domingo, 26 de agosto de 2007

" RECORDAREI PARA SEMPRE...




...o desfile a caminho do Vera Cruz, a fanfarra da Região Militar de Lisboa a tocar a "Marcha de Angola", seguindo-se o Hino Nacional, os Generais em continência e os lenços brancos acenados pelos familiares chorosos que nos viam subir as escadas para o navio, para uma viagem que não se sabe ter regresso previsto, pois são insondáveis os caminhos do Alto... e apenas nos restará confiar n'Ele e pedir-Lhe para nos dar uma boa comissão, sem sobressaltos... se há aquilo a que vulgarmente chamamos fé, pois é esta que nos dá esperança no porvir... que nada interessa aos descrentes militantes, que orientam tudo pela sorte ou azar, como se de um jogo de "lerpa" se tratasse, acabando por gritar o seu "Jesus me acuda!" quando as barbas do vizinho começam a arder.


Já dentro do paquete, ficamos ainda um bocado a acenar aos entes queridos que ficam e a vêr Lisboa a afastar-se, cada vez mais e mais... até que há um último e estridente toque solto pelo "Vera Cruz" na saída da barra, junto a S. Julião da Barra. Nos próximos dias não há costa para ninguém, pois só na madrugada do oitavo dia constatamos ter fundeado numa magnífica baía, vendo-se o casario iluminado ao longe! É a cidade de São Paulo de Luanda, a magnificiente capital da Angola onde, 500 anos antes, almejou chegar Diogo Cão, que fundeou na foz do Zaire.


Pela madrugada fomos aproximando do cais, lentamente, muito lentamente, até que um último silvo da chaminé nos indica ter atracado finalmente, sendo ordenado o desembarque das tropas expedicionárias portuguesas, que vinham dar continuidade à erradicação do terrorismo que se havia instalado naquele território Ultramarino. Nos últimos dias, a bordo do navio, uma autêntica "lavagem ao cérebro" foi feita sos Militares, pois os autifalantes não se cansavam de berrar, estridentemente, "Ó Povo Heróico Português/ tens de lutar outra vez/ e só assim o mundo te dá razão...", da "Marcha de Amgola". Aquele "É nossa... Angola...", acompanhado de batuques, com que inicia a Marcha, lateja como um chicote, pois apela ao mais profundo de todos nós para a luta que se avisinha... e que sabemos ser difícil!


Bem... sabemos não, porque eu sou de rendição individual e vou para uma Base situada numa Vila no Norte, segundo sou informado, dizendo os meus informantes ser o Aeródromo Base nº. 3 a melhor Unidade da Força Aérea em toda a Angola. Não sei, porque nunca lá estive, mas quero acreditar que ninguém iria afirmar tal coisa se não fosse verdade.


Luanda não me desiludiu como cidade, apesar de haver um déficit enorme de alcatrão naquela capital de Angola, havendo muita terra na periferia, naquilo a que chamavam "muceques". Por exemplo: - entre o Aeroporto de Luanda e a Base Aérea nº. 9, os pés ficavam enterrados numa areia fina, quente e avermelhada, que nos entrava nos sapatos e nos fazia sentir saudades das botas com cano, que sempre evitavam aquele martírio. Pensei para comigo que aquilo deveria ser outro suplício quando chovesse, pois talvez o lamaçal fosse medonho... mas não é verdade, pois a água compactava o pó e tornava-o mais transitável.


Tendo a viagem para o Negage sido marcada para a Terça Feira seguinte, aproveitei para conhecer a cidade e tentar documentar-me um pouco mais sobre a terra onde tinha vindo parar,


sem saber lêr nem escrever, como se costuma dizer. Na companhia de alguns amigos que tinham chegado tempos antes e estavam colocados na BA9 ou no Comando da Região Aérea, vim passear pela Baixa, deambulando pela Mutamba e Maianga, visitando os locais onde se deram os assaltos terroristas na capital angolana, pois tinha curiosidade de conhecer os locais e ouvir os relatos daquilo que aconteceu na realidade, pois queria saber até que ponto as notícias que chegavam à Metrópole eram credíveis, dado haver muito alarmismo, nada consentâneo com o que parecia acontecer em Luanda, uma vez que aqui tudo parecia estar na paz dos anjos.


Conheci a Esquadra do Comando da PSP de Luanda, a Casa de Reclusão, a Emissora Oficial de Angola, fui até à Sé, visando saber a verdade sobre o famoso Cónego que, naquela famosa Igreja Catedral, se dedicava a dar guarida e ajuda em armamento e géneros alimentícios aos terroristas do MPLA. Irei dissecando tudo o que me seja dado dissecar durante a minha estadia... mas há muito que contar daquilo que foi a heróica resistência dos Povos dos Dembos, do Uíge, Vale do Loge, Mucaba, Nambuagongo e tudo o que mais me seja possível. Por agora... até à próxima, quando darei mais notícias de Angola!"


(Excertos de uma colaboração para o jornal A VOZ DE DOMINGO", de Leiria, da autoria do V.Elias)

1 comentário:

Camilo disse...

Também eu RECORDAREI PARA SEMPRE!
Foi aqui, nesta imponente Marginal que assisti à chegada do Almirante Américo Tomaz.
De farda branca, acenou-me da sua viatura pejada de gente.
Era eu um puto: 18/19 anos...
E, para que saibas, eram milhares de pretos, brancos e mestiços.
Afinal, essa "história" do fascismo só está enraizada nos cornos dos comunas.
E de cornos, só os filhos da mãe...
camilo