segunda-feira, 24 de dezembro de 2007

NOVO ANO... ESPERAR O QUÊ?



A chegada do NOVO ANO era para nós, nas terras mártires de Angola, a chegada de uma nova esperança, o renascer de um sentimento de fraternidade que as lutas iam fragilizando!

O Ano Novo era como o nascimento de um novo dia, que queríamos pleno de sol, pujante de vida, pois não só nos aquecia a alma como nos era um sinal de que Deus estava presente.

QUE O NOVO ANO SEJA DE PAZ, MUITA PAZ, AQUELA PAZ CAPAZ DE COLOCAR OS POVOS EM FRATERNA UNIÃO, COM TODAS AS BENÇÃOS DO CRIADOR DE TODAS AS COISAS.

terça-feira, 18 de dezembro de 2007

UM SANTO E
FELIZ NATAL...
...UM ANO NOVO COM MUITA PAZ...
TODA A PAZ DE JESUS MENINO!
jjjjjjjjjj
g Depois de tantos anos... recordar o meu primeiro Natal na cripta da Igreja de São José Operário, ao tempo em construção, é um pouco como regressar a Angola e voltar a viver o maravilhoso cântico "Adeste Fidelis", entoado pela voz poderosa e absolutamente maviosa do Padre Agatângelo, um Capuchinho Italiano de muito valor, a quem Portugal e Angola muito ficaram a dever.
jjnjj
g Naquele mesmo dia 24 de Dezembro, pouco faltava para soarem as 24 badaladas, anunciando a meia noite, quando dei por concluído o meu primeiro Presépio, construído em África. Senti-me honrado por poder dizer aos residentes no Negage que Jesus havia nascido - era Natal, tempo de alegria suscitado na tristeza de uma guerra que nos dividia, mas não nos retirava o espírito da época!
jjjjjjljjjjjj
"GLÓRIA A DEUS NOS CÉUS... E PAZ NA TERRA AOS HOMENS QUE ELE AMA"

domingo, 9 de dezembro de 2007

O TERRORISMO... sabe o que é?

----------------BAILUNDOS MORTOS NO NORTE DE ANGOLA
---------------------Numa fazenda do Uíge... que coisa melhor para levar
-------------------os habitantes... a colaborar com os "turras"?
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----- Acreditem-me ou não, vai-se tornando bastante difícil o estar para aqui a tentar falar de "TERRORISMO" ou de Grupos "TERRORISTAS", porque nestes tempos que agora correm, bastará apenas pronunciarem-se nomes como "Al-Qaeda", "ETA", "HEZBOLLAH", "Hammas" ou de qualquer uma das muitas designações, agora tão em voga, para que se esteja a dizer, única e simplesmente...: "TERRORISMO".
----- Portugal, nas suas antigas possessões da Ásia e de África, sentiu bem na carne os garras deste monstro, que usa matar e estropiar, destruír e aterrorizar sem olhar quem são as vítimas, que, na maioria dos casos, não têm nada a vêr com as motivações que levam os "Turras" a agir como agem, desrespeitando as mais elementares regras do comportamento humano numa situação de guerra. Não há convenções assinadas para o terror, pois se por um acaso avisassem com atecedência quais os actos que estão na forja... isso não era terrorismo e perdia-se o impacto pretendido com a surpresa dos ataques. Há sangue? Boa! É para que passem a temer as forças que vão ter em presença.
-----Um atentado a um membro da realeza ou a um presidente de um qualquer País é qualquer coisa de suficientemente extravagante, mas não o será tanto como no passado. Entrou na noção generalizada da vida de todos os chefes de estado... Imagine-se agora um atentado contra, digamos, uma igreja. É horrível que baste à primeira vista, e no entanto não é tão eficaz como uma pessoa comum poderia julgar. Apesar de revolucionário e anarquista na sua génese, haveria sempre loucos suficientes a atribuír ao crime um carácter religioso. E isso aviltaria o significado especial do alarme que se pretende imputar ao acto... Não podemos contar com as suas emoções, quer de pena quer de medo, durante muito tempo. Um atentado bombista, para ter qualquer influência na opinião pública, tem de ir além da intenção de vingança ou de acto terrorista. Tem que ser, antes de tudo, destrutivo!
----- O terrorismo desorienta as pessoas. Fá-lo deliberadamente, pois esse é o seu objectivo primário, sendo a razão porque monopolizou a atenção do mundo no início do século XXI. O 11 de Setembro é um cartão de visita deixado pelos terrorismos de todos os tempos. Se o início da luta armada em Angola fosse préviamente anunciado, não teria o impacto que se seguiu, com as populações a fugir do teatro dos horrores que foram as chacinas de homens, mulheres e crianças do modo selvático que foi necessário implementar para que em toda a Angola houvesse um sentimento de insegurança, de medo do futuro, que levou muitos dos colonos a abandonar os seus haveres e a procurar refúgio em Luanda ou a regressar à Metrópole.
----- Na década de 60 vários estudos levaram a que se concluisse existirem várias diferenças funcionais significativas entre aquilo que esses "autores" designaram por "vários tipos de terror", mas eram fundamentais duas variantes básicas: TERROR DE EXECUÇÃO e TERROR DE SUBLEVAÇÃO. A função do terror de execução era bastante limitada, provávelmente, e tinha como objectivo primário preservar a segurança da organização terrorista, impedindo o público de dar informações sobre ela às forças de segurança.. Para tal, a organização necessita de um sistema de vigilância sificientemente akargado para presuadir as pessoas de que, se ajudassem as autoridades, eles seriam detectados. A maioria dos grupos terroristas é demasiadamente pequena para utilizar este sistema. Por outro lado, a segurança dos pequenos grupos clandestinos é muito mais fácil de manter tão sómente pelo secretismo: Só quando uma organização tenta interagir com o povo multiplica os seus riscos de forma significativa. Assim, o terror de execução é um subproduto das campanhas de guerrilha - como aconteceu na Irlanda, no Vietname, na Argélia, na Palestina... em Angola, em Moçambique, na Guiné, quando as pessoas compreenderam fácilmente as exigências terroristas, tentando, pelo menos, agir de acordo com as mesmas.
----- O terror de agitação atingirá, provávelmente, objectivos extensos ae a longo prazo; um certo tipo de "revolução" ou de "libertação nacional". Alguns desses objectivos são mais atingíveis do que outros. No contecto colonial, uma análise de custo/benefício favorecerá uma estratégia terrorista, desde que os dirigentes dos "impérios" estejam preparados para abrir caminho. Na política interna, os riscos sãpo, habitualmente, muito mais altos: a sobrevivência da elite política e a sua estrutura hegemónica associada ("propriedade privada", "instituições capitalistas"). Para essa elite não é provável que nenhum benefício se compare aos custos da concessão - por isso a luta presumivelmente aumentará. Embora a "conformidade" possa ser assegurada pelos baixos níveis de violência cuidadosamente planeada, a violência de agitação intensificar-se-á e a escolha dos alvos será indiscriminada de modo a maximizar o choque. Nestes casos, o resultado depende se os terroristas são normalmente vistos como inimigos públicos, hostes "humani generis", com os quais nenhuma interacção significativa é aceitável.
----- Num folheto encontrado nos despojos de um terrorista morto no Norte de Angola, estava escrito, em língua inglesa, algo que indicaria uma série de proposições interligadas:
------1. - A violência atroz vai captar a imaginação das populações;
------2. - As populações podem assim despertar para as questões políticas;
------3. - A violência tem um poder inerente e é uma "força de limpeza";
------------(segundo o autor anti-colonialista Frantz Fanon)
----- 4. - A violência sistemática pode ameaçar o estado e levá-lo a retirar legitimidade às reacções;
----- 5. - A violência pode destabilizar a ordem social e ameaçar o colapso social -
-------------------("a espiral do terror e contra terror");
----- 6. - Por fim, o povo rejeitará o governo e irá virar-se para os "terroristas".
----- Assim, o terrorismo própriamente dito não se resume apenas ao uso da violência para fins políticos; não é apenas a violência atroz, não é apenas a violência dos que estão armados contra os que não estão armados; é, sim, concebido como uma estratégia política autónoma competente e decisiva.

segunda-feira, 19 de novembro de 2007

NA RAIA DOS MEDOS...

