sexta-feira, 31 de agosto de 2007

DIVAGANDO...


Certamente que é importante falar do dia-a-dia do Aeródromo, das suas gentes, das angústias daqueles dias em que sabemos estar o inimigo por perto - não importa se de duas se de quatro pernas, pois o diabo venha e escolha quais os piores - mas sou apologista de que não é bom dar a carne aos bichos toda de uma só vez, porque duas coisas são possíveis: ou apanha uma indigestão e pode lerpar... ou não apanha nenhuma congestão e, porque foi bem tratado, temos que o aturar, se mal se podem comprar as coisas desta maneira.

Neste Blog não pretendo pôr a nu a história daquela malta com quem tive ensejo de privar no Negage, nem tampouco pretendo dar a minha vida a conhecer - era o que faltava - mas pretendo apenas dar voz a alguns pensamentos que preenchem os meus dias de guerra, as minhas reflexões nos momentos de paz ou a angustia de quando há confusão, porque a guerrilha em Angola proporciona um pouco de tudo isto, em simultâneo, fazendo que alguns dos melhores de nós vão de visita ao "Quintas"... que é aquele hospital onde gente de juízo pretende de algum modo um reencontro consigo próprio.

A minha primeira "missão" fora de portas do AB3, foi relacionada com o pagamento dos vencimentos ao pessoal dos AM's 31 e 32, ou seja de Maquela do Zombo e do Toto. Como meio de transporte, porque era território de guerra, utilizei um "moderno" avião monomotor Harvard T6-G, cheio de mordomias, pilotado pelo Sargento Ferdinando Caixas, que até era só um senhor Pilotaço, daqueles de mão cheia, que tudo fez para fazer jus a umas cervejinhas pagas pelo otário... mas ele não sabia que estava a transportar um tipo tarimbado no voo, que não chamaria nunca por S. Gregório, o santo patrono dos enjoados.

A viagem até foi instrutiva e deu-me uma prespectiva daquilo que seria o território onde estava a voar. O perigo vinha da possibilidade de abate do avião... e lá se ia o gozo pelo voo. Quando aterrei... parece que me tinham tirado debaixo de um elefante, tal a pressão a que o meu corpinho tinha sido sujeito. Seja tudo por amor dos meus santinhos... pois até fui eu quem quiz fazer parte da Força Aérea !

Era a sensação de liberdade que me atraía, sabem?... coisas de gatoto sonhador!

segunda-feira, 27 de agosto de 2007

NO A.B.3 - À descoberta

- A chegada ao Aeródromo Base nº.3 superou todas as espectativas que tinha, porque era uma Unidade no mato e eu esperava encontrar qualquer coisa uns passos abaixo do que vi na Base Aérea nº. 9, em Luanda, que me desencantou pelas instalações pobres e os arruamentos cheios daquela areia "estranha" que eu vira no percurso do Aeroporto para a Base. Era práticamente toda construída à base de pré-fabricados "Tarjinha", ou seja: em placas de madeira, cartão prensado e esferovite, revestidas a chapa de alumínio martelado. As portas de ferro, bem como as janelas - que tinham uma parte fixa e outra móvel - sendo a cobertura efectuada por placas de chapa ondulada em folha de zinco. Os tectos eram em fibrocimento. Quando chovia... meus amigos... parecia haver um ataque inimigo e estaria a caír metralha sobre os telhados, tal a barulheira.
- Havia algumas artérias bem asfaltadas, só sendo pena as paradas estarem a necessitar de um tapete que permita dar-lhe outro uso nos dias de chuva, pois nessa altura parecem autênticos lagos. A Messe e Clube de Oficiais, a Esquadrilha de Abastecimentos e a Cantina são os locais mais importantes quanto a estruturas, uma vez que são construções em alvenaria e telha tipo Lusa na cobertura. Há outras pequenas construções com elevações em tijolo ou adobe de cimento, como é o caso da Esquadrilha de Transportes Auto, a Central Eléctrica ou a Secção de Combustíveis e as cozinhas das Messes. Também as divisórias nas Oficinas Gerais são al alvenaria de tijolo... mas não há muito mais infraestruras deste tipo a referir. Este poema que se segue, foi feito num momento de ironia...

É isto o A.B.3?

