanto dele?". E não deixarei de matar tal curiosidade, contando um pouco daquilo que ele mesmo me relatou, em conversa que tive o prazer de ter com ele, no âmbito de uma entrevista que me concedeu para o Rádio Clube do Uíge, de que fui correspondente durante alguns meses e realizei o programa semanal "Aqui Negage", que estava no ar todos os Domingos, no período da manhã.
* Contava ele: - " Vim para Angola a bordo do navio "Serpa Pinto", por volta de 1954 ou 55. Fui um dos milhares de indivíduos condenados a degredo e enviados para África, mercê de uma sentença do Tribunal da Comarca de Vila Real de Trás-os-Montes, por ter morto um homem numa rixa acontecida nas Festas da Cidade. Fui com a minha noiva até ao Campo da Forca para comprar algumas peças de enxoval, pois estava a pensar casar por aqueles dias e fomos procurar o que faltava. Combinei com a minha prometida qual o local onde iria ser o nosso encontro, assim que estivessem concluídas as compras, decidindo-se que quem primeiro chegasse esperaria pelo outro. Calhou ser ela a primeira. Quando ia a chegar, reparei que ela estava de conversa bastante animada com um magala do Regimento lá da terra, e pareceu-me que havia alguma cumplicidade entre eles. Quando cheguei perguntei a minha cachopa se queria que eu voltasse mais tarde, e ele, o magala, disse logo que era o melhor, pois estava a meter-me na conversa e ele ainda tinha muito para falar com a Idalina e não gostava de ser interrompido.
* Acto contínuo... volteei o varapau que trazia comigo e dei-lhe com ele em cheio na cabeça, pelo que o militar caíu redondo no chão. Veio a Polícia e a minha prometida tratou logo de lhes dizer que eu tinha morto o rapaz por ciúmes e aquelas coisas todas que só as mulheres do calibre daquela poderia dizer, para me enterrar. Como o sacaninha morreu mesmo... fui julgado e condenado ao degredo por 20 anos. Foram cerca de 200 os condenados chegados comigo a Luanda, onde me leram os meus direitos como degredado: - Durante os próximos vinte anos não poderia ser visto em Luanda. Podia ir para osde bem entendesse, mas de Luanda para baixo não! Meteram-me e aos outros em camions, como se de gado se tratasse, e levaram-nos até uma povoação chamada Viana. Aí mandaram saír tudo da camioneta e partir para o Norte. "Para onde quizerem ir "- disseram-nos.
* Dois dos companheiros de infortúnio eram os meus sócios, Manuel Agre e o António Martins. Durante o cativeiro em Lisboa, a aguardar embarque, e na viagem até Luanda, fomentámos uma boa amizade, que nos levou a fazer um pacto: - Nenhum de nós se separaria, fosse em que circunstâncias fosse, e iría-mos fazer tudo o que pudéssemos para tornar a nossa desdita numa coisa boa. Tudo o que pudesse dar dinheiro nos iria unir cada vez mais. Era este o nosso pacto!
* Para não nos perder-mos, arranjámos uns pedaços de madeira, de que fizemos estacas onde foram pintadas, pelo Manuel Agre, as minhas iniciais, as dele e do Martins. Espetámos cada um a sua e fomos arranjando outras, que fomos deixando pelo caminho. Estranhamente, os outros desterrados não se lembraram de fazer o mesmo, mas naquele momento nem eu sabia o que aquilo poderia dar. Fomos caminhando dias sem fim, apanhámos temporais, sol, mosquitos, vimos alguns animais que levaram a que tratássemos de encontrar alguma coisa que nos pudesse dar alguma segurança. Vi os primeiros elefantes e hienas da minha vida, ouvi o rugir de leões, de leopardos... senti algum temor, é certo, mas não mudei de direcção, como outros foram fazendo, acabando por ficar apenas um grupo de cerca de 20 de nós, com dois meses de aventura pelas selvas desconhecidas! Mais algum tempo e chegámos a um aldeamento, onde decidimos parar, pois bastava de caminhar! Do grupo saído de Viana... chegámos 9 ao Negage, onde fomos recebidos pelo velho Ginja, que havia sido o primeiro branco a chegar àquelas paragens!". (Continua)

O NEGAGE... DO NADA SE FEZ CIDADE - II

Muitas vezes me pergunto se os Povos que se dedicaram à tarefa insana de povoar e construír o imenso território a que foi dado o nome de Angola, alguma vez se detiveram para pensar naquilo que esta poderia ter sido se não tivesse acontecido uma mão providencial dos Portugueses na colaboração activa para o seu desenvolvimento, pese embora tudo o que se possa dizer contra a acção dos Portugueses que "colonizaram" o território..