-----Impressiona vêr a destruição, que se apoderou daqueles cenários do Uíge que nos havíamos habituado a considerar uma terra abençoada por Deus... até que o deus Marte, acompanhado por Júpiter e talvez outros deuses mais dados a essas coisas - Baco, como deus do vinho, talvez tenha dado uma mãozinha - tenham colaborado no "bota abaixo" que imperou um pouco por toda esta terra mártir de Angola.
----- Não que se não soubesse haver uma má vontade do MPLA para com o Uíge, dado aqui ter sido sempre uma coutada da UPA/FNLA, nos tempos da convulsão que provocou, quando fez eclodir o terrorismo selvático por estas terras, que sempre declarou serem sua pertença, assim como toda aquela região. Ora o MPLA, no momento em que se conseguiu arvorar em senhor da República Popular de Angola e suas imediações - leia-se Cabinda - deverá ter jurado vingança sem quartel àquele Movimento terrorista do Sr. Holden Roberto, que sempre procurou manter o seu feudo reconhecido como tribalista e selvático, em contraponto com o seu figadal inimigo interno, o Dr.Agostinho Neto e o seu MPLA, que até se têm esforçado, do um modo que acreditam ser o mais lógico, em se constituirem como um amplo e honesto movimento nacionalista que venha a ser capaz de ultrapassar séculos de ódios, de rancores divisionistas e de desconhecimento mútuo, procurando deste modo reconciliar toda uma civilização urbana, essencialmente crioula, nascida da enorme "salada russa" feita de brancos, mulatos ou mestiços, que se foram miscenizando nos tempos do tráfico de escravos, com as diversas sociedades camponesas do interior do País.
----- Esta tentativa foi um falhanço total, como se torna evidente ter acontecido. É que o MPLA se afirmava combatente contra o tribalismo e o regionalismo, por pretenderem a unidade nacional, mas estas boas intenções caíam pela base, pois mostravam ser apenas um Movimento com uma mentalidade colonizada, completamente incapaz de perceber ser uma grande riqueza e enorme vantagem a enorme diversidade étnica e linguística que era existente por toda a Angola.
----- Os slogans de "UM SÓ POVO, UMA SÓ NAÇÃO" - era a principal palavra de ordem ouvida por aqueles dias - estavam, na realidade, a sugerir ser impossível construir-se um país mais moderno, que pudesse vir a respeitar as diferentes "nações" que formavam a grande Nação Angolana... e eles saberiam isso perfeitamente, a não ser que fossem destituídos de quaisquer resquícios de inteligência.
----- É que o Povo Angolano não é parvo, em absoluto, e custava-lhe compreender como se tornara possível os "Mulatos" lutarem contra os seus, porque tinham ascendência Portuguesa, mesmo se nascidos em África. Alguém poderia entender esta coisa de se verem os filhos a lutar contra os pais? Como foi possível serem os mestiços a liderar um movimento de libertação contra os Portugueses?-----
----- Jonas Savimbi, um homem poderoso, bastante violento... mas muito inteligente, soube utilizar a seu favor toda a arrogância dos dirigentes do MPLA - que eram os lídimos representantes do mundo urbano e das sociedades da mestiçagem crioula citadina - e procurou utilizar com êxito o ressentimento e a revolta que eram latentes nas populações rurais.
----- O Povo do Uíge, que sentiu na carne o ferrete da crueldade assassina da UPA/FNLA, jamais perdoará o sofrimento que lhe foi infligido pela sanha de um grupo de bandoleiros que não olhava a meios para conseguir prosseguir não se sabe que fins, pois nunca vieram a conquistar as boas graças do povo. E não se pense que as próximas gerações esquecerão o modo como se levou a cabo um tão hediondo crime de "lesa povo", que teve de aceitar um futuro que não escolheram, até porque nunca foram ouvidos nesse sentido.
----- Lentamente as feridas irão sarando, mas as sequelas são enormes e não se crê ser possível haver, a curto prazo, uma paz que se revele duradoura e lhes venha a proporcionar um futuro que traga, finalmente, uma esperança para o porvir.

sexta-feira, 16 de novembro de 2007

TANTA ESPERANÇA NO PORVIR...

-----...porque sempre fomos um povo confiante no seu destino, mesmo que este, por vezes, nos goste de pregar partidas, e que partidas!
-----No Negage, a confiança está em alta graças ao esforço das autoridades locais visando restabelecer a ordem e a segurança de pessoas e bens na região, pelo que os empreendimentos iam surgindo em catadupa! Com a realização da 1ª. Exposição-Feira de Actividades Comerciais, Industriais e Agro-pecuárias do Negage, deu-se a abertura de novos empreendimentos, tais como o novo Cine Teatro do Negage, Estádio "João Ferreira", do Sporting Clube do Negage, o novo Hotel Residencial do Negage, o "Tambuazo", a nova Igreja de S. José Operário, a Escola Comercial e Industrial, o Banco Comercial de Angola - Delegação do Negage, bairros residenciais que se vão expandindo, novos estabelecimentos comerciais, asfaltagem de todas as vias da novel cidade - porque foi digna dessa honra, por decisão governativa - e o embelezamento das ruas e avenidas, com a colocação de palmeiras que lhes dão uma beleza impar, indústrias que se vão estabelecendo e dão uma insufismável e derradeira prova de que os Portugueses vieram mesmo para ficar.

AS CUCAS... AS NOCAIS...AS SAUDADES




-----De vez em quando, muito de vez em quando, sinto um certo peso no estômago, como se acabasse de beber uma "bazuka" gelada, acompanhada por um magnífico prato de marisco, não daquele que o bom Rei Eusébio consagrou, mas tão só um magnífico e bem fresquinho camarão, apanhado horas antes nas tranquilas águas Angolanas.
-----Porque falo em "bazuka", claro que terei de lembrar também as cervejas da CUCA e da NOCAL, até porque a maior publicidade que vi a estas marcas provinha de histórias que o Povo - o bom Povo de Angola - ia contando nas banjas onde me deslocava, por vezes, a convite de um Soba ou de um amigo dos muitos que deixei por lá. Não sei até que ponto não seria fantasia de algum fulano que pretendesse fazer propaganda ao seu produto, em detrimento do da concorrência, mas afirmava-se que "A CUCA AJUDA A UPA!" concluíndo-se logo após que "A NOCAL... AJUDA PORTUGAL"!
-----Não sei até que ponto esta propaganda seria "publicidade enganosa" ou não... mas aquilo que se veio a constatar é o facto de a CUCA ainda se mantêr em laboração plena, com boa implantação no mercado Angolano, ao mesmo tempo que a NOCAL desapareceu por completo... tendo surgido a novel "N'GOLA" como herdeira das tradições cervejeiras que seriam da NOCAL. É que a fábrica existia, ficou em solo Angolano, não lhe acontecendo qualquer contratempo até à data da independência. Depois desta acontecer, poderá muito bem ter sido mais um "espólio de guerra" desviado para Cuba, como recompensa dos serviços prestados pelos seus "conselheiros" culturais e políticos, o mesmo que dizer "SOLDADOS CUBANOS".
----- Terá havido alguma verdade naquelas histórias espalhadas por toda a Angola de que a CUCA apoiava os terroristas de Holden Roberto, no início da luta armada, quando os bandos demandavam as terras do Uíge semeando o terror? Não quero acreditar ter alguma vez Manuel Vinhas pactuado com tal infâmia, pois era por demais um Homem íntegro e probo, que poderá ser acusado de muita coisa, mas de traição, jamais.
-----Agora basta-nos a memória dos petiscos bem regados com cerveja, predominando aquela cujo sabor seria mais próximo da nossa tradicional "SAGRES", que nunca poderei afirmar ser uma ou outra, porque antes de ir para Angola nunca tinha bebido cerveja... e depois de regressar nunca mais a bebi. Havendo tão bom whisky em Angola - que também o fabricava na sua fábrica do Lobito, a SBELL - e a preços tão convidativos... era um crime não beber um um trago, com uma ou duas pedrinhas de gelo... que saudades, meu Deus!
-----Estou convicto de que alguns dos que me lêem terão a mesma opinião... mas uma "loirinha", Cuca ou Nocal não importa, com uns "jaquinzinhos" ou uma "dobradinha", ao fim da tarde, sentado na explanada do "Estrelas" ou do "Avenida", no Negage, ou em Luanda, na "Portugália", na "Mexicana" ou na Ilha... acreditem que mesmo com os tremoços - o tal marisco do Eusébio - eu mataria as saudades que me ficaram daqueles tempos, pois sei serem estas uma parte de mim que jamais olvidarei.

terça-feira, 6 de novembro de 2007

ESCREVENDO AO SABOR DA PENA...