Não sei se isto é Angola
ou um parque de zoologia...
...mesmo que aqui se jogue à bola
vejo coisas, quem diria
que não mexem com a bicharada!
Tenham certo que por vezes
há por cá muitas "peneiras"
porque um se chama Lindo...
...e sabendo ser isto uma asneira
até há um que é Formosinho!...
Também o Rosa, o Flôr ou o Cravo,
o Loureiro, o Pereira, o Marmelo...
...ou o Silva, o Madeira e o Abelha
e mesmo o Ginja... o Caramelo,
ou o Machado, o Serra e o Martelo,
o Prego, o Cartaxo e o Bragança,
o Geadas, o Velhas ou o Lança!
E que dizer de tantas cores?
O Amarelo, o Branco, o Roxo...
...todos eles uns amores
como o Verde ou o Vermelho
e por hoje disse tudo...
ou então não chego a velho!

Victor Elias
1º.Cabo 264/63-A



domingo, 26 de agosto de 2007

" RECORDAREI PARA SEMPRE...




...o desfile a caminho do Vera Cruz, a fanfarra da Região Militar de Lisboa a tocar a "Marcha de Angola", seguindo-se o Hino Nacional, os Generais em continência e os lenços brancos acenados pelos familiares chorosos que nos viam subir as escadas para o navio, para uma viagem que não se sabe ter regresso previsto, pois são insondáveis os caminhos do Alto... e apenas nos restará confiar n'Ele e pedir-Lhe para nos dar uma boa comissão, sem sobressaltos... se há aquilo a que vulgarmente chamamos fé, pois é esta que nos dá esperança no porvir... que nada interessa aos descrentes militantes, que orientam tudo pela sorte ou azar, como se de um jogo de "lerpa" se tratasse, acabando por gritar o seu "Jesus me acuda!" quando as barbas do vizinho começam a arder.


Já dentro do paquete, ficamos ainda um bocado a acenar aos entes queridos que ficam e a vêr Lisboa a afastar-se, cada vez mais e mais... até que há um último e estridente toque solto pelo "Vera Cruz" na saída da barra, junto a S. Julião da Barra. Nos próximos dias não há costa para ninguém, pois só na madrugada do oitavo dia constatamos ter fundeado numa magnífica baía, vendo-se o casario iluminado ao longe! É a cidade de São Paulo de Luanda, a magnificiente capital da Angola onde, 500 anos antes, almejou chegar Diogo Cão, que fundeou na foz do Zaire.


Pela madrugada fomos aproximando do cais, lentamente, muito lentamente, até que um último silvo da chaminé nos indica ter atracado finalmente, sendo ordenado o desembarque das tropas expedicionárias portuguesas, que vinham dar continuidade à erradicação do terrorismo que se havia instalado naquele território Ultramarino. Nos últimos dias, a bordo do navio, uma autêntica "lavagem ao cérebro" foi feita sos Militares, pois os autifalantes não se cansavam de berrar, estridentemente, "Ó Povo Heróico Português/ tens de lutar outra vez/ e só assim o mundo te dá razão...", da "Marcha de Amgola". Aquele "É nossa... Angola...", acompanhado de batuques, com que inicia a Marcha, lateja como um chicote, pois apela ao mais profundo de todos nós para a luta que se avisinha... e que sabemos ser difícil!


Bem... sabemos não, porque eu sou de rendição individual e vou para uma Base situada numa Vila no Norte, segundo sou informado, dizendo os meus informantes ser o Aeródromo Base nº. 3 a melhor Unidade da Força Aérea em toda a Angola. Não sei, porque nunca lá estive, mas quero acreditar que ninguém iria afirmar tal coisa se não fosse verdade.


Luanda não me desiludiu como cidade, apesar de haver um déficit enorme de alcatrão naquela capital de Angola, havendo muita terra na periferia, naquilo a que chamavam "muceques". Por exemplo: - entre o Aeroporto de Luanda e a Base Aérea nº. 9, os pés ficavam enterrados numa areia fina, quente e avermelhada, que nos entrava nos sapatos e nos fazia sentir saudades das botas com cano, que sempre evitavam aquele martírio. Pensei para comigo que aquilo deveria ser outro suplício quando chovesse, pois talvez o lamaçal fosse medonho... mas não é verdade, pois a água compactava o pó e tornava-o mais transitável.