Quem queira olhar para a evolução acontecida em Angola nos últimos 100 anos... pode fazer um exercício de imaginação que os faça passar pelo tipo de habitação autóctone ainda existente um pouco por toda a África: - Vêem-se predominantes as paredes erguidas com adobe de "matope"; com caniço revestido a barro ou as paredes feitas de folhas de palmeira entrançadas com capim, que também é aplicado nas coberturas, tal como o colmo. Foi sendo introduzida alguma evolução nos elementos constructivos tradicionais, e em muitas zonas adiciona-se um pouco de cimento à "matope", visando dar um pouco de consistência às paredes, que podem ser passadas à desempenadeira e esponja, para serem, posteriormente, caiadas ou pintadas... mas a verdadeira evolução está patenteada nos modernos aldeamentos dotados com as condições de saneamento exigidas para preservação da saúde pública das populações.
A Vila do Negage cresceu numa transição da tosca "casa de barro" tradicional para uma construção com elevações em alvenaria de adobe de cimento ou tijolo cerâmico, betão armado, e tudo o mais que proporcione as condições necessárias para o bem estar dos utentes. É notória toda a transição de que falo, pois ao longo dos arruamentos vêem-se construções que nos contam toda a história do desenvolvimento arquitectónico que vem acontecendo na Vila.
A casa do velho Ginja, um "jovem" de 98 anos de idade, o mais antigo habitante branco de todo o Uíge e do Negage, onde vive desde os 30 anos, é o exemplo acabado da adaptação de uma velha construção nativa tradicional em mansão tipo colonial do fim do século passado. Bastou acrescentar uma zona de lazer formada por uma varanda composta por 6 colunas de madeira que sustentam a cobertura com telha tipo Marselha, devidamente colmada para protecção dos raios solares. A casa ergue-se a cerca de 1,20m do nível do solo, assente sobre uma plataforma a que se acede por uma tosca escada, presumívelmente com o intuíto de proteger a casa dos animais rastejantes ou dos ratos e doninhas.
Também edificadas no mesmo estilo neo-colonial da antecedente, encontram-se várias outras edificações espalhadas pela Vila, de entre as quais se podem salientar o edifício Administração, da Companhia Congo Agrícola, da Papelaria 13, do Fernando Santos, entre outras. Todo o bloco onde se situa a casa da Dona Bárbara é um tipo colonial típico na região destinado aos trabalhadores das fazendas, pois eram construções em blocos de barro, com coberturas de zinco, posteriormente alteradas para telha ou Lusalite.
Foi o Colégio do Negage, o Hotel Avenida ou o estabelecimento do Manuel Ribeiro Manso o primeiro sinal de mudança na construção, seguindo-se-lhe o Agre & Ferreira , a 3ª. Companhia, o Grande Hotel, a Igreja e mais algumas residências que foram sendo construídas nos novos arruamentos e começaram a mudar a fisionomia da Vila do Negage. O progresso começava a dar mostras de querer instalar-se naquela terra, que estava, cada dia que passava, cada vez mais bonita e airosa.
Não há qualquer espécie de dúvida: - O terrorismo veio a tornar-se num factor de progresso para o Negage, para não dizer de toda a Angola, pois a vida das cidades e vilas revitalizou-se com a presença dos Militares vindos da Metrópole, talvez até porque muitos deles, quando terminavam a Comissão, acabavam por optar por ficar Angola, casavam e fixavam-se em algum bocadinho de terra que pediam à Junta Provincial de Povoamento, que os ajudava na criação de estruturas agro-pecuárias ou noutros tipos de empresas. Angola era apetecível, pois tinha grandes potencialidades a todos os níveis, e os Militares viam nela uma oportunidade para darem sentido às suas vidas.

O NEGAGE ... A SENTINELA DO UÍGE!