.... Quando, num dia já bem distante, cheguei ao Negage, não julguei ser possível encontrar uma tão grande convivência entre os elementos étnicos que constituíam os seus residentes, tendo-se em conta tudo aquilo que era voz corrente ouvir-se no Portugal Metropolitano - o "Puto" no dizer dos autoctónes - ao afirmar-se que os pretos seriam apenas uns meros animais tratados à chibata, certamente porque seriam também uns deres despojados de alma e sem nenhuma compreensão das coisas que os rodeavam...
.......e foi, por acaso naquele preciso momento em que pisei o solo Angolano, que concluí não ser possível aceitar-se como saídas de "gente" como eu, que me presumo alguém dotado de cabeça para pensar por mim próprio e de olhos para vêr com clareza que aquele era um Povo que, pondo-se de parte a sua coloração ou a pigmentação da sua pele, seria tão digno de um tratamento como pessoa humana, que o era, em absoluto, com as suas alegrias ou tristezas, as suas qualidades ou defeitos, as suas convicções ou dúvidas, a sua capacidade para amar ou odiar, que dedicava ao trabalho toda a sua vontade e honestidade, quando empenhado nesse mister, pois também constactei haver enorme predisposição para a fuga ao trabalho por parte de grande maioria dos homens do Norte, pois essa tarefa era normalmente desempenhada pela mulher, a quem competiam as tarefas do campo... e não só. Talvez seja a razão porque se não viam no Norte as tradicionais hortas, onde as populações negras podiam colher os produtos necessários ao complemento da sua alimentação. O pouco milho colhido era realmente pouco, pois não se preparava a terra para o efeito.
....O homem negro do Norte de Angola sempre viveu de expedientes vários, não raras as vezes à margem das leis vigentes.
....Quando fui para Nova Lisboa, para fazer o Curso de Sargentos Milicianos (CSM), na Escola de Aplicação Militar de Angola, tive oportunidade de verificar que a realidade das relações do homem negro com o trabalho eram bastante diferentes no Sul. Estava esclarecido quanto ao motivo porque os fazendeiros do Norte mandavam vir do Sul os trabalhadores para as suas propriedades, especialmente os de etnia Bailundo. Estes eram trabalhadores, leais, dignos de confiança e dotados de uma bondade a toda a prova. No Norte o homem preto mostrava alguma sobranceria para com os do Sul... tal como faz com os brancos. E a razão para haver esta maneira tão diversa de comportamento estará relacionada com a revolta do povo Bailundo, acontecida porque estes estavam fartos de que, pelas autoridades, lhes fossem impostas quotas de produção e tivessem obrigatoriedade de produzir algodão nos campos que cultivavam. O Rei mandou então um vapor com Caldas Xavier e 100 homens, devidamente armados e montados a cavalo, que tinham por missão a pacificação do território amotinado. No entanto...estes soldados e os cavalos foram adoecendo, ao longo da viagem, e quando chegaram a Luanda, não havia metade de homens e animais válidos, capazes de se deslocarem para a luta, tendo então recorrido ao auxílio de homens do Norte, bastante bem pagos para isso. Aproveitou-se Caldas Xavier se serem estes homens do Norte figadais inimigos dos Bailundos, não morrendo também estes de amores pelos homens do Norte, que lhes raptavam os jovens do Sul para venderem nos mercados de escravos.
....Julga-se assim explicado o motivo porque os Bailundos se voluntriavam para integrar as fileiras do Exército Português, em Angola, pois assim podiam vingar os seus mortos feitos no período da revolta do algodão. Talvez seja esta também a razão porque a UPA tinha os Bailundos por inimigos, tão ou mais merecedores de sofrer a morte que os colonizadores brancos... especialmente se estes eram Portugueses.
....Curvo-me, reverente e respeitoso, perante a memória de alguns milhares de Homens e Mulheres cujo único crime foi o de serem Bailundos. No Negage e arredores bastas vezes ficou demonstrado serem estes pessoas de grande alma e dignidade! Foram, certamente, os melhores de muitos de nós, sendo essa a razão porque pereceram. Restará a consolação de que não haverá discriminação étnica no Céu, tal como não há brancos e pretos, vermelhos e amarelos, mas sim HOMENS e MULHERES que viveram a sua vida com aquela dignidade de ser que alguns lhes não queriam reconhecer.

sábado, 27 de outubro de 2007

JOÃO FERREIRA??? 100 COMO ELE!!!

---------------------------- Espalhando o café no terreiro, para a seca -
MMMM Começo a sentir algumas dificuldades em conseguir traçar o verdadeiro perfil do João Ferreira, o degredado que se tornou "dono" de um enorme império no Norte de Angola, império esse que se estendia por todo um vastíssimo território que se estendia por toda a zona que abrangia o Vale do Lodge (ou Loge), passava pelo Úcua, pelo Bembe, Quimaria, Quedas do Duque... e por aí fora, pois diz-se que nem ele saberia aquilo que tinha em fazendas espalhadas por essa terra de Deus a que um dia foi obrigado a chegar, por via da pena de degredo a que, muitos anos antes, havia sido condenado.
mmmm Já aqui tive a oportunidade de contar uma história relacionada com um transporte de dinheiro, mas agora vou contar outra das mil e uma historietas dessas muitas que sobre este homem são contadas... ou que ele mesmo conta, uma vez que nunca se coibiu de publicitar algumas das suas façanhas mais sórdidas, escondendo deste modo aquelas em que poderiam atribuir-lhe alguma probidade de carácter. Maneiras de estar na vida.
MMMM O João Ferreira, um certo dia, deslocou-se a Luanda, porque teve premente necessidade de efectuar o pagamento de uma fazenda de sisal que havia apalavrado para compra, antes que alguém lhe estragasse o negócio. Como tinha alguns afazeres no itinerário que ia seguir, utilizou a sua Peugeot, uma carrinha de caixa aberta que o transportava para todo o lado, para a caça, para os mercados do café ou do sisal, para os comércios gerais que tinha espalhados um pouco por todo o lado, ou para a capital angolana, onde preferia utilizar aquele meio de locomoção, pois não gostava mesmo nada de utilizar os maxibombos de Luanda, uma vez que, como era analfabeto, tinha dificuldades em saber para onde eles se dirigiam.
MMMM Solicitou no Banco Comercial de Angola a importância que mecessitava para o pagamento, mas o funcionário que o atendeu, vendo como o cliente se apresentava vestido, torceu o nariz e chamou o gerente, para que este providenciasse que o velho sebento e mal vestido fosse para a rua. É que o João Ferreira vestia sempre - ou quase sempre - umas velhas calças de fazenda grosseira, uma camisa xadrês, bastante puída no colarinho, um pullover em malha cinza/acastanhado, com malhas soltas, um velho chapéu de abas na cabeça, muito ensebado, e, pelos ombros, uma velha samarra com gola em pelo de raposa, presumívelmente enviada da Metrópole por algum amigo ou familiar, fazia séculos. O gerente surge e convida o milionário a saír, senão teria de chamar a Polícia. O João Ferreira ri-se e pergunta-lhe se não sabia mesmo quem ele era, e voltou costas, dirigindo-se para a porta. Um funcionário que sabia bem quem era o cliente, alerta o gerente, deixando-o lívido. Este corre para a porta e pede mil e uma desculpas ao João Ferreira, que as aceitou. Num pedaço de papel escreveu a importância que pretendia levantar... que correspondia exactamente ao dinheiro que ali havia sido depositado por ele. O gerente empalidece e, gaguejando, informa que apenas poderá satisfazer um pedido daquela importância dentro de três dias, no mínimo, mas o João Ferreira diz-lhe que o dinheiro tem que estar na sua posse naquela tarde, pois voltaria logo após o almoço para o levantar. Acto contínuo, dirige-se ao Hotel Mundial, onde pediu um quarto onde descansar umas horas, dado o desgaste tido na viagem, mas o recepcionista avisa-o que não pode ceder-lhe um quarto, porque não estava vestido de modo a que pudesse frequentar aquele hotel. O João Ferreira barafustou de imediato, pelo que o gerente do Hotel chamou as autoridades e pediu para colocarem o nosso homem na rua. Então... ele não esteve com meias medidas: Informou-se sobre a quem pertenceria o Hotel e disseram-lhe que era da Companhia de Seguros Mundial, representada pelo Banco de Angola, onde se dirigiu e... comprou o imóvel. Volta então à recepção, onde o recepcionista volta a chamar o gerente. A este, o João Ferreira apenas disse: - "Faça o favor de ir pedir que façam as contas deste senhor - e apontou o recepcionista - peça também as suas e desapareça-me da vista, que não o posso vêr! ". E dito isto, voltou costas e entrou pelo Hotel dentro. O Gerente chama a Polícia e estes pediram a identificação ao João Ferreira, que a mostrou com um sorriso nos lábios, virando-se para eles e perguntando-lhes porque raio estariam a incomodá-lo por ele estar a mandar dois indesejáveis para a rua, pois estavam num Hotel que era dele... e ele não os queria ali. O gerente nem sabia o que dizer, tal como o Recepcionista, mas lá foram pedindo desculpas, muito atabalhoadamente... que o João Ferreira não aceitou. Informou-os então que havia comprado o Hotel apenas para poder ter o prazer de os mandar para a rua, tal como lhe haviam feito a ele pouco tempo antes.
MMMM Quanto ao Banco, bem tentaram eles que o João Ferreira mudasse de opinião e mantivesse o dinheiro na conta, mas ele foi inlexível. Retirou o dinheiro... e fundou então o Banco Comercial e Industrial de Angola, a partir da importância que retirara do BCA... que só não fechou porque Angola era rica e chegava para todos. Pagou a fazenda nova, o Hotel e abriu o Banco!
MMMM Mas ainda aconteceu um outro episódio, ligado a este que relato. Quando o Banco fechou as contas do dia, deu por falta de um milhão de escudos. Conferiram, voltaram a conferir e concluíram que só poderia ter sido o João Ferreira a levantar aquele dinheiro, por um erro do Caixa, pois o João Ferreira jamais conferia aquilo que levantava. O Caixa meteu-se então num táxi aéreo e voou para o Negage, onde teve que esperar pelo João Ferreira, que havia seguido via terrestre. Quando o João Ferrira chegou, era já noite, viu o Caixa à sua espera e perguntou-lhe se houve algum problema no Banco que o tivesse feito chegar ali tão depressa, sendo então informado da falha encontrada nas contas da caixa. O pobre do homem chorava de forma desconsolada. O João Ferreira pediu então ao filho Zé Luis para conferir o dinheiro e este confirmou haver ali mil contos a mais. O João Ferreira pegou então nos mil contos e outro pacote com 100 contos, entregando-os ao homem com estas palavras: - "Diga lá à sua gente que eu não quero o mal de ninguém nem quero o que não me pertence, mas não permito que um sacaninha, como foi o gerente, me faça ameaças com a Polícia! Leve lá o vosso dinheiro e leva mais este - referindo os 100 contos - pague o táxi e fique com o resto para o ajudar a recuperar do susto que teve! Bom regresso e quando quizer mudar de emprego no Banco vá ao novo Comercial e Industrial, que vou abrir brevemente, pois eu necessito de pessoas de confiança, e parece-me que você o é." O caixa não queria acreditar na sorte, creio bem, pois quem ouvia o João Ferreira temia-o e quem ouvia falar dele respeitava-o só pelo nome, que ecoava de Norte a Sul de Angola. No entanto, pela fama que foi grangeando, muitas vezes se ouvia: "O João Ferreira? Arranjem mais 100 como ele e esta Província não precisa de mais ninguém! É um Homem diferente, que não tem medo de se assumir!"
MMMM Era assim o João Ferreira, um homem rude mas justo como nenhum!