Tendo a viagem para o Negage sido marcada para a Terça Feira seguinte, aproveitei para conhecer a cidade e tentar documentar-me um pouco mais sobre a terra onde tinha vindo parar,


sem saber lêr nem escrever, como se costuma dizer. Na companhia de alguns amigos que tinham chegado tempos antes e estavam colocados na BA9 ou no Comando da Região Aérea, vim passear pela Baixa, deambulando pela Mutamba e Maianga, visitando os locais onde se deram os assaltos terroristas na capital angolana, pois tinha curiosidade de conhecer os locais e ouvir os relatos daquilo que aconteceu na realidade, pois queria saber até que ponto as notícias que chegavam à Metrópole eram credíveis, dado haver muito alarmismo, nada consentâneo com o que parecia acontecer em Luanda, uma vez que aqui tudo parecia estar na paz dos anjos.


Conheci a Esquadra do Comando da PSP de Luanda, a Casa de Reclusão, a Emissora Oficial de Angola, fui até à Sé, visando saber a verdade sobre o famoso Cónego que, naquela famosa Igreja Catedral, se dedicava a dar guarida e ajuda em armamento e géneros alimentícios aos terroristas do MPLA. Irei dissecando tudo o que me seja dado dissecar durante a minha estadia... mas há muito que contar daquilo que foi a heróica resistência dos Povos dos Dembos, do Uíge, Vale do Loge, Mucaba, Nambuagongo e tudo o que mais me seja possível. Por agora... até à próxima, quando darei mais notícias de Angola!"


(Excertos de uma colaboração para o jornal A VOZ DE DOMINGO", de Leiria, da autoria do V.Elias)

quarta-feira, 22 de agosto de 2007

*...TERRA DE SANGUE...*

- Quem chega a Angola, vindo pelo ar, depressa se depara com um solo avermelhado, como se este houvesse sido tingido com sangue... o que impressiona quando se sabe terem sido aquelas terras generosamente regadas com sangue inocente de tantos homens, mulheres e crianças, de todas as idades e etnias, brancos e negros, que encontraram a morte nas catanas e canhangulos usados pelos "heróicos" terroristas da União dos Povos de Angola, ou Frente Nacional de Libertação de Angola, nascida da anterior União, ambas lideradas por Holden Roberto, e do Movimento Popular de Libertação de Angola, de que era líder o Dr. Agostinho Neto.
- Compulsando a História de Portugal, não encontro relato algum que indicie ser o solo de Angola uma terra vermelha de fogo ou sangue... e no entanto, sabe-se que Diogo Cão e o seu escrivão de bordo dão a el-Rei de Portugal a devida conta de tudo o que encontraram naquele Reino do Congo, quando o demandaram em 1482, reinando Nzinga Nkuvu, que se converteu ao Cristianismo, possibilitando o desempenho de um duplo papel: - Os Portugueses, que era presumido apenas pretenderem usar os portos da região para as suas naus que demandavam terras da Índia, passaram a exercer grande influência cultural e social e os Reis do Congo esperavam assim receber auxílio técnico e económico.
Mas é a terra Angolana que está em análise, mercê da sua coloração rubra, de um escarlate que mais parece ser prenúncio do derramamento de sangue que aconteceu no início da década de 60, mas que se veio a prolongar com a guerra civil suscitada pela ânsia de protagonismo no espectro político pós independência. Mas isso será tratado mais aprofundadamente quando oportuno, porque é assunto que dará muito pano para mangas, quando dissecado.
- Diz-se ser o ferro, existente em profusão no subsolo Angolano, que dá aquela côr de "ferrugem" à terra, o que nem sequer duvido, mas ficará sempre a impressão de se estar a sobrevoar um local onde o sangue foi derramado em profusão... e a história de Angola está recheada de relatos de lutas entre os vários Reinos existentes desde os tempos pré-coloniais, estendendo-se estas até aos nossos dias, onde a morte de Jonas Savimbi, o fundador da União Nacional para a Independência Total de Angola, foi o último acto de uma guerra absurda - como o são todas as guerras, diga-se - que destruiu todo o tecido económico, o património construído e o potencial humano de uma Nação ainda com uma incipiente independência, pois não havia quadros em Angola e a debandada dos "colonos" brancos - e de milhares de naturais negros - ainda veio agravar mais as dificuldades.
- Podem os homens de hoje mudar a côr da paisaigem através do aumento da área urbanizada e da asfaltagem das estradas que rasgam Angola de "Cabinda ao Cunene", mas terei sempre na retina a primeira imagem de uma terra pintada de sangue, talvez vertido por aqueles que fizeram Angola... mas pagaram com a vida a ousadia de amarem aquele território que era uma parte importante da Pátria distante: PORTUGAL!

terça-feira, 21 de agosto de 2007

COMO SE FOSSE UM PREFÁCIO...