- Nestas terras do Uíge há histórias de heroicidade que não podem ficar escondidas na poeira dos tempos. Para tanto, torna-se necessário agir no imediato para que aqueles que, algum dia, estiveram no mato a garantir a liberdade das populações, por forma a que estas vivam uma vida de dignidade, sejam ouvidos enquanto a memória é possível, pois é importante poder-se registar aquilo que foi a saga destas pessoas na luta contra o terrorismo. Reis Ventura, no seu livro "Sangue no capim", relata incíveis feitos de coragem, como o praticado pelo Sargento João Paula dos Santos, que não exitou em se atirar para cima de uma granada de mão, salvando, com a doação da própria vida, os homens que compunham a sua Secção de Combate. Também a heróica resistência do Povo de Mucaba, sob orientação do Caboverdiano Sena, Administrador da pequena Vila, é digna de ser dada a conhecer aos vindouros. Quando o PV-2, pilotado pelo Ten.Cor. Manuel Diogo Neto surge nos céus, uma nova esperança levou os resistentes a dar tudo de si mesmos para que a Bandeira Portuguesa continuasse a flutuar no tosco mastro erguido na pequena Capela de Mucaba. Mas não só estes, mas tantos outros feitos heróicos demonstram o patriotismo das nossas gentes, como o cozinheiro que se fez matar pelo patrão para não ter de cumprir a ordem do "turra" que lhe ordenara matá-lo... a interpidez dos Pilotos Correia Mendes e Rui de Freitas, que aterram o pequeno avião numa rua de Mucondo, com o trem avariado desde que saíram da BA9-Luanda, pois havia que evacuar dois feridos graves... o acto temerário do Administrador de Carmona que, apenas acompanhado por dois cipaios, subiu ao cume da serra do Uíge para oferecer a paz ao soba rebelde... a morte em completa glória do Alferes Páraquedista Manuel Jorge Mota da Costa e do seu pisteiro João Caras Lindas, que se viram cercados por muitas centenas de "Turras", ou talvez milhares, mas ficaram a cobrir a retirada aos mártires defensores do Bungo. Unindo costas com costas, aguentaram mais de três horas, até esgotarem todas as munições, continuando então num feroz corpo-a-corpo, até que a força desproporcionada do inimigo conseguiu esmagar a sua resistência. Deram-se para que os outros vivessem! Também o velho Soldado de côr João de Almeida, que, depois de resistir aos cruéis inimigos, foi apanhar, um a um, todos os bocadinhos da Bandeira Portuguesa, que havia sido rasgada pela barbárie terrorista, guardando-a com todo o carinho "para que a Pátria não se perca!". Era esta a raça dos Homens que defendiam o Norte de Angola.
É necessário que o Povo Português não esqueça aquilo que realmente aconteceu nas nossas antigas Províncias Ultramarinas - especialmente em Angola - naqueles anos de 1961 a 1974. Não tenhamos constrangimentos com o facto de haver-mos combatido no então NOSSO ULTRAMAR! Devemos ter orgulho daquilo que conseguimos ser em termos de esperança para tantos Homens e Mulheres que construíram uma nova realidade em África.
Vicente Ferreira e Norton de Matos preconizaram uma Angola que viesse a ser sede do Governo de Portugal, com a capital em Nova Lisboa! Não os ouviram... foi pena!
É voz corrente que, na 2ª. metade dos anos sessenta, eram muitas as altas figuras do Pentágono que iam à Fortaleza de S. Miguel para tentar compreender como podia um Exército convencional neutralizar a guerrilha terrorista de forma vitoriosa. Recorde-se que os Estados Unidos estavam a viver a sua tragédia do Vietenam... e estavam a perder em todos os capítulos, mesmo com os meios sofisticados de que dispunham.
A vitoriosa resistência Portuguesa em Angola, como nas outras Províncias, só foi vencida pela traição, porque houve gente que não se coibiu de recordar o canto de Camões, quando declara: "...porque traidores, entre os Portugueses, sempre os houvera!".