quarta-feira, 24 de outubro de 2007

CAFÉ DO UÍGE... OURO DO UÍGE...

------- Não é fácil não se associar o café ao Uíge, nem o Uíge ao café, tão indeléveis são as marcas deixadas por uma das maiores riquezas algumas vez cultivadas em solo Angolano. Porque os diamantes das Lundas ou o petróleo de Cabinda, sendo igualmente riqueza extraída do ventre da terra, não são o produto de uma plantação que se tenha feito, sujeita às vicissitudes do tempo... que, felizmente, foi sempre bastante favorável à produção desse autêntico tesouro que era produzido nas terras do Norte de Angola.
---------Angola é uma terra com grande diversidade climatérica, pedológica e biológica, sendo que as actividades agrárias são bastante intensas, quer por parte das populações indígenas, que trabalham a terra com as suas formas tradicionais, produzindo uma agricultura de subsistência, mas os colonos vindos do exterior aplicam técnicas completamente diferentes, mais voltadas para o rendimento pecuniário retirado daquilo que as terras lhes dão. Angola tornou-se de tal modo num produtor e exportador com algum relevo, especialmente nos produtos vegetais e animais. Cerca de 80% da população angolana vive da agricultura, estimando-se que a terra arável tenha atingido 5 a 8 milhões de hectares, mas no momento actual estará apenas 3% desta terra a ser cultivada, mercê do êxodo maciço dos portugueses e muitos angolanos, após a independência do país e por via da guerra civil. Alguns produtos do reino vegetal angolano, que traziam riqueza e prestígio comercial a Angola eram o café, as madeiras, o algodão, o sisal e o tabaco, citando só os mais importantes.
---------Durante o período colonial, o café, nomeadamente o "robusta", deu a Angola o 3º. lugar entre os maiores produtores: - Em 1973 foram exportadas 220 mil toneladas, produzidas em cerca de 3.000 plantações, a maior parte localizada nas províncias do Bengo, do Uíge, de Cuanza Norte e Cuanza Sul. Após a independência, a maioria das plantações, abandonadas pelos proprietários quando da eclosão do terrorismo, foram nacionalizadas e distribuídas por 33 empresas nos primeiros anos da década de 80, sem que disso resultassem melhorias na produçã, que foi de menos de 24 mil toneladas , em 1981, e 11 mil em 1984. Desde Julho de 1989, a queda dos preços do café no mercado internacional, com o colapso do sistema de quotas de exportação da Organização Internacional do Café, prejudicou muito a situação: 5 mil toneladas em 1991 e apenas 3 mil em 1993. Os rendimentos do café em Angola, que eram de 164 milhões de dólares no início da década de 80, não atingia os 4 milhões dez anos depois.
----------A mina de ouro negro que era o café de Angola, parece ter esgotado, restando-lhe agora o outro ouro negro saído dos mares de Cabinda... mas isso é outra história.

REPENSANDO A GUERRA EM ANGOLA

----* Há muitos Portugueses, daqueles que, um dia, partiram do seu torrão natal para socorrer gentes que, lá longe, nas terras longínquas de África, lutavam pela sua sobrevivências, vitimados por acontecimentos que os ultrapassavam completamente e de que nem sequer conheciam o real significado.
----* Soldados, aviadores e marinheiros, irmanados num enorme sentimento de SERVIÇO À PÁTRIA, combateram em África de uma forma a todos os títulos valorosa, apenas irmanados na obediência e no imperativo que era o cumprimento do dever, com fidelidade ao instinto vital de independência que constantemente é apanágio da alma milenar da GREI. Mas é possível sentir-se hesitação perante uma interrogação que nos brota de dentro do peito: EM BOA VERDADE...PARA QUÊ LUTAR?!...
----* No entanto... a resposta é simples, bem pertinente e muito clara: - DURANTE 13 ANOS PORTUGAL DEFENDEU-SE EM ÁFRICA PARA:
- Cumprir um inalienável dever de protecção às vidas e bens dos Portugueses de todas as etnias;
- Escorraçar do solo pátrio os abutres que vão esvoaçando procurando apoderar-se de uma valiosa herança de muitas gerações de Portugueses;
- Perservar toda a dignidade, grandeza e honra de uma Nação quase milenar, barrando os passos agressores que nos chegam do exterior, instigados e armados por potências estrangeiras. batendo-se as nossas Forças Armadas nas províncias africanas de Portugal com a mesma legitimidade com que um dia o fizeram em Ourique, na luta contra os Mouros, em Aljubarrota, contra os Castelhanos ou no Buçaco, contra os Franceses... tal como já o haviam feito na expulsão dos Holandeses de Angola.
----* Os Militares Portugueses defenderam uma Pátria enorme na sua dimensão geográfica, rica na abundância e variedade dos seus enormes recursos, respeitável e respeitada na profunda originalidade da sua maneira de ser e estar no mundo.
----* Em Angola, os 13 anos de guerra defensiva constituem autêntica epopeia, que tem sido escrita com sangue, suor e lágrimas vertidos por Homens das mais diversas ideologias, por Militares e Civis brancos, pretos ou mestiços, vindos da Madeira, dos Açores, do Algarve ou do Minho, de Angola, Guiné ou de Moçambique.
----* A permanência assaz teimosa dos Portugueses no Noroeste de Angola, onde se despediam dos amigos com um simples "até amanhã!", era o cúmulo do optimismo, alicerçado com a temerária marcha do Alferes Robles, com 20 Soldados do seu Pelotão, idos de Luanda a Carmona logo após os massacres de 15 de Março de 1961; com a formidável resposta das populações de Carmona quando do 1º. e único ataque do inimigo; a defesa de pequenas povoações isoladas, como o foi a Damba, o Quitexe, Aldeia Viçosa, Vista Alegre, Úcua ou Samza Pombo; a cena fantástica do épico içar da Bandeira Portuguesa na reconquistada Nambuagongo; o esforço extraordinário e magnífico da Aviação Militar e Civil, na evacuação dos feridos, no abastecimento de véveres às populações e o municiamento das Unidades Militares ali aboletadas, as acções heróicas das arremetidas dos "Comandos", "Páras" ou "Fuzos" Especiais, que em terras de Angola escreveram a ouro páginas inimagináveis de heroicidade, valor e sacrifício da própria vida, pois os melhores de entre eles deram-se em holocausto total da sua vida! Para eles Honra e Glória!
----* Os Portugueses não são gente que goste de se abstraír do seu dever para com os outros. Quando e sempre que necessário, eles dão a resposta que a sua generosidade lhes permite dar, mesmo que isso seja o sacrifício máximo concedido por um ser de excepção: A MORTE!