Faz parte do comportamento humano o querer guardar memórias da vida, especialmente quando estas memórias representam momentos fortes capazes de consolidar a personalidade de cada um.
A Guerra em Angola veio apanhar muita gente desprevenida, a todos os níveis, porquanto se julgava que, pelo facto de Portugal não haver participado na II Guerra Mundial, afastaria qualquer ameaçã de agressão perpetrada por qualquer Nação... a não ser que deflagrasse um conflito interno em qualquer parte dos nossos territórios africanos... como foi o caso de Angola.
Estará ainda bastante fresca a memória daqueles dias da guerra, da qual se sabia a data de eclosão mas ninguém adivinhava o fim!
As carnificinas perpetradas pelos terroristas da UPA, criadas pelo pró-Americano Holden Roberto, tiveram início a 15 de Março de 1961, quando o Norte foi posto a ferro e fogo, com milhares de mortos, brancos e pretos, que não puderam fugir à sanha assassina de "animais" humanos que, toldados pelo álcool, pelas drogas e pelos constantes incitamentos de "feiticeiros" que os aliciavam com a imortalidade perante o colono branco.
Os assaltos à Casa de Reclusão, à Esquadra e Comando da Polícia de Segurança Pública de Luanda ou à Emissora Oficial de Angola, acontecidos em 04 de Fevereiro do mesmo ano, podem considerar-se como as datas do início da luta armada na Província.
O Governo Português, fazendo o que lhe competia, respondeu aos traiçoeiros ataques através do envio para o terreno de enormes contigentes de forças militares e policiais, arrancando assim jovens na flôr da idade ao seio das suas famílias, para serem enviados para uma terra distante, absolutamente desconhecida, cheia de mistérios escondidos nas densas matas e selvas Angolanas, porque era necessário combater um inimigo sem rosto, que matava sem dar a cara, como é próprio de um sistema de guerra em que o ataque de surpresa é uma constante.
Para fugirem do teatro de guerra, houve muitos que optaram pela "fuga" para as terras de emigração, mas aqueles que ficaram mostraram bem ser dignos de figurar nos anais da memória de todo um Povo, porque deram a cara, sabendo dizer "PRESENTE" quando a Pátria os chamou!
Neste BLOG irá falar-se de tudo um pouco... e de nada, se fôr essa a vontade dos leitores!
Procura-se dar a conhecer o Aeródromo Base nº. 3, falar da Vila do Negage, das suas gentes, aspirações e angústias, com histórias de vida de quem ali soube ser fiel à sua condição de Português!
Este BLOG pretende dar um contributo para homenagear a memória de quantos construiram o Aeródromo Base nº. 3 e o Negage, porque estavam cientes de ser um dever inalienável a defesa do sagrado solo Pátrio de Aquém e Além Mar, que dava pelo nome de PORTUGAL!
Não invocaremos saudosismos bacocos ou a auto-promoção de feitos heróicos presumídos ou de folclore, mas iremos tentar honrar "aqueles que por obras valerosas se vão da lei da morte libertando", como dizia o nosso imortal épico Luiz Vaz de Camões, que também afirmava "honra-se a Pátria de tal gente..."!
No Aeródromo Base nº. 3 formámos uma família, que se orgulha de ter servido a Força Aérea Portuguesa com denodo e lealdade, "com o peito às armas feito", jamais regateando esforços no cumprimento das missões que nos foram confiadas... e isso nos engrandece, pois honrámos a Bandeira que, um dia, jurámos defender... mesmo com o sacrifício da própria vida!
Alguns dos nossos amigos não puderam regressar, mas deles é a nossa memória, a nossa saudade, pois deles ousamos sentir orgulho, pois eram os melhores de nós próprios!

"CANTANDO ESPALHAREI POR TODA A PARTE, O PEITO ILUSTRE LUSITANO... SE A TANTO ME AJUDAR ENGENHO E ARTE!"
O lema do Aeródromo Base nº. 3 era " MUITO PODE QUEM QUER", e nós mostrámos que quería-mos, sentindo pleno orgulho em ter sido participantes na construção de uma grande Unidade, que muito elevou a Força Aérea e foi uma honra e orgulho para Portugal!