Nas minhas conversas com o velho Ginja, o pioneiro destas terras, ouço histórias capazes de nos encher o peito de orgulho, tal como há outras que merecem que curvemos reverentes a cabeça, em homenagem à tenacidade dos muitos que se deram de corpo e alma para que esta terra fosse hoje uma bandeira de progresso. Quantas lágrimas regaram as vastas plantações de café? Sujeitos às investidas de animais selvagens, às picadas dos mosquitos, às terríveis matacanhas, às surucucu... aos perigos de uma terra que sabe ser mãe, mas também é madrasta, muitas das vezes.
O Negage foi uma sentinela importante no Norte de Angola! Das suas gentes muito havia a esperar, pela capacidade constantemente demonstrada na consecução dos seus objectivos, a todos os níveis! Era um povo diferente, que se encontrou com o destino através da luta pela sobrevivência, como Povo e como Nação! Podem dizer que só foram vencidos pela falta de amor Pátrio de alguns indivíduos que nem merecem ser chamados Portugueses, porque estes têm Valor e Honra, jamais se deixando vencer pela ganância e pela cobardia!
Os ventos da História ainda hão-de soprar forte ! Aí de quem não tenha algo a que se agarre, pois serão atirados para longe do conceito dos Portugueses!

domingo, 9 de setembro de 2007

O NEGAGE... DO NADA SE FEZ CIDADE - I

Os "Turras" esperam na mata...
Eis que chego à Vila do Negage, para a primeira visita à terra que iria ser fiel depositária do meu esqueleto nos tempos mais chegados. Parecia-me haver chegado a uma qualquer aldeia perdida nos mais recônditos locais da minha Metrópole distante. Nada vi, ao saír da viatura que me trouxe do AB3, que me conseguisse entusiasmar pelo facto de ali passar a viver, longe de tudo e de todos, mesmo havendo os meus "companheiros de infortúnio", na Unidade, que estariam, certamente, a passar pelos mesmos problemas de integração naquele meio, como seria lógico, intuitivo e racional acontecer... podendo, no entanto, estar enganado e eles até estarem a gostar do meio, por ser diferente daquilo a que estariam habituados, penso.
Mas... não vale a pena estar a dissertar sobre coisas que não se resolvem com palavras, mas sim com acção, razão porque tratei já de fazer um reconhecimento da terra, procurando saber onde fica o quê, já porque não pretendo perder-me nas próximas "visitas não guiadas" à urbe.
A Vila do Negage situa-se no Norte de Angola, no distrito do Uíge, a cerca de 37 Km de Carmona, a capital distrital, sendo parte de um sistema montanhoso que a eleva a 1.300 m de altitude. As suas principais actividades económicas são o cultivo e secagem do café, a agricultura e a pecuária.
Trata-se de uma zona militar por excelência, considerando estarem nela estacionados o Aeródromo Base nº. 3; a 3ª. Companhia de Caçadores; o Pelotão de Apoio Directo nº. 248; o Pelotão de Artilharia Anti Aérea nº. 984; o Pelotão de Intendência nº. 168 e a Companhia de Artilharia nº. 749.
Num passado bastante recente, sofreu os ataques dos guerrilheiros terroristas da UPA/FLNA, que colocaram toda a zona a ferro e fogo... mas tiveram pela frente um Povo que soube dar uma resposta imediata, resistindo estóica e tenazmente àquela barbárie das hordas assassinas do sr. Holden Roberto. Nas instalações da Administração de Circunscrição ainda estão bem vincadas as marcas deixadas pelos "turras", razão pela qual a presença dos Militares dá às populações um enorme sentimento de segurança, pelo que me apercebi. Sei que nas imediações do Negage há outras Unidades Militares sediadas, visando a defesa das populações, nomeadamente no Quitexe, em Carmona, na Aldeia Viçosa, no Dange, no Bengo, no Puri, no Bungo... enfim, um pouco por todo o Norte, que nada tinha, em termos militares, antes de eclodir o terrorismo.