sábado, 13 de outubro de 2007

NEGAGE... DO NADA SE FEZ CIDADE - IV

g ... alguma vez teria de ser possível compreender o industrial empreendedor, o comerciante astuto, o caçador destemido, o Homem para lá da sua capa de duro, que pretende dar uma imagem de insenssibilidade para quantos o conhecem... mas é uma coração de ouro que não faz mal a ninguém... por bem.

g * Como disse em crónica anterior, João Ferreira constituíu-me seu "confidente" de ocasião, pelo que o fui entendendo cada vez mais à medida que ia ouvindo a narrativa da sua vida contada pelo próprio. Mas também procurei saber junto dos filhos e amigos até que ponto haveria alguma veracidade naquilo que ele me contava... e vim a saber pormenores deliciosos sobre a sua personalidade

g * Certo dia , estando a decorrer o mercado do café, o João Ferreira deslocou-se a Luanda, para efectuar algumas compras, pagamentos a fornecedores... e levantar uma importância em dinheiro, para o filho José Luis pagar o café adquirido no mercado. João Ferreira foi ao parque onde as suas camionetas estacionavam, normalmente. Perguntou ao vigilante qual era a camioneta que estava para partir para o Negage, este indicou-lha o veículo, onde João Ferreira colocou um embrulho de jornais entalado na corda que prendia o oleado, após o que, sem dizer água vai a ninguém, se retirou.

g * A camioneta partiu para o seu destino, sem dar conta de nada. Já quando subia para Salazar, as viaturas que faziam o trajecto em sentido contrário não paravam de fazer sinais ao motorista, que acabou por encostar e foi vêr o que se passava. Olhou para a carga e não viu qualquer anormalidade, pois o oleado estava no sítio, as cordas apertadas... o que seria que os colegas lhe estavam a querer dizer? Será que estavam "turras" nas imediações? Não era a primeira vez nem seria a última. Enquanto fazia estas conjecturas, um outro camionista parou um pouco adiante e veio até ele trazendo um pacote, embrulhado em jornal, nas mãos. - "Olha, pá! Pediram-me para te entregar isto, que caíu da camioneta! É coisa leve, não parecendo haver nada partido! Onde raio é que transportavas isto?". O camionista nem sabia o que dizer, pois não tinha conhecimento do que seria o embrulho nem quem o teria ali colocado. Agradeceu e dirigiu-se para a sua viatura, para continuar o caminho, pois queria evitar chegar noite ao Negage.
Sentou-se ao volante e resolveu verificar o conteúdo do embrulho. Qual não terá sido o espanto quando descobriu uma caixa de sapatos cheia de notas do Banco de Angola, muito direitinhas, novinhas em folha, cintadas "de fábrica"... que se podiam ter perdido se não fosse um colega passar por ele no momento em que o embrulho saltou da camioneta. Só podia ter sido o patrão... mas ele foi a Luanda, colocou o dinheiro na camioneta... e não disse nada? Quando chegasse ao escritório, o patrão João tinha que o ouvir, pois aquilo não se fazia,

g * Se bem o tinha pensado, melhor o fez. Como o Patrão tinha vindo de avião, a viagem foi mais rápida, como é evidente. O motorista, entregando a caixa embrulhada em jornal ao José Luis, perguntou ao João Ferreira: - "Patrãozinho, desculpe lá a pergunta: Não havia possibilidades de me entregar a caixa em mão? É que se não têm visto a caixa caír da camioneta, que me foi entregue por um colega a quem um outro havia dado para que ma entregasse, não sei o que seria agora de mim! Quanto dinheiro é que o senhor mandou na caixa?". - "Eram apenas 15.000 contos! Chegaram todos, não foi? Então está tudo bem!" - respondeu-lhe o João Ferreira, com a maior naturalidade do mundo - "Olha aí, ò Zé Luis: passa cá um maço para mim!" . O filho passa-lhe um maço de notas, que ele entrega ao motorista, dizendo-lhe: "Vai buscar a outra camioneta que tem estado a arranjar, paga o conserto e o resto é para pagar o susto!". Muito confuso com aquilo tudo, foi à oficina buscar a camioneta, que tinha mudado o compressor e os ferodos dos travões, pagou... e ficou a olhar para o resto do dinheiro: O JOÃO FERREIRA DERA-LHE 50 CONTOS DE REIS, e mais uns trocados, por causa da cena do dinheiro no cordame do oleado, mas não lhe pediu desculpa, tal era o orgulho! O que valia era ele ter coisas destas, que apagavam os maus momentos que ele lhes fazia passar.

g * Dias depois, entre dois dedos de conversa e um café no Avenida, o João Ferreira lá lhe confessou ter colocado o din heiro entalado nas cordas, sem nunca ter pensado na possibilidade de eles caírem... como já lhe havia acontecido noutra ocasião, mas desta vez perdeu-se parte do dinheiro, que vinha só embrulhado, sem caixa de cartão para o proteger... pelo que voou. Mas como tinha sido na sua carrinha, foi com ele não houve problema.

g * Mas as aventuras de João Ferreira continuam... sempre ligadas ao dinheiro... e não só. Depois eu conto, tá?

quarta-feira, 26 de setembro de 2007

PASSEIO EM HARWARD T- 6 G...

Se alguma vez me dissessem que viria a ter a subida honra de "voar" pelas terras da guerra cavalgando um "bicho" chamado T-6... não acreditava , de todo, e pensaria que alguém estava a brincar com a minha proverbial "boa vontade". Não porque tal fosse impossível de acreditar, mas tão só porque o "animalejo" era um bilugar e não me via a substituír o Mecânico numa qualquer missão que houvesse para realizar.
Mas... porque estou para aqui a falar de algo que não lembra ao Menino Jesus? Quando os Nord, os Dakota ou algum outro avião de passageiros viesse até ao Negage, levaria quem houvesse de transportar e não se falava mais do assun... pensava eu, na minha boa fé. Um dia, estava eu à pouco mais de 2 meses na Unidade, fui chamado à Secretaria do Comando. Colocaram-me uma Guia de Marcha na mão, dois envelopes enormes e disseram-me apenas: "Às 08H30 na Placa! Não chegues atrazado, pois o avião tem outra Missão a cumprir!". Como se compreenderá, logo pela manhã fui até à Placa de estacionamento e procurei saber quem era o Piloto que ia saír e qual o avião. Soube que havia vários voos previstos para essa manhã, quase todos para o Toto, pelo que teria de esperar para saber quem me saira na rifa.
Quase em cima da hora, o Sargento Ajudante Piloto Ferdinando Antunes Caixas chamou por mim e pergunta quantos "passeios" já tinha feito em T-6. Quando lhe disse ser uma estreia absoluta, ri-se com vontade e diz para não ter receio, pois umas cervejas resolveriam todos os problemas. Não respondi, mas compreendi que ele entendia ser o momento para se cumprir o velho código: "VOMITAS... PAGAS E LIMPAS!" Esta era uma prática com muitos anos e eu estava bastante bem avisado para ela. Sabia que teria de aguentar e não dar parte de fraco... mesmo que fosse "provocado", e a provocação era fácil para o Piloto: umas voltas mais puxadas, com "toneaux", "looping" e outras brincadeiras capazes de pôr as tripas de um santo fora da boca... e lá está o "pagante" a "chamar pelo Gregório"! Quando fomos para o ar, fiz de conta que ia passear na carrinha da Unidade, que os buracos da estrada seriam os correspondentes "poços de ar" ou coisa que se parecesse. O Caixas foi chamando a atenção para os animais que se iam avistando, nomeadamente algumas corsas, uns quantos elefantes e outros mamíferos da fauna local. Era interessate fazer-se este safari aéreo, apesar de o coração bater descompassado quando pensava no local onde me encontrava. Era ali o coração da guerra! Nem queria pensar no que poderia acontecer se houvesse necessidade de aterrar naquelas paragens. É que havia os animais selvagens, mas também humanos que seriam mais selvagens que os animais, por aquilo que se sabia ter acontecido e continuava acontecer por parte dos "turras" da UPA. Quando o avião fez a aproximação à pista do Toto, um sentimento de alívio era latente... tal como o desalento do Piloto Ferdinando Caixas, pois não havia conseduido os seus intentos: BEBER UMAS CERVEJOLAS À PALA DO BICO DE PATO... que até se portara à altura, diria ele de si para si.
Dirigi-me à pseudo Secretaria do Aeródromo de Manobra nº. 32, onde entreguei a documentação trazida - que até nem era assim tão importante, pois tratava-se dos vencimentos de 3 meses do pessoal em serviço naquela Unidade - e pedi que me fosse carimbada a Guia de Marcha, para que partisse logo que o meu "transporte" chegasse. O Sargento das Comunicações disse para ir dar uma volta, pois o Caixas só iria embora depois do bombardeamento que foi fazer. Tinha tempo para passear, almoçar, dormir uma soneca... que só para o fim da tarde partiria para o Negage. Assim me foi dito... assim o fiz!
Quando regressei ao Negage, vendo a combinação de voo do Caixas completamente encharcada, pensei para comigo: "Este sacana tudo fez para beber uma cervejinha fresca à minha saúde... mas mereceu bem que lhe pagasse essa cerveja! Porque não fazer-lhe a vontade?". E convidei o Ferdinando Caixas para ir comigo beber a tal cerveja, que pagaria com todo o gosto. Aceitou... não deixou que fosse eu a pagar... e arranjei ali um amigo para a vida!
Esta minha primeira viagem, a bordo de um T-6 G, foi realmente uma estreia no voo neste tipo de aeronaves... que me marcou positivamente e me fez respeitar cada vez mais os Homens que os pilotavam e se orgulhavam de dizer que tinham "RONCO FORTE... TROTE LENTO".

...E O NEGAGE JÀ É CIDADE...

... "e não querem lá vêr esta Vilazita sem importância, situada a cerca de 1.300 metros de altitude, num planalto do Uíge... ser cidade? Quem podia pensar numa coisa destas quando, no início dos anos sessenta, ela se viu parangona dos jornais, por motivos tão mais trágicos?" - seria o comentário mais capaz de ser ouvido, a partir do momento em que se soube que a Vila do Negage, situada no Norte de Angola, na Província do Uíge, era elevada à categoria de cidade, por proposta do Governador Geral de Angola, ouvido o Conselho Provincial de Angola e o Governador de Distrito do Uíge.
Não pode deixar de se recordar o que foi a luta deste Povo, as suas angústias, a coragem de voltar a colocar as mãos numa terra que sentiu derramado o sangue generoso de tantos entes queridos que foram mortos pela barbárie terrorista e assassina dos assassinos da UPA, naqueles anos de inicio da guerra travada no antigo Ultramar Português. Porque acreditaram ser possível fixarem-se nas terras que serviram de tumba aos seus antepassados, lutaram com convicção, cientes de que iriam voltar a ser felizes. O corolário da sua coragem para lutar pela terra que desejaram sua, estava para ser concretizado com a elevação a cidade. Quando o Governador Geral, Rebocho Vaz, se deslocar ao Negage para inaugurar a Exposição Feira Agro Pecuária, Comercial e Industrial do Negage, será o primeiro Governador de Angola a visitar a novel cidade!
Num pequeno exercício de auscultação ao que sente o Povo neste momento tão importante para a vida do Negage, encontramos de tudo um pouco:
- "Merecemos este prémio, que premeia os momentos de horror porque passámos!";
- "Se o meu pai tivesse sobrevivido ao ataque, como estaria feliz!";
- "Dá vontade de chorar, pois o momento em que nos dão esta honra jamais será esquecido! Valeu a pena o esforço e a vontade de ficar!".
Esta é a voz de alguns daqueles que construiram a Cidade do Negage, que fizeram desta terra um local onde apetece viver. Recordam-se os que partiram, mas enaltece-se o esforço de quem ficou, com confiança redobrada nos destinos deste pedaço de terra mártir. No anais da cidade do Negage perdurará o nome do velho Ginja, do João Ferreira, filhos e netos, do Fernando Santos e da enorme prole que deixou, da Família Fernandes, do Ramos da Administração, do Administrador Reis Santos, dos Baganhas, do Dr. Carvalhosa, o Professor que educou meio Negage... e tantos outros homens, mulheres e crianças que deram sentido e coração a uma cidade que lhes foi suscitada no dia-a-dia das lutas pela sobrevivência naquelas terras que aprenderam a amar, que sentiam como sua, mesmo que oriundos de um distante rincão natal situado algures na Metrópole.
O Negage não é mais aquela vilazinha atravessada por uma extensa "avenida" de terra batida, onde se viam casas de adobe bastante viradas para uma ideia de "cubata" mais elaborada, com um pouco de "civilização" no facto de terem levado um pouco de cimento nas paredes, com utilização de uma esponja e alguma tinta branca para as pintar. O Negage é agora uma cidade "moderna", uma cidade virada para o futuro. Começa a sentir-se vontade de fazer "coisas" nesta terra, pois não é por acaso que se constrói um novo e bonito e bem apetrechado cine-teatro, um hotel que orgulha qualquer cidade do mundo, dois estádios de futebol com as melhores condições para a prática da modalidade, uma modelar e bem equipada Escola Comercial e Industrial... não é isto sinal de progresso?
A Cidade do Negage está aí... aberta a novos empreendimentos, a novas indústrias e comércios, a novos centros de lazer e bem estar, parques, jardins, avenidas, ruas... mas fundamentalmente ao amor daqueles que a desejam uma cidade feliz!

domingo, 16 de setembro de 2007

O NEGAGE...

... é uma terra a ressurgir do pesadelo causado pelo terrorismo da UPA/FNLA. Há no ar um sentimento de decidida vontade em dar a volta aos momentos em que se acreditou haver chegado ao fim a aventura Angolana. A chegada das Unidades Militares veio restituír a confiança àquelas pessoas que haviam enfrentado as hordas ululantes de bandidos brandindo catanas e canhangulos... e haviam sobrevivido graças à heroicidade de uns tantos que não se vergaram às investidas dos "turras".
O velho Ginja, quase centenário pioneiro, o Fernando Santos, dos mais antigos naturais, os Sr.s Fernandes e Manuel Agre, o Horácio da Papelaria 13 e o irmão, o Valadares da Escola da Condução, o Manuel Ribeiro Manso, fazendeiro e comerciante, o Professor Carvalhosa, do Colégio do Negage, o Faria do cinema, o Padre Pires, do Movimento AFRIS, os Missionário Capuchinhos, Padres Fortunado Agnoletto da Costa, Prodóscimo de Pádua ou Agatângelo, os irmãos Baganha, da Câmara e do Aeródromo Base nº 3, o Sr. Paula do Registo Civil, sem esquecer o "lendário" João Ferreira, "alma mater" daquela comunidade mártir, que soube reerguer-se das sequelas da bárbara agressão que contra ela foi cometida. O Administrador Reis Santos também é de referir como alguém que soube resistir à matança perpetrada pelos biltres que ousaram tentar destruír aquela comunidade.
As estradas vão sendo asfaltadas, vão-se instalando novas empresas, constuíu-se o Bairro de Oficiais e Sargentos da Força Aérea, procedeu-se à abertura dos Clubes e Messes do AB3, ponstruiram-se novos campos de futebol e um campo de tiro, organiza-se a 1ª. Exposição Feira das Actividades Económicas do Negage, constrói-se uma nova Central Eléctrica bem como a nova Igreja de S. José Operário e o novo Cine-Teatro do Negage, como resposta deste Povo aos cobardes mandantes do vil e criminoso ataque feito contra esta promissora terra: - Viemos para o Negage para ficar, porque o Negage é uma parte inalienável de Angola... e esta ainda é Portugal!
O Negage orgulha-se das gentes que constituem o seu património humano, pois é com Portugueses como estes, "com o peito às armas feito", que se poderá construír uma Angola capaz de ser exemplo para o mundo!