Negage é uma povoação com predominância de um tipo de urbanismo tradicionalmente visto neste enorme território, ou seja: - projectou-se uma via a partir da estrada de Camabatela para Carmona. Essa via formou uma extensa "avenida", com vias descendente e ascendente desde aquela estrada e que termina nos terrenos junto à "Capoupa", ou seja, no termo da zona habitacional até então desenvolvida. Foram abertas vias perpendiculares, a ligarem esta nova via à estrada para Carmona, e traçaram-se arruamentos paralelos à "avenida", onde foram construídas as novas habitações da Vila nascente. Na artéria principal, a que foi dado o nome de "Avenida Salazar", fica a que será a Igreja de S.José Operário, já em construção, bem como o edifício onde está aquartelada a 3ª. Companhia de Caçadores. Também se encontra ali a Administração de Circunscrição, como quem diz... a Câmara Municipal, e entre esta e o Grande Hotel do Negage, agora tranformado em Messe de Oficiais da Força Aérea, encontra-se a sede do Grupo Desportivo do Negage, que é o Cinema e Salão de Festas da Vila. Após o Grande Hotel, encontra-se a cervejaria e pastelaria "Estrela do Negage", com a "Foto Cruz" logo ao lado, após a casa do velho pioneiro Fernando Santos. Frente à casa deste fica a "Papelaria 13", do Sr. Horácio e do irmão. É também nesta Avenida que se situa a loja da "Companhia Congo Agrícola", ficando o estabelecimento "Gaspar & Fernandes", mesmo defronte a este e ao lado do Hotel "Avenida", que pertence ao maior proprietário desta zona, o lendário caçador e produtor agrícola João Ferreira, também dono do edifício mais moderno da avenida e da primeira bomba para abastecimento de combustíveis montada no Negage. Um pouco mais abaixo fica o "Manuel Ribeiro Manso", ficando ao lado deste a casa do Jesuíno Dias e a seguir a esta a Companhia de Artilharia. Há mais algumas casas, de construção tradicional em "adobe de matope", o mesmo que dizer... de barro. As coberturas são para todos os gostos: - Há telhas tipo Marselha, Lusa ou Portuguesa, chapas onduladas de zinco, alumínio ou em Lusalite. Um pouco mais para a periferia, viam-se coberturas de colmo.
No sentido Negage-Camabatela, logo à saída da Vila, no local onde a estrada faz bifurcação com a estrada para Carmona, encontra-se um impressionante aglomerado populacional da Aldeia da Missão Católica do Negage. É o ponto de encontro de muitos dos Militares estacionados na Vila, ou porque esperam assistir a uma "M'rrabenta"... uma "Merengada", ou vão procurar a lavadeira para saberem como está a roupa... ou aventuram a hipótese de um "casamento" com "os minina", pois " és mesmo um garota orrera sena" e " eu gostas mesmo de tu, jura"! Escusado será dizer-se que as rondas das Unidades tentam, a todo a transe, desmobilizar o pessoal das idas à Sanzala, mas estes encontram sempre uma maneira para fugir à vigilância, causando verdadeiras dores de cabeça aos Comandantes, que se desdobram na aplicação de castigos, quando há doenças venéreas a apanharem os rapazes nas suas garras, com as consequências que se podem imaginar.
Existe um estádio pertencente ao Grupo Desportivo do Negage, situado à saída da Vila pelo lado da Capoupa, já na estrada para o Quisseque e o Pinganho.
Na Avenida que saí mesmo defronte à Companhia Congo Agricola, ficam as novas bombas de gasolina da Shell, o PAD, o Pelotão de Intendência, a Fábrica de Descasque de café, vários comércios gerais, uma relojoaria, uma das frentes do "Gaspar & Fernandes" e várias residências. Na rua paralela à Avenida Salazar, fica o Colégio do Negage, vários estabelecimentos comerciais, a Escola de Condução Valadares, terminando esta numa zona destinada a jardim, situada nas trazeiras da Igreja, onde está a cripta que vai servindo de Igreja, enquanto esta se vai erguendo. Nesse largo está também situado o Bairro de Oficiais e Sargentos da Força Aérea e bem assim as residências dos Comandantes do Aeródromo Base nº. 3.
Oportunamente direi mais qualquer coisa sobre a Vila do Negage... que cresceu...cresceu até que a cidade apareceu. Disso falaremos depois, até porque há algumas histórias deliciosas relacionadas com a Vila, o Colégio... e algumas pessoas que fazem parte da vida de uma cidade!


domingo, 2 de setembro de 2007

ANGOLA...NA HISTÓRIA E NA LENDA - I

  • - Mesmo parecendo incrível, haverá muita gente a demitir-se de falar sobre Angola pelo facto de esta se ter tornado num bastião de influência marxista quando alcançou a Independência como República Popular de Angola.