segunda-feira, 10 de setembro de 2007

ANGOLA... NA HISTÓRIA E NA LENDA - II

Em Angola têm-se descoberto importantes vestígios de antigas civilizações, como será o caso de Galanga, em Cassongue, no Quanza Sul, a cerca de 120 Km. de Nova Lisboa, a actual Huambo. Foram alí encontradas pinturas rupestres, alguns utensílios e um ossário datados de um período situado entre 2.115 e 6.000 anos a.C., ou seja da Idade da Pedra.
No Monte Negro, no extremo Sul de Angola, a escassos 300 metros da margem direita do Rio Cunene, foram também localizadas pinturas efectuadas na rocha, que se supõe remontarem igualmente à Idade da Pedra, embora o local tenha sido frequentado até épocas bastante recentes. Também perto do Lubango, em Capanhongue, foi descoberta uma estação paleolítica com milhares de instrumentos, que parece indicarem a existência de uma cultura própria, talvez semelhante à que foi encontrada na Namíbia. As pedras furadas encontradas na Lunda têm características bastante semelhantes às que têm sido encontradas noutros Continentes e em toda a África, desde o Egipto à África Sul. Muitos dos achados arqueológicos, designadamente as pinturas rupestres de Caninguiri (10.000 a.C.), do Congombe, Benfica, Farol das Palmeirinhas, Tchitundo-Hulo (3.000 a.C.), Macahama, Quibala, Bembe, N'Zeto, Negage, Samba Cajú e outras, demonstram que o território Angolano foi habitado desde tempos imemoriais, de Cabinda ao Cunene, do Miconge ao Cassai ou à Luiana.
Os Khoisan - bosquímanes e hotentotes - constitui o grupo humano à mais tempo ocupante do território Angolano, pois ter-se-ão fixado nestas regiões há mais de 11.000 anos. Sabe-se também que os Cuissi ou os seus antepassados habitaram a região do Tchitundo-Hulo, no Deserto de Moçâmedes, que seria então uma região verde, há mais de 3.000 anos.
O primeiro estado conhecido, organizado segundo a estrutura geral da civilização banto, é o Reino do Congo, cuja fundação teria tido lugar no século XIII. Mani Kabunga era o chefe dos chefes dos clãs que habitavam os territórios entre os rios Congo e Dande. Teria, segundo a tradição, sido vencido por Mutino Mbene, o filho mais novo do chefe do clã Bungu, tributário do reino Loango, a Norte do Rio Congo. Mutino teria então casado com a filha do Mani Kabunga, aconselhando os seus homens a casarem com as filhas dos chefes locais. O Reino ficou dividido em províncias: Soyo, Nsundi, Mpango, Mpemba e Mbamba. Cada uma era dirigida por um governador nomeado pelo Rei., cujo poder se estendeu além fronteiras, pois os Reinos de Ocanga, Musuco, Matamba, Dembos, N'Gongo, Kissama e outros eram tributários de facto do Rei do Congo, que governava directamente a província de Mpemba, onde se encontrava a capital.
Como veremos, muita água correu nos rios, muitas gerações se sucederam até que a cidade de São Paulo de Loanda, fundada por Paulo Dias de Novais, viesse a ser a Capital que encanta quem por mar chega à sua maravilhosa baía. A bela cidade de Luanda, que na fotografia se nos apresenta deslumbrantemente iluminada, foi obra de Portugueses, que souberam dar "novos mundos ao mundo!"
Sabemos como Portugal é obra de Portugueses, que souberam deixar a sua marca quando demandaram o mundo "...por mares nunca dantes navegados...", de tal modo que Camões dizia que "...cantando, espalharei por toda a parte o peito ilustre Lusitano, se a tanto me ajudarem engenho e arte!".

NEGAGE... DO NADA SE FEZ CIDADE - III

* Desde o primeiro momento que "aterrei" nas "inóspitas" terras de Angola, das quais temia vir a ter de comparar com as planícies Alentejanas, mercê de tantas descrições que ia ouvindo, aqui e ali, que davam esta terra como "parecida" ou coisa que o valha... mas a verdade é que nada há que se pareça... nem na côr nem no luxuriante da vegetação, que no Alentejo é palha para ceifeira cegar e aui é um pouco de tudo, desde o café ao capim, que se queima para enriquecimento da terra, sem que esta deixe de ser vermelha.
* Uma das pessoas que achei, desde logo, ir ter o prazer de conhecer, foi o João Ferreira, um dos "donos" da terra, cuja fama corria por todas as estradas e picadas de toda a Angola, de "Cabinda ao Cunene".
* Na fotografia pode vêr-se o edifício da Firma "Ferreira & Martins", que era uma das muitas empresas que o dito senhor detinha na Província. Também o local onde se encontra estacionada a viatura, com os homens da Força Aérea a darem dois dedos de conversa a um residente, era um hotel, o "Avenida", pertencente ao mesmo empresário, como, de resto, a maioria do comércio e indústrias existentes no Negage. Mas também noutras localidades... e até em Luanda...
* Perguntará quem me lê: - "Qual o interesse do nome deste homem? Porque se fala tanto dele?". E não deixarei de matar tal curiosidade, contando um pouco daquilo que ele mesmo me relatou, em conversa que tive o prazer de ter com ele, no âmbito de uma entrevista que me concedeu para o Rádio Clube do Uíge, de que fui correspondente durante alguns meses e realizei o programa semanal "Aqui Negage", que estava no ar todos os Domingos, no período da manhã.
* Contava ele: - " Vim para Angola a bordo do navio "Serpa Pinto", por volta de 1954 ou 55. Fui um dos milhares de indivíduos condenados a degredo e enviados para África, mercê de uma sentença do Tribunal da Comarca de Vila Real de Trás-os-Montes, por ter morto um homem numa rixa acontecida nas Festas da Cidade. Fui com a minha noiva até ao Campo da Forca para comprar algumas peças de enxoval, pois estava a pensar casar por aqueles dias e fomos procurar o que faltava. Combinei com a minha prometida qual o local onde iria ser o nosso encontro, assim que estivessem concluídas as compras, decidindo-se que quem primeiro chegasse esperaria pelo outro. Calhou ser ela a primeira. Quando ia a chegar, reparei que ela estava de conversa bastante animada com um magala do Regimento lá da terra, e pareceu-me que havia alguma cumplicidade entre eles. Quando cheguei perguntei a minha cachopa se queria que eu voltasse mais tarde, e ele, o magala, disse logo que era o melhor, pois estava a meter-me na conversa e ele ainda tinha muito para falar com a Idalina e não gostava de ser interrompido.
* Acto contínuo... volteei o varapau que trazia comigo e dei-lhe com ele em cheio na cabeça, pelo que o militar caíu redondo no chão. Veio a Polícia e a minha prometida tratou logo de lhes dizer que eu tinha morto o rapaz por ciúmes e aquelas coisas todas que só as mulheres do calibre daquela poderia dizer, para me enterrar. Como o sacaninha morreu mesmo... fui julgado e condenado ao degredo por 20 anos. Foram cerca de 200 os condenados chegados comigo a Luanda, onde me leram os meus direitos como degredado: - Durante os próximos vinte anos não poderia ser visto em Luanda. Podia ir para osde bem entendesse, mas de Luanda para baixo não! Meteram-me e aos outros em camions, como se de gado se tratasse, e levaram-nos até uma povoação chamada Viana. Aí mandaram saír tudo da camioneta e partir para o Norte. "Para onde quizerem ir "- disseram-nos.
* Dois dos companheiros de infortúnio eram os meus sócios, Manuel Agre e o António Martins. Durante o cativeiro em Lisboa, a aguardar embarque, e na viagem até Luanda, fomentámos uma boa amizade, que nos levou a fazer um pacto: - Nenhum de nós se separaria, fosse em que circunstâncias fosse, e iría-mos fazer tudo o que pudéssemos para tornar a nossa desdita numa coisa boa. Tudo o que pudesse dar dinheiro nos iria unir cada vez mais. Era este o nosso pacto!
* Para não nos perder-mos, arranjámos uns pedaços de madeira, de que fizemos estacas onde foram pintadas, pelo Manuel Agre, as minhas iniciais, as dele e do Martins. Espetámos cada um a sua e fomos arranjando outras, que fomos deixando pelo caminho. Estranhamente, os outros desterrados não se lembraram de fazer o mesmo, mas naquele momento nem eu sabia o que aquilo poderia dar. Fomos caminhando dias sem fim, apanhámos temporais, sol, mosquitos, vimos alguns animais que levaram a que tratássemos de encontrar alguma coisa que nos pudesse dar alguma segurança. Vi os primeiros elefantes e hienas da minha vida, ouvi o rugir de leões, de leopardos... senti algum temor, é certo, mas não mudei de direcção, como outros foram fazendo, acabando por ficar apenas um grupo de cerca de 20 de nós, com dois meses de aventura pelas selvas desconhecidas! Mais algum tempo e chegámos a um aldeamento, onde decidimos parar, pois bastava de caminhar! Do grupo saído de Viana... chegámos 9 ao Negage, onde fomos recebidos pelo velho Ginja, que havia sido o primeiro branco a chegar àquelas paragens!". (Continua)