  • - No entanto, Angola é um enorme território que se estende por um vasto território com 1.246.700 Km2 e 13.134.000 habitantes, limitada a Norte e Nordeste pela República Democrática do Congo, a Este pela Zâmbia, a Sul pela Namíbia e a Oeste pelo Atlântico.
  • - Cabinda, erradamente considerada como uma das suas Províncias, tem uma superfície de 7.270 Km2 e cerca de 300.000 habitantes.
  • - A estrutura zoológica de Angola é caracterizada por três unidades principais, a saber:
  • - A orla sedimentar litoral (3%), que acompanha a costa, com uma largura variável de 80 Km no Soyo, de poucos quilómetros de N'Zeto ao Caxito e do Sumbe ao Namibe, atingindo 150 Km na Kissama;
  • - Formações sedimentares (59%) a abranger as regiões do nordeste, leste, e sudueste e uma parte do sul;
  • - Maciço Antigo (38%) a cobrir quase toda a metade oeste, exceptuando a região entre os rios Cubango e e Catuluvar e a orla litoral.
  • - Dois terços do território estão a uma altitude entre 1.000 e 1.600 metros. Os planaltos do Bié, do Huambo e da Huíla têm altitudes entre os 1.500 e os 2.000 m. O ponto mais alto de Angola é o Monte Môco, com 2.620 m e situa-se em Ukuma, a cerce de 100 Km da cidade do Huambo (ex-Nova Lisboa), logo seguido do Meco, com 2. 583 m.. No Norte sobressaem a Serra da Canda, os morros de Nambuagongo e Pungo Andongo. No Centro-oeste encontram-se os morros de Wakokungo, Dala-Cachibo, Seles e toda a zona serrana do Huambo. No Sul, o maciço da Caconda, os Quilenges e a Serra da Leba. Todo o O é um extenso planalto, com pequenas variações de altitude: A região da Calunda, na região do Cazombo e as nascentes do Cuando e Quembo, na região de Tempué, ambas com cerca de 1.500 metros.
  • - Da população de Angola apenas uma pequena percentagem não é de origem "Banto": os "Cuissi", de origem Vátua, e os Bosquímanes. Durante mais de setecentos anos houve grandes migrações dos Povos Bantos, cujas tradições culturais impuseram que os homens que chegavam casassem com mulheres que viviam já nas áreas onde todos passavam a residir.
  • - Os mais conhecidos são os "Kikongo", no século XIII, que se espalharam pelo Noroeste, vindos do Norte; os "Jaga", no século XVI, que atravessaram a região Oeste do território e se fixaram por todo o país, entrados pela fronteira Norte -Nordeste; os "Helelo", no século XVI, e "Nganguela", no século XVIII, que entraram pelo Leste e se espalharam por todo o Sul; os "Tchokwe" (ou Quioco), que no século XVIII, vindos do Nordeste, se disseminaram pelo Este, Centro e Sul; os "Nyaneka", no século XV, os "Kwangalis" e os "Makokolos", ambos no século XIX, que entraram pelo Sul e Sudueste. Sabe-se que também os "Bapende" e os "Mbundo" (ou Kimbundo), que tinham a mesma origem e coabitavam a mesma região a Norte do rio Kuwanza, e os "Ovimbundo", que viviam nos planaltos centrais, onde os "Jaga" os foram encontrar já no século VI. Actualmente existem mais de 100.000 mestiços e a população branca, que antes da independência (1975) era superior (400.000), é actualmente de cerca de 100.000 habitantes.
  • - A língua oficial de Angola é o Português, mas fala-se também nas línguas Umbundo, Kimbundo, Kikongo, Tchokwe, Kwanyama e Mbunda. Apesar de haver desencontros entre os etnólogos e os antropólogos que têm procurado sintezar os conhecimentos sobre estes grupos étnicos de Angola e procuram cartografar as suas área territoriais, com a polémica a centrar-se na configuração dos grupos (10, segundo estudos feitos) e sub grupos (que seriam 90 ou mais, segundos os estudiosos), a descrição atrás registada é a que consta como digna de credibilidade , por estar confirmada pelos diversos organismos das Nações Unidas.
  • - As religiões professadas são as crenças tradionais africanas, 40% de Católicos e cerca de 12% de Protestantes.
  • - A densidade populacional está estimada em 10 habitantes por Km2, sendo das mais baixas de África. É uma população bastante jovem, estimando-se que cerca de 58% tem menos de 20 anos de idade, 71% tem menos de 30 anos, 8% têm mais de 50 e 4% mais de 60 anos de idade.
  • - O País divide-se em 18 províncias: Cabinda - capital na cidade de Cabinda; Zaire - M'Banza Congo; Uíge - Uíge (ex-Carmona); Bengo - Caxito; Luanda - Luanda; Kuanza Sul - Sumbe; Kuanza Norte - N'Dalatando (ex-Salazar); Malange - Malange; Lunda Norte - Lukapa; Lunda Sul - Saurimo (ex-Henrique de Carvalho); Moxico - Luena; Benguela - Benguela; Huambo - Huambo (ex-Nova Lisboa); Bié - Kuíto (ex-Bié); Namibe - Namibe (ex-Moçamedes); Huíla - Lubango; Cunene - N'Giva e Cuando Cubango - Menongue (Serpa Pinto).

DINHEIRO DE ANGOLA... - I


- O "dinheiro" é conhecido e usado em Angola desde tempos imemoriais, julgando-se terem sido os Egípcios e (ou) os navegadores Fenícios quem introduziu a primeira "moeda" em África, ao longo da Costa Ocidental. Tratava-se de umas contas de vidro, com lindos desenhos, conhecidas com o nome de AGGRY.
- Os BONGUE, também escrito "Bonge" em alguns documentos Portugueses antigos, do "Quim". "Mbonge" ou "nó de caniço", segundo Virgílio Ferreira, os imbonge (seriam usados na contabilidade tradicional e o termo veio a ser usado em referência ao dinheiro miúdo, também contável), onde o nome do "Paninho" fabricado no Loango, que correu como moeda em Angola, era o "Libongo". Também havia o BÚZIO, concha dos moluscos univalves; específicamente, "Búzio" é a concha dos moluscos da família "Buccinidae" e não a dos da família "Cypreae", a que pertence o "zimbo", o búzio-moeda, ou CAURIM angolano, que teve uso como moeda na Antiguidade indiana - onde era conhecido por "Córi", de onde deriva o nome inglês "Cowrie", sendo a sua cultura feita sobre caules de plantas marinhas de espécies angolanas, que seria um habitat totalmente diferente do habitualmente feito na Índia. Os Holandeses, no Século XVII, quando ocuparam Luanda, não usariam ainda o Caurim africano, pois a "sua" moeda de troca, ao tempo, eram as "Coralinas", umas contas em material não especificado, o que sugere que o zimbo já não era escasso e o "Libongo" corria mais geralmente em Angola.
Em algumas escavações efectuadas em Luanda, apareceram umas contas de feitio irregular, com aparência de serem antiquissimas, que eram exóticos trabalhos de cerâmica corada confeccionados com sucessivas camadas de côres várias sobrepostas. Foram encontradas em túmulos no Continente Europeu e na Índia, supondo-se que eram fabricadas em Veneza e na Índia. Tinham o nome de "Chevron".
Em algumas localidades do Norte de Angola, no Século XVIII, circulavam bocados de ferro e cobre, em forma de "X", grosseira imitação do "10 Reis" em letra Romana... nas antigas moedas de D. Pedro II. No entanto a "Cruzeta" era um objecto idênrtico à banda do tipo "vela de moínho" proneviente do Katanga e da Lunda. Os escritos Portugueses coevos não referem as "Cruzetas" nesta região, mas sim, e abundantes, encontravam-se a "Manilha" ou "Ongondo" O fabrico da "Cruzeta" da bacia do rio Zambeze é bem mais antigo que aquelas moedas Portuguesas trazidas para Angola em 1694, havendo notícia das primeiras "Aspas" em forma de "Velas de moínho", conforme um relatório de D. Álvaro Vaz de Almeida em 1516, que informava ter António Fernandes visto os nativos das terras de Ambar, vizinha da Monomotapa, vender os objectos feitos de cobre proveniente dos rios de Manicongo, na Rodésia.