O NEGAGE... DO NADA SE FEZ CIDADE - II

Muitas vezes me pergunto se os Povos que se dedicaram à tarefa insana de povoar e construír o imenso território a que foi dado o nome de Angola, alguma vez se detiveram para pensar naquilo que esta poderia ter sido se não tivesse acontecido uma mão providencial dos Portugueses na colaboração activa para o seu desenvolvimento, pese embora tudo o que se possa dizer contra a acção dos Portugueses que "colonizaram" o território..
Quem queira olhar para a evolução acontecida em Angola nos últimos 100 anos... pode fazer um exercício de imaginação que os faça passar pelo tipo de habitação autóctone ainda existente um pouco por toda a África: - Vêem-se predominantes as paredes erguidas com adobe de "matope"; com caniço revestido a barro ou as paredes feitas de folhas de palmeira entrançadas com capim, que também é aplicado nas coberturas, tal como o colmo. Foi sendo introduzida alguma evolução nos elementos constructivos tradicionais, e em muitas zonas adiciona-se um pouco de cimento à "matope", visando dar um pouco de consistência às paredes, que podem ser passadas à desempenadeira e esponja, para serem, posteriormente, caiadas ou pintadas... mas a verdadeira evolução está patenteada nos modernos aldeamentos dotados com as condições de saneamento exigidas para preservação da saúde pública das populações.
A Vila do Negage cresceu numa transição da tosca "casa de barro" tradicional para uma construção com elevações em alvenaria de adobe de cimento ou tijolo cerâmico, betão armado, e tudo o mais que proporcione as condições necessárias para o bem estar dos utentes. É notória toda a transição de que falo, pois ao longo dos arruamentos vêem-se construções que nos contam toda a história do desenvolvimento arquitectónico que vem acontecendo na Vila.
A casa do velho Ginja, um "jovem" de 98 anos de idade, o mais antigo habitante branco de todo o Uíge e do Negage, onde vive desde os 30 anos, é o exemplo acabado da adaptação de uma velha construção nativa tradicional em mansão tipo colonial do fim do século passado. Bastou acrescentar uma zona de lazer formada por uma varanda composta por 6 colunas de madeira que sustentam a cobertura com telha tipo Marselha, devidamente colmada para protecção dos raios solares. A casa ergue-se a cerca de 1,20m do nível do solo, assente sobre uma plataforma a que se acede por uma tosca escada, presumívelmente com o intuíto de proteger a casa dos animais rastejantes ou dos ratos e doninhas.
Também edificadas no mesmo estilo neo-colonial da antecedente, encontram-se várias outras edificações espalhadas pela Vila, de entre as quais se podem salientar o edifício Administração, da Companhia Congo Agrícola, da Papelaria 13, do Fernando Santos, entre outras. Todo o bloco onde se situa a casa da Dona Bárbara é um tipo colonial típico na região destinado aos trabalhadores das fazendas, pois eram construções em blocos de barro, com coberturas de zinco, posteriormente alteradas para telha ou Lusalite.
Foi o Colégio do Negage, o Hotel Avenida ou o estabelecimento do Manuel Ribeiro Manso o primeiro sinal de mudança na construção, seguindo-se-lhe o Agre & Ferreira , a 3ª. Companhia, o Grande Hotel, a Igreja e mais algumas residências que foram sendo construídas nos novos arruamentos e começaram a mudar a fisionomia da Vila do Negage. O progresso começava a dar mostras de querer instalar-se naquela terra, que estava, cada dia que passava, cada vez mais bonita e airosa.
Não há qualquer espécie de dúvida: - O terrorismo veio a tornar-se num factor de progresso para o Negage, para não dizer de toda a Angola, pois a vida das cidades e vilas revitalizou-se com a presença dos Militares vindos da Metrópole, talvez até porque muitos deles, quando terminavam a Comissão, acabavam por optar por ficar Angola, casavam e fixavam-se em algum bocadinho de terra que pediam à Junta Provincial de Povoamento, que os ajudava na criação de estruturas agro-pecuárias ou noutros tipos de empresas. Angola era apetecível, pois tinha grandes potencialidades a todos os níveis, e os Militares viam nela uma oportunidade para darem sentido às suas vidas.

O NEGAGE ... A SENTINELA DO UÍGE!


- Nestas terras do Uíge há histórias de heroicidade que não podem ficar escondidas na poeira dos tempos. Para tanto, torna-se necessário agir no imediato para que aqueles que, algum dia, estiveram no mato a garantir a liberdade das populações, por forma a que estas vivam uma vida de dignidade, sejam ouvidos enquanto a memória é possível, pois é importante poder-se registar aquilo que foi a saga destas pessoas na luta contra o terrorismo. Reis Ventura, no seu livro "Sangue no capim", relata incíveis feitos de coragem, como o praticado pelo Sargento João Paula dos Santos, que não exitou em se atirar para cima de uma granada de mão, salvando, com a doação da própria vida, os homens que compunham a sua Secção de Combate. Também a heróica resistência do Povo de Mucaba, sob orientação do Caboverdiano Sena, Administrador da pequena Vila, é digna de ser dada a conhecer aos vindouros. Quando o PV-2, pilotado pelo Ten.Cor. Manuel Diogo Neto surge nos céus, uma nova esperança levou os resistentes a dar tudo de si mesmos para que a Bandeira Portuguesa continuasse a flutuar no tosco mastro erguido na pequena Capela de Mucaba. Mas não só estes, mas tantos outros feitos heróicos demonstram o patriotismo das nossas gentes, como o cozinheiro que se fez matar pelo patrão para não ter de cumprir a ordem do "turra" que lhe ordenara matá-lo... a interpidez dos Pilotos Correia Mendes e Rui de Freitas, que aterram o pequeno avião numa rua de Mucondo, com o trem avariado desde que saíram da BA9-Luanda, pois havia que evacuar dois feridos graves... o acto temerário do Administrador de Carmona que, apenas acompanhado por dois cipaios, subiu ao cume da serra do Uíge para oferecer a paz ao soba rebelde... a morte em completa glória do Alferes Páraquedista Manuel Jorge Mota da Costa e do seu pisteiro João Caras Lindas, que se viram cercados por muitas centenas de "Turras", ou talvez milhares, mas ficaram a cobrir a retirada aos mártires defensores do Bungo. Unindo costas com costas, aguentaram mais de três horas, até esgotarem todas as munições, continuando então num feroz corpo-a-corpo, até que a força desproporcionada do inimigo conseguiu esmagar a sua resistência. Deram-se para que os outros vivessem! Também o velho Soldado de côr João de Almeida, que, depois de resistir aos cruéis inimigos, foi apanhar, um a um, todos os bocadinhos da Bandeira Portuguesa, que havia sido rasgada pela barbárie terrorista, guardando-a com todo o carinho "para que a Pátria não se perca!". Era esta a raça dos Homens que defendiam o Norte de Angola.
É necessário que o Povo Português não esqueça aquilo que realmente aconteceu nas nossas antigas Províncias Ultramarinas - especialmente em Angola - naqueles anos de 1961 a 1974. Não tenhamos constrangimentos com o facto de haver-mos combatido no então NOSSO ULTRAMAR! Devemos ter orgulho daquilo que conseguimos ser em termos de esperança para tantos Homens e Mulheres que construíram uma nova realidade em África.
Vicente Ferreira e Norton de Matos preconizaram uma Angola que viesse a ser sede do Governo de Portugal, com a capital em Nova Lisboa! Não os ouviram... foi pena!
É voz corrente que, na 2ª. metade dos anos sessenta, eram muitas as altas figuras do Pentágono que iam à Fortaleza de S. Miguel para tentar compreender como podia um Exército convencional neutralizar a guerrilha terrorista de forma vitoriosa. Recorde-se que os Estados Unidos estavam a viver a sua tragédia do Vietenam... e estavam a perder em todos os capítulos, mesmo com os meios sofisticados de que dispunham.
A vitoriosa resistência Portuguesa em Angola, como nas outras Províncias, só foi vencida pela traição, porque houve gente que não se coibiu de recordar o canto de Camões, quando declara: "...porque traidores, entre os Portugueses, sempre os houvera!".
Nas minhas conversas com o velho Ginja, o pioneiro destas terras, ouço histórias capazes de nos encher o peito de orgulho, tal como há outras que merecem que curvemos reverentes a cabeça, em homenagem à tenacidade dos muitos que se deram de corpo e alma para que esta terra fosse hoje uma bandeira de progresso. Quantas lágrimas regaram as vastas plantações de café? Sujeitos às investidas de animais selvagens, às picadas dos mosquitos, às terríveis matacanhas, às surucucu... aos perigos de uma terra que sabe ser mãe, mas também é madrasta, muitas das vezes.
O Negage foi uma sentinela importante no Norte de Angola! Das suas gentes muito havia a esperar, pela capacidade constantemente demonstrada na consecução dos seus objectivos, a todos os níveis! Era um povo diferente, que se encontrou com o destino através da luta pela sobrevivência, como Povo e como Nação! Podem dizer que só foram vencidos pela falta de amor Pátrio de alguns indivíduos que nem merecem ser chamados Portugueses, porque estes têm Valor e Honra, jamais se deixando vencer pela ganância e pela cobardia!
Os ventos da História ainda hão-de soprar forte ! Aí de quem não tenha algo a que se agarre, pois serão atirados para longe do conceito dos Portugueses!